domingo, dezembro 30, 2007

Quase 2008

Kundera diz, mais ou menos, que a vida não tem ensaio e que não há como julgar se uma ação teria sido melhor ou pior. Diz que o ensaio da vida é a própria vida - e, elocubrando, não há porque perder tempo pensando nesses "e se"s.

Tenho relido Kundera e ver "O Amor nos Tempos do Cólera" me deu uma espécie de nostalgia, das boas, dessas coisas inconclusas. E na véspera do Reveillon, dentro desse isolamento meio que voluntário, meio que sacrificado numa possibilidade melhor e em pleno Iraque emocional: só espero que minha escolha, finalmente, tenha sido a acertada.

E vamos indo pra 2008.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Trópico de Capricórnio

Penso que agora pode ser diferente. E não descobri isso porque alguém tenha me falado (aliás, todos falam um pouco mas ninguém com iniciativa suficiente para me fazer engolir as verdades). Mas são sinais inconclusos, tipo horóscopo diário da Folha. Na verdade, vêm em sonhos: tenho sonhado contigo, umas duas vezes - coisas confusas, mas diferencio seus olhos, seu tom de voz macio e aquele magnetismo que nunca soube explicar. Penso em você em pequenos planos distraídos, como sábado em casa, eu e você, meu irmão e mais alguém, varando madrugadas jogando poker, beliscando qualquer coisa potencialmente aterogênica e rindo das agruras de nossos cotidianos. Penso em você em algum lugar ensolarado, pode ser praia, talvez deserta, nessa coisa tão boa de viajar juntos só juntos num lugar desconhecido, tão sol de doer as pupilas sem óculos escuros enquanto o mar bate devagar cadenciando leve o tum-tum daqui de dentro.

Penso em você porque 2008 exige escolhas e eu nunca lá fui dos muito corajosos. Sempre mais focado em auto-proteção que em resolutividade. Sempre aguardando uma certa reciprocidade nos atos. Mas isso é passado, isso é outra temporada, isso é outra estação.

Agora é assim: força e coragem, peito pra correr e costas tão largas pra suportar o peso. Cruzar o Trópico de Capricórnio sem muitas esperanças, num espaço limitado onde pouco cresce além daquela impressão explosiva, repeteco de outros dias brilhantes, preparando terreno pra um em breve, um por vir.

E que, tão abençoado e doce, guie 2008 por águas tranquilas e rasas, um pouco mais completo por saber que coisas assim, embora o universo tente dizer o contrário, ainda existam.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

2007

Havia a promessa de sangue, suor e lágrimas - o que, de fato, aconteceu. Havia a promessa de um ano difícil, pesado, bem como minha caríssima pontuou. O que foi surpreendente - e o que acho encantador nessa arte que se chamam de viver - é que nada impediu que esse fosse o melhor ano de minha vida.

Nunca foi tão difícil: a carga de trabalho muitas vezes excessiva, a toxicidade emocional sempre presente nos corredores verdes longuíssimos, a sensação de não estar realmente preparado para enfrentar a vida profissionalmente. Estar ali, no epicentro dos acontecimentos, vendo quem morre, vendo quem parte, vendo quem perde, vendo nossa fragilidade, muitas vezes de mãos completamente atadas. E mesmo assim, insone e sacrificante, tirei O grande aprendizado. Não que eu esteja pronto - mas a certeza que a base, a primeira viga que sustenta, foi colocada em sólido terreno e que eu sou plenamente capaz de enfrentar o desafio, seja lá onde.

E dentro de tanto peso, a leveza. Sempre falei da minha vida dividida, em rota de colisão. E a grande surpresa em perceber que os dois lados não eram excludentes, e sim complementares. Consegui atar as duas pontas, entrelaçá-las como um aperto de mão bem forte. Consegui costurar grande parte daquilo que achava que tinha perdido enquanto aprendia a medir meus passos e palavras. O que virou, desta colcha de retalhos toda é o desenho mais lindo, que nunca havia pensado em confeccionar.

