segunda-feira, dezembro 29, 2008

Rio

"... até a nossa tristeza era mais bela,
e além disso se via na janela
um cantinho de céu
e o Redentor..."


Há coisas que acontecem por arroubo e nunca, nunca devemos negá-las. E esta viagem para Rio veio por linhas tortas, convites indiretos, cara de pau lavada. Originada numa busca de algo que só saberei quando encarar, frente a frente, o mar. Mas vá lá: a ponte aérea está barata, dinheiro existe para ser gasto e as grandes verdades são aquelas que são reveladas quando menos esperamos.

Vou ao Rio guiado pela minha covardia crônica, mesmo sabendo que não irei alcançar a redenção que preciso. Mas vá lá: é Ano Novo e sempre um porre benfazejo em boa companhia tem também sua cota de salvação.

E conhecendo meu espírito, sei que é só chegar nos Santos Dumont pra me derramar num otimismo sincero, ensolarado e cristalino...

quarta-feira, dezembro 17, 2008

2008

Foi leve, mas tão difícil. Fluindo a mil por hora, mas também com os dias escorrendo devagar. Penso que há tanto tempo atrás foi que deixei a segurança de um universo confortável e milimetricamente construído pra cair no Mundo. Ser adulto tipo, pagar IPVA, estudar financiamentos. E nestes vácuos, lembrar das tantas coisas que faltam e, sem elas, não saber como suportar tantos dias assim, sozinho.


E lembro: foi um processo. E relendo o balanço dos anos anteriores, percebo que estava tudo ali, gestando. A independência. As movimentações. Uma certa segurança nos gestos e palavras. E em 2008 tudo pariu em alegrias e tristezas, algumas tão fagulhas, outras estrondosas. No final, um cansaço imenso de um ano suado. Mas, vá lá, sobrevivemos. E nestes dias incertos, sobreviver com qualidade já é uma meta minimamente aceitável.

Quero dizer que foi bom. Como um-primeiro-ano, como início, como ponto de partida. Por isso não me sinto confortável em lidar com 2008 como coisa na iminência de fechar: existem muito mais pontas soltas que fios atados. Mais inseguranças que certezas. Mais urgências e calmarias. Mesmo assim, quero reinterar, foi bom.

Na expectativa de um 2009 melhor, ah sim. Bem melhor.

domingo, dezembro 07, 2008

Além do Horizonte

Havia aquele ar de ambiente artificial, meio aquário: plantas, sofás amplos, uma bossa meio lounge. Para fechar um cenário cinematograficamente kitsch, só faltaram nativos de camisas estampadas, oferecendo colares de flores pros recém-chegados tão brancos. Todos tão solícitos, derramando sorrisos. Lá fora tropicalidades, sol escaldante, uns coqueiros, o barulho do mar.

Na beira da piscina, dias regados a vodka com frutas nativas, noites regadas à prosecco, dias e noites comendo frutos do mar. Cruzando o hall, a música cadenciava o cotidiano sem pressa, seja jovem guarda que Nara Leão tomou emprestada: “além do horizonte existe um lugar bonito e tranqüilo pra gente se amar”, sejam noturnos com Sinatra: “fly me to the moon, let me play among the stars”.

Uma semana assim, devagar. Areia branca, água tão azul, noites estreladas. Nadar com os peixes, assustar caranguejos, procurar raras lulas pelos corais. Quanto tempo sem viver tão despreocupadamente assim, dois anos? Desde Fortaleza, isso mesmo, dois anos. E foi preciso a Bahia e dias de intenso não-fazer pra compensar este ano inteiro de trabalho árduo e pequenas frustrações.

E ali pela terceira noite, naquela cama quase piscina funda de travesseiros e edredons, velar teu sono enquanto murmuro “dream a little dream of me”. Relembro que a vida também pode ser fácil e que, com um leve pesar: ainda é preciso muito esforço para colocar as coisas no ponto que deveriam estar. Mas deixa estar, deixa isso pra quando chegar em Cumbica: amanhã tem praia, amanhã tem Sol & camarões imensos...

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Memento mori

"Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte
— De repente nunca mais esperaremos.."
(Poema de Natal - Vinícius de Moraes)

É preciso muito axé e otimismo para atravessar novembro. Novembros, per se, são sempre horríveis: ano pesando nas costas, cansaço crônico, frustrações acumuladas pelo que ainda não foi feito - e dezembro, por definição, nunca é mês de se fazer alguma coisa. Mas este novembro bateu recordes. Foram cinco mortos, num universo de seis ou sete pacientes que cuidei no mês inteiro. Nenhum com muitas esperanças: metade com câncer metastático, naqueles casos em que você pensa duas vezes antes de desejar algo; outra metade com cirrose hepática terminal, cujo curso não é lá muito diferente.

Todos os dias foram de muito trabalho, muito cansaço: corre para cima pegando exames, corre para baixo adiantando laudos, uma espera lenta por uma melhora que custava a vir. Lembro que nestes dias de novembro, quando percebia o dia já havia feito a curva das quatro da tarde e aquele Sol morno e alaranjado já passava as janelas. Ao voltar pra casa, um sono pesado, quase sem sonhos - e pela manhã, o mesmo ciclo reiniciar...

Morreram um a um - engraçado, que longe das minhas mãos. Depois que troquei de estágio, ao passar dos dias, ficava sabendo que a condição de alguém havia deteriorado até que, alguns dias depois, viesse a morte. Ou, ao passar pelo Pronto Socorro, encontrava um deles, após uma semana de alta, voltando para ter o mesmo destino. Quando isso acontece uma vez ou duas, é até aceitável. Mas ali pelo quarto que morrera, as coisas começaram a pesar.

Confesso que minha frustração era nada altruísta: pelo meu fracasso. Por ser espectador do sofrimento alheio. Por ser jovem e ter que lidar com tudo isso. Por ter que, quase diariamente, aprender a aceitar minhas limitações. Por atravessar as portas daquele hospital e, vezenquando, acabar levando isso para dentro de casa, pelos jantares, pelos finais de semanas. Por já ter trocado dias ensolarados por outros tantos regados à suor & sangue.

"Memento mori", diziam meus professores, numa espécie de conselho sábio aos jovens médicos. Lembremos que não somos infalíveis. Somos frágeis, imperfeitos, tão falhos...

Quem me consola é Vinícius: "Não há muito o que dizer". Tive o consolo de um carinho terno nestes dias tão pesados. Sempre há a beleza nas pequenas coisas, a esperança. Aquele um que, contra todas as expectativas, se salvou. Sempre há a eterna capacidade humana de superação. Sempre há o mar...

E por isso, tão providencialmente, fui à Bahia...

quinta-feira, novembro 20, 2008

The real me

“When real people fall down in life, they get right back up and keep walking.”
(Sex and the City)

Sempre que a vida está à beira de um desastre (sejam eles reais ou inventados, não importam), mentalizo uma das minhas cenas prediletas de Sex and the City. Nela, Carrie está fantástica, todos não cansam de lhe dizer. Ela está pronta para entrar pela passarela, com aquele spot luminoso bem centrado nela. Ela se sente confiante, desejada, dona do poder. Daí a música pára, pruma pausa dramática. E ela entra, em passos duros.

Para, dois segundos depois, cair solitariamente ao chão.

Escutam-se os clicks. Escuta-se o burburinho do fracasso ao fundo. Escutam-se, velados, os risinhos de escárnio pela desgraça alheia. Ela ainda demora alguns segundos para perceber: está ao chão, completamente exposta.

Neste momento que se fazem as escolhas difíceis: pois pode-se culpar o salto que estava fora do lugar, a noite mal-dormida na dedicação de um projeto qualquer, o nervosismo, as inabilidades, as frustrações. Correr para trás sem dar explicação alguma.

Ou engolir seco, respirar fundo e seguir em frente. Pois ali, havia até uma beleza em se reerguer. Os passos duros tornam-se verdadeiramente confiantes, sem a necessidade da auto-aprovação. E ao final da passarela, no clímax, até sorrir da vitória íntima alcançada.

E nestes dias de quedas silenciosas, só nisto que penso: na beleza da recuperação. Há tanto tenho falado da nossa capacidade imensa de cicatrizar e alcançar os limites, se isso for desejado. Daí, quando perco o controle e me vejo refém de todos os meus defeitos crônicos, vem "Got to be Real" na cabeça e uma vontade imensa de se superar.

E que fodam-se as quedas, as falhas, as vergonhas e as frustrações. Só mentalizo aquele segundinho de glória no final da passarela, altaneiro, como se nada tivesse acontecido.

http://www.youtube.com/watch?v=yqYGoQsLPWg

quinta-feira, novembro 13, 2008

Na escuridão (Luiz Felipe Pondé)

SOU PROFESSOR , entro em sala todos os dias. Minha impressão básica é que o que falta muitas vezes na sala de aula é falarmos “a verdade”. Apesar de ser um cético em quase tudo, acredito que há uma milagrosa relação entre o ser humano e “a verdade” quando ele percebe que ela é dita sem medo.Uma grande traição feita aos mais jovens é atolá-los em “teorias a serviço da emancipação”. Eu não quero emancipar ninguém porque para isso teria que mentir. Mentimos para sobreviver, isso é normal e civilizado, mas na sala de aula é uma traição.

Calma, caro leitor! Sei que “cada um é cada um”. Uma afirmação forte como essa, “a verdade”, pode me custar muitos amigos. Nunca mais jantares inteligentes. Hoje em dia você aprende no jardim da infância que “tudo é relativo”, “a verdade” não existe, e todos os males do mundo são fruto do patriarcalismo e da Igreja Católica. Caricaturas ridículas da história são feitas a serviço da “liberdade”! Palavra já banal, quase idiota.

Existem também as palavras de ordem que devem ser ditas em meio às taças de vinho. Vejamos algumas delas: sou a favor do aborto, do casamento gay, da comercialização de fetos abortados (não! Essa ainda não é comum…) e não existe pecado. Qualquer coisa diferente, e de novo a ameaça: não te convido mais para jantar em casa. Não vou entrar no teor em si desses clichês e, falando sério, acho que há muito sofrimento verdadeiro nesses dramas humanos. Uma boa dose de auto-estima se faz necessária para não cairmos de joelhos diante desta “nova repressão”. Toda fórmula para chegar à auto-estima é falsa, por isso resta-nos o sorriso da sorte ou da morte.

Quando falo “a verdade”, me refiro a coisas mais simples do que debates filosóficos intermináveis sobre a natureza da verdade absoluta ou a existência de Deus. Refiro-me à luta cotidiana com nossa caótica condição humana e ainda termos que manter o bom humor e pagarmos as contas.
Refiro-me àquilo que gente como Ítalo Calvino chama de “dramas clássicos”. O problema é que para ensinar isso, antes de tudo precisamos conhecer “isso” (coisa que vai ficando rara em meio ao blábláblá do relativismo cultural e da democracia no ensino). E pior, não podemos ter medo. Um dos dramas humilhantes do “otimismo moderno” é que para ser otimista temos que ser idiotas e negarmos os impasses assustadores da vida.

Explico-me: acho que os mais jovens agüentam ouvir “a verdade” mais do que professores de meia-idade. Esses professores já perceberam que a vida não é a bobagem das utopias de Maio de 68, tipo “sexo livre e é proibido proibir”, mas se calam diante dessa dolorosa consciência. Às vezes por uma mera questão de salário. O pior é quando a resistência a isso se manifesta em meio à silenciosa melancolia da idade avançada. Na velhice não há festa e há muito silêncio.Por exemplo, o ciúme do Otelo de Shakespeare. Todo homem é inseguro diante da mulher amada. É um tipo de maldição. Quando não é inseguro, é porque não ama. Se ela for muito bonita, muito simpática e “circular muito por ai”, essa insegurança piora. Com isso não quero dizer que o homem deva “reprimir” a mulher para se sentir melhor, mesmo porque não adianta. Quero dizer que “papo cabeça” e “fórmulas de compromissos” não resolvem.

Em nossa época, a cama do casal virou uma frente de trabalho. É desgastante o fato de que devemos trabalhar “a relação” o tempo inteiro: nossos preconceitos, nossas inseguranças, nossos fracassos. O mercado de trabalho nos esgota, e o amor é uma trincheira. O imperativo da saúde total (psicológica, política e social) é uma praga que nos cobre como uma poeira invisível. Essa poeira nos sufoca, entrando pela boca. Explico-me: ou somos doentes ou somos ridículos, nunca saudáveis.

