terça-feira, outubro 30, 2007

Fragmentos

Primeiro, o atordoamento.
Depois, a imobilidade.
Daí a negação, o fracasso.

E não sei de onde veio uma forcinha. Meio besta.
Daquelas mais sem esperança.
Da que eu não deveria ter.
Nem pensar.

Meio contra os princípios, sabe?
Mas o que hei de perder, além de tinta no papel
Um pouco de orgulho
E a possibilidade do reencontro.

Amanhã é dia de plantão
Madrugada a dentro, a fora.
Tanta gente grave nas minhas mãos inocentes.

Mas quinta vai chegar
O Sol pousará seu brilho certeiro.
Meio "Zero Grau de Libra":

"(abençoa) todos que continuam tentando por razão nenhuma – sobre esse que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões"

"Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse zero grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada"

E rezo, como se soubesse
Que quinta seja doce.
Que seja doce.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Caçando borboletas

Não que eu as procurasse ostensivamente, afinal, tudo o que menos esperava nesta confusão de sentimentos que se seguiam nestes dias de inverno era algo tipo. Nem também que, de completo, as ignorasse, afinal tenho também aquelas pequenas ilusões ternas: depois do teatro, cerveja no bar, conversa descompromissada e porque não dividir um pouco de sonhos e frustrações desses vinte-e-poucos-anos-vezenquando-doloridos?

Tão estranho porque nestes dias até me sentia pleno, porque as últimas horas da madrugada, quando o álcool cessa o adormecimento e viramos todos abóboras, não doíam tanto quanto costumavam. Porque o fato é que não as procurava mais em cada esquina, em cada sorriso, em cada tentativa. Aprendi que borboletas vêm quando bem entendem, suaves no ruflar de asas, que pousam imperceptíveis e desconcertam tudo aquilo que estávamos vivendo.

Daí eu viajei de susto, plena segunda, naquele intervalo entre o amanhecer e o dia-cão. Naquela estrada vazia, fui pensando em você, reconstruindo passo a passo sua imagem. Fiz um retrato de um você que ainda não conhecia: que segurasse minha cabeça cansada num dia que eu dormisse no tapete, bêbado de sono; que conhecesse meus pais, almoço de domingo, entre churrascos e histórias constrangedoras; uma pequena piada fora de hora, politicamente incorreta, enquanto voltávamos para casa num sábado qualquer.

Quando voltei, todo o estrago já havia sido feito. Eu conhecia aquela sensação, do celular que afunda em minha mão suada entre ligar e não-ligar, hesitando nas palavras com medo de passar do ponto ou de escolher logo aquelas perigosas tipo: sempre, nunca, especial. Daquele medo de escapar aquele defeito inconveniente e botar tudo aquilo que poderia ser por água abaixo. Mas decidi ir, com champagne debaixo do braço e um punhado de boas intenções. Te visitei numa casa imaculadamente branca, poucas caixas ainda fechadas, felicidades pós-mudança.


E conversamos qualquer coisa, emendamos aquela conversa de bar que pareceu que nem terminou. Quando vimos, já era madrugada alta

[texto precocemente interrompido]

terça-feira, outubro 23, 2007

Madrugada

Acordo de madrugada, porque tenho tido dias de sono inquieto - meio ansiedade por não saber o que virá: de mim, de nós; meio ainda-crise arrastando correntes pesadas na cabeça, mesmo fingindo que-não-ligo-e-sou-auto-suficiente; meio responsabilidade precoce de ter tanta gente grave em minhas mãos inábeis e inocentes.

Daí vejo que ainda faltam quase duas horas para o dia amanhecer e perco o sono. Seguro firme a respiração para não te fazer acordar e fico ali, contemplativo, observando o vagar de suas incursões respiratórias sob a luz tênue das lâmpadas de sódio da rua.

E sorrio, me aninho como posso e volto a dormir.

sábado, outubro 20, 2007

Você

Passo mais de mês sem pensar em você, acredita? E só de pensar que antigamente era quase diária a lembrança, daquelas que quase sangravam no tocar do lençol à noite, eu sozinho na minha insônia, meus pesadelos e decepções.

Passo meses sem ter notícias tuas e acho até bom. Vou bambeando nessa rotina morna, meio responsável, agregando pequenas felicidades e grandes significados. Até as lembranças perigosas tipo All Star, Caio Fernando, Paulinho Moska, etc foram sublimadas, isto é, acabei incorporando-as como coisas minhas, coisas boas, coisas que gosto tanto que nem me incomodo de compartilhá-las.

Até que. Até que volto pra esse universo meio em suspenso que costumava de chamar de lar. Volto para a cidade aonde tudo parece estar sempre do jeito que sempre esteve e me assusto. Daí dissimulo, finjo que nem vejo você online, hesito em te buscar nos confins do Orkut. Finjo não tentar interpretar tantas mensagens que tenho certeza que não são pra mim.

Te vejo na rua, tão por acaso que quase te atropelo. Acho bom minha displicência, necessária até, o que não impede do meu coração cair abismos até estatalar em chão rochoso dois passos depois de um cumprimento nada além de educado. E penso, e volto, e revolto, piso e repiso todas minhas frustrações, meu "wait and see" nada providencial, nosso desencontros de ponteiros.

Em quantos castelos construi, mesmo sem saber direito quem você é de verdade e, como te disse numa carta envergonhada, se a pessoa que construi nada mais é que um reflexo tosco de minhas mais doces divagações.

Lembro de Carrie*, naquele penúltimo episódio, quando ela liga para Miranda dizendo que está infeliz em Paris. E, que fique bem claro, não que eu esteja infeliz. Mas quando a coisa aperta, quando me vejo nestes vácuos de pequenas frustrações: é você quem volta.

Não que doa, não que me dê vontade de largar tudo correr ao telefone e talvez até dizer talvez te ame volta volta volta volta.

Às vezes acho que talvez eu devesse. Pelo menos, pra tentar finalmente matar essa sua lembrança que me assombra.

* está num forno um post tipo top 3 SATC. Aguardem, aguardem...

Correntinha literária

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abrir na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

"Trabalho com papai há quase nove anos, acho que já tenho noção do que estou fazendo"
(Curto alcance - Annie Prouxl)

Passo a bola para: Maria Anita, Régis, Leonardo, Phillipe, Camila

PS - não deixem essa corrente acabar, senão o Orkut vai ser pago!

segunda-feira, outubro 15, 2007

The beginning

Tudo se resume à começar de novo. Novo estágio, o último e derradeiro, o mais difícil e interessante - na angústia dos últimos passos para o vôo solo, confirmando certezas do que pretensamente pretendo fazer pelo resto da vida.

Novo status quo, variando entre a compreensão e raiva das limitações alheias. Bem sei que sou eu quem tem que moderar as expectativas, mas sou de carne e tão fraco: tenho os meus momentos de tentação para tocar o foda-se e vamos seguir sozinhos nesse caminho.

Novo horário: de verão. Implica em outro céu ao acordar, vejo os tons de laranja e vermelho, numa luz completamente diferente do que estou acostumado. Ver o dia terminar mais tarde, sobrando duas horas de luz ainda para outros planos - quem sabe academia, mesmo sem qualquer propósito além de descansar a cabeça.

Tudo neste breve início, com final programado para bem próximo. Mas me alegra essa impressão de novidade, para cair sem tardar muito numa rotina cansada e sem culpa. Acordei hoje com ganas de fazer novo, fazer diferente, estar mais atento para o que vier.

E que assim seja.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Ter / não ter

A lição das últimas semanas é o equilíbrio sobre as coisas que eu gostaria de ter, mas você não me dá e as coisas que nunca pedi, mas acabo tendo e são boas. Todas elas são pequenas, meio bobas, mas permeiam o meu cotidiano.

Tenho aprendido a medida do exigir, porque eu não posso te ter à imagem e semelhança de todas as minhas expectativas. Perceber isso foi doloroso, mas necessário. Sei que você não aperta minha mão no cinema, sei que você nunca vai me apresentar uns filmezinhos densos ou aquela banda de rock que vou me apaixonar.

Mas você me ofereceu o controle do portão, pegou no meu braço quando voltávamos pra casa e tem um jeito de mandar em mim que me faz ser um pouco melhor.

Aprendi que não-ter até é bom. Discordar também. E fico procurando diariamente essas pequenas surpresas que nem desconfiava, mas aquele procurar distraído que quando se vê pleim! se esbarra e estou estatelado no chão com o sorriso mais bonito do mundo.

E fico feliz.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Fight test

"I thought I was smart
I thought I was right
I thought it better not to fight
I thought there was a virtue in always being cool
So when it came time to fight..."

Foi ontem que percebi que tudo o que havia passado nos últimos anos foi uma espécie de preparação, pequenos testes. Pequenas situações problemas das quais meu dever eram tirar as lições e tornar-me mais independente, mais forte e confiante, mais capaz e certeiro. O suficiente para que eu não me implodisse quando o grande teste chegasse e, com isso, levasse tanta gente querida junto no buraco que se abrisse.

Eu não queria que fosse agora, mas só me restava enfrentar a situação, da melhor maneira que eu conseguisse.

E depois que a tempestade passou, talvez a palavra que melhor me definisse seria: dilacerado. Em frangalhos. E, pior de tudo, fingindo uma pretensa confiança, voz em meio-tom, esquivando olhares para que não percebessem tudo o que está acontecendo do lado de dentro.

Sempre acreditei que a verdade libertasse, meio redenção, meio epifania. Avisaram que o processo é doloroso, deixa cicatrizes e que talvez nunca mais sejamos os mesmos no final das contas. Mas tenho uma esperança violenta, aliás, sempre tive uma esperança violenta em todas as pessoas que me são caras. Tenho esperança que, em breve, o dia abrirá ensolarado e que todos nós seremos melhores num futuro que não demorará.

E me sinto finalmente liberto, dotado de uma coragem tão bonita, que gostaria de desenhá-la para vocês. Porque, apesar dos pesares, sinto que não estou mais tão sozinho e a vastidão desse mundo não incomoda tanto - afinal, tenho coração e força suficientes para atravessá-lo.

Sei que as coisas não são simples e que hoje é só o primeiro dia do resto da minha vida. Mas me reservo ao direito de brincar de Pollyanna e dizer: vai ser lindo, vai ser bom, vai melhorar. Só ter um pouco de fé.

"Cause I'm a man not a boy and there are things
You can't avoid you have to face them when you're not prepared"
(Fight Test - The Flaming Lips)

PS - e agradeço a todos que, perto ou longe, mandam tanta energia positiva para, nas palavras de Caio F., que seja doce.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Ironic

"Well life has a funny way of sneaking up on you
And life has a funny, funny way of helping you out"
(Alanis, outro clássico)

Lógico que eu sabia que isso iria acontecer. Já havíamos discutidos sobre isso por horas, montado estratégias, desenhado metas, escolhido planos de A até F. Mas não, nunca, que iria ser por agora.

Logo no dia +1 da melhor festa da minha vida. Logo num raro momento em que tudo parece correr sem muito esforço, as coisas estavam se encaixando sem drama nem crises, tão cercado que mais um passo à frente sufoca, tão amado que nem sei como aceitei viver sem isso por tanto tempo.

Logo agora que eu estava fazendo minha lição de casa, pisando em zonas neutras e calculando palavras.

Logo agora que havia refeito o equilíbrio frágil dessas coisas tênues, meio bestas, meio pequeno-burguesas.

Tenho medo de não haver quem apagar os incêndios subsequentes. Tenho medo do que vai surgir da caixa que essa Pandora descuidada está prestes a abrir. Tenho medo porque sei que o que será dito é irreversível, potencialmente explosivo e que talvez nem tenha remédio.

Tenho medo porque sou de carne e ela é fraca. Mas, no melhor estilo Legião, tudo bem, tudo bem, tudo bem, vamos lá.

Que isso aconteça agora, quando todos os ventos sopram à favor e braços longos não faltam pros abraços apertados, aninhando meus cabelos dizendo em voz doce: está tudo bem. Nessa iminência da virada, mundo adulto espreitando pelas frestas e a promessa de tanta coisa que está por vir.

Que isso aconteça agora, quando descobri toda minha capacidade de cicatrização e, nas palavras de uma grande amiga, aprendi que minhas mãos são capazes e tenho os pés bem firmes fincados no chão.

Qualquer coisa é só rabiscar o Sol que a chuva apagou, bem grande, giz amarelo e cores fortes. Porque, no final das contas, essa Kite aqui, depois que aprendeu o rumo do céu, não quer mais saber de voar baixo - independente das tempestades...

sexta-feira, outubro 05, 2007

Pequenas ausências

Sabe, é oito e meia da noite, ócio improdutivo no PS, pensei em te ligar. Meio assim, sem propósito, para não quebrar essa nossa rotina de encontros diários, mesmo que breves, ou duas ou três palavras quando isso não é possível. Tá, minto um pouco: te liguei ali pelas duas, você não atendeu - não que isso seja uma cobrança direta, mas sei lá, talvez tivesse algo de errado, talvez aconteceu alguma coisa e você está precisando de mim, não sei.

Ligo sem muito remorso, nada daqueles segundos infinitos de telefone suando na ponta dos dedos de hesitação de será-que-devo. Você me conta um pouco do seu dia difícil: problemas com gerente, cliente, pequenas atribulações, por isso nem atendi, desculpa desculpa. Eu digo um pouco do meu dia fácil: ninguém apareceu, dei faxina em casa, dormi um bocado, pensei um tanto em você. Sorrio, imaginando que você está sorrindo. Sabe, é estranho não se ver. Eu sei, é mesmo, coisas assim muito sem propósito. Amanhã nos vemos, tipo pizza filme pipoca né? Volto para minhas grávidas, você para sua TV. Tchau, tchau.

Passa uma hora, episódio final de novela e meio que Brasil inteiro com coração na mão. Você me liga no intervalo pra não atrapalhar, mas nem estava propriamente assistindo. Você me diz que a casa está vazia demais, sua colega de quarto viajou e está só você, a TV e essa solidão monstra. Queria escutar sua voz de novo, você faz falta, eu concordo emendando várias outras coisas tipo nunca senti nada assim e fico com medo dessa forma que você me trata porque nada nada nada deu certo pra mim até hoje e fico receoso quando tanta coisa boa chega num pacote só.

Até que ficamos em silêncio, meio constrangidos. Falo boa noite, pensa em mim, vai dormir pra descansar que você precisa. Você responde: tô torcendo pra chover e espantar todas as grávidas, mas nem vai dar nada, quando acordar me liga. Hesitamos nas saudades, mas acabamos falando - meio brega, clichê, mas enfim: não está tudo já perdido mesmo?

E destas pequenas ausências que vou construindo grandes significados.