segunda-feira, novembro 26, 2007

Nostalgia (ou Apenas mais uma de amor)

"Eu gosto tanto de você que até prefiro esconder
Deixa assim ficar subentendido
Como uma idéia que existe na cabeça e não
Tem a menor obrigação de acontecer"

Havia perdido a hora, como é meu habitual nessas segundas-feiras eternas, sem descanso. E enquanto o rádio tocava para disfarçar meu atropelo já estabelecido, tocou uma música tão doce do Lulu que imediatamente me lembrei de você.

É estranho porque, nesses dias de escravidão branca e tantas incertezas, raramente me lembro de você. Não que seja uma memória desimportante, mas não ando com muito hardware para elocubrações. Aliás, tenho pequenas recordações quando uma música toca, quando lembro de uma viagem ou das suas pequenas sardas esparramadas pela íris que quase ninguém vê.

"Eu acho tão bonito isso
De ser abstrato baby
A beleza é mesmo tão fulgaz
É uma idéia que existe na cabeça e não
Tem a menor obrigação de acontecer"

Mas vou levando, vou levando. Até quando você dá um jeito de cruzar meu caminho novamente, tipo Paulinho Moska no Orkut - que nem era pra você, mas não importa, não importa. E por falar em nostalgia, essa palavra perigosa, passou a ficar batendo meio dor de dente, meio coisa incômoda, meio nó na garganta sufocando leve tipo gravata apertada.

"Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza
Então a alegria que me dá
Isso faz sem eu dizer"

Daí tiro meu All Star semi-novo, já surrado, do armário e um bocado de boas intenções. Vou levando a vida na mesma escravidão branca, as mesmas incertezas, com todas as pequenas alegrias que eu me permito. E adiciono outra, que ainda nem sei se é de fato uma ilusão: que talvez depois de tanto tempo, talvez. Nesta sua nostalgia, embarco na esperança de sei lá, nem sei quando, quem sabe depois.

Porque não sei - entre cervejas, diluídos em tanto álcool, pensei ter te visto sustentando o olhar, daquele jeito despreocupado, meio sem querer que eu visse. Tá, talvez foi lance de vista, outra ilusão. Mas deixa.

"Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
O que eu ganho, o que eu perco
Ninguém precisa saber"
(Apenas mais uma de amor - Lulu Santos)

O fato que a noite não me permitiu perguntar: "e essa nostalgia, como fica?". E me deixou com essas ilusões, nada além. Doces, de beleza abstrata. E que me fazem passar melhor os dias, enquanto esse ano não fecha e não me permite iniciar a construção de nada, nada...

terça-feira, novembro 20, 2007

Sampa's shortcuts

Na definição do NY Times, "the ugliest, most dangerous city you'll ever love": o que define Sampa com uma sinceridade um pouco dolorida, porém verdadeira. Fui de passagem meio relâmpago, emendando perigosamente noites sem dormir e com objetivos bem definidos. Mas apesar das poucas 48 horas e de não ter conseguido fotografar e passear por tudo que gostaria, Sampa permanece da mesma forma que eu sempre a vejo: tão paradoxalmente viva, linda e pulsante. E sua graça, dentre os meus curtos passeios, é essa coisa meio caótica e imprevisível, sem saber aonde vou parar.

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Fiquei hospedado no Largo do Arouche, nas imediações da clássica e clichê avenida São João. De lá, só conhecia a fama de região decadente e perigosa - que acabei ratificando. Mas existe um charme dentro dessa decadência, apesar do forte cheiro de urina e dos pedintes quase onipresentes: entre os bares baratos, prédios depredados, cinemas pornôs e hotéis de clientela duvidosa, alternavam restaurantas clássicos, classudos e caros - firmes e fortes, apesar de toda a degradação da região. Toda vez que atravessava os quarteirões do hotel até o metrô, ia prestando atenção nesses pequenos lapsos de beleza dentro de tanta feiúra. E, juro, até sorria.