Outro exemplo, a infidelidade da Madame Bovary de Flaubert. Quem nunca viu a trágica figura da infeliz envelhecida que nos aborda com a segunda taça de vinho branco nas mãos? Ela que sonhava com uma vida cheia de paixões e acordou entre o tédio do cotidiano e a força cega do desejo destrutivo. Qualquer menina de 18 anos ouve isso e reconhece na infeliz Emma Bovary um risco possível: posso eu mesma virar uma Bovary, basta acreditar que a vida pode ser cheia de paixões!

A fronteira entre a paixão e o inferno é invisível. Os seres humanos reais caminham nessa tênue linha de sombra. Otelo, Bovary, você e eu, juntos, na escuridão.

(Folha de São Paulo, 1/9/8)

terça-feira, novembro 11, 2008

Wandering days

"You know
My wandering days are over"
(Belle and Sebastian, num dos clássicos eternos)

Tá certo que ser reprovado numa prova não é o fim do mundo. Mas existe aquela vaga impressão de que eu poderia ter me dedicado mais. No excesso de confiança de que tudo vai dar certo no final e etc, acabei sendo ligeiramente negligente.

Tá certo que a rotina é desgastante acima da média e resolver os problemas alheios nas 8 horas diárias por 6 dias na semana (sem contar as noites, os domingos e outras prostituições para se ganhar dinheiro "fácil") exige uma resiliência absurda e áreas verdes para manter a sanidade mental num nível aceitável. Mas o ano finda com a impressão de que eu poderia dedicado mais. Que talvez devesse ter me dedicado menos a vida pessoal, ido menos ao cinema, saído menos nas quintas à noite.

Daí ligo para casa e me cobram posicionamentos, planificações. Financiamentos para comprar apartamento, planos pra daqui 5 anos, um começar-a-construir-algo-logo-pois. E até ensaio umas contas, abrir mão aqui e ali pra daqui 3 anos de sacrifício quem sabe.

Talvez meus dias de Pollyanna surtada estejam terminando. Acreditar que tudo iria dar certo no final pelo simples fato de que elas deveriam dar certo no final não tem surtido efeito. Não que algo grave esteja acontecendo, mas fica a impressão que é preciso um pouco mais de força para guinar a vida para onde ela deveria estar. A sensação nem é de imobilidade, como se fosse mero expectador do mundo: mas é que aquele momento, o turning point, está chegando. Está acontecendo. E ainda é preciso muita preparação para o momento.

Pena que ganhar na Mega-Sena não é uma alternativa válida.

quarta-feira, novembro 05, 2008

10 canções: #5 - Com açúcar, com afeto - Nara Leão

Era um daqueles inesperados sábados ensolarados em Sampa. E entre as compras do almoço e tomar o rumo de casa, porque não visitar uma velha amiga minha que você não conhece? Sim, claro, falei. E fomos.

Era um daqueles apartamentos térreos da Haddock Lobo, várias décadas de história. Ao contrário destas modernidades pré-moldadas e cubiculares, era um apartamento amplo: janelas largas, portas de correr, uma sala que quem sabe poderia até rolar uma festa confortável. Assim, do porte do meu sonho de consumo: confortável, meio kitsch, meio retrô, enterrado onde considero meu quinhão mais querido da Paulistânia.

Ao entrar, percebi a casa em completo desalinho. Dois vasos imensos com plantas mortas, várias folhas secas na sacada, três cinzeiros cheios até a boca, toda sorte de livros, roupas, pratos, copos, revistas, jornais, propagandas pelos cantos, pela mesa, pelo chão. Ela chegou à porta, umas olheiras imensas. Numa voz tão doce, sem maldade, murmurou: há três dias ele não vem pra casa. Sorriu, automática. E se a melancolia não fosse tão bela, ela até pareceria ridícula no papel de senhora de um lar abandonado. Mas, inesperadamente, achei que aquele ar insone lhe dava um briho diferente, até bonito. Sorri também.

Ela procurou algum rumo numa cozinha inabitável e saiu de lá com três xícaras de café forte na mão. Acendeu um cigarro, com um jeito de fumar demorado. Dizíamos coisas com uma empolgação sincera: almoço já já, sono dos justos, talvez cinema mais tarde - e ela concordava silenciosa, baixando a cabeça com displicência. Tentava ler os pensamentos: quantos sentimentos ela cozinharia ali, em fogo brando, esperando o retorno de alguém que sabe lá quando iria voltar?


Resignei-me, obviamente. Há pouco aprendi a guardar para mim meus julgamentos tendenciosos. Fitei o lustre enferrujado, disse umas três coisas bem humoradas, relatei minha inveja pelo apartamento amplo e aconchegante. Dei-lhe dois beijos estalados e um olhar logo, quisera eu que não fosse apiedado. E quando fechei a porta atrás de mim, fiquei com um vago gosto amargo na boca de perceber que os sonhos, ao poucos, podem desandar sem que nada possa ser feito. Ruindo, em doses dolorosamente homeopáticas.

Outras canções:

#4 - Kite - U2
#3 - Cotidiano número 2 - Vinícius de Moraes
#2 - Quando você passa - Sandy e Júnior
#1 - Na sua estante - Pitty

segunda-feira, novembro 03, 2008

Trecho

"No espelho do outro, percebo tantos defeitos - e tenho medo de faltar, de não ser bom o suficiente. De escancarar o coração e parar no meio da sarjeta, de novo. Mas existem uns olhos tão doces, uns sorrisos estratégicos, umas construções verbais: dá vontade de fazer planos e ficar sem tempo pra sair nesta esfera magnética tão confortável. E vou levando"

quinta-feira, outubro 23, 2008

Clarice

"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil"
(Perdoando Deus - Clarice Lispector)

Mastigando, mastigando, mastigando...

Bad news, bad days

"Coisas ruins acontecem. E acho que a moral de hoje, lá na primeira fila daquele laboratório quente, com um cheiro levemente desagradavel de formol, a moral de hoje foi que somos frágeis. Mas infinitamente capazes de suportar. É o que quero acreditar agora. Que as pessoas seguem em frente. Que perdoam. Que esquecem. Quero acreditar que é possivel ser forte e ter pequenos momentos de felicidade no meio da dor"
(Maria Anita Silva Leite - dezembro/03)

Mas há a vida, que sempre dá um jeito de passar uma rasteira e dar aquele chute bem dado no baço. Desde coisas do banco até coisas do hospital.

Os últimos dias têm sido inesperadamente difíceis, querida. Dividi a enfermaria de Gastroenterologia com meu amigo-futuro-oncologista de uma forma justa: fiquei com todos os cirróticos, ele ficou com todos os oncológicos. Pensei que seria fácil, academicamente interessante, essas coisas de residente empolgado. Mas algo aconteceu.

Tenho dado só más notícias, algumas em porcentagem: sua chance de morrer em 1 ano é de 80%. E, sem querer, me pego dando uma ênfase sádica no oi-ten-ta para ver se trago as pessoas para realidade. Cirrose mata tanto e ninguém sabe. Os parentes me perguntam se a barriga irá murchar, as pernas desincharem, às vezes se até daria pruma extravagância sabe doutor? Digo que não, não vai voltar, ninguém irá melhorar, dali pra frente era só ladeira abaixo. Morrendo com 30 litros na barriga, tendo que cagar 3 vezes ao dia pra manter o mínimo de sanidade mental. Pra dizer que todo tratamento é paliativo se não houver transplante e transplante é uma ilusão tão distante neste nosso país tão pobre...

E canso. E quando chego em casa, sinto um fardo imenso que não consigo dividir direito. Meio que maldição de Cassandra, de saber o futuro sem nada poder fazer. Revejo aquele distante 2003, nos primeiros bancos da Patologia, encarando a morte com olhos assustadiços. Sabendo que, a cada segundo, uma célula do seu corpo pode se rebelar contra todo o organismo ou um vírus pode subverter toda a ordem estabelecidas. Somos tão frágeis e a vida é tão randômica. E se a dor antes era contemplativa, agora elas tem nome, te oferecem pães de queijo, tem filhos e até uns planos pro futuro.

E por mais que saiba que, de uma forma ou de outra esse é o caminho inexorável das coisas: dos cirróticos, os dialíticos, da jovem garota baleada pelo namorado - nossa finitude não me consola. E às vezes, minha amiga, não dá pra segurar.

segunda-feira, outubro 20, 2008

10 canções: #4 - Kite - U2

[para Maligna, pelos velhos tempos]

"Something is about to give
I can feel it coming
I think I know what it means"

Eu sempre quis ser aquela Kite perdida, baby. Sempre quis ser aquele pontinho colorido, solitário no meio do céu. Sempre quis essa leveza ofegante da pipa que navega sem destino, quase sem peso, a deslizar em pálio aberto. Tão somente presa por um fio, na fragilidade perigosa das coisas livres.

E a liberdade que sempre quis era uma coisa difícil de mensurar. Não é aquela de ir e vir, do direito de tomar um porre em qualquer terça-feira e ninguém se importar, de se dar alguns luxos sem ter quem cobrar. É a facilidade de se movimentar sem ter o coração sobressaltado pela espera de alguém que nunca virá. É de se permitir qualquer coisa, sem medo da censura alheia. De não ter essas muletas sintomáticas, de só postergar aquelas dúvidas que aparecem na madrugada. Ter o passado zerado, sem amarras para outros reinícios.

E é mais ou menos isso que a Paulistânia tem me oferecido. Dentro do caos, de toda solidão, pude aprender a selecionar aquilo que me era essencial. Das histórias antigas, a certeza de um ponto final para prosseguir de peito aberto. E, apesar da vertigem da queda, uma certa segurança nos passos, nos gestos. Como há tanto queria: poder abrir os braços longamente, sentir o vento soprar e subir, subir - quase sem peso. Tão leve que mal consigo ver o chão...

E mesmo que saiba que toda leveza é insustentável, não irei preocupar antes da hora. Existem novas amarras, os novos pesos. Mas, na liberdade do vento que sopra: hei de viver um dia de cada vez...

"Who's to say where the wind will take you?
Who's to say what it is will break you?
I don't know which way the wind will blow..."
(Kite - U2)

Outras canções:
#3 - Cotidiano número 2 - Vinícius de Moraes
#2 - Quando você passa - Sandy e Júnior
#1 - Na sua estante - Pitty

domingo, outubro 12, 2008

Vai Passar

Chico canta: “Vai Passar” e eu acredito. Daí vem Nara e canta umas coisinhas doces, sem peso: e vou deixando me levar. Acredito numa espécie de fé: se permanecer caminhando pela luz tudo irá se resolver. Mesmo sabendo que às vezes este caminho não seja de todo indolor – mas lentamente tudo parece se encaixar.

E por causa disso penso que deve haver algo errado: viver não deveria ser fácil. Tentam me convencer que vivo numa irrealidade otimista e que logo logo virá a vida cobrar o seu preço: desde a cobrança do dinheiro que displicentemente sonego, todas as horas de estudo que estrategicamente negligencio enquanto vou ao cinema, ou percebendo que a consciência dos outros talvez seja muito mais estreita do que se prega.

Dizem que me iludo e me questiono: será? O mundo é tão grande que não acredito que não exista um quinhão para eu ser feliz. Não exijo muito, acho. Decido se vou ao Nordeste mês que vem e me movimento, na medida do possível, enquanto o resto se constrói. E se tudo der errado, sempre existe o fôlego pra recomeçar, não? Ao fundo, Chico ainda repete, tão lindo: Vai passar... E acredito.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Antes um mês...

Eu viajo e lá de longe, dirigindo, penso em você. E quando penso que, ao chegar na rodoviária pra comprar a passagem, iria ligar para te dizer a hora que volto e o quanto está estranho não te ter na ponta dos dedos, você me liga. Falo um rápido "estou dirigindo" e você ri do lado de lá da linha, mando um beijo procê e imagino que você sorri, meio assim, sobrando no canto da boca.

E assim vamos: eu te ligo bêbado às duas da manhã pra dizer qualquer coisa, você não entende direito e eu repito uma história confusa. Penso que estou ficando bêbado com tão pouca bebida ultimamente. A intenção da ligação não lembro, mas a conversa termina com um boa noite e penso antes de cair num sono cansado e ébrio: que é estranho não te ter por perto.

