segunda-feira, julho 16, 2007

#1/2 - As cinzas

"Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta?"
(Mário Quintana)

Era noite fria de julho, em volta de uma fogueira em brasa. Todos cantam Vinícius, depois de uma caixa e meia de cerveja. Boas companhias, cada um com seu significado pessoal: umas saudosas, outras cúmplices. Festa até agradável, acima da média, coisas assim.

Já era final, só restavam brasas e as cinzas. Nem parecia que ali havia uma fogueira, dois metros de altura, tanto calor que mal se podia chegar perto. Mas já era alta madrugada e sobrara um calor convidativo, tão convidativo que sentamos cada um com seu copo, cada qual com suas lembranças. Começou com Cartola, aquela que Cazuza também cantou: ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida... Depois emendou o velho Vinícius, cantando os amores tristes e errados, as paixões redentoras e pungentes. Cantou a boemia do Rio, a tristeza dos dias nublados...

... e não sei se foi a noite tão estrelada, aquele frio de estralar os dedos, a cerveja que já ia subindo, a metáfora das brasas, meu estado de culpa crônica, a bossa nova, essa nostalgia pelo final iminente. E naquela noite, todo esse estado não era pela minha insistência crônica pelos amores difíceis e inconclusos. Era por aquele momento fotográfico do "talvez seja a última vez que", ou talvez "apesar dos pesares, estamos aqui".

A metáfora da noite, pensei, era o fato que estávamos todos ali, como de certa forma um dia fomos. Aquecidos por aquelas brasas de brilho lúgubre e quase sem beleza - mas era só daquilo que precisávamos no momento. As brasas nos bastavam, mantiam-nos unidos. Comecei a relembrar as mesmas músicas em outros lugares, outras paragens, de como nem gostava de bossa nova num período tão remoto assim. De como todos ali participaram na minha formação como indivíduo adulto, apesar do passo principal desse processo fosse um rompimento e todas as mágoas recorrentes.

Lembrei dessa frase de Mário Quintana, fechando o último livro do padrinho Caio. Quando se passa a régua, o mais importante é cantar, é cantar junto...

E que perdoar é uma das coisas mais divinas que há no mundo.

E perdoei.

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