terça-feira, janeiro 29, 2008

Os estertores (3)

Percebi que tudo havia definitivamente acabado quando os passos ecoavam fortes e surdos pelas paredes agora vazias. Ali, agora, não haveria mais volta.

Toda felicidade estava repartida em caixas. Todo progresso carinhosamente embalado. O silêncio que sempre houve (afinal, morava sozinho) agora era quase ensurdecedor.

Descobri que uma das coisas mais tristes é deixar um lugar aonde se era feliz e confortável. Vão dizer: é melhor assim, é melhor para você, é evoluir. Eu sei, sempre soube. Mas dói.

Dói porque toda mudança envolve perdas e nunca se sabe o que se perderá no meio do caminho. Alguns sentimentos extraviam, algumas expectativas esbarram no excesso de bagagem, sempre alguma coisa importante fica perdida na tradução.

Chorei sim. Eu, tão sóbrio e frio. Tão racional, chorei. Quase uma hora, de soluçar, no dia do baile. Um pouco a cada dia subsequente, esperando esse momento final. E, querem saber? Foi redentor, em perceber que tudo isso doia, e se doia era porque significava, e se significava era porque havia valido a pena.

Amanhã tudo começa novamente e, com isso, a oportunidade de fazer tudo novamente. Talvez um pouco melhor, com mais maturidade e firmeza nos atos. Talvez, um pouco mais cético porque a ilusão se perde devagar no meio do caminho. Há de ser lindo, sem dúvidas - aprendi o jeito de ser feliz, agora não tem muito segredo. Só gostaria que pudesse conciliar tudo - que a vida fosse uma fotografia, que uma vez clicada não mudaria jamais.

Ainda sim, quando fechei a porta atrás de mim, segurei três passos e respirei fundo. Mentalizei. Que seja doce. Que seja doce. Que seja doce, sete vezes sete.

Para todos nós.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Os estertores (2)

Pensei tanto em você nesta última semana, sem necessariamente pensar em você. É difícil, mas tento explicar: pensei em você em como você seria se estivesse comigo hoje. Pensei em você como você era para mim num passado not-so-far-away. Pensei em você porque estava na melhor da semana da minha vida e, de repente, ficou um buraco. Assim, buraquinho pequeno e discreto, tipo de traça no lençol. Buraquinho que não atrapalhou que os dias fossem de uma felicidade sem pudor. Mas era tipo faltar parte do todo, para completar o quadro de perfeição. Faltou você, como era.

Porque acredito que mesmo a felicidade mais aguda e sincera fica constrangedora quando não se ter com quem dividir. E não entenda que não tive com quem dividir, muito pelo contrário: todo mundo que importava estava aqui comigo, aqui do lado, segurando na mão, rindo as alegrias, oferecendo ombro durante meu choro coalhado de soluços. Eram meus pais e irmão, todos os tios e avós, todos os primos e agregados, todos os amigos representados - cada um de braços abertos e brilhos nos olhos de reconhecimento pela grande vitória alcançada. Mas é diferente. Seria diferente contigo. Seria diferente porque foi você quem aturou meu mau humor depois de um dia cão, foi você quem me ninou depois de uma madrugada em claro, foi você quem acompanhou minha rotina alucinante por tão curto tempo, mas com intensidade na medida exata para entender como tudo aquilo era importante.

Faltou essa alegria para dividir. E fiquei, como Clarice fala, com um presente na mão sem ter como abrir. Era seu. Era um seu de ontem, quando era primavera, quando ainda pensava em cruzar a Europa ou fazia pequenos planos conjuntos.

E até pensei em escrever isso diretamente para você. Numa carta (porque você sabe, só atinjo essas profundidades quando escrevo) com caneta tinteiro, sulfite amarelo. A última coisa a se fazer antes de ir: deixaria na sua porta, bem Casablanca última cena. Só para dizer que, nesse tempo todo tão longe e sem notícias, tão esquivo e lacônico percebi: sinto sua falta. Não sua falta de hoje, é como essa felicidade que falei. Sinto falta do estar junto, de acordar insone de madrugada só para escutar o ressonar alheio. Não é algo que dê para reiniciar hoje, agora, borracha no passado - não é esse o ponto.

