terça-feira, maio 01, 2007

Demais

Porque a noite transpirava aquela outra, onde tudo começou: expectativas zero, encontro ao acaso, início de inverno a gelar pontas do nariz. Éramos outros, mais maduros, mais sofridos, sob a sombra dos amores-que-não-deram-certo. Éramos dois em movimentações evasivas, hesitando naquela indiferença programada. Digo, pelo menos eu.

Porque ao abrir aquela porta, transfigurado no pânico dos lugares que eu definitivamente não deveria estar, nunca esperava dar de cara com você. Pela primeira vez em ano e meio dividíamos o mesmo ambiente, livres e tecnicamente desimpedidos. E daí toda a confusão de sentimentos novamente se fez. O que eu sinto / acho / penso, tão debatido neste espaço que todos que me acompanham devem saber de cor. E ao mesmo tempo, essa angústia desse ano sacrificante, perdido, que me deixa de mãos atadas dentro de tantas responsabilidades.

Porque eu deveria ter pego o seu braço e dito: faz tempo, mas ainda não esqueci. Sabe, nessas noites frias e insones, quando a solidão bate e me vejo nesse apartamento enorme, meus olhos fecham e eu penso em você. Penso nas sardas na íris, em como você era insuperável depois da segunda cerveja. Em como sentia ciúmes do cigarro que fumavas tão distraídamente. No Zippo, meus porres históricos de conhaque. Nessa coisa estranha que não sei explicar, talvez amor, talvez nostalgia de meses tão brilhantes, talvez saudades da sua mão suave de unhas roídas. E que se foda o futuro, os rumos diversos que nossas vidas provavelmente tomarão em breve - porque não tentar?

Mas não consegui - porque lá no fundo, tenho medo de tanto amor tonto e bambo que sinto. Esse amor perpetrado na ausência e na impossibilidade. Na minha covardia de talvez dizer que sinto sua falta e você, tão distraidamente, dizer tudo bem, foi lindo mas baby it's over over over.

Porque eu permaneci na hesitação pseudo-indeferente, na demonstração inútil que ainda estou bem, ainda estou vivo, coisas assim. Agora, ao fundo, toca Nara Leão, que destila em sua voz rouca toda espécie de sofrimento. Engasgo principalmente em Demais:

"E é por isso que eu falo demais
É por isso que eu bebo demais
E a razão porque vivo essa vida
Agitada demais
É porque meu amor por você é tão grande
O meu amor por você é imenso
É porque meu amor por você é enorme demais..."

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