quarta-feira, junho 27, 2007

Pertencer

"Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o!"
(Clarice Lispector, Pertencer)

segunda-feira, junho 25, 2007

In bloom

E, tão de surpresa, acordar quinze minutos mais cedo que o habitual para colocar a casa em dia. Lavar toda a louça acumulada por duas semanas, guardar todos os livros espalhados pela casa no devido lugar, recolher as roupas sujas, lavar o banheiro e, porque não?, lavar todos os azulejos até branqueá-los, tirar o pó dos móveis e, nesta brincadeira, perder todo um domingo ensolarado. E nem reclamar.

E ainda amanhã é dia de comprar frutas na feira, passar na padaria para pegar um pouco de leite, presunto, mussarela, pão de forma, uma rosca doce e também no mercado para comprar um vinho doce, duas taças, sorvete e chocolate, talvez na floricultura e pegar um buquê de flores brancas para deixar o apartamento mais vivo e perfumado e quem sabe encher o tanque do carro, afinal, sabe lá Deus pra onde vamos e também créditos no celular, afinal se você me ligar e também naquela loja de velas coloridas, incenso, coisas de cheiro e para terminar, passar na locadora e reservar uns três filmes, daqueles meus prediletos, que quero que você veja para me entender melhor...

E, de repente, me vejo em meu apartamento tão ineditamente limpo, uma geladeira lotada, todo meu mundo reciclado e povoado de pequenas alegrias. Acordar cedo nem está tão difícil, cuido das crianças manhosas sem desassosego, até ando dormindo e sonhando coisas lindas no final. Faço balizas sem medo e com perfeição. Começo a papelada do Exército e, se a Marinha me pegar, que mal tem? Planejo viagens, estudo os linfomas e dentro de tantas ausências e dúvidas, tenho me bastado até bem.

O apaixonar é terapêutico - essa esfera magnética diária de otimismo, endorfinas quase horárias só pela perspectiva de. Lidando com os problemas de forma mais direta e objetiva. Vem um tanto de coragem que é perfeita para saltos, mudanças e decisões. É redescobrir todas as pequenas qualidades que, no dia a dia, você esquece que as possui. Relembrar que também sou apaixonante, também tenho esse dom de encantar mesmo que seja só por uma noite. Relembrar que também sou lindo, independente das olheiras insones e da academia que estou sempre tentando recomeçar. É um incentivo para superar, de certa forma, todos aqueles problemas emocionais insolúveis que há tanto estão presos no armário.

Mas, infelizmente, as paixões acabam. E o grande desafio é manter esse estado, de alguma forma, presente quando ela terminar. É impedir que tanta coisa linda que foi redescoberta, tanta mudança imprimida, simplesmente desabe quando o final chegar. Mesmo que a visita nunca chegue, o telefone não toque mais, toda aquela magia acabe.

Porque o que foi revelado nunca deveria desaparecer.

E se depender de mim, não vai.

sábado, junho 16, 2007

Sentimental

"Eu só aceito a condição de ter você só pra mim
Eu sei, não é assim..."

Mas há a realidade. As crianças enfermas, daquelas que mijam e vomitam no seu jaleco antes imaculadamente alvo. Existe um resfriado daqueles, trinta-e-oito-graus-e-meio de pura diversão e mialgia em plena quarta-feira. Pequenas obrigações irritantes, tipo contas de telefone, as confusões da CEMIG, além das contas que não fecham porque eu, digamos, gastei demais do que deveria. Existe a reunião com o Exército e a simpática possibilidade do próximo ano ali, entre a fronteira do Brasil com a Colômbia, entre araras e Plasmodium falciparum (pros íntimos, dona Maleita, malária).

Faltam quatro semanas para o mid-term e, ao reinício, o derradeiro período da faculdade e toda a promessa do ano perdido se concretizando em horas de escravidão branca naqueles corredores tão longos, tão frios. Existe todo o caos na minha cabeça da vida Adulta se aproximando enquanto existem tantas outras coisas para serem feitas antes de eu ser "seguro e responsável".

Dentro de tudo isso o coração vai batendo mais devagar, é fato. Houve o romance, houve a magia, houveram as coincidências e as promessas. Mas o que fazer quando existe quase um estado de distância, dificuldade telefônica e talvez um certo exagero nas tintas daquilo que realmente foi vivido?

Não que isso seja uma desistência, mas a vida tem que continuar. Porque, apesar do vazio que fica dentro de uma série de ausências, outras dores antigas apresentam discreta melhora. Porque o que foi brilhante não se apaga e, como disse antes, se o destino erra um pouco a mão talvez, talvez...

E como eu sou um sentimental, ainda há a esperança. Um breve reencontro. Uma curta viagem. Uma noite, com as mãos pousadas aonde meu cabelo se enche de cachos. Esperancinha sem culpa, na verdade. Porque não há como esquecer aquele abraço forte, dizendo que já estamos distantes de tudo. É dele que me lembro, às duas da manhã em pleno plantão entediante.

Cantarolando Los Hermanos.

E fico bem.

