segunda-feira, fevereiro 19, 2007

O Sol é para todos

Uma vez lhe disseram, num passado que já não sei dizer se é pouco ou muito distante, que "você não precisa do sol, nem das raízes, nem dos pés do menino fincados firmemente no chão". E depois desse momento, tanta coisa aconteceu que não sei se você percebeu quantas mudanças lentamente foram imprimindo, tão silenciosas quanto afirmativas. Em como você conseguiu incorporar valores - os seus, o dos seus pais, os dos seus tantos amigos queridos - e ir aproximando, paulatinamente, o gesto com a ação. Foi juntando coragem, foi guardando palavras, foi internalizando uma série de mudanças que, cedo ou tarde, aconteceriam.

Você decidiu morar sozinho, trocar de turma, desapaixonar, abraçar o curso, mudar de vida, mostrar um pouco da verdadeira face mesmo que isso significasse apanhar um pouco. Você decidiu, finalmente, olhar para baixo e deixar-se cair para ver se, lá embaixo, existia dessas vidas latentes e pulsantes. Como a velha Kite, tentou voar suspenso só por um frágil fio no céu.

E não que esteja sendo fácil, longe disso: mas me orgulho tanto em pensar que você está trilhando um caminho em que muitos, até mesmo você há um ano atrás, teriam desabado no meio. Eu percebo tanta coisa que você sacrificou, sem garantia alguma, somente pela possibilidade de algo maior. Eu percebo que você ainda não chegou aonde quer, mas já tem certeza que do outro jeito definitivamente não serve mais. Eu percebo que você está cansado, mas é exatamente a hora de não baixar a guarda.

Sei que você já perdeu muito: das pequenas banalidades até pessoas importantes. Mas, de tantas perdas, você conseguiu separar as poucas coisas que você é mortalmente dependente daquilo que era tão somente confortável. Você percebeu que são poucas coisas que são essenciais para se sustentar - destas, todo cuidado é pouco para não escorrerem pelos dedos. O resto, é exercício do desapego sem muitos lamentos, é dano colateral, os meios para chegar ao fim. Por mais que doam essas ausências, pense que tudo foi necessário.

E eu quero que você saiba, dentro de toda sua fragilidade, apesar do mau humor e de toda sua instabilidade inata, apesar do seu ascendente em Virgem que não lhe dá a mutabilidade que necessitaria nesses dias - saiba que existe tanta gente de olhos postos em você torcendo para que tudo dê certo. Que a solidão é ilusória e todos estão a postos, à distância de um telefonema. Que talvez o pior esteja por vir, mas você já deu o passo mais difícil: o primeiro. Talvez os próximos meses sejam regidos sob o signo do desamor, a torre invertida, pequenas catástrofes, só não se engane. Tudo será passageiro, tipo brisa, neblina ao amanhecer.

Quero que você saiba que o Sol é para todos e quando a Luz chegar tudo ficará mais fácil...

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