quarta-feira, abril 18, 2007

...as lágrimas...

"Já viu gente morta, boy? É feio, boy. A morte é muito feia, muito suja, muito triste. Queria eu tanto ser assim delicada e poderosa, para te conceder a vida eterna. Queria ser uma dama nobre e rica para te encerrar na torre do meu castelo e poupar você desse encontro inevitável com a morte. Cara a cara com ela, você já esteve? Eu, sim, tantas vezes..."
(Dama da Noite - Caio Fernando Abreu)

Talvez um bom título para iniciar esse post seria: todas as horas do fim. Porque, dele, vi quando a respiração subitamente ficou difícil, o peito doeu e estava difícil até se verbalizar - dor, falta de oxigênio, aquela coisa estranha que chamam de vertigem da finitude. Daí monitorizamos, para visualizar as tenras montanhas, aquela linha verde espectral cruzando a madrugada, no sobe e desce e bip-bip-bip característico de quem ainda se está vivo.

Talvez a culpa também seja da madrugada, tão silenciosa que nos deixam irremediavelmente solitários. Também, o brilho fosco daquela lâmpada branca, macilenta, que não ilumina nem revela. Também, o cansaço insone de um sábado a noite, quatro da manhã sem nem alguns minutos de sono. Também, tanto sangue, tanto suor, tantas lágrimas já derramadas naquela sala.

A respiração ficou difícil, até parar. Daí, aquela loucura: tubos, máscara, laringoscópios, oxigênio a 15 litros, coloca oximetro de pulso só para observarmos: está baixo, está baixo, está baixo. A linha verde mostra inversões, curvas apiculadas, sofrimento tecidual. O pulso enfraquece, a pressão arterial declina devagar, quase imperceptível dentro do caos em torno do leito que se forma. A epiglote escapole caprichosamente, enquantos todos ali sentem aquela mesma vertigem da finitude, o gosto amargo na boca, as mãos suarem levemente a fazer as luvas dançarem por entre os dedos.

Até que, quando vi no monitor, o coração querendo desistir. Vi aquelas pequenas montanhas diminuirem, diminuirem, rarearem: até que a linha, tão plana, apareceu. Assisti, talvez o único naquela sala, o momento em que aquele coração desistiu de bater. Aquele, em que a vida escapa pelos dedos.

Obviamente lutamos. Massagem cardíaca, atropina, adrenalina. Senti as costelas quebrarem em minhas mãos inocentes e pouco hábeis durante o vai e vem incessante sobre o esterno. Assisti aquele coração, cansado, ensaiar um breve retorno - o suficiente para nos iludir e prosseguirmos batalhando até o dia amanhecer.

A luz chegou inesperada, evidenciando nossos rostos cansados, as olheiras fundas. Evidenciando nossa incapacidade, nossas limitações, que essa onipotência que tantam propagam é uma ilusão. Desistimos quando as pupilas não reagiam mais, os braços já exaustos da noite em claro, do esforço feito. Cada nó nos dedos doendo do último fracasso. Desistimos quando a primeira brisa da manhã, aquela mais fria, como se fosse o sopro da própria morte a brincar conosco.

Ainda fiquei no Hospital toda a manhã. Almocei sem gosto, dormi um sono pesado sem sonhos, só tomei banho quando já havia anoitecido. E foi ali, debaixo da água morna que todo esse peso bateu. Chorei talvez duas ou três lágrimas doídas e pesadas - não pela vida que se foi, acho que por nós, todos nós. Por cada dia que batalhamos inutilmente sem reconhecimento, por cada tapa na cara que tomamos quando só quisemos ser doces. Por todo amor que concedemos sem retorno, por cada segundo que perdemos com quem não mereceu. Por como essa vida é besta e frágil, tão frágil, tão curta. Por como achamos que temos o controle sendo que somos apenas meros joguetes dessa coisa vazia chamado destino.

E pela completa falta de esperança que esse sentimento, esse ranço, um dia vá melhorar...

Nenhum comentário: