quarta-feira, setembro 26, 2007

96 dias e contando...

Eu tinha noção do fim iminente, mas nunca ele havia se materializado num número. Principalmente um que não fosse de três dígitos, um que fosse tão próximo, um que desse essa impressão incômoda de "logo ali".

O fato é que, depois de tantas peripécias e sentimentos desencontrados, faltam menos de 100 dias para o encerramento deste ciclo. E a grande ironia é que esse momento aconteça bem quando, para mim, estou no melhor momento desta fase.

Quem me acompanha de perto sabe que minha relação com Uberlândia, a faculdade e as pessoas que me cercam por aqui sempre foram um tanto contraditórias. Que não foram poucas as vezes que quis desaparecer, vender cocos no Taiti, mudar de mala e cuia para Ribeirão, fugir para Europa ou coisa parecida. Mas agora, hoje, dentro de tudo que consegui construir nesses últimos meses, a única coisa que quero e penso é ficar.

Tenho certeza de que construi o universo mais belo, na medida das concessões que me permiti fazer e dentro dele me sinto seguro e satisfeito. Tenho certeza de que a vida que sempre quis não está do jeito que deveria, mas pelo menos está no caminho de. Tenho certeza de que guardarei a lembrança mais terna destes dias cáusticos e ensolarados.

E o que me frustra, quase diariamente, é que tudo isto terminará nestes malditos 96 dias. Obviamente que cada coisa permanecerá da sua maneira, mas não de uma forma única e próxima, tão impregnada no meu cotidiano como foi ontem, é hoje, será amanhã.

O nonagésimo sétimo dia é um vácuo, uma escuridão, um abismo fundo de não saber o que encontrar ou o que vai permanecer. Não estou preparado para abrir mão de tanta coisa que me faz bem, faz-me sorrir gratuitamente e me reúne coragem para finalmente resolver algumas decisões críticas em minha vida.

E esse passar lento dos dias, pingando cada vez mais próximo do último, será doloroso por saber que cada dia é um dia a menos, dentro de tanta coisa que eu gostaria de fazer. Mas não contarei isso a ninguém - exibirei meu sorriso mais brilhante, numa felicidade aparente pelo objetivo cumprido, enquanto fico meia hora insone antes de dormir, rolando na cama, pensando no que farei quando o último dia chegar...

quarta-feira, setembro 19, 2007

Inventário

Lógico que isso aqui acaba sendo o monótono registro das minhas idiossincrasias, das minhas frustrações e um inventários dos relacionamentos mal-sucedidos. Mas também acaba sendo o registro histórico de minhas histerias, minhas dificuldades e, principalmente, da forma que eu lido com o mundo e as formas que tento driblá-lo.

Pensei muito nisso esses dias pois não tirei Belle and Sebastian da minha vitrola essa semana. Passei pelo Tigermilk, o The Boy with the Arab Strap e até terminar no If You're Feeling Sinister. E, por causa disso, lembrei do finado Get me away from here..., meu primeiro blog e dos primórdios do Martini Seco.

Aquela época era recheada de pequenas dificuldades, todas teóricas e estáticas. Era uma época em que eu via o mundo passar, esperando a oportunidade para pular para dentro do bonde. Uma época em que havia uma possibilidade de liberdade imensa, mas não sabia como usufrui-la. Época de avalizar os riscos, mas ser incapaz de assumi-los com medo de perder algo no meio do caminho.

Hoje as dúvidas são bem mais práticas - muita coisa se perdeu no meio do trajeto e percebi que, no final das contas, são poucas coisas que importam quando fechamos a contabilidade dos fatos. Hoje as questões são menos românticas, as expectativas são um pouco menores e triste até fico às vezes, mas é mais uma melancolia saudosa que tristeza que fato. Penso no emprego e imposto de renda, leio menos Bandeira e mais livros médicos, encontrei-me no mundo das epidemias e bactérias.

Aprendi a reconhecer meus platonismos doces. Enxergar as pessoas mais como elas são do que como eu gostaria que elas fossem.

Aprendi um jeito de ser doce e amado, que tudo é uma mera questão de se permitir.

E aprendi que as coisas estão longe de ser pontuais, mas na maioria do tempos elas são simples. Hoje transpareço uma tranquilidade que em certos momentos chega até a ser irreal, mas que me ajuda a redirecionar meus passos nesses dias tão confusos que estou vivendo.

Hoje, sei que apesar de não saber para onde vão, meus passos são firmes. E que, independente do que aconteça, eles nunca serão de todo solitários...

quinta-feira, setembro 13, 2007

Caçando borboletas (2)

... foi quando vi que tudo estava perdido. Havia roubado duas rosas daquele jantar, roubei-as porque pensei: são tão lindas que merecem ser dadas para alguém - e imediatamente me lembrei de você. Estava surpreendentemente social: camisa, calça do terno, cabelo or-de-na-do, tão impecável porque você que me vestiu, afinal, bem sabes que pouco sei além das T-shirts and jeans. Nem na sua casa iria dormir, mas acho que perdi o jeito de dormir sozinho: acostumei a dormir de pés colados, calor do corpo, epidermes juntas. Estávamos subindo as escadas, você não as tinha visto em minhas mãos. E ali, na escuridão silenciosa do hall do apartamento de baixo, mostrei-as: para você, são para você, as duas. E você abriu o maior sorriso do mundo, o mais sincero, o mais transparente. Percebi que você estava numa daquelas alegrias envergonhadas, de tão grandes que ficamos até embaraçados de compartilhá-las com alguém.

"Sabe, eu nunca havia ganhado flores de ninguém"

Eu sorri, você sorriu em retorno. Foi quando você pegou na minha mão e me beijou, de estalo, alguns segundos...

terça-feira, setembro 04, 2007

Caçando borboletas (1)

"Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo cresça? Pergunto - porque não estou certo - coisas talvez um tanto primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para, quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar?"
(Os dragões não conhecem o paraíso - Caio Fernando Abreu)

Tenho pensado neste meu aprendizado de dois meses: quase nunca sozinho, mas quase sempre incompleto.

E, dentre tantas confusões e incertezas, reconheci aquilo que busco: elas, as borboletas.

E este arrepio, esta vertigem de incerteza me faz dormir menos, estudar menos e até rever planos tão minunciosamente desenhados.

Tenho vontade de escrever cartas tolas, ao som de Nara Leão.

Tenho medo, tanto medo, tanto medo: e querem saber? É tão bom...