segunda-feira, junho 11, 2007

Paraíso tropical

[atualizado com os links...]

(mais ou menos baseado em Mel & Girassóis, Caio Fernando Abreu)

Porque era quase férias. Porque era a desculpa perfeita para se fugir dos problemas, dessa vida que pesa tanto diariamente sem ter por onde escapar. Porque é preciso conhecer outras ruas, outros becos, outras avenidas, outras iluminações só pela esperança de que algo aconteça.

Mas, de início, não havia nada próprio em mente, afinal, essas coisas tropicais sempre trazem consigo um certo grau de lascividade, putaria, exercício do ego, porres homéricos. Os dias todos tão tépidos e limpos eram um convite para o descompromisso. Tudo em volta fervilhava outras possibilidades, fugas vazias mas de entorno tão convidativo.

E nesta paisagem que poderia ser de coqueiros, bebida barata, roupas floridas, motivos carnavalesco; numa noite tão banal, música alta e balada abarrotada de tantas pessoas que mal se andava; em meio a tanta gente superficial e passageira, contrariando a lógica dos romances também baratos: lá estava você.

Depois vieram as histórias de Montecarlo e Praga, a loteria suíça, os cassinos na California e tantas outras coisas pequenas que agora não vou lembrar. Aquele olhar doce pousado em mim, só em mim, só de soslaio para que eu não percebesse. Todos os desencontros e, a cada vez que perdia as esperanças, sempre encontravas um jeito de me dizer: ainda estou por aqui. Algo que o Caio mesmo genialmente colocou como "pequenas epifanias". Tão pequenas e ínfimas, tão ridicularmente pequenas que às vezes sinto-me culpado de percebê-las.

Porque através delas que faço planos impossíveis, tipo loft na Haddock Lobo, uma viagem largando-tudo-e-partindo-no-primeiro-vôo-a-Berlim, acordar afogando em edredons com sua epiderme entre meus dedos. Passo noites em claro, preparando tantos sonhos lindos que nunca frutificaram. E dentro de todo este processo, a esperança mais inocente que talvez o acaso ajude, talvez dessa vez seja diferente...

Mas não importa, nada importa dentro destes dias de paraíso tropical. Ao fundo, toca "Open your eyes" e você me diz: me beije durante toda música, para que assim você se lembre de mim a cada vez que escutá-la. Não importa que essas possibilidades de amor doam tanto dentro dessa impossibilidade de distância e outros compromissos, voltar chorando silenciosamente no banco de trás do táxi rumo ao aeroporto e o retorno a nada-paraísos nada-tropicais, corredores verdes assépticos e escravidão branca.

Para mim, o amor se materializa dessa forma estranha e paradoxal: sempre dolorosos, sempre distantes. Porém, quando se está ali dentro, tão radiantes e redentores. E porque talvez eu esteja num momento otimista ou que não exista outra escolha melhor além dessa: ainda bem que o amor existe, ainda nessa forma. Porque, às vezes, o destino erra a mão e me entrega daquelas paixões cinematográficas, figura de livro, com direito a beijo no aeroporto a la Casablanca.

Mesmo que demore.

Mesmo que não seja pleno.

Apesar das dificuldades.

Eu espero.

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