terça-feira, agosto 21, 2007

Belo belo

O que eu quero não é difícil nem fácil. O que eu quero não tem rosto, não tem gosto, não tem sabor. O que eu quero não cabe dentro de uma idealização romântica. O que eu quero não pode ser edificado, ou guardado numa caixa, ou talvez engarrafado. O que eu quero não pode ser mandado para viagem, nem mesmo descrito num bilhete curto, nem guardado num lapso fotográfico. O que eu quero não é partidário, não é revolucionário, não salvaria ninguém das próprias insônias.

O que quero é mais ou menos aqueles dois segundos que antecedem quando pulei de bungee jump, tipo vertigem de morte. Aquelas borboletas no estômago daquele primeiro beijo tão vertiginoso. O coração na ponta dos dedos dos loucos mais passionais. Quero o silêncio cortante das praias desertas, o último desespero de quem se afoga, o alívio depois de um parto normal.

Quero mesmo é sentir. Quero mesmo aquilo que chacoalhe as estruturas, me bote em dúvida sobre tudo aquilo que um dia eu acreditei. Eu não importo o que seja, só não seja morno. Basta desta vida morna.

Eu quero mesmo é Vida. Essa mesmo, Vida.

Maiúscula.

"Quero Quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco"
(Belo belo, Manuel Bandeira)

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