sábado, janeiro 27, 2007

Desabar

Penso naquela carta de Clarice que diz qualquer coisa parecida com: "Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro" e aplico, vagamente, na balada desses dias chuvosos e cinzentos.

A impressão que tenho é que meu mundo desaba, esfarela por entre os dedos. Escorre dolorosamente em pequenas quantidades, indiferente de tanto esforço necessário para colocá-lo em pé. Penso em tanta gente que, há tão pouco tempo, segurava minha mão e agora está tão tão longe; penso em como não escutei quando me disseram que meus universos estavam em colisão.

Mas, ao mesmo tempo, penso em Caio: "Depois de várias tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro". Em cada perda, permanece algo não tão bonito, talvez nem tão romântico, provavelmente nem tão palatável: o que permanece é real, é palpável, é um tanto cara-no-espelho que passamos a vida inteira tentando enxergar. Vou-me acostumando com o ritmo próprio desses pequenos desastres e até achando graça desta minha nudez involuntária.

O que resiste ternamente guardo nas prateleiras mais altas, porque são coisas de uma beleza que ofusca, dói os olhos e quase rebenta o coração de alegria contida. E nesse meio tempo, passo por alegrias silenciosas e simples, tristezas silenciosas e simples, que talvez se dividissem com alguém perderiam o sentido. E no meio de tanta areia que se perdeu, sinto-me um pouco mais leve e até arrisco dizer que meus passos são ligeiramente mais seguros.

O que me guia é uma esperança violenta de alívio quando tudo o que estiver inseguro tiver finalmente chegado ao chão.

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