O dia segue e você me liga de novo pra pedir: não seja preso. Respondo que vou tentar, falamos umas gracinhas, rimos. É, queria ter te ligado na hora que eu sabia que estava acordando mas não aguentei. Sorrio mentalmente e mentalmente ainda me imagino brincando com o lóbulo da sua orelha, enquanto estou deitado em seu colo.

E de longe você corrige meu subjuntivo falho, meu espírito procrastinador. Pelo menos a rinite, fora de Sampa, passa bem. Te ligo da rodoviária, pra dizer que estou saindo e no meio da conversa a bateria acaba. Fico ali, celular escorrendo nas mãos, com um bocado de palavras na garganta. Logo chego, logo ligo: estou no Tietê, vem logo. E você demora.

Te ligo, te ligo, só caixa postal. E de repente veio um medo, meio infundado confesso, mas nessa cidade tão grande e confusa, vai saber o que acontece por essas ruas desertas e violentas. E deixo o sono de lado e te espero paciente, observando o sussuro lento do vento soprando a garoa lá fora, hora a hora da madrugada. Você chega, pé ante pé, pra não me acordar.

Sorrio, você sorri. Te abraço longo, forte. Tão estranho estes dias sem você, o que acabo concordando silenciosamente. Você me fez tanta falta, acabo soltando, sem pensar. Damo-nos as mãos, apesar do degrau no colchão. Você me abraça, eu te abraço.

E fica tudo bem.

sábado, outubro 04, 2008

A carta mais linda do mundo

Uberlândia, 11 de julho de 2003

Quando você disse: estou com vergonha e eu perguntei: de mim? foi porque me pareceu tão estranho que você pudesse ter vergonha de mim.

Ontem eu não queria dormir. Até que eu tinha sono, mas precisava pensar. Abri o maior dos sorrisos na frente do espelho (...) por causa da nossa conversa de cedo. As coisas que de repente fizeram sentido. Depois chorei, me senti caindo e tão pequena, como pular do bungee-jump mesmo. Porque eu soube, por um instante infindável, o tipo de dor que te fez chegar até mim. Até aquela situação "Os Normais" de depois da janta. Então ri de novo e me senti bem.

Me senti como se aquele momento único houvesse valido esse ano passado horrível inteiro. É até difícil de explicar, mas a idéia de certa forma se ajustou e, depois de um tempo, não se ajustou mais.

Eu não sabia o que você esperava de mim. Se você esperava algo. Se você queria alguém para conversar, para dividir, ou para saber a verdade simplesmente.

E vi que nada tinha mudado. Continuamos perdidos como estávamos. Tudo continua complicado ou só chato mesmo. Ainda não sabemos o que estamos fazendo aqui... E vi também que mudou tudo. Nada é como antes.

Agora eu sei algo de você que te fez diferente do como eu te via antes. Agora sei um pouco mais do verdadeiro Gabriel. E fiquei simplesmente feliz. (...)

Fazia tempo que ninguém me surpreendia, ninguém aparecia para mudar essa nossa visão de mundo estática.

Me senti como possuidora de coragem também. Eu, que sou tão medrosa. Fiquei tão orgulhosa de você que quis me cutucar um nas costelas e dizer: olha, é meu amigo.

Quis gritar para todo mundo e guardar só pra mim. Achei fantástico e diferente e simples. Achei que nos aproximamos um passo, cortando um vazio de palavras não ditas.

Tive que escrever porque pareço mais lógicoa quando escrevo. Faço mais sentido. Mas nem assim consegui me expressar direito.

Hoje quando acordei consegui levantar da cama sem nenhum esforço. Todas as pessoas estavam dotadas do poder de ser únicars, do qual às vezes me esqueço.

E quando olhei pra você, ainda era o mesmo, mas meus olhos pareciam ver mais cores. Nada parece estranho mas tudo parece fora do lugar.

Sei que não fiz sentido, nem eu estou me entendendo. Acho que o que eu queria dizer é que ainda estamos como naquela foto que você me deu do Chaplin, parados e esperando, ligeiramente tristes e sem o que fazer, mas é como se estivéssemos sentados um pouco mais próximos e se eu esticar minha mão, agora eu sei, você consegue alcançar. Me trouxe o conforto da confiança.

(Maria Anita Silva Leite)

***

E sempre que releio essa carta, penso: o quanto mudamos, quanto continuamos os mesmos. E essa mobilidade, às vezes quase na velocidade dos continentes, às vezes tão célere quanto as rotações do mundo.

Um pouco melhores, sem deixarmos de sermos os mesmos.

E sorrio.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Felicidade

"Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade" *
(Clarice Lispector)



Há tempos não escrevo, mas é porque estou por aí: vivendo. E, acreditem, viver toma tempo. E neste intervalo me permiti, vejam só, me desligar um pouco disso tudo. E ir vivendo, ir levando, ir seguindo num gerúndio leve de ações não interrompidas, pouco pensadas e automáticas.

Pois descobri hoje, enquanto organizava a casa em pequenos momentos, percebi a felicidade. E, pela primeira vez, ela vem num envelope fácil, sem muitos babados e descaminhos. Ela também chega neste gerúndio morno, quase sem esforço, quase por instinto.

E ela mora em tantos cantos sem que eu conscientemente perceba. Desde o ônibus azul que me carrega sem demora no ir e vir diário, na rotina do Hospital que corre sem esforço, de tanta gente que está longe sem deixar de estar sempre perto, de tanta gente perto virando próxima, das contas que se fecham pelo meu próprio esforço sem que nada tenha que se sacrificar, do alívio de estar satisfeito com que se tem e se bastar com isso.

E também de encontrar seus chinelos debaixo da cama, de chegar perto da porta e escutar o barulhinho de panela de pressão antes do primeiro giro da chave, de encontrar num olhar mais atento seus olhos tão postos em mim.


E ainda que eu tenha medo do futuro, que as coisas em casa continuem beirando o catastrófico, que a paz mundial seja um ideal longínquo e que pra vida arrebentar num carnaval falte um bocado bom: minha felicidade anda assim, linda e leve. Sem muitos subterfúgios ou atalhos. Como quem aprendesse, depois de tanto tempo de caminhos tortos, um jeito até certo de se caminhar...

domingo, setembro 14, 2008

Sem título

...pra te encontrar uma semana depois, com a alma em sobressalto e as borboletas, tão risonhas, turbilhonando o estômago. E naquela noite tão abafada, fingir que há sete dias não pensava em você, há 168 horas não fazia planos tolos, há 10080 minutos não me consumia em ansiedades por não ter um endereço para onde enviar as cartas de apresentação mais bem-intencionadas.

E perceber: depois de quase um ano de hedonismos mornos e tentativas tépidas, tão bom sentir aquela paz silenciosa da vigília do sono alheio...

domingo, setembro 07, 2008

Controle

Naquela época tínhamos um jeito sincero de cantar "Creep", entre banhos de água escaldante bem baixinho no banheiro pra ninguém escutar. E sempre parávamos naquela parte, meio prece íntima de se repetir sete vezes ao acordar: "I wanna have control, I wanna a perfect body, I wanna a perfect soul". Naquela época, a vida parecia irremediavelmente difícil, tipo escorrendo célere por entre os dedos sem muito remorso.

Pois aí fomos perdendo o jeito. Deixamos a barba crescer, rompemos com velhos preceitos. Atravessamos o Equador e o Trópico de Capricórnio em toda sorte de aventuras inúteis. Aprendemos a beber, sem perder o jeito ligeiro de quem sempre está prestes a cair. E de tropeço em tropeço, de soluço em soluço, de cada dedo doendo de tanto esmurrar essas portas que sem pudores nunca se abriram: vieram os automatismos. Piloto automático. Perdemos a poesia pra focarmos em objetivos yuppies, metas-a-cumprir, objetivos no final do mês.

E aprendemos ser de outro jeito, sem perceber. E só perceber depois, no reflexo dos olhos alheios, como ganhamos porte. Uma certa leveza. Umas rugas estratégicas e até um jeitinho meio cafajeste, meio sexy de se dançar desengonçadamente, de se perder sem ser loser: numa estratégia perigosa de sempre superar as coisas com uma cerveja, boa música e outro mar de possibilidades que se abrem pela frente.

Até que, quando vi, estava com celular nas mãos escolhendo dias e horários. E, como há muito tempo não havia, sem que ele não escorresse por entre os dedos, na espera inútil daqueles telefonemas que nunca ocorrem. E, quando vi, estava com a vida toda milimetricamente encaixada, velocidade de cruzeiro - e mesmo que não estivesse arrebentando numa felicidade tipo Carnaval, era tépida e convidativamente confortável.

Fui seguindo a vida entre pequenas confusões e expectativas. Meio hesitante, dentro de tantas possibilidades que se abrem. E ali, tão altivo controlando a vida, fui me enrolando à medida que não conseguia tomar decisões e deixar para trás as coisas no devido tempo. Imaginava que, como estava tudo sob controle, tudo iria se acertar sem muito esforço.

Até que. Até que numa destas noites frias, aconteceu o que há tanto não via: um soco no estômago, aquela sensação dos pés afundando num buraco fundo, meio areia movediça. De querer correr, de te colocar debaixo dos braços e partir à nado pra qualquer ilha no Pacífico Sul. De te abraçar bem forte, pra nunca mais deixar você sair da esfera magnética do meu olhar mais doce. Mas, de tão enrolado que estava dentro de minhas maquinações prévias percebi que, mesmo sendo o senhor único e magnânimo da minha vida: havia deixado escapar novamente aquilo que poderia ser o início, o início do happy ending.

E daí sorri meio besta, pois percebi que, ao contrário daqueles Creep days, pelo menos havia a Vida, o Destino infame e todas minhas inabilidades inocentes para responsabizar meus fracassos. Agora não. Ser confiante também tem seu gume da faca: fiz as apostas erradas e acabei perdendo. Embora este gosto amargo do fracasso ainda passeie pela minha boca, pelo menos de tudo fica a certeza dos passos firmes e a confiança de que, uma hora, daquelas quando menos se percebem: vai acontecer. Vou acertar. E tudo vai estourar na mais iluminada quinta feira...

segunda-feira, agosto 25, 2008

#2 - My blueberry nights

"Foi quando segui para mais outra noite daquelas. Aparei a barba com o esmero habitual, para depois me fitar longamente ao espelho murmurando baixinho "estou tão lindo, tão lindo". Calcei o velho All Star encardido de tanto uso, o perfume ligeiramente cítrico, baguncei o cabelo para ficar intencionalmente despretencioso. E fui. E quando cheguei lá, nada havia de diferente. As mesmas pessoas, as mesmas luzes, as mesmas esperanças tolas. Mas, ali pela terceira cerveja e várias voltas pelo recinto, bateu um cansaço. Não físico, não mental... Só um cansaço. Porque, quando vi, estava vendo diversas pessoas fantásticas e fascinantes com as quais já havia me relacionado por uma noite ou três dias ou uma semana, o tempo não importa, mas depois de um sexo usualmente razoável, dois cafés e um jantar - haviam sumido. Ou também, como não sou santo, também sumir. Às vezes com uma justificativa razoável, outras com um clichê: sempre alguma menção sobre já ter sido dangerizado por alguma relação que passou, ter gastado tanto tempo que posteriormente se revelou inútil numa pessoa, ou mesmo o hedonismo puro e simples de todo dia. E ali, naquele momento, conclui que grande parte deles eram pessoas que valiam uma viagem compartilhada, um desencontro estratégico. Uma conversa longa sobre pontos de vista e experiências a trocar. Talvez, se tivessem os conhecido na fila do pão ou num trem da Europa. Talvez, se estivesse um bocado mais atento. E ali, naquele inútil exercício do talvez, embora tão lindo e seguro e altivo e suficientemente desejável: pareceu que a graça se estourou como uma bolha de sabão, clack! e ficassem os restos. E daí pensei na repetições de noites que eu teoricamente estaria condenado - porque de repente conclui que nada sabia além daquelas paredes escuras, das fumaças tóxicas dos tantos cigarros fumados, nunca havia procurado nada fora daquele cercado iluminado. Lá no fundo, eu também sou refém destas esperanças tolas. Toda noite, eu me preparava para que fosse a última. Com todo esmero, com todo encanto. E quando tocasse a música do clímax, no fundo de toda aquela escuridão: qualquer coisa me iluminasse e alguém me dissesse: vamos? E eu fosse..."

sexta-feira, agosto 15, 2008

Na cabeceira

"E quando falo em aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas as desigualdades, malvadezas, absurdos e misérias do mundo. Refiro-me, sim, à aceitação da luta necessária, do sofrimento que essa luta nos trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há de levar"
(Olhai os Lírios do Campo - Érico Veríssimo)

quarta-feira, agosto 13, 2008

Last call

Não, não liguei porque pensei que não havia nada para falar - acho que nunca tive o jeito de dizer 'eu te amo' sem senti-lo de verdade. Não liguei também porque estou me dando ao direito de permanecer numa covardia ligeiramente agressiva, por mais que esta seja apenas outra forma diferente de se focar em auto-proteção.

