quarta-feira, abril 25, 2007

...e o sangue.

"Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito"
(Clarice Lispector)

Passei os últimos três meses de estágio ensaiando esse post. Mas sempre era a mesma história: outra morte, outra dor, outra sentença de morte. Foram tantas que perdi a conta. Foram acumulando, em minhas mãos inocentes e sem malícia, silenciosamente. E fui digerindo, como se não fosse comigo, acompanhando tantas perdas sem remédio ou solução; até que só sobrasse, ao final, esses vestígios de sangue.

Ninguém me avisou que seria assim: ninguém avisou nas longas horas insones, na toxicidade emocional, nessa sensação tão frágil de contemplar o fim, a decadência. Ninguém me explicou o que fazer quando faltou remédio, quando pediram atestado e não pude dar, quando simplesmente já não se havia mais o que fazer.

A solução é se virar sozinho, descobrindo o caminho certo por entre tantas sombras. A medida exata entre o acolhimento e afastamento, o cientificismo e a piedade. Em como trazer conforto sem apelar a deus, religiões ou esperanças vãs.

Essa vivência de Hospital, de segunda a segunda, sempre às sete da manhã, trouxe uma maturidade que não esperava nos meus 22 anos. Como tantos problemas que vivia são banais e simples quando comparado ao mundo cão debaixo daquela luz vaporosa e das paredes verdes. Como fomos adquirindo esse ar ligeiramente mais sério e responsável enquanto ainda usamos All Star, fazemos barba um vez por semana, gostamos de animes e vivemos um tanto nostálgicos.

Fez-me sentir mais pronto, mais humano, mais forte. Mais seguro nas ações e gestos. A aceitar melhor as coisas que estão fora do alcance e a correr atrás daquelas podem estar, a médio prazo, ao alcance dos dedos. Ao mesmo tempo, fez-me ficar mais duro e menos tolerante com os erros crônicos alheios - na consolidação do amor adulto: que passa a tolerar cada vez menos e exigir cada vez mais.

Troco o estágio: outras roupagens mas o desafio permanece o mesmo. Resta é o sangue debaixo das unhas, na sola dos meus sapatos, vestígios apagados com éter no jaleco. Porque esse aprendizado terminal tem muito a ver com a perda da inocência. E não me venham contrariar: a Medicina sempre será a mais cruel das profissões...

quarta-feira, abril 18, 2007

...as lágrimas...

"Já viu gente morta, boy? É feio, boy. A morte é muito feia, muito suja, muito triste. Queria eu tanto ser assim delicada e poderosa, para te conceder a vida eterna. Queria ser uma dama nobre e rica para te encerrar na torre do meu castelo e poupar você desse encontro inevitável com a morte. Cara a cara com ela, você já esteve? Eu, sim, tantas vezes..."
(Dama da Noite - Caio Fernando Abreu)

Talvez um bom título para iniciar esse post seria: todas as horas do fim. Porque, dele, vi quando a respiração subitamente ficou difícil, o peito doeu e estava difícil até se verbalizar - dor, falta de oxigênio, aquela coisa estranha que chamam de vertigem da finitude. Daí monitorizamos, para visualizar as tenras montanhas, aquela linha verde espectral cruzando a madrugada, no sobe e desce e bip-bip-bip característico de quem ainda se está vivo.

Talvez a culpa também seja da madrugada, tão silenciosa que nos deixam irremediavelmente solitários. Também, o brilho fosco daquela lâmpada branca, macilenta, que não ilumina nem revela. Também, o cansaço insone de um sábado a noite, quatro da manhã sem nem alguns minutos de sono. Também, tanto sangue, tanto suor, tantas lágrimas já derramadas naquela sala.

A respiração ficou difícil, até parar. Daí, aquela loucura: tubos, máscara, laringoscópios, oxigênio a 15 litros, coloca oximetro de pulso só para observarmos: está baixo, está baixo, está baixo. A linha verde mostra inversões, curvas apiculadas, sofrimento tecidual. O pulso enfraquece, a pressão arterial declina devagar, quase imperceptível dentro do caos em torno do leito que se forma. A epiglote escapole caprichosamente, enquantos todos ali sentem aquela mesma vertigem da finitude, o gosto amargo na boca, as mãos suarem levemente a fazer as luvas dançarem por entre os dedos.

Até que, quando vi no monitor, o coração querendo desistir. Vi aquelas pequenas montanhas diminuirem, diminuirem, rarearem: até que a linha, tão plana, apareceu. Assisti, talvez o único naquela sala, o momento em que aquele coração desistiu de bater. Aquele, em que a vida escapa pelos dedos.

Obviamente lutamos. Massagem cardíaca, atropina, adrenalina. Senti as costelas quebrarem em minhas mãos inocentes e pouco hábeis durante o vai e vem incessante sobre o esterno. Assisti aquele coração, cansado, ensaiar um breve retorno - o suficiente para nos iludir e prosseguirmos batalhando até o dia amanhecer.

A luz chegou inesperada, evidenciando nossos rostos cansados, as olheiras fundas. Evidenciando nossa incapacidade, nossas limitações, que essa onipotência que tantam propagam é uma ilusão. Desistimos quando as pupilas não reagiam mais, os braços já exaustos da noite em claro, do esforço feito. Cada nó nos dedos doendo do último fracasso. Desistimos quando a primeira brisa da manhã, aquela mais fria, como se fosse o sopro da própria morte a brincar conosco.

Ainda fiquei no Hospital toda a manhã. Almocei sem gosto, dormi um sono pesado sem sonhos, só tomei banho quando já havia anoitecido. E foi ali, debaixo da água morna que todo esse peso bateu. Chorei talvez duas ou três lágrimas doídas e pesadas - não pela vida que se foi, acho que por nós, todos nós. Por cada dia que batalhamos inutilmente sem reconhecimento, por cada tapa na cara que tomamos quando só quisemos ser doces. Por todo amor que concedemos sem retorno, por cada segundo que perdemos com quem não mereceu. Por como essa vida é besta e frágil, tão frágil, tão curta. Por como achamos que temos o controle sendo que somos apenas meros joguetes dessa coisa vazia chamado destino.

E pela completa falta de esperança que esse sentimento, esse ranço, um dia vá melhorar...

sábado, abril 07, 2007

O suor...

Depois de dois meses de estágio, fico impressionado em como consegui me adaptar tão rapidamente a uma rotina potencialmente estressante: basicamente de segunda à segunda naquele inglório horário das sete da madrugada. Responsabilidades consideráveis, cobranças idem, reconhecimento quase nulo. Falta tempo para voltar para casa, conhecer gente nova, reatar contatos - até o meu cinema semanal tem faltado.

E o revoltante é que nem fico revoltado com esse súbito salto à vida adulta. Desses 60 dias, só perdi a hora uma vez. De tantas possibilidades de erro, nem tenho deslizado tanto. Durmo muito, quase duas horas por dia quando chego do Hospital - mas tenho me esforçado ainda em dar uma banda, estar em contato com as pessoas essenciais e telegrafar para aquelas lá longe, mas que quero mais perto num futuro próximo.

Talvez, por ter energia para dedicar somente ao essencial, a vida está tão simples. E ser simples é tão bom, tenho aprendido...