sábado, janeiro 27, 2007

Desabar

Penso naquela carta de Clarice que diz qualquer coisa parecida com: "Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro" e aplico, vagamente, na balada desses dias chuvosos e cinzentos.

A impressão que tenho é que meu mundo desaba, esfarela por entre os dedos. Escorre dolorosamente em pequenas quantidades, indiferente de tanto esforço necessário para colocá-lo em pé. Penso em tanta gente que, há tão pouco tempo, segurava minha mão e agora está tão tão longe; penso em como não escutei quando me disseram que meus universos estavam em colisão.

Mas, ao mesmo tempo, penso em Caio: "Depois de várias tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro". Em cada perda, permanece algo não tão bonito, talvez nem tão romântico, provavelmente nem tão palatável: o que permanece é real, é palpável, é um tanto cara-no-espelho que passamos a vida inteira tentando enxergar. Vou-me acostumando com o ritmo próprio desses pequenos desastres e até achando graça desta minha nudez involuntária.

O que resiste ternamente guardo nas prateleiras mais altas, porque são coisas de uma beleza que ofusca, dói os olhos e quase rebenta o coração de alegria contida. E nesse meio tempo, passo por alegrias silenciosas e simples, tristezas silenciosas e simples, que talvez se dividissem com alguém perderiam o sentido. E no meio de tanta areia que se perdeu, sinto-me um pouco mais leve e até arrisco dizer que meus passos são ligeiramente mais seguros.

O que me guia é uma esperança violenta de alívio quando tudo o que estiver inseguro tiver finalmente chegado ao chão.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

O Dia em que Júpiter encontrou Saturno

"- Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
- Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
- Vou te escrever carta e não te mandar.
- Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
- Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
- Vou ver Saturno e me lembrar de você.
- Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
- O tempo não existe.
- O tempo existe, sim, e devora.
- Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
- Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
- E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros"
(O Dia em que Júpiter Encontrou Saturno - Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, janeiro 08, 2007

O início

A passagem do Sol por Sagitário foi clássica: toda sorte de apuros, montanhas-russas, instabilidades. Vida correndo a mil por hora, coração quase saindo pela boca, coração quase se estraçalhando no meio do caminho. Tanta vida em pouco tempo que até vertigem deu. E dentro de tantos contratempos, nada que ferisse mortalmente.

O verão chegou, trouxe Capricórnio consigo e um tanto de paz e alívio. O ano fechou com portas pesadas, certo pesar pelo pessimismo que 2007 reserva. Nada que meio litro de tequila e boa companhia não desfizessem - tão logo os fogos queimaram, tudo ficou leve. Porque talvez esse nem seja um ano perdido. Porque talvez, depois de se debater tanto contra o muro, talvez seja finalmente a hora de curtir a liberdade conquistada. Porque talvez seja melhor pensar que será um ano doce e inesquecível que me entregar de bandeja às dificuldades. Seja lá o que for realmente, só sei que 2007 iniciou inesperadamente leve, ligeiramente taquicárdico, quase feliz.

Faço planos: retomar academia, estudar quase todos os dias, arrumar a casa, tomar Sol. Por aqui chove todo dia, quase dilúvios - coloco a alma no varal, uns 15 minutos por dia. Tem-me feito bem.

Capricórnio passa com seus apuros habituais: dubiedades, incertezas. O telefone que nunca toca quando precisa. Os castelos que acidentalmente ergui sem verificar as fundações. Mas também sempre a possibilidade do milagre, do reinício, do novo. Tempos de Capricórnio, para mim, significam a lufada de vento fresco que vem do mar. Ainda que eu não divise o que vem para frente - mas é per se, uma possibilidade. E, como sempre, atiro-me de cabeça sem saber se é fundo ou raso, pois já aprendi que tenho uma capacidade imensa de cicatrização.

E que entre o novo ano...