O que abriu outra brecha para o retorno de um Iraque emocional: e escutar, de brinde, toda sorte de palavras duras e ásperas. De confrontar com o fato de que meus pais também são dolorosamente imperfeitos e carregados de mágoas. E que, nem o tempo e todo caminhão de boas intenções do mundo, talvez sirvam para remediar a situação.

Desliguei o telefone, para ligar "Wise Up" no último volume. E chorei. Umas poucas lágrimas sofridas, em conta-gotas. Nada mais patético do que um choro envergonhado, quase madrugada de terça-feira. Olho pela janela e contemplo uma Sampa sem estrelas, com céu só iluminado pelo reflexo das luzes incandescentes na poluição que impera.

Devaneio sonos pesados, 15 comprimidos de Diazepan/dia depois de um copo de whiskey cowboy, ir tocando a vida sob a égide do menor esforço. E depois, quem sabe Londres ou Paris, quem sabe Praga ou Bancoc, ou um atol encravado no meio do Pacífico entre navios submersos e areia clara - qualquer coisa que envolva um oceano de distância e ausência desta ciranda de emoções cíclicas de paz & guerra. E bye, bye, so long, see you later, vou ver a vida sobre as ondas.

Mas não posso. Sei que não posso. Na mesma madrugada escutei o sábio conselho de que os próximos dias serão de intensa preparação. Uma coisa meio zen de finalmente reconhecer os limites e se fortalecer para a jornada que virá: longa, dolorosa e aparentemente inevitável. Re-juntar os cacos, para se encaixar num mosaico que fica cada vez mais lindo. Porque sei que nestes processos de descontrução e reconstrução, o que fica é cada vez mais sólido e certeiro. De consolo, também recebo uns afagos telegráficos e nesse processo de sentir-se-ainda-amado, ir sobrevivendo.

E, por mais incrível que pareça: carregado de esperança.

quinta-feira, agosto 07, 2008

#1 - My Blueberry Nights

"There's nothing wrong with the blueberry pie. Just... People make other choices. You can't blame the blueberry pie, just... No one wants it"
(Jeremy - My Blueberry Nights)

Toda semana eu repetiria a mesma cena. Enquanto subiria a Augusta, religiosamente às quintas-feiras, meus passos sempre me levariam a sua loja. Nada muito chique ou grandioso - penso numa vidraça, daquelas foscas que até permitem ver o que se passa por dentro e um neon vagabundo na porta. Seria atraído pela primeira vez magnetizado, como uma mosca, pelo brilho vago refletindo em meu All Star vagamente branco àquela hora da noite. Estaria, toda noite, visivelmente embriagado: desta minha necessidade auto-destrutiva em afogar o super-ego para tornar a existência um pouco mais palatável por algumas horas. E lá ficaria, nestes sombrios tempos de Lei Seca, até a hora do Metrô passar.

Veja que, de início, você só me olharia com olhar de desagravo. Sutil, porém lamentando a sorte de alguém aparentemente bem nascido, vagamente interessante, que joga sua sorte toda semana entre luzes estroboscópicas e música alta. Mas sempre sua loja estaria deserta e você seria o meu refém, enquanto beberia a saideira e vagaria de torta em torta, até descobrir a doçura da blueberry.

Mas só chegaríamos a blueberry depois de algum tempo. Acho que só largaríamos a relação, digamos, profissional, num dia que as caixas de som tocassem qualquer bossa-nova-dor-de-cotovelo-que-falasse-de-solidão e você ameaçasse trocar a estação. Eu pediria: "Deixa, deixa". Surpreso, você me fitaria com olhos além: da minha leviandade, da minha superficialidade e da minha insistência em parecer mais alguém comum.

Conversaríamos coisas triviais toda semana, num mesmo ritual: enquanto subia a Augusta fumando o último cigarro, você me esperaria naquela hora perigosa. E já sabendo, mesmo inconsciente, já selecionaria toda dor que a bossa nova pode proporcionar. Na minha chegada, pediria um conhaque e você já traria a blueberry de brinde: "Vai, come, senão estraga. E não demore, pois o Metrô já vai passar". E, ali pela terceira visita, já saberia que de todas, minha predileta era Nara Leão.

Contaria primeiro relatos pormenorizados das noites suadas e quentes. Um a um, pequenas conquistas: naquela semana, um advogado recém-formado de pele bem alva. Na outra, um designer de barba mal-feita, que há três meses havia largado tudo para trás numa viagem à Patagônia. Depois, um ator de musicais, que entre bebericações e cantadas me arrancaria risos num dueto improvável de Moulin Rouge. E, conforme nosso nível de intimidade fosse crescendo, detalharia minhas pequenas devassidões, como troféus.

Noite após noite você me escutaria paciente, num ligeiro olhar de desagravo que eu demoraria a perceber. Mas você não me censuraria hora alguma: só levaria a conversa em tom grave, às vezes divertido, às vezes jocoso, às vezes falsamente moralista evocando qualquer resquício de minhas culpinhas católicas. Até, certa vez, me pediria: "Não troca seu conhaque por cerveja? É que cerveja até posso te acompanhar, assim, copo ou outro". E trocaria, para bebermos juntos só a última cerveja - num sambinha agora mais alegre - só enquanto o Metrô não vem.

Até que uma noite dessas, acho que entre o desocupado-meio-traficante, o publicitário que queria ser cineasta ou o gringo numa fase "On The Road", não lembro: entraria na loja, pediria conhaque, pediria Nara Leão. E antes de você me chamar de biscate em tom afetado: uma forma carinhosa de me dizer boa noite, eu já dispararia à queima-roupa: "Mas não quero saber, hoje vou fumar aqui dentro". Você só sorriria, numa compreensão muda. Pegaria dois copos e encheria o meu até a boca - e o seu, pouco mais da metade. Logo de saída, tocaria Mágoa, do Tom, mas na doçura cândida e cortante de Nara:

"Você me olhou
Sorriu com tanta ternura
Que eu descobri
Em você uma nova razão
Comovido fiquei
E beijei sua mão
Quis falar de amor
Você disse que não"

Tragaria fundo, oferecendo-lhe o cigarro em seguida. Em resposta: "Já perdi há tempos esse jeito de fumar. Mas vá, fume". Faria o mesmo ritual da blueberry, numa fatia anormalmente generosa. E, pela primeira vez, te observaria com olhos quase marejados: naquele estado quase virando a curva dos trinta anos, um jeito pretensiosamente despreocupado - barba por fazer, cabelo sem pentear. Uma atenção zelosa em manter aquele balcão sempre imaculado, como se acabasse de abrir. Duas paisagens, uma reprodução de Keith Haring e uma foto antiga de Nova York em tempo mais iluminados na parede. Tudo isso iluminado parcamente pelo neon verde do letreiro e algumas luminárias que desciam, pendendo do teto...

(continua)

terça-feira, agosto 05, 2008

10 canções: #3 - Cotidiano número 2 - Vinícius e Toquinho

"Há dias que não sei o que se passa", canta Vinícius preguiçoso embalando o sexto mês de Paulistânia. E os dias se seguem sem muitas dores, sem muitos amores, sem muitas elocubrações. E é até bom.

Mas que isso não seja sinônimo de mediocridade ou mornidão. Tenho até vivido bem, poucas e boas. Algum dias de luxúria, outros de solidão. Não há semana que não passe sem um pouquinho de vida palpitando por estes caminhos tortos. A diferença é que as coisas passam, sem necessariamente serem marcantes. Tenho vivido, quase sem exceção, banalidades.

"Quem sabe nosso dia vai chegar", cantarolo junto fechando os olhos: porque tenho esperanças. Mas é uma esperança, confesso, um tanto confusa e sem pressa. Tenho aprendido a caminhar em silêncio e com vagar - respeitar o tempo das coisas, que insistem em não arrebentar em felicidade quando a gente mais precisa. Enquanto isso, vou desenhando figuras, talvez academia na semana que vem se a moleza passar, vendo filmes, ganhando dinheiro. Faço planos pouco imediatos e, o que espero deste ano longo e potencialmente complicado é que acabe de uma forma rápida e indolor.

"Aos sábados em casa tomo um porre / E sonho soluções fenomenais" , procurando novos sabores. Desde a vizinha Norteña, dos planos do Atacama. Desde permanecer na insistência mesmo sem fé alguma, com o nariz doendo das portas batidas na cara. Desde deixar as raízes fortificarem nesse solo tão concreto e deixar o passado passar sem novos sobressaltos. Desde ligar o foda-se pra viver de uma forma mais verdadeira.

E me deliciar com cada fracasso ou cada guinada que me leva a um novo caminho. Também aproveitar a beleza do desconhecido quando se perde ou até a imobilidade das longas horas travado nos engarrafamentos. Nestes dias de vias expressas imóveis ou trajetos de sinalização confusa, perceber que os caminhos são tão importantes que os destinos.

"Mas não tem nada, não / Tenho o meu violão", porque neste tempo todo percebi: nada preciso além de mim. Sem Pollyanices aqui: tão bem estou, tão bem vou. Tão bem me habituei a este cotidiano de caos, suor e sangue. Porque os dias seguem numa sucessão que só não é irritantemente comum pois não há nada mais lindo que um cotidiano que corre liso: entre altos e baixos, sem sobressaltos.

quinta-feira, julho 31, 2008

10 canções: #2 - Quando você passa - Sandy e Júnior

Foi só quando você disse: "Tchau, Rob", que senti aquele baque de montanha-russa - o estômago pesando ali pelas pontas dos dedos do pé. Até então, não havíamos navegado em águas perigosas. E não porque houvessem mágoas ou qualquer outro tipo de desgraça constrangedora: só porque naquele momento você estava namorando - e feliz, ao que constava; eu, de minha parte, tecnicamente namorando também - e também feliz, ao que constava.

Mas o fato é que na ponta da minha língua derretiam palavras do tipo: "Ah, te quero tanto, por favor, só por hoje, só por mais um dia". Pois sua lembrança nunca de todo me abandonou: percebia sua presença sempre constante quando naqueles momentos de vazio mental cantarolava sem perceber turu-turu-turu enquanto lavava as roupas ou atravessava uma Sampa pouco convidativa nos circulares da vida. Tão improvável que o marcante daqueles nossos dias de sol e sangue tão ensolarados tenham sido um DVD do Sandy e Júnior repetido à exaustão enquanto você preparava macarrão com brócolis para mim, acompanhados de boa cerveja e tantas identificações.

Só que 2008 havia me dado uma certa tranquilidade e temperança. Pois respirei fundo e continuamos trocando pontos comuns: eu te dizia que a vida não merecia ser levada tão à sério, que era importante vivê-la com vagar e parcimônia. Sem essas coisas de imediatismos yuppies ou sacrifícios desnecessários. Você me dizia para também ter paciência, confiar no bom-senso e aceitar que, certas coisas, só se conquistam com a compreensão alheia - e isso leva tempo. Trocávamos pequenas confidências como se não houvesse tido um gap de seis meses e mil quilômetros entre nós. Brilhávamos ali, entre farelos de pão e uma madrugada de segunda-feira que principiava.

Até o retorno, na porta de casa. E até então, na superficialidade de nossas dificuldades cotidianas - só tangenciando quando você confessou que tinha sido difícil me ver nos braços de outra pessoa, enquanto mentalmente calculava que tinha sido tão difícil me jogar nos braços de outra pessoa mesmo te vendo. Do abraço forte, você então disse: "Tchau, Rob".

"Rob Thomas?"

E você não disse nada. Você se abriu num sorriso imenso, derramando pelo canto dos lábios. E eu sorri também, pela memória resgatada: no nosso léxico de códigos, era sua maneira sutil de ainda me dizer "te acho lindo". E era só isso o que precisava escutar.

Turu-turu-turu, batia meu coração. Te beijei lentamente na testa, enquando acariciava seu cabelo que, lembro bem, parecia ruivo à luz do dia. Era nosso Casablanca, última cena. Você voltaria para abaixo do Trópico de Capricórnio, por mais ano-e-meio de suor e sofrimento. Eu permaneceria por aqui, também numa rotina semelhante de suor e sofrimento. E na promessa não dita do reencontro breve, dos caminhos que se reencontrarão. E para não pervertê-la, naquele carro e naquela madrugada que já ia alta, nada além poderia acontecer.

Por isso apertei sua mão tão forte e desci do carro, com coração pesado destas despedidas que sou tão acostumado a vivenciar. E, até hoje, nestes momentos solitários e vazios me pego cantando: turu-turu-turu só esperando, só esperando: que esteja tudo bem.

quarta-feira, julho 23, 2008

Burn out

Se me perguntarem o que aconteceu nestes últimos dias de julho: não sei. Conseguiria apenas listar uns 2 ou 3 eventos, céleres e pontuais, mas nada que seja assim tão assim. A verdade é que tenho trabalhado tanto (e toda vez que inicio essa construção verbal me vem Caio na cabeça terminando: e tenho pensado tanto em você - o que não é verdade). O trabalhar tanto são noites fora de casa, são noites na iminência da tragédia anunciada - com coração aos pulos que sempre há algo por acontecer. E, de tanto, tenho perdido algumas coisas essenciais.

São coisas tão pequenas que para defini-las é preciso algum esforço: aquela preguiça quando se chega em casa e encontrar a geladeira só habitada por cervejas estupidamente geladas; aqueles 15 minutos no MSN que subitamente se transformam em perigosas 2 horas de improdutividades; é um porre sem culpa (ou qualquer tipo de aventura noturna que se encaixe) de se acordar outro dia de ressaca e cara amassada sem se preocupar com a ditadura do despertador.

Tenho sentido falta de viver um pouco, actually. Das horas pra ir ao cinema, de jantar com aquele velho amigo que há tanto não vejo. De permanecer mais de dois dias à noite em casa, para: vejam, não se ter mais o que fazer.

Daí, resgato Radiohead (especialmente High and Dry, balada de outros dias tão imóveis) e Belle and Sebastian (com a sugestiva Get me away from here, I'm dying no repeat), repito uma prece íntima...

... e espero. Só espero passar.

*****

E por falar em Belle: remexendo num sempre promissor, If you're feeling sinister encontrar:

"Yeah you're worth the trouble and you're worth the pain
And you're worth the worry, I would do the same
If we all went back to another time
I will love you over
I will love you"
(Like Dylan in the Movies - Belle and Sebastian)

E essa vontade de ter pra quem mandar: pra não encontrar ninguém, ninguém...

quarta-feira, julho 02, 2008

Mid-Term

Agora que viramos a folhinha entrando neste gélido mês de julho, celebrando outro ano que chega à metade; agora que cada dia é apenas mais um dia a menos até o Natal - é hora de passar a régua, tentar apertar o passo, estabelecer novas metas.

Depois de seis meses nesta vida adulta, paro para fazer o ajuste fino dos atos e intenções. Porque, muito embora todos estes dias foram de uma felicidade leve, ora taquicárdica, ora melancólica, talvez seja hora de firmar bem os pés no chão e mirar para frente.

Faço contas para perceber que o dinheiro só dá para chegar ao final do mês. Faço planos para lamentar a falta de tempo livre, dos longos finais de semanas preguiçosos essenciais para pequenas viagens e porres. Revejo memórias antigas para sofrer novamente dessas impossibilidades, essas distâncias, essas coincidências que o destino insiste em nos colocar. Rabisco cartas vagas de desculpas, meço palavras em telefonemas e até decido viver com mais vagar e parcimônia.

Mando trazer de longe velhos livros, velhos contos. Talvez começar a escrever aquele livro que sempre me persegue, porque não? E sempre lembrar, nunca esquecer: independente por onde ou pra onde, não importando quando nem se: andar distraído, pois assim tão distraído vejo as coisas acontecerem, tão sem pressa vendo tudo se acertar sem que eu necessariamente precise fazer algo.

E que esse pequeno momento de peso se converta em leveza até esse ano iluminado terminar...

terça-feira, junho 24, 2008

Shortcuts aleatórios 2

Seis. Sou um ócio, uma distração - li nas suas entrelinhas, mas se fazer de sonso não exige muito preparo intelectual. Por isso, embarquei sem dó até o profundo da garganta caótica do caos paulistano só para te buscar no Paraíso (o bairro, não a instituição). Lá se foi uma hora a menos de vida entre buzinas e semáforos e pedestres e muito stress. Mas lá cheguei, te levei para casa, conversamos em silêncios longos e palavras medidas. Para perceber que depois de mais de três meses de vagas promessas e protocolos de boas intenções: tanto eu quanto você estávamos ali só para entender um passado comum, juntar as peças perdidas do quebra-cabeça. Necrópsia de sentimentos enterrados, tão somente - que não deram margem a nada além destes beijos mornos, mal-encaixados.

Sete. Sempre que desligo o telefone, ainda o seguro por alguns segundos. Você é doce, irresistivelmente doce. Percebo no seu olhar, nos seus gestos. Na preocupação distraída em deixar a casa em ordem, de me inserir de forma sutil em sua vida. E por mais que eu sorria meio besta enquanto sorrio ao escutar teu sotaque paulistano clássico: revejo Camille Claudel e essas ausências que não consigo explicar.

Oito. Ainda meio trôpego dos drinks que insistia em me dar (seria whisky com guaraná, tão Elis Regina? Não sei...), ainda meio zonzo de te reencontrar nestas conversas longas, tão cheias de curvas e, ao mesmo tempo, tão convergentes... Não, não havia calculado aquilo e agora estava com medo pois sabia que um passo além seriam abrir as comportas ou talvez mergulhar fundo num mar meio tropical cheio de peixes sem saber quão fundo é e de tanto pensar nestas coisas tolas enquanto Você passava do meu lado bati a cabeça na porta e daí você me abraçou longo longo longo até me pedir com mão escorregando na nuca: desculpa e eu não lembro acho que só acenei com a cabeça pra depois te apertar bem forte forte forte...

Oito e meio. "Se existe algum tipo de mágica nesse mundo, deve estar na tentativa de entender alguém compartilhando alguma coisa. É quase impossível conseguir, mas quem se importa? A resposta está na tentativa"
(Antes do Amanhecer)

terça-feira, junho 17, 2008

10 canções: #1 - Na Sua Estante - Pitty

Pois foi quando fuçando no baú dos mp3s antigos, reencontrei The Cure. E de todas as músicas tão perigosas, aquele verso tão cruel que me perseguiu por tanto tempo: "Three long years... and your favorite man...Is that anyway to say hello?*".

E na contabilidade dos calendário e não é que fiz a conta: três anos. Na verdade, três anos e mais um pouco, pois a data exata já havia passado faz algum tempo. Percebi pela associação inconsciente que fiz da sua presença e estes dias frios que principiam, doendo dedos e de respiração difícil.

Essa música, como tantas outras, eram tuas. Pequenas torturas, pequenos lembretes, pequenas pontuações sobre impossibilidades e covardias. E por abrir o armário de recordações, também vieram tantas outras lembranças dos caminhos em que percorremos paralelamente e das ilusões que um dia tive, para simplesmente desaguár no nada, no lugar nenhum. Lembrei dos longos blues de Ana**, nos quais coloquei seu nome e sofri tal qual o autor, procurando em tanta gente aquilo que gostaria de ter encontrado nos teus braços.

E tudo isso para perceber que hoje, depois de tanto tempo, tanto calo e tantas passagens: aquilo tudo que julgava sua herança agora é unicamente meu. Que posso vaguear por terrenos perigosos, as filas do pão***, por Paulinho Moska e Lulu Santos, por Holden Caulfield e García Márquez sem aquela gastura, aquele nó no peito.

Também aprendi a me valorizar, mesmo que seja meio clichê, auto-ajuda - mas é verdade. Também aprendi neste meio tempo que tenho meu brilho e não preciso ficar barganhando migalhas de amor: mereço mesmo é o bolo inteiro, confeitado, velas por cima, pique-pique-pique-hora-hora-hora-rá-tim-bum. E que lá no fundo (e por mais que doa a idéia de ter sido sempre preterido), se você nunca voltou, não foi por falta de deixar as minhas portas abertas e o caminho bem iluminado.

E quando escutava Pitty repetidamente, percebi que esta música, de certa forma, que agora é sua. Não de agora - mas talvez daquele momento-quando, no segundo após o início do processo em perceber que, por mais que você fosse imensamente especial na época: já foi.

"E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu"

* Cut Here - The Cure
** Sem Ana Blues - Caio Fernando Abreu
*** Último Romance - Los Hermanos

quinta-feira, junho 12, 2008

Os falsos sentimentos

Acordo todos os dias, fito o espelho e repito sete vezes num fôlego só: que seja doce. E abro as janelas pra ver o Sol entrar, cantarolo qualquer música feliz, cumprimento os vizinhos no elevador e até fico procurando essas pequenas coincidências em cada passo que dou até o dia realmente começar.

Banco a Pollyanna surtada diariamente para não entregar meu coração a uma espiral de ódio e rancor.

Porque, quando vejo, já estou destilando respostas duras e petulantes. Como minha mãe bem disse, dentro da minha irritante onipotência que me é natural. Quando vejo, estou rifando todo amor que sinto por coisas tão vagas quanto liberdade, auto-suficiência, orgulho.

Não que eu seja puro-e-casto - passo longe de Madre Teresa de Calcutá e sempre achei que o caminho da santidade é tão incerto quanto os caminhos da perdição. Também me reservo ao direito da vingança indolor, das maldades controladas. Só não quero que o que é uma resposta saudável a tanto desamor tome proporções incontroláveis. E que tanta gente que me é cara seja consumida nesta fogueira de vaidades.

Portanto, repito sempre: que seja doce. Abro as cortinas num sobressalto e fito a janela: pra achar até os dias meio foggy tóxicos de Sampa irresistivelmente belos.

quinta-feira, junho 05, 2008

Freedom

Não basta pagar as próprias contas, a própria cerveja, as próprias tralhas. Não basta ter um (ou dois, dependendo) empregos e acordar diariamente com tesão no que se faz. Não basta ter o carro, o DVD, o laptop e todas as quinquilharias fúteis que deixam os dias mais alegres. Não basta ter as quintas-feiras sempre reservadas pra aquele programinha, com aquela musiquinha, na esperança semanal que alguma coisa aconteça. Não bastam os planos vagos, tipo Londres em 3 anos, tipo Argentina já já. Não basta ter a vida rolando, brand new e sem muitas dificuldades, numa mornidão quase taquicárdica.

A minha liberdade tem outra cara. Aconteceu há uma semana, de súbito, antes das 7 da manhã. Meio trágica, meio irresponsável - meio perdas e danos, meio bomba de seis meses atrás. Mas assim que os dias se seguiram, nada pesou. Nada ficou. Só essa sensação de: ainda bem. Agora vai.

Estou livre.

segunda-feira, maio 26, 2008

Shortcuts aleatórios

Um. Descia a Peixoto Gomide em passos ébrios, lentos. Cruzava vagaroso os caminhos até movimentados ao virar da esquina naquela noite particulamente gelada. Nem sei o que procurava - acho que só um pouco de distração barata, um entorpecimento dos sentidos, nada além. Mas te encontrei ali, depois de dois passos, e me desmanchei num sorriso inesperado. Quando tempo sem se ver, duas semanas? E foi aí que nos abraçamos, daqueles abraços um pouco ébrios, lentos, longos. Quanto tempo ali? Nem sei. Só sei que com vagar percebi os ciclos de sua respiração quente na minha clavícula. Foi aí que te apertei forte, com você repetindo o movimento em seguida. Até minhas mãos escorregarem até sua nuca e eu brincar inadivertidamente com seus cachos e você escorregar a sua na minha nuca descoberta do cabelo cortado um pouco demais. E chegamos mais perto, mais perto, até que fechei os olhos sem saber o que estava fazendo. Você me disse: está tão perfumado. E parecia cena de Caio Fernando: aquele abraço longo, recheado de reticências - sem que nada ali, realmente, fosse acontecer.