Queria te falar, que pelas suas mãos aprendi que é disso que eu preciso.

Que não será com você, não sei que cara vai ter, nem quando vai chegar. Mas é objetivo, meta, desejo ao soprar velas de aniversário.

One is the loneliest number. Isso é o fato.

E espero sinceramente que, um dia, você perceba isso.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Os estertores

"Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start"
(Coldplay)

Você até cantou o prenúncio do fim. Você até imaginou que iria doer, que iria sangrar. Porque para cada Carnaval existe uma quarta-feira. Porque a vida é composta de ciclos e cada ciclo tem seu tempo. Porque até você cantou a beleza dessa mobilidade, da partida. Você sabe que vai ser melhor, no final de contas você está evoluindo e crescendo. Você estará onde sempre quis, onde sempre imaginou, por méritos próprios sem ter sacrificado nada que fosse muito caro. Você sabe que será lindo, será outra estação. Que tudo o que foi será convertido numa linguagem diferente, permeado de saudade boa e melancolia terna. Você sabe que seu coração fragmentado permanecerá um pouquinho junto de cada pessoa que realmente marcou e que levará junto outro pedacinho. Que nestes dias de solidão monstra, que com certeza virão, é só ninar um pouco estas lembranças doces, se abraçar bem forte e nunca esquecer do tempo brilhante que passou e do tempo maravilhoso que se arma ali na frente. Você sabe que precisa ter fé, mas acima de tudo força porque nem tudo pode ficar nas mãos do acaso. Você sabe que foi (e está sendo) lindo.

Mas ninguém disse que seria tão difícil partir.

Definitivamente.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Before Sunset

"I mean, I always feel like a freak because I'm never able to move on like...this! You know. People just have an affaire, or even... entire relationships... They break up and they forget! They move on like they would have changed a brand of Cereals! I feel I was never able to forget anyone I've been with. Because each person have...you know, specific qualities. You can never replace anyone. What is lost is lost. Each relationship, when it ends, really damages me. I haven't fully recovered. That's why I'm very careful with getting involved, because... It hurts too much! Even getting laid! I actually don't do that... I will miss of the person the most mundane things. Like I'm obsessed with little things. Maybe I'm crazy, but... When I was a little girl, my mom told me that I was always late to school. One day she followed me to see why... I was looking at chestnuts falling from the trees, rolling on the sidewalk, or... ants, crossing the road... the way a leaf casts a shadow on a tree trunk... Little things. I think it's the same with people. I see in them little details, so specific to each other, that move me, and that I miss, and... will always miss. You can never replace anyone, because everyone is made of such beautiful specific details. Like I remember the way... your beard has a little bit of red in it. And how the sun was making it glow that... that morning, right before you left. I remember that, and... I missed it! I'm really crazy, right?"

(Céline - Before Sunset)

quinta-feira, janeiro 10, 2008

A última noite

"No fundo, por que tinha vindo? Agora sabia. Fizera essa viagem para se convencer de que a realidade é mais do que o sonho, muito mais do que o sonho"
(Milan Kundera)

Você não sabe, porque não contei - afinal, resolvi te poupar dessa minha sensibilidade exagerada, dessas minhas crises de pânico que acontecem pelas coisas não acontecerem conforme o filminho ridículo que sozinho resolvi na minha cabeça. Você dormia, ressonando naquela cama imensa enquanto me fundia em pensamentos fúteis.

E não que eles sejam fúteis de uma forma desabonadora, não é isso: eles são lindos de tão inocentes, são lindos pela esperança quase desesperadora dos quais são construídos. Mas são tão intensos, porque não aprendi a viver senão na ponta dos dedos, na superficialidade da epiderme. Não aprendi a viver nada além dessa vertigem, desse enjôo, da busca instantânea pelo "the end", da felicidade que todos merecemos.

Porque toda vez que existe a identificação, dá nisso: essa taquicardia, essa sede imensa, esse vazio monstruoso. Porque sempre achei essa coisa de amor tão rara e difícil, essa coisa das referências certas dentro dos planos certos, com trilha sonora e alguns momentos tensos. Porque sempre quando o encontro, imagino que nunca mais se repetirá.