Foi quando fiz de Uberlândia meu segundo lar. Porque sempre me julguei estrangeiro nessa terra: não havia conseguido baixar a guarda por estas paragens, estando sempre nessa coisa de coração indo e vindo pelo Nacional Expresso. A sorte quis que meus braços se abrissem e tanta gente viesse segurar meus dedos tão forte. Ganhei quatro anjos que sempre me vigiaram, pontuaram os erros, comemoraram as alegrias, apararam as lágrimas, beberam as vitórias (as derrotas também, lógico) e transformaram meu cotidiano na coisa mais iluminada que era possível. Descobri quatro pessoas complementares, daquelas que acabam ficando indissolúveis, a ponto de nos olharmos e nem sabermos mais qual sentimento é de quem: o que importa é que ele existe, que ele é forte e é tão lindo.

E de tanta gente amada, de longe, a certeza que o sentimento não acaba independente da distância. Penso que devo estar ruim de julgamento, mas nunca achei que fosse possível que minha vida fosse povoada de tantas pessoas que realmente valessem a pena. E a certeza de que, mesmo só ao telefone, telegraficamente nos Orkuts da vida, estaremos sempre juntos, sempre família, sempre nós.

Foi ano de situações críticas. Foi ano da semana mais negra e pesada. Foi quando se colocou em xeque tudo aquilo que eu me propunha de planos, de futuro. Foi ano de me perguntarem, finalmente: é isso mesmo que você quer fazer com o resto da sua vida? E de afirmar, mesmo o futuro sendo só brumas e aspirações bem vagas a médio prazo, que sim. E dizer de peito aberto, sim. E dizer, até as últimas consequencias, sim. E, no final das contas: sobreviver.

Neste ano fecha-se todo um ciclo. O fim é belo, incerto e depende de como você vê. Vejo um mar de esperanças, de possibilidades. Mesmo ainda não sabendo pra qual lado a bússola apontará, a certeza de que será bom. A certeza que estou pronto e habilitado para enfrentar o que vier, no tempo que for e, se a tarefa for hercúlea, que sempre terei ajuda por perto.

Agradeço a todos que participaram comigo deste ano e o fizeram ser tão brilhante, tão inesquecível, tão cinematográfico: o melhor final possível de um filme que sempre foi, apesar dos pesares, lindo.

Estendo a mão para quem quiser prosseguir na viagem. Sem rumo, sem destino - pelo menos por enquanto. E que 2008 guarde só o que for melhor (e guardará, porque tenho fé) para todos nós.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

The final round

O final round por Sampa não reservou muitas surpresas, afinal, essa rotina de pequenas obrigações e múltiplos atropelos me deixaram meio de mãos atadas - o que não impediu a caminhada habitual pela Paulista, desta vez quase chegando ao MASP e o Trianon, de tantas boas lembranças. Teve momentos de consumo compulsivo na Fnac da Paulista (de presente de-mim-pra-mim, o belíssimo cd novo da Fernanda Takai cantando Nara Leão, vejam só, vejam só), filme israelense num cinema mofado e deserto, busca vã no mar de produtos pirateados, quando o português até parece língua acessória.

Foram dois dias em ritmo de garoa: cidade atravancada pela chuva que ora molhava, ora só resfriava. Caminhei tanto na chuva, mesmo fina e chata, percebendo o tamborilar leve da água refletir no espelho tênue do asfalto. Caminhar na chuva sempre teve um quê de terapêutico: parece que, só de sentir aquele arrepio de quando a camiseta começa a encharcar, sinto-me mais vivo. Sinto que o coração bate, que o corpo reage, tudo palpita. E sigo melhor.

Dias cinzentos e um tanto melancólicos, na voz da Fernanda: em qualquer esquina eu paro, em qualquer botequim eu entro. E mesmo cinzas e melancólicos (tão Sampa, tão Sampa), com seu quinhão de beleza.

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Se você perguntar: por onde anda meu coração? te respondo: não sei. Por aí, tão vago. Pelas ruas, pela neblina, pela garoa. Anda meio bambo, meio torto, meio gauche, como sempre foi. Não busca, não procura, não espera - só caminha de acaso a acaso, nessas indoloridades que não matam nem acrescentam. Algumas poucas aspirações, porém nada de novo: são aquelas que sempre existiram e persistem, irracionalmente, a despeito de todo tempo que se passa. Tem sono leve, quase irriquieto. Aquele jeito quase perdido de quem ferra em insônia toda madrugada em pensamentos febris.

Se ele volta? Digo que sim: mas só depois que a saudade se afastar de mim. Só depois que a saudade se afastar de mim.

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A mensagem de final de ano, certeira: Coração Peludo, por Man In The Box.