Dois. Eu disse que esse afeto tremendo é ponto de partida. Você disse que só este afeto não basta. Eu cantarolo Cazuza como prece: "quero a sorte de um amor tranquilo". Você diz que pra ser amor, só se for os vertiginosos. Eu quero pontuar os silêncios. Você acha que silêncios falam por si só. Eu digo que sempre tive medo de ultrapassar aquele ponto. Você diz que amores são puramente instintivos. Eu quero estabilidade, você confessa sua adolescência tardia. E neste brincar de "A Seta e o Alvo", vejo tanta coisa fofa se esfarelar, asfixiar: sem que nada pudesse necessariamente ser feito além daquele protocolo inútil das boas intenções.

Três. Você me diz que as pessoas estão tão desinteressantes, os dias tão banais. E eu compreendo. Você me pergunta, aliás, comunica: vou ao Rio de Janeiro - e eu concordo: vai, vai mesmo. Mesmo que seja essas paixões lancinantes e pungentes, pra deixar coração sangrando meses depois da partida. Mesmo que seja daquelas coisas que dangerizam a alma, subvertem o estômago e nos deixam tão nus quando elas passam. É presente de nós para nós: uma possibilidade de vida, endorfinas ilimitadas e uma historinha cor-de-rosa, mesmo que seja sob o signo da melancolia mais doce.

Quatro. Você me liga enquanto estou no Tietê: quero te ver. Sorrio meio besta, meio sem graça: eu também. Vou até Paraíso, contando as estações. Deixo minha mala, tomo meu banho de gato, atravesso uma Paulista caótica à pé até a Augusta e sentir, sabe aquilo? Borboletas. Aperto sua mão bem forte, atravessamos os Jardins conversando banalidades. Queria isso agora, queria isso sempre - murmuro baixinho, sem que você perceba.

Cinco. É de manhã bem cedo, acordo dois minutos antes do despertador. Vejo você dormir: pernas com pernas, cabeça posta no meu ombro. Te acordo num sussuro: são cinco e meia. Você acorda, cara tão amassada da(s) noite(s) mal-dormida(s). Tem Congonhas às sete da manhã, dead-line sem muito o que fazer. Enquanto vejo você aprontar, lembro de nossa conversa na Oscar Freire: não gosto destas histórias, de achar alguém que gosto pra saber que mora longe, longe. E você responder: mas nunca se sabe o dia de amanhã. E se fosse um filme, neste momento tocaria Chico Buarque: "Não se afobe, não, que nada é pra já... O amor não tem pressa". E no momento em que te coloquei naquele táxi, pra bem longe bem longe de mim, tive a certeza: um caquinho do meu coração agora também repousa às margens da Baía de Guanabara, bem debaixo dos braços do Cristo Redentor...

segunda-feira, maio 12, 2008

Tolices

Isto aqui será hoje apenas sobre coisas tolas, desimportantes aos olhos desses aí que vivem caçando objetivos, metas precisas. Porque já aprendi que tenho esse jeito meio tolo, meio irracional. Já aprendi, de cor e salteado, que este meu coração é afeito a este tipo de tolices, leviandades.

Não que você seja leviano - pelo contrário, não me entenda mal. Mas vem cá: não é algo tão sem propósito este "estar gostando" sem mesmo conhecer direito o rosto, o peso dos dedos durante uma conversa esquiva, o franzir de sobrancelhas durante qualquer dúvida deliciosa? Este gostar que se ergue apenas em alguns pré-julgamentos, algumas referências cruzadas, algumas vivências em comum, em poucos sambas que, sem saber, cantamos juntos no mesmo momento.

Já me disseram e eu concordei: isso é ilusão, pura ilusão. Tão sei, porque te desenho à imagem e semelhança de tudo aquilo que já desejei e nunca aconteceu. Tão sei, porque sem querer já marquei encontros contigo à meia luz em cantinas italianas, dancei "Moon River" na bagunça do meu apartamento, já te levei dentro dos meus porres num buteco barato qualquer da Augusta, já sofri pela espera dos minutos que te prenderiam além do tempo nos congestionamentos desta cidade cinzenta, já vi filmes contigo de mãos tão dadas com medo de te perder por algum dia.

Mas é esse tipo de ilusão que me salva desta rotina esmagadora que não redime nem mata, dessa melancolia da espera por viver algo que seja realmente marcante, dessas pessoas tão vazias que nada acrescentam ao final de uma noite. Uma ilusão que é meio esperança de que talvez Seja (notou a maiúscula?), por todas essas linhas tortas que o destino às vezes teima em escrever. E mesmo se for só ilusão doce e no final você me deixar no meio da rua sem nada além, tão sedento de tanto amor não dado - ainda sim terá sido lindo pela promessa do que poderia ter sido e não foi.

E lá no fundo, por mais que tudo o que tenha dito seja baseado apenas nas minhas vagas e doces ilusões, tenho uma (ai!) intuição de que você vale a pena. Você é diferente, coisa rara neste mar de banalidades e cotidianiedades que estamos chafurdados. Quando penso em você, já levanto um inquérito longo sobre portos que já passaste, dos livros que já leste, dos pontos cegos que talvez eu pudesse iluminar. De tudo o que já tenha te arrebatadoramente encantado. E, sei lá, fazer planos miúdos como o jantar da semana que vem, um braço de lírios brancos na mesa quando você acordar e eu não estivesse, um bate-e-volta pro Guarujá, ou até mesmo um mês numa praia da Croácia que tanto tenho vontade de conhecer.

São basicamente estas, minhas sinceras tolices (ou seriam sinceridades tolas, fico na dúvida!). São ilusórias, ilógicas e irracionais. Mas tenho aprendido que a vida não é dessa precisão matemática, sem cálculos nem formas. E estas tolices, embora com uma possibilidade grande de nunca virem a acontecer, acabam por me acalentar nestas noites frias. Afinal, já me disse uma grandíssima amiga: o amor é uma grande malha de insistência, paciência e espera. E, de confiança tão cega que tenho nela, até acredito. Porque, tenho que confessar: ainda não aprendi a ser de outro jeito.

E insisto. E sou paciente.

E espero...

terça-feira, maio 06, 2008

Álgido

Aprendi uma palavra com Menalton Braff, num dos melhores contos que já li em minha vida: álgido - que quer dizer muito frio. E lembro disso enquanto contemplo uma Sampa gélida, do alto do décimo andar. Contemplo Sampa imersa por essa atmosfera álgida e dias paradoxalmente tão ensolarados. E parece que, em dias assim, o Sol aprende um jeito diferente de bater nos prédios ao entardecer, tingindo-os e também as nuvens, de um alaranjado mortiço e belo. Sempre distraído, nestes dias, me pego perdendo 10 minutos do meu tempo enquanto observo os momentos derradeiros do final dos dias.



Isto, porque, estes dias gelados e iluminados têm sido bem metafóricos pra mim.



***



E nestes dias tão gelados, quem povoa estas minhas horas vazias é Nara Leão. E não que a música necessariamente se aplique, mas não há como passar ileso quando escuto: "Eu trago o peito tão marcado de lembranças do passado e você sabe a razão". Tenho me cansado destas promessas de amor que se esgelham, para desembocar num nada que nem dói, nem aquece.

Porque sei onde tudo isso vai desembocar: "Todos acham que eu falo demais"...

quinta-feira, maio 01, 2008

Deixa estar

E assim você chegou, antes mesmo de ter propriamente chegado. E assim foi ocupando, sem oficialmente ter ocupado. E me fazia bem novamente essa sensação de bem-querer, este magnetismo. Era bom ter algo para mastigar enquanto o ônibus não vinha, enquanto a caneta ficava estendida na ponta dos dedos inutilmente, esperando o raciocínio terminar.

Até pensei em mandar: "Tenho trabalhado tanto..." e era verdade: "...pensado tanto em você". Naquela ternura das possibilidades que se abrem, sabe? Escapava os olhos para minha escala toda cheia de datas ocupadas procurando brechas, sem encontrar soluções. Me frustrava, mas sempre pensava: talvez dê certo, sei lá - já vi tanta coisa tão certeira nesta vida desandar. E fui indo. Fui levando, daquele jeito: despreocupado, crente no acaso. Vai que.

E nestes dias frios e nublados de Sampa, agora essa solidão até dói um pouco - do telefone que nunca toca, de todo o desejo que se construiu sem para ter onde ir. De ter erguido outra ilusão, esperando cinematografias - para nada acontecer.

Outra para o relicário. Deixa estar.

terça-feira, abril 22, 2008

Into the wild


"And I also know how important it is in life not necessarily to be strong but to feel strong. To measure yourself at least once. To find yourself at least once in the most ancient of human conditions. Facing the blind death stone alone, with nothing to help you but your hands and your own head. "
Lembro de uma época, não muito distante, em que nosso sonho era fugir para algum lugar. Tinha aquela idéia louca de Polinésias Francesas, para contemplar aquele mar azul tão ofuscante cada dia em que acordarmos. Tinha a Europa de mochila, tanto clichê é verdade, mas de reviver com um tanto de romantismo e surpresa essas agruras de vida clásse média pequeno-burguesa. Tinha aquela coisa meio "Diários de Motocicleta", meio devaneio latino-americano de resgatar identidade e conhecer alguma coisa semelhante a nós, mas diferente de uma forma importante.
O fato é que sempre queríamos fugir. Não sei se porque vivíamos empacados numa realidade que custava nos dar prazer ou na esperança em que a Vida, dessa que líamos nos livros, deveria ser algo muito mais do que aquela repetição protocolar dos dias.
Queríamos ser a Kite vermelha perdida no céu, baby. Independentes, capazes, auto-suficientes. Queríamos aplacar esse abismo que parecia se abrir em cada terça-feira nublada de Sessão da Tarde, em cada parágrafo dos terríveis livros de Patologia, em cada presságio de todo fardo que qualquer dia chegaria em nossas mãos inábeis. Queríamos atravessar todos os dias, até mesmo os mais difíceis, com aquela facilidade que as pessoas descomplicadas e confiantes tem.
No fundo, queríamos fugir como prova de força. Estarmos tão-sós conosco, tão próximos de nossos próprios demônios particulares. Em qualquer lugar de língua estranha, para que a única coisa a martelar nossas cabeças fossem os próprios pensamentos.
E ao ver Alex Supertramp refazer nosso desejo, percebi quanto mudamos. Não de uma forma muito objetiva, não que essa nossa essência errática tenha se perdido - mas de perceber todo o processo de crescimento conforme seus passos lhe guiavam cada vez mais longe e, no final, ele concluir o que provavelmente concluiríamos depois de toda sorte de infortúnios e aventuras: "Happiness only real when shared".
E, ao perceber como tudo termina, chorar...

quinta-feira, abril 17, 2008

Abril

Acordo nestes dias frios e cinzentos de Sampa com uma leve felicidade taquicárdica de sentir o ar gelado doendo as narinas, trincando os dedos. Faço diariamente o mesmo caminho, duas quadras até o ponto de ônibus, numa atenção distraída pelas pequenas coisas, as pequenas coincidências, as milhares de referências que venho acumulando nestes 23 anos de vida.

A verdade é que essa é a única alegria que tenho tido nestas últimas semanas. Tenho trabalhado tanto, tanto - quase 15 horas por dia sem janelas, iluminado pelas luzes dos monitores da UTI e a luz mortiça das lâmpadas fluorescentes do Hospital. Nunca senti minhas mãos tão inábeis ao lidar com tanta coisa grave, maiores que mim. Tento me fazer de forte e simular uma segurança além do que já tenho ao dar as más notícias, os prognósticos, as condenações. Notícias boas, otimismo, têm sido tão raros. Mas o fato é que tenho gostado até mais do que eu esperaria desta rotina opressora, quase workaholic: a ponto de sempre levantar no outro dia sempre com um sorriso vago e fôlego renovado para outro dia difícil.

Estou tão imerso nesta rotina que, quando tarde da noite apóio a cabeça na vidraça do ônibus de volta, não penso em nada além de vagos tecnicismos médicos, as obrigações do dia seguinte. Agora lembro de Caio F., em Carta Anônima: "Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você" e gostaria que isto estivesse acontecendo. Não acontece. Não sinto saudades, não sinto faltas, não faço planos, não telefono ou destilo esperanças. Para quem sempre foi movido de paixões em paixões, acho que nunca tive um mês tão árido quanto este abril que principia em terminar.

Depois de perceber como a vida é frágil e toda essa nossa impotência frente aos desequilíbrios do corpo, acho que nunca mais serei o mesmo.

domingo, abril 06, 2008

A ternura

Se você ficasse, seria tão bom. Se você ficasse, assim eternamente ao meu lado, para dar tempo que todas as coincidências, daquelas que fatalmente unem duas pessoas, terminassem de acontecer. Até que aquela intimidade silenciosa se construísse, a compreensão pautada nos olhares, nas vírgulas, nos acordos extra-oficiais que estabeleceríamos sem percebermos.