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E toda vez que piso em Sampa lembro de Caio Fernando Abreu, principalmente porque sua obra alterna entre Porto Alegre e lá. Minha quase vizinha por 48 horas, a praça da República, já foi imortalizada em uma ou outra crônica. Toda vez que piso na rua Augusta sinto o coração vir à boca de pensar que ali foi cenário de tanta coisa que li, reli, treli e meio que me guia nesses dias agridoces. Mas quem acabo lembrando mesmo é "Onde Andará Dulce Veiga", a obra mais paulistana de Caio - que sempre quero reler antes de viajar, mas nunca dá tempo. E contei tudo isso para falar do metrô: dessa vez, apesar das malas e dos cansaço, fiz duas paradas não-obrigatórias na linha azul só por causa deste trecho, lindo lindo lindo de morrer:

"Devia ser sábado, passava da meia-noite. Ele sorriu para mim. E perguntou:
- Você vai para a Liberdade?
- Não, eu vou para o Paraíso.
Ele sentou-se ao meu lado. E disse:
- Então eu vou com você"

Que deram origem a duas fotos lindas em cada estação. E a pergunta: de qual estação estou vindo, para onde quero ir? Paraíso ou Liberdade?

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Outra do metrô: estávamos na porta da estação República, defronte a praça, enquanto discutíamos se jantaríamos besteiras ou num restaurante. Não sei se foi nossa cara de turista, nosso sotaque interiorano, o perigo da região ou nossa cara de perdidos. Mas fomos abordados por um senhor bem simpático, perguntando: aonde vocês querem ir? Pelo menos naquela hora, até que estávamos localizados - então agradecemos de bom grado a ajuda e fomos embora. Para o padrão de uma megalópole, meio cidade-cão de solidão monstra, esse socorro sem nem mesmo pedir foi uma grata surpresa.

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Descer a rua Augusta de madrugada também foi uma experiência a parte. Ao descer da estação Consolação, dar de cara com uma galera (sim, umas 10 pessoas) com violinos, meio sarau, tocando música da melhor qualidade. Depois, o contraste das boates (pra paulistano, o sinônimo de prostíbulo) com os barzinhos, galerinha descolada, todos transitando na rua. E ali, encravada no meio de duas boates com todo neon e espelhos que tinha direito, uma balada da moda. Fui eu e uma grande amiga na Vegas, no coração da Augusta, a balada mais eclética que já vi. Ali coexistiam desde os sarados de regata até os descolados de All Star, das coroas quarentonas às patricinhas de salto, dos playboys aos sem estilo. Um som que nunca havia escutado: meio eletrônico, com batida de anos 80 e 90, puxando pro rock de hoje. Assim, um som ducaralho. E pena que tive que ir embora cedo, pois o taxista na volta nos disse que ali vai até 11 da manhã...

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Faltou bar Brahma, faltou bar Leo, faltou foto na Ipiranga com a São João, faltou almoçar na Liberdade no domingo, faltou MASP. Sempre é assim quando vou para Sampa, falta tanta coisa que gostaria de fazer que fico até tonto, até considerando em pagar o preço pra entrar nessa vida caótica também.

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Sobre as rosas, só mesmo Nara Leão para cantar a minha (como vou dizer?) talvez decepção, talvez melancolia:

"Enfim
Hoje na solidão ainda custo
A entender como o amor foi tão injusto
Pra quem só lhe foi dedicação
Pois é, então"
(Pois é - Nara Leão)

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Afinal de contas, entre a dura poesia concreta de suas esquinas:
"Alguma coisa acontece no meu coração..."

sexta-feira, novembro 16, 2007

40 dias e contando...

Já teve carro roubado, já teve porre histórico debaixo de cinco lustres & tapete vermelho & até sushi que aprendi que não é tão ruim, teve surpresa durante ressaca e prova idiota, teve chuva cataclísmica comigo atravessando-a heroicamente, tiveram todas as comprovações de que sou a pessoa mais azarada do universo, teve revista piaui na rodoviária tão sem culpa.

