segunda-feira, março 26, 2007

Uma coisa vaga chamada destino...

[esse post é de, aproximadamente, um ano atrás. Acabou auto-censurado porque achei-o, na época, muito açucarado e meio over no momento. Encontrei-o numa faxina neste fim de semana e, apesar do motivo pelo qual ele foi escrito ter-se acabado completamente, achei que ele valia a pena ser postado agora]

Não sou de crer em muita coisa - cheguei a ser agnóstico por descrer em qualquer tipo de esfera superior, controle divino ou coisas do tipo. Leio o horóscopo por pura curiosidade, pois sempre acreditei que é inconcebível que nossas vidas tivessem forma de serem controladas, sejam por estrelas, por cartas, por números, etc. Mas acredito no poder do acaso.

Tanto, que presto atenção nas menores coincidências. Tanto, que sempre caminho procurando o mundo, lendo os cartazes pela faculdade, percebendo alguma música de fundo, cenas de filme na vida real. As palavras da minha boca que pulam da boca de alguém. Um papel de bala. Um profile no Orkut. Um sorriso fora de hora. Uma confissão incoveniente. Acredito que é o acaso - nestas pequenas situações - que nos aproxima, mas quem definitivamente nos une somos nós mesmos.

Acredito também que estamos todos presos por um fio muito sutil, que é quase invisível no início. Dentro do milhar de pessoas que nos relacionamos, só uma ínfima parte faz a diferença. Só para esses poucos abrimos a guarda e deixamos conhecer nossos medos e qualidades reais. Até alcançar este ponto, são outras milhares de situações que podem romper o que nos une: uma palavra atravessada, uma colocação infeliz, uma crítica mal colocada. Ou ainda que nada aconteça, não surja nada que faça a diferença e o fio não rompe - mas a força não se sustenta e o afastamento é imenso demais para que se percebam os pequenos detalhes da personalidade de alguém. Por isso o mesmo acaso que une é aquele que nos separa.

Fica como epígrafe do post (que precisava ficar no meio da fala para não ser descontextualizada) essa de Milan Kundera: "Para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se juntem desde o primeiro instante". Não entendam como amor apenas isso que vocês pensaram. As amizades, daquelas grandes e companheiras, também só se sustentam dessa forma. Não é preciso muito além que poucos acasos, até virtuais se for o caso, para que algo de grandioso aconteça. E se sustente. E se fortaleça.

E é isto que está acontecendo. Todos estes pequenos encontros dentro desse mar de desencontro em que vivemos. Havia tudo para dar errado: quando você foi, eu não. Daí eu fui e você não. Daí outras coincidências diversas e fortes foram acontecendo e parecíamos andar paralelamente. Enquanto isso, íamos jogando fios para diminuir o espaço, quase invisíveis para ninguém ver. Sem intenção, sem esperança, sem o maquiavelismo que vivemos nos dias de hoje. Até que entramos em rota de colisão e deixamos colidir.

E se me perguntarem como aconteceu, não sei. São coisas vagas, palavras colocadas, citações via MSN, projetos de vida, trilhas sonoras, vidas que poderiam ter sido e não foram por um mínimo de coragem. Só sei que a falta de uma delas seria irreversível, talvez o fio que contrabalançasse nossa união frente ao abismo do resto das coisas. Se eu contasse fato por fato como se desenrolaram as coisas, era história de cinema - ninguém acreditaria.

Mas é essa a graça do acaso. Cinematografar nossa vida como numa comédia romântica, um drama bem conduzido - como amarrar caminhos tão diferentes de uma forma implanejável, improvável diria. Que fica lindo e brilhante quando todos estes fios encontram o sol, uma bandeira. E aparentemente tão insustentável, pela aparente fragilidade em que se criou, da mesma solidez duvidosa das teias de aranha: tênues, só que tão fortes quanto aço.

Uma coisa vaga chamada destino...

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