Se você ficasse, mostraria a beleza da violência escarlate do Tarantino, as cores fortes de Almodovar. Como Alex, do Adeus Lenin, é o meu alter ego. Como sou um jardineiro fiel. Ensinaria a diferenciar quando sou Céline, quando sou Jesse. Mostraria toda beleza de Monica Belutti, as múltiplas faces de Jack Nicholson, os meneios de Ewan Mc Gregor. Como grito, sem querer, nos filmes de terror. Como que, para gostar de mim, é preciso gostar de filmes e pipoca, não importando muito o que se vê.

Se você ficasse, te apresentaria toda melancolia da bossa nova: Nara Leão, Vinícius, Tom. Faria você se apaixonar por aquela ilha: Belle and Sebastian, Coldplay, Radiohead. Cantaríamos os mesmos versos mineiros de Pato Fu e, garimpando, qualquer coisa do Legião que não tenha vencido o prazo de validade.

Se você ficasse, haveria tanta coisa para ler. Passar sem Caio Fernando não seria negociável: seja para falar na alegria do amor que começa, nas agrugas da solidão compartilhada (ou mesmo as solitárias), do amor que fenesce, da vida por ela mesma. Passar pelos enigmas de Clarice e J. D. Salinger. os lamentos de Bandeira, as deliciosas sagas doutro mineiro, o Sabino. Te explicaria a insustentável leveza do ser, passaria cem anos de solidão, o eterno clichê da raposa e da rosa.

Se você ficasse, mostraria como sou melhor assim, escrevendo que falando. Te guiaria pelos meus silêncios, a beleza de minhas nostalgias. Te beijaria num dia de chuva, rolando na grama. Aprenderia a cozinhar. Aprenderia a decifrar estrelas, quadraturas, ascendentes, sinastrias. Mostraria todos os textos presos na gaveta, minha caixa de bilhetes e cartas, escreveria-lhe histórias, roteiros do meu corpo para que nunca perdesse o caminho. Faríamos fotografia, conheceríamos a América de mochila. Apresentaria todos os meus amigos e perderia horas explicando como quando e por onde eles são tão especiais e fascinantes.

Se você ficasse, um dia ou outro levantaria insone, alta madrugada. Só para lhe ver dormindo. Para sentir, enquanto fitava seu sono pesado, aquele nó na garganta de uma felicidade estranha, contida em cada poeira de cotidiano. Aquela cosia que não se explica, só se sente borboleteando estômagos, formigando lábios, bambeando pernas, taquicardias. Qualquer coisa próxima, símile ou diabos: de amor.

Se você não ficar, vou continuar vivendo. Procurando, me perdendo, encontrando. Pouco pior, algo melhor, quem saberia? Mas se você ficasse, ah, se você ficasse já seria tão bom...

[texto de um distante novembro/06, ligeiramente atualizado]

O Cansaço

Sabem, eu estou cansado disto sempre acabar num relicário dos amores inconclusos. Estou cansado de escrever as cartas mais belas que consigo, para não ter para quem enviá-las pelo correio. Estou cansado de cantar as mesmas canções para as paredes quase nuas, coalhadas de nostalgias certeiras nestes dias que começam a esfriar.

Estou cansado da minha falta de timing, ao chegar sempre no momento errado. De encontrar as pessoas completamente dangerizadas pelos relacionamentos passados ou na expectativa irreal pelos Relacionamento Futuro. Estou cansado de caminhar de solidão acompanhada em solidão acompanhada, para tudo terminar tão melancolicamente em telefonemas perdidos, desculpas escorregadias e qualquer outro tipo de banalidade cotidiana.

Só sei que não há remédio além da velha tentativa e erro. Só que esse cansaço, que muitos já me disseram chamar realidade, vai desconstruindo lentamente, uma a uma, minhas frívolas ilusões. Será que o destino final é tornar uma daquelas pessoas amargas, que um dia quiseram tudo e foram incapazes de reter coisa alguma por entre os dedos?

*****

Se, aparentemente, Carrie não termina com Mr. Big - o que será de nós, pobre mortais, personagens reais?

sábado, abril 05, 2008

Abril

A verdade é que não há nada que não se adapte: depois de quase dois meses paulistanos, a verdade que toda rotina acabou se encaixando de uma forma indolor e recheada de pequenas alegrias. A solidão, como havia falado, é uma coisa que se acostuma, se amolda - e acaba até preenchendo no final das contas. Tenho aprendido a lidar com esses dias silenciosos e despovoados, conversando somente o necessário para ser simpático com o resto do mundo. Tenho aprendido a resolver melhor os meus problemas sozinhos, sem a chancela de tanta gente que me deu tanto apoio em tantos momentos. Tenho aprendido a ser um pouco mais paciente com as coisas, compreendendo finalmente que a filosofia do "pra mim é tudo ou nunca mais" é uma fonte imensa de sofrimento desnecessário. Tenho me sentindo finalmente adulto, sobrevivendo um mês completo sem precisar pedir dinheiro para os meus pais.

No Hospital, nunca havia sentido minhas mãos tão inábeis e frágeis quanto agora, ao lidar com pacientes tão graves. Mas ali não há espaço para medos ou inseguranças - sou eu quem está na linha de frente, sou eu quem não pode vacilar. Os últimos dias têm sido de um crescimento profissional absurdo, de um amadurecimento nos atos e ações. O fato é falta de tempo para qualquer outra coisa além do Hospital neste abril que se principia, mas enfim - acostuma-se.

Devo mudar ainda essa semana, para um apartamento grande e barato na Vila Mariana. Com isso, fica finalmente a impressão que a mudança para Sampa está completa e é irreversível. Em breve levo meu carro, meus livros, minhas recordações, recrio o meus espaço, retomo a minha vida. Ando bem otimista: conhecendo pessoas legais, lugares legais. Já já compro laptop, arrumo plantão de finde, vou para praia. Junto dinheiro para ir à Argentina em janeiro. Corro no Ibirapuera todo domingo. Arrumo toda sorte de alegrias homeopáticas.

E a vida segue...

quarta-feira, março 26, 2008

2 days in Paris


2 dias em Paris me rachou na metade, numa segunda gélida e particularmente solitária. Lembrou-me vagamente Lost in Translation, das relações onde as pessoas, apesar de próximas, parecem não falar a mesma língua. E, principalmente, que você pode passar anos do lado de alguém sem conhecê-la de verdade.

Existem os otimistas e os pacientes: o Jack, do 2 dias em Paris e até mesmo o Jesse, do Before Sunrise / Sunset. E existe a Julie Delpy, sempre a francesa cética e dura. E não porque ela seja insensível - mas porque a sensibilidade excessiva dói. Porque esse processo de se entregar e, posteriormente, descobrir que o amor não redime no final é desgastante. É perceber que talvez a vida não seja um filme hollywoodiano, talvez nasçamos para sermos sozinhos, talvez a redenção completa não aconteça. Talvez nunca encontremos quem saiba lidar com nossas imperfeições, idiossincrasias. Talvez felicidade seja uma vida anestesiante, sem muitos arroubos. Talvez Caio F. esteja mesmo certo: "Amor é falta de Q.I.".

O duro foi constatar que, nos últimos dias, ando mais Céline/Marion que Jack/Jesse. E isso, para quem sempre foi afeito a uma boa ilusão romântica barata: é desanimador.

*****

"Here it is. One more, one less. Another wasted love story. I really love this one. When I think that its over, that I'll never see him again like this... well yes, I'll bump into him, we'll meet our new boyfriend and girlfriend, act as if we had never been together, then we'll slowly think of each other less and less until we forget each other completely. Almost. Always the same for me. Break up, break down. Drunk up, fool around. Meet one guy, then another, fuck around. Forget the one and only. Then after a few months of total emptiness start again to look for true love, desperately look everywhere and after two years of loneliness meet a new love and swear it is the one, until that one is gone as well"
(2 days in Paris - Julie Delpy)

segunda-feira, março 24, 2008

Shortcuts

Foi assim, distraído, que achei. Andando num sábado, por uma Sampa anormalmente silenciosa e tépida. Entrei: era lindo - uma parede laranja, prédio legal e seguro, sacada e armários embutidos, relativamente perto de onde eu preciso. Tá certo, um cubículo. Tá certo, exorbitante para os padrões interioranos aceitáveis. Mas, vá lá, achei. Agora é outra questão: a infeliz da pessoa que reservou antes de mim ter desistido dele; depois, toda a burocracia decorrente de imobiliárias. Ainda faltam uns 13 capítulos para esta novela chegar num final, mas é pelo menos o início (do início, do início) do fim.

*****

Tenho mastigado isto essa semana: todos acham que amor e ódio são sentimentos opostos e antagônicos. Eu sempre discordei - sempre achei que amor e ódio fossem sentimentos que moram na mesma rua. Que atire a primeira pedra quem nunca quebrou pratos, rasgou cortinas ou mandou recados mal-educados no Orkut quando aquele amor resolveu pisar na bola, quando não resolveu terminar naquele momento estrategicamente impróprio.

Amor e ódio são sentimentos passionais, irracionais, explosivos. Daqueles que ficam nas pontas dos dedos e no fundo da garganta. Entorpecem, vagueiam, confundem - também afogam vezenquando. Por isso, são irmãos. Faces diferentes da mesma moeda: bem-querer, mal-querer - apesar de diferentes, cruzados por uma linha bem tênue que os separam.

E é estranho perceber isso na pele. Lógico que eu usei palavras grandes, de forte impacto, para dar início ao argumento. Não seria um ódio: mas digamos assim, estava mais para uma antipatia e implicância sem muito fundamento. E também não diria um amor: digamos assim, uma idéia que entrecruza o dia-a-dia com uma frequencia relativamente boa. Pode até que não dê futuro ou me enfie naquelas confuões que sou mister em arrumar, mas pelo menos me divirto: a vida tem umas ironias que chegam até a ser deliciosas.

*****

O fato que cantarolo "Sou um animal sentimental, me apego fácil/Ao que desperta o meu desejo". Isto explica MUITA coisa.

*****

É engraçado que solidão é uma coisa que dói no início e lentamente vai ocupando o espaço, moldando-se para encaixar em todo continente. Acaba que rotina é rotina seja no Alaska, na Babilônia, Praga ou Sampa. E quando ela engrena, vai anestesiando e envolvendo. Só ainda não decidi se isto é bom ou ruim.

quarta-feira, março 19, 2008

Paulistanas 3

Nada de (muito) novo no front. Os dias escorrem pelos dedos, preguiçosos. Vejo o próprio deadline que me impus se aproximar e ainda permaneço nessa indecisão sem-teto. Pelo menos ontem, em conversas de elevadores, descobri pessoas às pencas ainda na mesma situação. O que, de fato, ainda não decidi se é bom ou ruim.

Pelo menos, fiquei um pouco consolado com minha inabilidade imobiliária.

Já estou considerando flexibilizar as opções, afinal, mais dez minutos no metrô, um pouco mais dentro da garganta do caos paulistano matam alguém? Dizem que sim, mas prefiro ignorar as alternativas

A Páscoa é a última esperança - se nada aparecer, já parto para as outras alternativas sem garagem, pior localizadas, essas coisas. É preciso reiniciar a vida. É preciso recomeçar tudo logo, sem essas coisas de paliativos acochambrados.

E: final de semana delicioso, acima da média. Com pitadinha de Strokes: "Between love and hate". Mereceria post. Vamos ver, vamos ver.

sexta-feira, março 14, 2008

O Último Romance

“II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente”*
(Camille Claudel)

Num estalo, foi essa frase que veio em minha cabeça nos longos trajetos que fiz entre São Paulo e Brasília. Existia sempre alguma coisa ausente que me atormentava*. Martelava, martelava e eu tentava tergiversar - pegava um livro, olhava a paisagem. E a frase voltava. Mas eu não fazia idéia por que.

Refazia cálculos, repassava histórias. A verdade era que tudo o que sempre quisera estava ali, ao alcance das minhas mãos: uma certa devoção preocupada, um certo ar cosmopolita, quatro línguas e a Europa Ocidental toda já visitada, profissão legal, dotes culinários, apartamento impecavelmente decorado. Era tudo o que havia pedido. Era tudo o que havia sonhado. E não era suficiente.