Teve o primeiro sinal que os últimos cinco anos e meio não foram de todo inúteis, que minhas mãos não são de todo incapazes. Dentro de toda escuridão da falta de perspectivas do ano que vem, aconteceu o primeiro facho de luz: e ele se dirige para a Califórnia brasileira, terra de tantas lembranças boas, lar de pessoas queridas e cabeça-de-ponte para tantos outros projetos ambiciosos.

São tantas alegrias, mas alegrias meio claricianas: meio patéticas, daquelas que ficamos com ela na mão sem ter com quem dividi-las. E não queiram entender que essas pessoas não existam - elas existem, são tantas e estão tão presentes no meu cotidiano nas últimas semanas que até parece ingratidão dizer coisa assim. Mas fica um espaço, uma coisa ausente que não sei explicar: de ligar, preguiçosamente, e entre o cansaço da manhã e o projeto de domingo dizer foram-72-pontos-acho-que-dá.

Mas passa, isso que é bom.

Porque, nestes quarenta dias que faltam, veio a certeza que estou finalmente pronto para partir. Bateu o vento, o recorrente vento da velha Kite, perdida no céu. Abro os braços quanto posso, para que eu vá mais alto, mais longe, pois sei que a corda que me sustenta é firme. Pois sei que o campo é vasto. Pois sei que isto tudo não é nada além de outro reinício.

E fico bem.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Perdas e danos

Engraçado que nas últimas semanas o que só tenho acumulado são perdas: em diferentes níveis, de diferentes maneiras, em diferentes graus de intensidade. E o exercício que se faz de todo o processo é cair de pé, praticamente impassível. Só não avisaram que cair de pé também implica em estourar artelhos, arrebentar o tornozelo e sentir cada ligamento estirar de uma forma, sabe lá, irreversível.

Mas sempre acreditei na elasticidade, na plasticidade e na minha imensa capacidade de cicatrização. E depois de uma semana um tanto atordoada, cada coisa vai ocupando (meio assim, no gerúndio) seu novo lugar. Não faltaram braços longos para me afagar quando precisei e novos planos que se abrem na iminência destes vários ciclos que, juntamente, se fecham, que se superpõem e os vejo, meio sem controle, acontecerem.

E na verdade, ainda meio bambo e torto. Esboçando uma confiança simulada num futuro que nem sem com qual cara terá, nem se seria melhor que isso aqui que estou chafurdado, nem se deveria apostar tão alto sem saber se sairia vivo de outra (ou a mesma, enfim) dangerização emocional. Mas dentro de tantas perdas, tantos danos, quando a sorte vira e pequenos ganhos voltam a acontecer, a sensação é de que tudo está como antes - meio perturbado e bagunçado, mas aquilo ali na essência.

Como "Open your eyes", num junho radiante. Como voltar para casa no Natal. Como relembrar velhos shows, velhos porres, contando os 50 e poucos dias para o fim que nem é tão fim, meio começo, dependente dos olhos de quem vê...

segunda-feira, novembro 05, 2007

Feels like honey


Há qualquer coisa de "Lost in Translation" nessa foto que não sei explicar. E me deu uma vontade tremenda de bater uma foto semelhante na minha breve e futura passagem por Sampa. O local é o terraço do Hotel Unique.
Outras duas fotos obrigatórias são: uma na estação Paraíso e outra na estação Liberdade do Metrô.

sábado, novembro 03, 2007

Sex and the City

"That night I started to think about belief. Maybe it's not even advisable to be an optimist anymore. Maybe pessimism is something we have to apply daily, like moisturizer, otherwise how do you bounce back when reality batters your belief system, and love does not, as promised, conquer all? Is hope a drug we need to go off of, or is it keeping us alive? What's the harm in believing?"
(Sex and the City)

[ao som de Toda Cura para Todo Mal - Pato Fu, principalmente No Aeroporto]