sexta-feira, maio 25, 2007

Maria Antonieta

Tenho certeza que esse é um filme do qual a maioria não vai gostar. Ou que vai gostar, pelos motivos que para mim são errados (leia: fotografia, cenários, tanta comida vistosa, Paris e Viena). É parado, quase enfadonho. Tem uma trilha sonora que não se "adequa" ao filme de época. É recheado de momentos anti-clímax, longos takes e temas aparentemente desinteressantes. Mas é Sofia Coppola. E fico fascinado com essa capacidade dela de, dentro da não-ação, construir uma história.

Me apaixonei por Maria Antonieta pela sua capacidade de construir seu próprio mundo, o seu refúgio, dentro de uma instituição tão rígida e dentro de tantas responsabilidades. Em como ela conseguia (ou tentava) cumprir suas obrigações sem ter que sacrificar por completo aquilo que acreditava.

Que, dentro de toda sua inocência e alienação, ela se esforçava para fazer a diferença. E independente do contexto, essa tentativa é bem mais importante que o objetivo concreto.

Que se entregar a frivolidade sem culpa momentaneamente talvez nem seja uma coisa tão recriminável assim.

O filme foi na medida do que eu precisava: estava num dia tão pesado que, quando as luzes se acenderam, já estava até me sentindo melhor. E ajudaram nessa tentativa de quebrar essa ladainha monótona do blog de insatisfações e amores não correspondidos.

Vou lá ser um pouco de Maria Antonieta e já já eu volto.

domingo, maio 20, 2007

Domingos

"Tudo está fechado/Tudo está fechado/Domingo é sempre assim/E quem nao está acostumado?/É dia de descanso/Nem precisava tanto/É dia de descansoPrograma Sílvio Santos."
(Domingo- Titãs)

Hoje é mais um domingo. Acordei novamente com aquela típica ressaca psicológica de domingo, isso porque é domingo e domingos são dias em que se acorda pensando que se pode ter ressaca. A única cisa aberta num raio de 200 metros da minha casa é uma padaria com um pão cheio de bromato(?) ou coisa assim.

A cidade é sempre escondida nos domingos, e não que Brasília não seja sempre assim, mas especialmente nos domingos eu sei que as pessoas se escondem em suas casas ou procuram outras casas em busca de algum conforto impossível no meio da semana. As pessoas que têm coragem caminham na rua e eu só consigo pensar " essa não é minha vida". Sedentário-melancólico na frente do computador esperando por alguma coisa que geralmente não acontece nos domingos.

O dia vai passar, e isso vem como uma certeza, certeza também que acompanhará a ressaca moral de segundas-feiras que sempre pensam aparecem com o mpensamento eu não fiz porra nenhuma ontem. Domingos santificados são das coisas mais profanas existentes do planeta, o dia de descanso..., e não que eu torça que as pessoas nunca descancem, mas ...

Talvez vá ao cinema, talvez saia e coma pipoca , talvez não faça nada, talvez leia um livro, talvez estude... Há muitas possibilidades. Depois de mais maduro passo já a ter um pouco de respeito maior pelo domingo ( em muito pelo meu cansaço que hoje é factual). Hoje é domingo, pede cachimbo e talvez mesmo não faça nada.

quinta-feira, maio 17, 2007

Outonando

Lá fora vai outonando, deixando os dias um pouco mais frios e nossas camas solitárias um tanto mais solitárias. Início de outono, para mim, sempre foi regido pelo signo máximo da melancolia, da nostalgia e do silêncio. De nunca mais acordar, afogando nos mares profundos de edredons e sonos sem sonhos. De água gelada congelando os dedos tão cedo na manhã. De deixar a barba crescer, as olheiras surgirem sem culpa: espirros, insônias - boêmia, na verdade, bem pouca.