O fato é que sempre me conheci. Sempre soube reconhecer, sem muitas dificuldades, Os Sinais. Minhas paixões sempre foram fragorosas, abissais. Taquicárdicas de perder os sentidos, os rumos, as estribeiras. Irracionalidades, fantasias românticas, quase delirantes - de paixões lancinantes, quase febris. E ali, depois de duas semanas eu tinha um certo conforto, até meio egoísta, de estar dentro de um magnetismo de bem-querer: e só.

Daí racionalizei - por mais que soubesse que essas paixões abissais são sentidas com as pontas dos dedos, não com o exercício do cérebro: talvez fosse assim. Talvez as paixões reais fossem assim, um tanto mornas, outro tanto despreocupadas. Das coisas que é preciso tempo para frutificar para que o discurso iguale, as palavras encaixem, a sintonia fina se faça. Talvez as paixões reais fossem menos cinematográficas e erguidas na velocidade lenta das cotidianidades. Talvez amar fosse isso aí.

E voltava Camille, como uma condenação. As coisas ausentes. Porque eu não queria amor assim, mesmo que me prometesse jantares em família, fim de semana no Guarujá, restaurantes sofisticados, baladas VIPs, promessas de estabilidades. Recebi cartas, carinhos, caronas e compreensão. Fui adulado, elogiado, até por assim dizer amado. E prosseguia naquela espera paciente pela epifania. O momento hollywoodiano. Aeroporto, Casablanca, ou passeio de barco no Sena, ou qualquer coisa do tipo.

E não veio, não viria. Tão irônico e melacólico o fim: na minha espera paciente para prencher a ausência, no dia do meu aniversário, fui acordado com uma ligação às dez e pouco da manhã. O conteúdo era mais ou menos assim: "Sabe, minha vida está muito complicada e não quero te dragar junto para o caos em que ela se encontra" (as palavras são minhas, resumindo vinte minutos de desculpas clichês).

Lógico que desabei e aquela segunda-feira foi uma das piores que passei. Não pela rejeição per se, percebi. Foi porque ela acontecera bem num dia em que esperava só que coisas positivas deveriam acontecer. Foi pela falta de tato alheia, em talvez perceber que poderia ser poupado em um dia para que esse assunto ingrato não monopolizasse um dia de festividades. Foi em haver tanta promessa de happy endings, para tudo terminar de uma forma tão irritantemente idiota.

Passei uns dois dias amuado, cruzando uma Sampa anormalmente causticante sem muito rumo. Até ser salvo por Juno, num dia de balde de pipoca e litro de refri, com a música mais meiga do ano: "Anyone else but you". Porque até as tragédias do amor tendem a ser cômicas depois que a dor de cotovelo passa e se ri até a exaustão das nossas inabilidades. Daí, passou. Saí de novo, joguei meu corpo, tive minha vingancinha mesquinha.

Hoje, não sei. Talvez a coisa ausente fosse uma espécie de feeling, sexto sentido: não se entrega baby, não vai dar certo. Talvez seja o excesso de idealizações, que sempre se convertem em frustrações quando ela não acontece. O que fica de lição para mim é que talvez Os Sinais sejam precisos. Que o amor seja mesmo essa coisa taquicárdica. E essas coisas ausentes se encaixam entre os espaços inconclusos dos sentimentos que não se sabem - só dá pra saber somente é que eles, sozinhos, não bastam.

quarta-feira, março 05, 2008

Paulistanas 2

Mas não pensem que os últimos dias tem sido apenas de dificuldades - sou eu quem tem uma ingrata mania de sempre focar no que me paralisa ao invés do que me movimenta. E também não pensem que algo de muito novo tenha acontecido nos últimos dias: ocorre, mesmo, é uma mudança de foco.

Depois de Juno, as coisas pareceram menos difíceis, os problemas menores. Nas palavras de Caio F., "eu decidi que sou ótimo" e, por mais que considere que auto-ajuda às vezes mais auto-atrapalha, um pouco de pensamento positivo também não faz mal a ninguém. Ainda mais nestes dias estranhamente ensolarados de Sampa, quando seu primeiro salário (apesar que, para os padrões vigentes, praticamente irrisório) finalmente caiu e as coisas até caminham em velocidade de cruzeiro.

Não que eu esteja bancando a Pollyanna surtada. Lógico que falta um tanto para vida desempacar e, finalmente, correr nos trilhos que deveriam. Mas, enquanto nisso não acontece, vou ao cinema hoje, uma cerveja estratégica de sábado. Uns aniversários, uns planos, uns telefonemas. Assim, devagar e sem pressa.

Como diria Clarice, o telefone só toca quando estamos distraídos. E talvez seja isso o que falte: levar um pouco disso tudo aqui atento - mas com menos seriedade.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Paulistanas

Foi ontem que entreguei finalmente os pontos para concluir que a lua-de-mel com Sampa havia acabado. Nada de novo, actually. Mas sobra essa sensação de imobilidade - não profissionalmente, porque no Hospital a coisa deslancha sem muito dificuldade. O problema é o resto.

O problema é estar sem teto, sem grana, carente e perdido. Os apartamentos, tão estratosféricos e quase ausentes. O lazer, tão caro e meio ridículo de ser feito a sós. Tão acostumado com tanta gente por perto, palpitando, chorando e rindo, tenho tido dificuldades nestes dias de longos monólogos internos.

Lógico que eu sabia que seria difícil. É mudança, readaptação e, infelizmente, o tempos das coisas não refletem o tempo da gente. Sei também que isso tudo é temporário e que, em breve, terei meu canto, meu salário e meu suporte. Mas me reservo o direito de ser imediatista: hoje os dias são de lamentar o que ficou para trás, todo o conforto, todo o carinho. É dessa melancolia pesada que vai se acumulando igual cansaço. É dessa sensação de estranheza do sotaque que não encaixa, das esquinas que não são minhas.

Quem me salvou ontem foi Juno, no melhor esquema "eu-mereço": um balde de pipoca, um litro de refrigerante, depois de um cachorro-quente caprichado. Filme meigo, doce, com sua dose de sarcasmo. Há quanto não ia ao cinema. Sai leve, peguei o metrô deserto quase virando meia-noite, dormi até bem.

O fato é que, enquanto a vida não encaixa, sigo buscando estes pequenos prazeres.

E vamos indo.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

23 anos

Não, não deixarei um fato pontual subverter a ordem otimista do novo ano que aproxima. A cidade é nova e, finalmente, meu lar. Os desafios são novos e decisivos. As perspectivas, brilhantes na medida do possível.

É a Vida que se encaminha, com seus atropelos e ciladas. Mas, apesar das dificuldades, cada vez mais valendo a pena por ser vivida.

Só este vazio temporário que me incomoda. De lembrar tanta gente que não está aqui do lado para me proporcionar a benção de um abraço apertado. Mas sei que cada um, de sua forma, está mandando as boas energias. E repleto de todo esse amor que tenho e divido, sorrio dentro dessa cidade cinzenta e nublada.

Hoje, particularmente, um pouco mais.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Dia D

Não me perguntem: talvez seja esse cansaço, talvez seja culpa desta indecisão. Já ouviram falar em dia D? É amanhã. Seja de felicidade, seja de exílio. Independentemente do que aconteça, a impressão é que falta alguma coisa. Essa sensação de ausência, como nunca havia sentido antes.

No final das contas, é isso que falta: um pouco de sentido.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Adeus Paraíso

A Estação Paraíso, tão ironicamente, ficava para trás como um retrato triste do que poderia ter sido e talvez não seja. Tão Caio-Fernando: lembrei dos Dragões. Lembrei dos skycrapers da Paulista, ao longe, circundados por uma nuvem provavelmente tóxica, emoldurando um daqueles momentos de arrebatação. Música lenta, noite tépida: um beijo.

Minha breve história paulistana se escreve por entre as estações de metrô. Santa Cruz e todas as incertezas de um novo reinício. Paraíso, o primeiro ponto de partida para uma jornada longa. Alto do Ipiranga, a primeira possibilidade de sossego. E agora, quando via as estações seguirem até o Tietê, tão inesperadamente quanto uma traição, deu vontade de chorar.

Às vezes me pergunto: por quê? Porque sempre a possibilidade mais brilhante tem que se revelar para que, imediatamente depois, seja retirada de mim? É sempre assim...

E não que eu procure uma justificativa plausível dentro de todo este caos que nos circunda. Mas o que é frustrante, sempre, é essa impressão de estar no lugar certo, na hora errada.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Insustentável

Há quase dois anos não escrevo para você. E não escrevi antes porque estava no meu direito da mágoa, do rancor e de ser, só para variar, mais emotivo que racional. Não escrevi porque depois daquele dia em que te liguei e você tergiversou, parecia que tudo havia dissolvido. Tudo que havíamos discutido com tanto esmero e toda identificação pautada em nossos diálogos lentos, sido só superficialidades, dissimulações.

Hoje percebo coisas diferentes. Hoje percebo, dentro de tanta gente que passou em minha vida, foi você quem foi mais fundo. De todas nossas conversas tangentes, sempre tangentes, ficou o meu desenho mais preciso. Navegávamos por entre banalidades e filmes, livros e idéias. Compartilhávamos nossas solidões povoadas, nossas dores sofisticadas pequeno-burguesas, tantos becos sem saída.

Fomos além da intimidade cotidiana, da mediocridade necessária de faculdade, bebedeiras, família, contas a pagar. Fomos além das limitações visíveis: a falta crônica de dinheiro, as quilometragens, de tanto que prometeram e nunca, nunca chegou. Conversávamos em outros termos: o dilema da leveza de Kundera, todo amor tonto de Caio Fernando, da beleza discreta da bossa nova. Éramos companheiros dentro de toda nossa fragilidade.

Lembrei-me de como me senti tão frágil aos seus pés: com "Os Dragões..." nas mãos, presente de aniversário escolhido a dedo e a cesta de Páscoa mais linda que pude achar. Senti-me como no conto, nos primeiros minutos: com todo um paraíso desenhado, apodrecendo, por um próprio erro de cálculo. Daí abri janelas, me entreguei ao rancor. Troquei "Os Dragões..." pela belicoso livro de memórias de Churchill. Daí, o resto, você até sabe.

Te resgato dentro de uma epifania sem propósito definido. Porque tenho gerado isso: reli "A Insustentável...", para te reencontrar inesperadamente em parágrafos e capítulos. Te revi na morte prematura de Heath Ledger, naquele Pinguim que emendou num cinema e um bocado de palavras que finalmente ficaram grifadas. Te revi em García Marquez, lembrando um dos meus aniversários mais doces cravado noutro Carnaval. Te revi quando revi Sofia Coppola. Foi assim que conclui o quanto você ainda fazia parte de mim. Ainda faz. E é bom te ter assim comigo, muito embora você nem desconfie.

E agora, de pazes feitas, te guardo com ternura e afeto. Na gaveta das coisas doces, independente do desfecho. Adultos, um pouco maduros, até melhores. Para zerar contas e aproveitar tudo aquilo que tínhamos de melhor...

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Primeiros dias

Ficam para trás a dura poesia concreta de tuas esquinas, a deselegância discreta de suas meninas. Nada de leveza, nada de Paulista sem pressa, nada do cinza que circunda um bocado de beleza. Nestes primeiros dias, só há o caos, a solidão e as preocupações. O metrô é tão somente um instrumento de ir-e-vir. Não há vagas em lugar nenhum. As responsabilidades, crescentes e um pouco amedrontadoras. E será que o dinheiro vai dar no final do mês?

Corro, recorro, discorro sem cansar. Pelo menos tento, mas canso no final das contas. Faltam os braços longos para afagar devagar, falta o tom de voz tão conhecido para rir das pequenas desgraças cotidianas, falta esse calor humano pra aliviar um pouco do peso. Sinto tanta falta de tanta coisa, é verdade. Fico refém do Big Brother, dum lar que não é meu, destas paredes estranhas.

Mas o que sobra é otimismo, apesar da garoa que cai chata. Dos pés que doem procurando apartamento. Da saudade que bate ligeira, fisgando panturrilha. É assim que deve ser, é assim que vou crescer. E crescer, infelizmente, também dói. É perda, um pouco de sacrifício. É pagar pra ver.

Um pouco de paciencia, parcimônia. Enquanto as coisas, lentamente, se revelam.

É isto me guia nestes dias iniciais tão cinzentos.