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"Catch me if I get too high
When I come down
I'll be coming home next year"
(Foo Fighters, anunciando o prenúncio do fim)

quarta-feira, dezembro 05, 2007

0,025

Moderar as exigências não é, necessariamente, contentar-se com pouco. É aprender a enxergar as limitações e, com isso, identificar o que nos prende e medirmos todo o trabalho que é necessário para que as coisas cheguem no devido lugar.

O dilema é se devo ficar feliz em ter conseguido superar as minhas expectativas iniciais e quase ter chegado lá ou lamentar por quase ter chegado lá e não ter dado por tão pouco.

Tendo, neste dezembro tépido de atropelos e pequenas alegrias, sempre optar pela felicidade. O que não me impede de me descontrolar um pouco vezenquando.

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Sinto coragem. Uma coisa que há tempos não sentia, como naquele raro momento de bungee jump, quarenta metros abaixo e só um fio que me prendia. Sinto uma coragem tanta, daquelas de cair no vazio mesmo não sabendo se a corda vai suportar. Porque me lembro que os cinco segundos de queda foram os mais assustadores e longos - mas quando a corda traciona e experimentava por outros parcos segundos a sensação de flutuar: juro, foi a experiência mais intensa da minha vida.

Ter coragem também implica em deixar para trás - afinal, essa coisa de viver também não existe um importante componente de renuncia? Quero um 2008 brand new, aquela coisa bem Drummond. Nem que isso signifique sacrificar minha ilusão mais doce: seja para torná-la real ou seja para finalmente enterrá-la...

sábado, dezembro 01, 2007

20 dias e contando...

Sampa continua linda, é verdade. Passagem relâmpago: nada além de casa, metrô, prova, retorno. Mas confesso que já faz parte de mim as artérias de Sampa coalhadas de carros, prestes a infartar. Já faz parte de mim os leves solavancos do metrô, enquanto fico naquela atenção distraída pelos nomes das estações, as pessoas impassíveis com fones de ouvidos. Já faz parte de mim o som das buzinas ao longe enquanto entardece.

Caminhei a noite, quando o Paraíso desagua lentamente na Paulista - os prédios ainda de luzes acesas, a decoração incipiente de Natal pelas árvores. Incrível como sempre fico com um sorriso meio besta na Paulista - como estar ali nunca é uma coisa banal ou natural. E enquanto sentia, in loco, o coração do Brasil palpitar lembrei-me: faz mais de mês, não?

E neste momento, juro que pensei: aquilo tudo foi por conta do que mesmo?

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Agora tudo se encaminha vertiginosamente para o fim, é fato. Tudo adquire um ar estranho de última vez: então, abraço apenas aquilo que é essencial, que é parte de mim e dolorosamente será difícil de deixar para trás. Não quero mais saber das cobranças, das dissimulações. Das palavras difíceis, das palavras tortas. Não quero preocupações banais com escalas ou puxasaquismo.

Quero piquenique no parque de domingo, como todo mundo querido por perto. Quero noite de porre histórico pra dançar até amanhecer. Quero cerveja no posto plena terça-feira, para discutir sem tempo os rumos estranhos do amor. Quero Sex and the City de madrugada, quero cinema de tarde. Quero sorvete quando o dia causticante abaixar.

Quero todo mundo segurando minha mão tão forte quando começar a chorar.

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Sabem, eu perdi o jeito de chorar. Chego às vezes a sentir o olho arder, fungar um pouco - mas as lágrimas, destas pesadas e quentes, nunca.

Mas de pensar essas coisas bestas e mundanas - tipo mudança ou o-que-será-de-mim-ano-que-vem - juro que tá dando uma coisa tão ruim subindo a garganta.

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Quer saber? Tô meio cansado desta vida mambembe. Há quase mês nesta vida de estrada, cidade diferente - e olha que ainda os destinos foram até interessantes: Sampa, paixão constante; Ribeirão, meio quase lar. Mas cansei de estar lá sem poder usufruir plenamente.

Queria mesmo, por incrível que pareça, era estar onde sempre estive: neste tédio iluminado, nesta previsibilidade contínua. Ficar por aqui e curtir o resto do tempo que me resta.

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"Desconheço a certeza
Que lhe fez exagerar,
e abrir meus poros
Cavar flores sem lhe ver
Chega pra envolver,
envolver querer"
(Marisa Monte)