Esses primeiros dias de outono me lembram minha casa: ser acordado pela minha mãe torporoso de sono e, ao sair de casa, não enxergar um palmo à frente da mão de tanta neblina espessa. Lembram-me os primeiros dias de faculdade, as primeiras aulas em frente a um jardim repleto de árvores de folhas amareladas, vento gelado, dia nublado e ausência de tanta gente quando tanta gente principiava a entrar. Lembram você: noite gelada de maio, coincidências, toda aquela história que não me canso de repetir.

E dentro de tantas lembranças de coisas que não voltam mais, fica essa melancolia das coisas que foram e até poderiam ter sido, mas não voltam por diversas razões. Seja porque amadurecer é um processo irreversível, seja porque o momento não permite certos retrocessos. Talvez seja esse o signo do outono: o princípio do inverno, de ir poupando o que importa para dias mais difíceis e áridos, de perder as folhas e colher os últimos frutos enquanto a primavera não vem. Talvez seja só essa falta de perspectivas: dias cada vez mais gelados, mais curtos, mais insones.

Quanto a mim, vou indo até bem. Me pego no exemplo das paineiras, imensas e imponentes, que nessa época estão todas nuas arrebentando em flores rosas. Vou mastigando minhas melancolias, minhas melhores lembranças e costurando novas histórias, criando coragem para movimentações e, quem sabe, finalmente botar a vida nos eixos que ela verdadeiramente merece? Por causa de todos esses processos que digo: o outono é a minha estação do ano predileta...

terça-feira, maio 01, 2007

Demais

Porque a noite transpirava aquela outra, onde tudo começou: expectativas zero, encontro ao acaso, início de inverno a gelar pontas do nariz. Éramos outros, mais maduros, mais sofridos, sob a sombra dos amores-que-não-deram-certo. Éramos dois em movimentações evasivas, hesitando naquela indiferença programada. Digo, pelo menos eu.

Porque ao abrir aquela porta, transfigurado no pânico dos lugares que eu definitivamente não deveria estar, nunca esperava dar de cara com você. Pela primeira vez em ano e meio dividíamos o mesmo ambiente, livres e tecnicamente desimpedidos. E daí toda a confusão de sentimentos novamente se fez. O que eu sinto / acho / penso, tão debatido neste espaço que todos que me acompanham devem saber de cor. E ao mesmo tempo, essa angústia desse ano sacrificante, perdido, que me deixa de mãos atadas dentro de tantas responsabilidades.

Porque eu deveria ter pego o seu braço e dito: faz tempo, mas ainda não esqueci. Sabe, nessas noites frias e insones, quando a solidão bate e me vejo nesse apartamento enorme, meus olhos fecham e eu penso em você. Penso nas sardas na íris, em como você era insuperável depois da segunda cerveja. Em como sentia ciúmes do cigarro que fumavas tão distraídamente. No Zippo, meus porres históricos de conhaque. Nessa coisa estranha que não sei explicar, talvez amor, talvez nostalgia de meses tão brilhantes, talvez saudades da sua mão suave de unhas roídas. E que se foda o futuro, os rumos diversos que nossas vidas provavelmente tomarão em breve - porque não tentar?

Mas não consegui - porque lá no fundo, tenho medo de tanto amor tonto e bambo que sinto. Esse amor perpetrado na ausência e na impossibilidade. Na minha covardia de talvez dizer que sinto sua falta e você, tão distraidamente, dizer tudo bem, foi lindo mas baby it's over over over.

Porque eu permaneci na hesitação pseudo-indeferente, na demonstração inútil que ainda estou bem, ainda estou vivo, coisas assim. Agora, ao fundo, toca Nara Leão, que destila em sua voz rouca toda espécie de sofrimento. Engasgo principalmente em Demais:

"E é por isso que eu falo demais
É por isso que eu bebo demais
E a razão porque vivo essa vida
Agitada demais
É porque meu amor por você é tão grande
O meu amor por você é imenso
É porque meu amor por você é enorme demais..."