terça-feira, novembro 20, 2007

Sampa's shortcuts

Na definição do NY Times, "the ugliest, most dangerous city you'll ever love": o que define Sampa com uma sinceridade um pouco dolorida, porém verdadeira. Fui de passagem meio relâmpago, emendando perigosamente noites sem dormir e com objetivos bem definidos. Mas apesar das poucas 48 horas e de não ter conseguido fotografar e passear por tudo que gostaria, Sampa permanece da mesma forma que eu sempre a vejo: tão paradoxalmente viva, linda e pulsante. E sua graça, dentre os meus curtos passeios, é essa coisa meio caótica e imprevisível, sem saber aonde vou parar.

*****

Fiquei hospedado no Largo do Arouche, nas imediações da clássica e clichê avenida São João. De lá, só conhecia a fama de região decadente e perigosa - que acabei ratificando. Mas existe um charme dentro dessa decadência, apesar do forte cheiro de urina e dos pedintes quase onipresentes: entre os bares baratos, prédios depredados, cinemas pornôs e hotéis de clientela duvidosa, alternavam restaurantas clássicos, classudos e caros - firmes e fortes, apesar de toda a degradação da região. Toda vez que atravessava os quarteirões do hotel até o metrô, ia prestando atenção nesses pequenos lapsos de beleza dentro de tanta feiúra. E, juro, até sorria.

*****

E toda vez que piso em Sampa lembro de Caio Fernando Abreu, principalmente porque sua obra alterna entre Porto Alegre e lá. Minha quase vizinha por 48 horas, a praça da República, já foi imortalizada em uma ou outra crônica. Toda vez que piso na rua Augusta sinto o coração vir à boca de pensar que ali foi cenário de tanta coisa que li, reli, treli e meio que me guia nesses dias agridoces. Mas quem acabo lembrando mesmo é "Onde Andará Dulce Veiga", a obra mais paulistana de Caio - que sempre quero reler antes de viajar, mas nunca dá tempo. E contei tudo isso para falar do metrô: dessa vez, apesar das malas e dos cansaço, fiz duas paradas não-obrigatórias na linha azul só por causa deste trecho, lindo lindo lindo de morrer:

"Devia ser sábado, passava da meia-noite. Ele sorriu para mim. E perguntou:
- Você vai para a Liberdade?
- Não, eu vou para o Paraíso.
Ele sentou-se ao meu lado. E disse:
- Então eu vou com você"

Que deram origem a duas fotos lindas em cada estação. E a pergunta: de qual estação estou vindo, para onde quero ir? Paraíso ou Liberdade?

*****

Outra do metrô: estávamos na porta da estação República, defronte a praça, enquanto discutíamos se jantaríamos besteiras ou num restaurante. Não sei se foi nossa cara de turista, nosso sotaque interiorano, o perigo da região ou nossa cara de perdidos. Mas fomos abordados por um senhor bem simpático, perguntando: aonde vocês querem ir? Pelo menos naquela hora, até que estávamos localizados - então agradecemos de bom grado a ajuda e fomos embora. Para o padrão de uma megalópole, meio cidade-cão de solidão monstra, esse socorro sem nem mesmo pedir foi uma grata surpresa.

*****

Descer a rua Augusta de madrugada também foi uma experiência a parte. Ao descer da estação Consolação, dar de cara com uma galera (sim, umas 10 pessoas) com violinos, meio sarau, tocando música da melhor qualidade. Depois, o contraste das boates (pra paulistano, o sinônimo de prostíbulo) com os barzinhos, galerinha descolada, todos transitando na rua. E ali, encravada no meio de duas boates com todo neon e espelhos que tinha direito, uma balada da moda. Fui eu e uma grande amiga na Vegas, no coração da Augusta, a balada mais eclética que já vi. Ali coexistiam desde os sarados de regata até os descolados de All Star, das coroas quarentonas às patricinhas de salto, dos playboys aos sem estilo. Um som que nunca havia escutado: meio eletrônico, com batida de anos 80 e 90, puxando pro rock de hoje. Assim, um som ducaralho. E pena que tive que ir embora cedo, pois o taxista na volta nos disse que ali vai até 11 da manhã...

*****

Faltou bar Brahma, faltou bar Leo, faltou foto na Ipiranga com a São João, faltou almoçar na Liberdade no domingo, faltou MASP. Sempre é assim quando vou para Sampa, falta tanta coisa que gostaria de fazer que fico até tonto, até considerando em pagar o preço pra entrar nessa vida caótica também.

*****

Sobre as rosas, só mesmo Nara Leão para cantar a minha (como vou dizer?) talvez decepção, talvez melancolia:

"Enfim
Hoje na solidão ainda custo
A entender como o amor foi tão injusto
Pra quem só lhe foi dedicação
Pois é, então"
(Pois é - Nara Leão)

*****

Afinal de contas, entre a dura poesia concreta de suas esquinas:
"Alguma coisa acontece no meu coração..."

Nenhum comentário: