domingo, julho 29, 2007

# 2/2 - Último Episódio

Se fosse o último episódio, começaria num aniversário, onde cinco velhos amigos finalmente estavam se reunindo depois de meses separados. Sempre se encontravam, mas separadamente. O clima era agradável, afinal havia a arqueologia de velhas histórias deliciosas, cerveja gelada, música rolando. Mas a festa era um pouco agridoce pois, como diriam os créditos iniciais, o nome do tal episódio seria "Éramos seis".

Sim, éramos seis. Seis grandes amigos, daqueles de compreensão apenas com um olhar. E, nesta temporada, um deles se fora já fazia alguns meses e os outros cinco não podiam reunir sem citar, e também lamentar a sorte (dele, nossa), do que se fora. As meninas logo argumentaram que tudo ocorreu por causa de um favor negado. Os meninos, por causa de uma má companhia específica que envenenou seu julgamento. Na verdade, as duas razões eram complementares. E os cinco concluiram que, o que mais doía, era saber que haviam perdido o sexto. Que não tinha remédio. Que não tinha volta. E que, bem provavelmente, era para sempre.

E todos ali sabiam que não era a primeira perda. Refazendo a lista, outras três ou quatro pessoas fascinantes e enriquecedoras tinham ficado pelo meio do caminho desta forma. Tá, talvez não pelo meio: mas escolhido outro, naquelas bifurcações que se seguem. Sempre acreditamos que fomos nós que escolhemos o ensolarado e sempre fica aquele gosto de cabo de guarda-chuva por não ter sido bons o suficiente para mostrar que o lado de cá, por incrível que pareça, era o melhor.

Mas a sensação agridoce era passageira. Porque naquele aniversário, não éramos apenas cinco. Novos integrantes puxaram a cadeira nesta temporada, mostrando seu novo valor e conquistando espaço de tal forma que comentávamos: como conseguíamos passar sem a companhia deste ou daquela? Naquele aniversário tranquilo, música baixa e cerveja de lata, percebemos que ali éramos aproximadamente dez. Sem contar os faltosos, aqueles que esbarramos pelo caminho, aquele que encontraremos num futuro breve. Éramos cinco, mais intensamente ligados pela perda, irresistivelmente presos ao mesmo destino mesmo que os encontros sejam mais eventuais devido à loucura dessa vida pré-adulta.

Somos cinco, de mãos juntas, peito aberto e toda uma vida pela frente.

***

Quanto ao narrador, taquicardia do início ao fim. Recapitulando os últimos episódios; primeiro, uma viagem onde se encontra a última coisa que esperava naquele momento: uma possibilidade de. Daquelas desenfreadas, borboletas no estômagos, insônias recorrentes e Murphy correndo solto: distância, cirurgias, reconciliações. Depois, outra possibilidade: teoricamente, tudo aquilo que eu sempre desejei que acontecesse aqui perto, cinco quilômetros e sem todas aquelas complicações recorrentes; na prática, faltou aquele degrau do qual caímos sem ver e só vemos quando estamos lá dentro, lá no fundo, completamente reféns. Por último, um reencontro com o passado: o episódio já citado das cinzas, uma pequena reconciliação com esse mundo que criei e que agora está nos seus estertores finais. Além deste, um reencontro com meu passado sempre recorrente depois de seis meses de desencontros: velhas conversas, velhos signos, velhas questões que levanto sem poder colher a resposta imediatamente. A certeza que velhas coisas nunca mudam e que o encanto, aquele de anos atrás, ainda permanece tão magnético...

Que surpresas reservam a próxima temporada? Vai saber...

***

Daí, ele se lembra:

Primeiro dia de viagem, por volta das quatro da manhã. O lugar tinha qualquer coisa de calabouço - escuro, umas correntes, parede baixa. A música ao longe, o suficiente para ser escutada. Havia um silêncio entre eles, mãos entrelaçadas enquanto outro assunto não vem, aquele sorriso besta só de colocar os olhos nos outros olhos e ter o mesmo sorriso besta em troca. Daí, começa "Open your eyes", Snow Patrol e digo:

- Sabe, eu gosto tanto desta música.
- Sério?
- Sério.

E as mãos entrelaçadas às minhas se soltam, pondo-se em meu rosto levemente. Na mesma voz doce, continuou:

- Então eu quero te beijar por essa música inteira, para que você se lembre de mim toda vez que ela tocar.

E me beijou, por intermináveis cinco minutos.

E assim foi, está sendo e, pelo que me conheço, sempre será.

terça-feira, julho 24, 2007

# 1/2 - O último episódio

Ainda sob o efeito do último episódio de Sex and the City, tenho pensado muito na minha vida. De como essa última semana, de ócio absoluto e improdutivo, funcionou como um último episódio da idiossincrática temporada da minha vida. Mas isso é tópico para outro post.

Penso em últimos episódios, sempre cheio de ganchos para a próxima temporada. Mas normalmente últimos episódios são felizes. Nos últimos episódios, todo o sofrimento passado é convertido em felicidade numa pequena epifania e os ganhos dos sacrifícios são pagos, até a última gota.

Minha grande questão é: será que é mesmo assim?

Somos condicionados por Hollywood, as religiões ocidentais, a literatura barata de auto-ajuda e os ditados clichês que todo sofrimento tem seu preço. Que todas as nossas dores de cabeça, se formos suficientemente éticos e bons, resultarão num happy ending. Que se formos bons cristãos, não importando o quanto apanhemos, é passagem garantida para o céu. Na lógica do ditado que plantamos o que colhemos, nosso vinhedo das boas intenções frutificará independente do mau tempo.

E se as coisas não forem exatamente assim? E se esse universo não for regido por essas leis, que só beneficiam os pobres coitados, inocentes feridos e os bem-intencionados? Se essa selva cruel for tão somente cruel, o mundo for mesmo o lugar dos espertos e, naquele ditado orkutiano clássico, os bonzinhos só se fodem e ponto final.

Confesso que mesmo sendo este agnóstico convicto, cético na maioria dos assuntos, eu acredito de certa forma nesse balanço cósmico. Ajo com tranquilidade no dia de hoje, esperando que essa ação reverbere em bons frutos num futuro próximo. Sou tão inocente, a ponto de acreditar na maior parte das boas intenções das pessoas. E sinceramente acredito que algumas das minhas dívidas serão pagas e só me resta aguardar, tranquilamente com uma cerveja na mão, enquanto a espada da justiça não chega.

Porque gosto da minha ilusão de que minha vida é um pouco cinematográfica e, no final, tudo fará sentido e compensará no final. Agora, só falta escolher a trilha sonora...

quarta-feira, julho 18, 2007

Nota mental

"Nos refugiamos en la nostalgia cuando sentimos que nos abandona la esperanza, porque la esperanza exige audacia y la nostalgia no exige nada"
(Eduardo Galeano)

# 2/2 - As cinzas

"É quando teus amigos te surpreendem
Deixando a vida de repente
E não se quer acreditar
Mas essa vida é passageira
Chorar eu sei que é besteira
Mas, meu amigo, não dá prá segurar"
(Vida Passageira - Ira!)

Sabe amigo, sei que há muito tempo você perdeu o hábito de ler isso aqui. Fiquei enfadonho, desinteressante. Um tanto moralista, um tanto ácido demais. Você me disse: eu perdi aquela capacidade de acreditar nos outros sem reservas, de dar a cara para bater sem medo de apanhar. E eu sinto falta daquela época, nos primórdios da faculdade, quando as músicas eram só músicas, os porres eram só porres e não tínhamos toda essa bagagem emocional para carregar.

Sei que nos distanciamos, sei que nos magoamos, sei que dissemos coisas tolas só porque éramos orgulhosos demais ou incapazes de reconhecermos nossos erros. Sei também que muitas vezes te julguei levianamente, da forma que você sempre odiou que os outros te tratassem. Mas eu estava errado.

Porque não sei como eu seria sem sua influência direta. Esse meu jeito direito de andar, aprendi contigo. Aprendi a deixar o cabelo tipo Strokes, aprendi a gostar de bossa nova e sertanejo, a fumar pito de palha e ser um pouco mais sociável. Aprendi a gostar de All Star, cantar "Stand by me" em duas vozes, não estudar para provas idiotas. Aprendi a ter coragem e não aceitar passivamente tudo que me oferecessem.

Hoje entendo que precisei passar por isso tudo para valorizar o que sua amizade significou para mim. Faço uma coisa que raramente consigo, porque sou irremediavelmente e idiotamente orgulhoso: peço desculpas. Nessas brasas, debaixo dessa lua e céu tão límpido, eu peço que você desculpe esse babaca. Há tão poucas coisa que sei nesses dias de incerteza, mas ainda bem que percebi a tempo que você é daquelas raras pessoas que eu quero levar sempre comigo, mesmo que seja só uma lembrança boa e nostálgica de alguma tarde divertida. Mesmo que não convivamos diariamente, mas que quando eu te encontrar, eu possa dar aquele abraço sincero de:

saudades tuas, cara.

segunda-feira, julho 16, 2007

#1/2 - As cinzas

"Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta?"
(Mário Quintana)

Era noite fria de julho, em volta de uma fogueira em brasa. Todos cantam Vinícius, depois de uma caixa e meia de cerveja. Boas companhias, cada um com seu significado pessoal: umas saudosas, outras cúmplices. Festa até agradável, acima da média, coisas assim.

Já era final, só restavam brasas e as cinzas. Nem parecia que ali havia uma fogueira, dois metros de altura, tanto calor que mal se podia chegar perto. Mas já era alta madrugada e sobrara um calor convidativo, tão convidativo que sentamos cada um com seu copo, cada qual com suas lembranças. Começou com Cartola, aquela que Cazuza também cantou: ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida... Depois emendou o velho Vinícius, cantando os amores tristes e errados, as paixões redentoras e pungentes. Cantou a boemia do Rio, a tristeza dos dias nublados...

... e não sei se foi a noite tão estrelada, aquele frio de estralar os dedos, a cerveja que já ia subindo, a metáfora das brasas, meu estado de culpa crônica, a bossa nova, essa nostalgia pelo final iminente. E naquela noite, todo esse estado não era pela minha insistência crônica pelos amores difíceis e inconclusos. Era por aquele momento fotográfico do "talvez seja a última vez que", ou talvez "apesar dos pesares, estamos aqui".

A metáfora da noite, pensei, era o fato que estávamos todos ali, como de certa forma um dia fomos. Aquecidos por aquelas brasas de brilho lúgubre e quase sem beleza - mas era só daquilo que precisávamos no momento. As brasas nos bastavam, mantiam-nos unidos. Comecei a relembrar as mesmas músicas em outros lugares, outras paragens, de como nem gostava de bossa nova num período tão remoto assim. De como todos ali participaram na minha formação como indivíduo adulto, apesar do passo principal desse processo fosse um rompimento e todas as mágoas recorrentes.

Lembrei dessa frase de Mário Quintana, fechando o último livro do padrinho Caio. Quando se passa a régua, o mais importante é cantar, é cantar junto...

E que perdoar é uma das coisas mais divinas que há no mundo.

E perdoei.

quarta-feira, julho 11, 2007

Open your eyes

Por andar distraído, diria a madrinha Clarice. De espírito leve, sem culpa e sem compromisso, expectativas basais e, porque não dizer, péssimas intenções? Até que, quando menos se esperava, encontrei aquilo que há dois anos não sentia: identificação quase instantânea, corpos praticamente complementares, um senso de humor discreto, um senso de liberdade acima do comum, daquelas coincidências estranhas das frases que se completam e das histórias que gostaria de escutar por horas e horas e horas.

Pouco aconteceu, na verdade. Dois encontros, algumas promessas vagas, talvez nos vemos nas próximas semanas. E dentro deste não-acontecer, as coisas foram acontecendo internamente. Borboletas no estômago, planos de viagens, pequenas expectativas. Foi um mês nesta rotina silenciosa de sorrisos gratuitos, auto-estima recuperada e espera sem pressa. Foi quase um mês completo gerando positividades e trocando os fantasmas do armário.

Mas são pequenas epifanias, do meu padrinho Caio F. São amores em copos de café: instantâneos, fugazes - mas tão lindos que não há como não ficar encantado com tanta beleza que se mostrou. Porque foi novamente cinematográfico, porque foi intenso sem ser piegas, porque fez reencontrar chaves que jurava ter perdido. Não tem preço ter tido o olhar mais terno posto em mim tão gratuitamente que, de lembrar, aperta o coração.

Não, não sou de jogar, por assim dizer, uma paixão tão instantânea e especial pela janela pela impossibilidade dela se concretizar no momento. A vida continua - prossigo bambo e torto, um pouco mais dolorido quando Los Hermanos ou Snow Patrol toca, imerso nesta rotina absurda e sem perspectivas. Mas prossigo menos cínico e um pouco mais crente de que, quando menos se espera, esbarramos com uma possibilidade tão brilhante que reilumina os caminhos e dá essa vontade simples de - nem sei...

E, desta mesmíssima forma, aguardando distraidamente que o destino arrume outra oportunidade dessas - num momento favorável, na mesma cidade, num futuro próximo. Num bar qualquer, à meia luz, Sinatra rolando melancólico ao fundo. Na mão, um copo de Martini, duas azeitonas. Borboletas no estômago, sem saber o que há por vir.

E ver você chegar, como se nada tivesse acontecido, com a melhor cara do mundo e ...

quinta-feira, julho 05, 2007

Fora dos planos

Se meu horóscopo, tão consultado estes dias, quisesse ter acertado em cheio era só falar: não planeje, não pense, deixe fluir. O acaso quis que meu final de semana passado passasse de um idílico Before Sunset particular para gravação de DVD sertanejo para festa entre amigos numa fazenda a 50 km de distância em estrada de terra da civilização. Todas estas reviravoltas num prazo de dois dias.

Não, não que tenha sido ruim. Mas essa semana, ainda mais na viragem para o temível segundo semestre, deixou-me um tanto atarantado em pensar no limbo que o próximo ano se revela. No melhor estilo Legião, só sei do que não gosto. Posso estar em Brasília ou Amazônia, interior de Goiás ou São Paulo, São Paulo capital ou Ribeirão Preto, de volta para casa dos meus pais ou mochilando pela Europa. E não cito todos estes destinos só pelo efeito de enumeração: é sério.

E é da minha natureza planificar. I wanna a perfect body, I wanna have control. Neste caos, não sei se mergulho de cabeça em outra daquelas paixões arrebatadoras que só acontecem a cada dois anos, se me mato de estudar enquanto é tempo ou se aproveito a vida em cada intervalo possível.

Ou se, tão somente, deixo a vida me levar pra variar. Mordendo tampas de caneta a torcer para que o melhor caminho se revele...