quinta-feira, agosto 30, 2007

Um retorno

Era segunda-feira e pegava estrada logo quando o Sol amanhecia. Para mim, o nascer do Sol mais lindo que eu já tinha visto: imensa bola vermelha pendurada no céu, vagos tons de amarelo, laranja e rosa a recortar o céu.

A estrada, vazia e taciturna. Cruzava-a enquanto o dia iniciava, tão cansado de um final de semana pouco cristão. Mas era presenteado com todos os ipês amarelos arrebentando em flor, contrastando com a vegetação rasteira e seca deste agosto (pra minha benção) que não termina.

Voltava para casa numa situação inédita: porque precisavam de mim. Não que tivessem pedido. Mas pela primeira vez eu, filho, subverteria a ordem de carinho e voltaria para casa para tomar conta de minha mãe.

Antes que me indaguem: nada grave, nada urgente. Só um procedimentozinho simples, mas que necessitava internação, centro cirúrgico e toda aquela rotina potencialmente amedrontadora para quem não está acostumado. Eu seria de pouca utilidade prática: só ir lá, segurar a mão firme e dizer com minha voz tranquila que tudo daria certo e não havia com que se preocupar.

E assim fiz. Encontrei minha mãe, dentro daquele verde asséptico tão característico dos ambientes hospitalares, com um vago ar fragilizado. Obviamente, ralhou comigo por ter desabalado em plena segunda-feira, dia de escravidão, para vê-la numa coisa-à -toa. Mas logo depois, abriu um sorriso tão ensolarado, meio cúmplice, meio constrangido, inteiro feliz: por eu estar ali, por eu ter-me preocupado e, quem sabe talvez, sentisse segurança em minhas mãos.

Tudo correu como deveria e, por causa de malabarismos de escala, ainda consegui permanecer mais um dia em casa. Dormi um sono pesado e sem sonhos - esgotamento mental puro - para acordar no outro dia com minha mãe deitada ao meu lado, chamando-me para almoçar, como fazia quando ainda morava com ela.

E, enquanto eu estava naquele estado entre-sono, disse-me em voz baixa: te amo, viu? E quis desmontar de tanta ternura, porque nunca senti tanta verdade numa voz. E me senti adulto e capaz, feliz pelas minhas escolhas e pelos minhas atitudes. E juro que, se eu tivesse um coração um pouco mais mole, teria desabado a chorar...

... porque lembrei daquela carta que um dia ela havia me mandado. Por ser a época dos ipês.

Por perceber que todo amor que sinto por ela, pelo meu pai e pelo meu irmão é incondicional...

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