"... mas deixa eu fingir e rir"
(Sentimental - Los Hermanos)

segunda-feira, junho 11, 2007

Paraíso tropical

[atualizado com os links...]

(mais ou menos baseado em Mel & Girassóis, Caio Fernando Abreu)

Porque era quase férias. Porque era a desculpa perfeita para se fugir dos problemas, dessa vida que pesa tanto diariamente sem ter por onde escapar. Porque é preciso conhecer outras ruas, outros becos, outras avenidas, outras iluminações só pela esperança de que algo aconteça.

Mas, de início, não havia nada próprio em mente, afinal, essas coisas tropicais sempre trazem consigo um certo grau de lascividade, putaria, exercício do ego, porres homéricos. Os dias todos tão tépidos e limpos eram um convite para o descompromisso. Tudo em volta fervilhava outras possibilidades, fugas vazias mas de entorno tão convidativo.

E nesta paisagem que poderia ser de coqueiros, bebida barata, roupas floridas, motivos carnavalesco; numa noite tão banal, música alta e balada abarrotada de tantas pessoas que mal se andava; em meio a tanta gente superficial e passageira, contrariando a lógica dos romances também baratos: lá estava você.

Depois vieram as histórias de Montecarlo e Praga, a loteria suíça, os cassinos na California e tantas outras coisas pequenas que agora não vou lembrar. Aquele olhar doce pousado em mim, só em mim, só de soslaio para que eu não percebesse. Todos os desencontros e, a cada vez que perdia as esperanças, sempre encontravas um jeito de me dizer: ainda estou por aqui. Algo que o Caio mesmo genialmente colocou como "pequenas epifanias". Tão pequenas e ínfimas, tão ridicularmente pequenas que às vezes sinto-me culpado de percebê-las.

Porque através delas que faço planos impossíveis, tipo loft na Haddock Lobo, uma viagem largando-tudo-e-partindo-no-primeiro-vôo-a-Berlim, acordar afogando em edredons com sua epiderme entre meus dedos. Passo noites em claro, preparando tantos sonhos lindos que nunca frutificaram. E dentro de todo este processo, a esperança mais inocente que talvez o acaso ajude, talvez dessa vez seja diferente...

Mas não importa, nada importa dentro destes dias de paraíso tropical. Ao fundo, toca "Open your eyes" e você me diz: me beije durante toda música, para que assim você se lembre de mim a cada vez que escutá-la. Não importa que essas possibilidades de amor doam tanto dentro dessa impossibilidade de distância e outros compromissos, voltar chorando silenciosamente no banco de trás do táxi rumo ao aeroporto e o retorno a nada-paraísos nada-tropicais, corredores verdes assépticos e escravidão branca.

Para mim, o amor se materializa dessa forma estranha e paradoxal: sempre dolorosos, sempre distantes. Porém, quando se está ali dentro, tão radiantes e redentores. E porque talvez eu esteja num momento otimista ou que não exista outra escolha melhor além dessa: ainda bem que o amor existe, ainda nessa forma. Porque, às vezes, o destino erra a mão e me entrega daquelas paixões cinematográficas, figura de livro, com direito a beijo no aeroporto a la Casablanca.

Mesmo que demore.

Mesmo que não seja pleno.

Apesar das dificuldades.

Eu espero.

domingo, junho 03, 2007

Love letter

(27 de abril de 2007)

"Whenever I'm alone with you,
you make me feel
Like I am home again"

Talvez seja difícil para eu explicar: porque eu não entendo o que sinto, porque eu não entendo o que quero, porque eu não sei quanto de você sobrou em você depois de tanto tempo. Vario entre a indiferença debochada e a devoção contida. Hesito milhões de vezes somente para dizer um oi lacônico. Finjo que esqueço coincidências, ah faz tanto tempo, tergiverso, só esperando para ver qual sua reação.

Tive calafrios quando você resgatou aquele texto antigo que escrevi só para você. Eu me lembrei de quando descobri aquelas suas manchas na íris, tocava "Yellow" ao fundo e você me dizia: "for you I'd bleed myself dry. You know I love you so".

Saio para beber e fico bêbado, só não fumo por questão de princípios - mas deixo a cadeira do meu lado vazia, esperando você chegar. Torço para que o acaso nos coloque frente a frente só para escutar novamente sua voz e perceber, nos seus olhos, os reflexos e as sombras. Faço contas malucas das minhas idas e vindas, do que me reserva o destino ano que vem. Tento te encaixar, mesmo sem te consultar, nessa minha vida tão desocupada de coisas e carregadas de sentimentos.

Acordo todos os dias tão cedo que me assusto com tanta disciplina. Ainda rolo de banda na cama, sabendo que aquele espaço não me pertence e só está assim por mero acidente do acaso. Faço planos: talvez aprender a comer peixe, afinal imagino que você goste; talvez juntar dinheiro pra ir a qualquer lugar dos trópicos; talvez aprender a ser menos inseguro, mais doce e menos crítico.

E dentro de tudo isso, eu já te disse hoje: eu te amo?

"However far away,
I will always love you,
However long I stay,
I will always love you,
Whatever words I say,
I will always love you,
I will always love you"
(Love Song - The Cure)