quinta-feira, maio 17, 2007

Outonando

Lá fora vai outonando, deixando os dias um pouco mais frios e nossas camas solitárias um tanto mais solitárias. Início de outono, para mim, sempre foi regido pelo signo máximo da melancolia, da nostalgia e do silêncio. De nunca mais acordar, afogando nos mares profundos de edredons e sonos sem sonhos. De água gelada congelando os dedos tão cedo na manhã. De deixar a barba crescer, as olheiras surgirem sem culpa: espirros, insônias - boêmia, na verdade, bem pouca.

Esses primeiros dias de outono me lembram minha casa: ser acordado pela minha mãe torporoso de sono e, ao sair de casa, não enxergar um palmo à frente da mão de tanta neblina espessa. Lembram-me os primeiros dias de faculdade, as primeiras aulas em frente a um jardim repleto de árvores de folhas amareladas, vento gelado, dia nublado e ausência de tanta gente quando tanta gente principiava a entrar. Lembram você: noite gelada de maio, coincidências, toda aquela história que não me canso de repetir.

E dentro de tantas lembranças de coisas que não voltam mais, fica essa melancolia das coisas que foram e até poderiam ter sido, mas não voltam por diversas razões. Seja porque amadurecer é um processo irreversível, seja porque o momento não permite certos retrocessos. Talvez seja esse o signo do outono: o princípio do inverno, de ir poupando o que importa para dias mais difíceis e áridos, de perder as folhas e colher os últimos frutos enquanto a primavera não vem. Talvez seja só essa falta de perspectivas: dias cada vez mais gelados, mais curtos, mais insones.

Quanto a mim, vou indo até bem. Me pego no exemplo das paineiras, imensas e imponentes, que nessa época estão todas nuas arrebentando em flores rosas. Vou mastigando minhas melancolias, minhas melhores lembranças e costurando novas histórias, criando coragem para movimentações e, quem sabe, finalmente botar a vida nos eixos que ela verdadeiramente merece? Por causa de todos esses processos que digo: o outono é a minha estação do ano predileta...

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