Por isso que sempre peço que o amor seja lento e imperceptível, de amarras lentas e fogo brando. Daquele jeito que se enrola com vagar e zelo, para que, ao notarmos, estaríamos com os dois pés bem enterrados em solo firme e fértil. Mas não - o amor sempre se revela a mim como queda, piscar de possibilidades, bungee jump. Daí rola desespero, artificialidades, essas insônias complicadas pelo o que não aconteceu. Daí, sempre fico com a impressão que tudo deu errado, tudo culpa dessas mãos inábeis e pela voragem de ver demais: e quando se quer demais, acaba por não se conseguir nada mais.

E reconheço, juro, que toda a culpa seja minha. Das frases feitas, do tipo "então porque não fugimos para Patagônia?". Das idealizações. Das malditas referências, tipo cartas de Caio Fernando: "Fiz fantasias. No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena". Dos filmes que assisti, tipo Céline e seus beautiful details. Da poesia. Do entorpecimento do encontro, após a busca por tantos becos escuros, tanta gente entediante e chata, por todo o tédio das conversas desconexas.

A diferença, talvez sutil e pelas mãos de Kundera: é separar o sonho da realidade. É depois de me consumir febrilmente pela noite, dormir pela manhã - suportando todo o peso da minha fraqueza. Acordar um pouco renovado, ponta de melancolia na verdade - mas firme. The great cliche: que seja eterno enquanto dure, que o destino sopre doce, enquanto trilhamos caminhos sem saber se são certos ou errados. E que talvez seja só isso.

Talvez fique só assim.

E foi bom.

E que isso, per se, deveria me bastar...

domingo, janeiro 06, 2008

Tudo vai ser diferente...

... há de ser. Como as primeiras horas deste novo ano: ligeiramente taquicárdicos, mas sem perder o solo. Um tanto quanto insones, mas sem margem para aquelas fraquezas que desabam. De escolher o novo, o brand new: mesmo que seja nada além de ilusão doce. Da tentativa de compreender menos, elocubrar menos - e viver mais. De desapegos, reconhecendo o poder do tempo: do tempo de destrói, do tempo que anula, de nenhuma solução além da espera do acaso sem muita esperança.

Mudar de casa, de estado, de status. Ganhar responsabilidade e um certo ar de certeza nas palavras. De medi-las também, pois agora elas tem mais consequencias. É ano de pequenas reinvenções, releituras. Um ano branco, bem liberto, bem leveza: para distribuir os pesos conforme aparecerem.

Ano de reconstruir as bases, rasgar tratados, aprender novas línguas e dar trato ao corpo.

Um ano agridoce, de suor e sangue. Mas, com certeza, com seu bocado de beleza...

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Olá 2008

Salvo raras exceções, e entram aí as pessoas que se suicidam nessa época do ano, é tempo de urgência de tudo e fé. Botei cueca vermelha pra paixões incontroláveis, sementes de uva e romã afim de uma prosperidade básica, um branco para encontrar quem sabe alguma paz. Chequei o horóscopo pra sonhar com um ano em que coisas podem mudar e para fazer um planejamento anual completamente sonhador.Lá por volta da zero hora quando os fogos faziam o céu brilhar tive a certeza que o ano que começa agora há de ser melhor.

Bonito é a esperança que segue como que fé independente de credo, entrando na contagem também os ateus que na data também sentem aquela energia meio quente, meio amarelo-sol-radiante de começo de alguma coisa que ainda não sabemos o que é algo como um alivio de uma coisa que estava incomodando já, como uma pedrinha no sapato ou coisa assim.

É tempo de tudo e a potencialidade de novos trezentos sessenta e cinco para agir e fazer qualquer coisa faz toda a diferença pois muita coisa pra gente é função de curto-prazo quase acabando, sede insaciável e desesperadora como quase afogar no mar.

Recomeço e talvez uma forma de auto-redenção. Achar amores, fazer aquela dieta, aprender a perdoar, ajudar outros sem expectativas em retorno, e todas as coisas que cada um diz pra si mesmo sempre mas sempre acha uma desculpinha. Para todos um ano novo novinho em folha e cheio de expectativas positivas concretizáveis.