domingo, dezembro 30, 2007

Quase 2008

Kundera diz, mais ou menos, que a vida não tem ensaio e que não há como julgar se uma ação teria sido melhor ou pior. Diz que o ensaio da vida é a própria vida - e, elocubrando, não há porque perder tempo pensando nesses "e se"s.

Tenho relido Kundera e ver "O Amor nos Tempos do Cólera" me deu uma espécie de nostalgia, das boas, dessas coisas inconclusas. E na véspera do Reveillon, dentro desse isolamento meio que voluntário, meio que sacrificado numa possibilidade melhor e em pleno Iraque emocional: só espero que minha escolha, finalmente, tenha sido a acertada.

E vamos indo pra 2008.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Trópico de Capricórnio

Penso que agora pode ser diferente. E não descobri isso porque alguém tenha me falado (aliás, todos falam um pouco mas ninguém com iniciativa suficiente para me fazer engolir as verdades). Mas são sinais inconclusos, tipo horóscopo diário da Folha. Na verdade, vêm em sonhos: tenho sonhado contigo, umas duas vezes - coisas confusas, mas diferencio seus olhos, seu tom de voz macio e aquele magnetismo que nunca soube explicar. Penso em você em pequenos planos distraídos, como sábado em casa, eu e você, meu irmão e mais alguém, varando madrugadas jogando poker, beliscando qualquer coisa potencialmente aterogênica e rindo das agruras de nossos cotidianos. Penso em você em algum lugar ensolarado, pode ser praia, talvez deserta, nessa coisa tão boa de viajar juntos só juntos num lugar desconhecido, tão sol de doer as pupilas sem óculos escuros enquanto o mar bate devagar cadenciando leve o tum-tum daqui de dentro.

Penso em você porque 2008 exige escolhas e eu nunca lá fui dos muito corajosos. Sempre mais focado em auto-proteção que em resolutividade. Sempre aguardando uma certa reciprocidade nos atos. Mas isso é passado, isso é outra temporada, isso é outra estação.

Agora é assim: força e coragem, peito pra correr e costas tão largas pra suportar o peso. Cruzar o Trópico de Capricórnio sem muitas esperanças, num espaço limitado onde pouco cresce além daquela impressão explosiva, repeteco de outros dias brilhantes, preparando terreno pra um em breve, um por vir.

E que, tão abençoado e doce, guie 2008 por águas tranquilas e rasas, um pouco mais completo por saber que coisas assim, embora o universo tente dizer o contrário, ainda existam.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

2007

Havia a promessa de sangue, suor e lágrimas - o que, de fato, aconteceu. Havia a promessa de um ano difícil, pesado, bem como minha caríssima pontuou. O que foi surpreendente - e o que acho encantador nessa arte que se chamam de viver - é que nada impediu que esse fosse o melhor ano de minha vida.

Nunca foi tão difícil: a carga de trabalho muitas vezes excessiva, a toxicidade emocional sempre presente nos corredores verdes longuíssimos, a sensação de não estar realmente preparado para enfrentar a vida profissionalmente. Estar ali, no epicentro dos acontecimentos, vendo quem morre, vendo quem parte, vendo quem perde, vendo nossa fragilidade, muitas vezes de mãos completamente atadas. E mesmo assim, insone e sacrificante, tirei O grande aprendizado. Não que eu esteja pronto - mas a certeza que a base, a primeira viga que sustenta, foi colocada em sólido terreno e que eu sou plenamente capaz de enfrentar o desafio, seja lá onde.

E dentro de tanto peso, a leveza. Sempre falei da minha vida dividida, em rota de colisão. E a grande surpresa em perceber que os dois lados não eram excludentes, e sim complementares. Consegui atar as duas pontas, entrelaçá-las como um aperto de mão bem forte. Consegui costurar grande parte daquilo que achava que tinha perdido enquanto aprendia a medir meus passos e palavras. O que virou, desta colcha de retalhos toda é o desenho mais lindo, que nunca havia pensado em confeccionar.

Foi quando fiz de Uberlândia meu segundo lar. Porque sempre me julguei estrangeiro nessa terra: não havia conseguido baixar a guarda por estas paragens, estando sempre nessa coisa de coração indo e vindo pelo Nacional Expresso. A sorte quis que meus braços se abrissem e tanta gente viesse segurar meus dedos tão forte. Ganhei quatro anjos que sempre me vigiaram, pontuaram os erros, comemoraram as alegrias, apararam as lágrimas, beberam as vitórias (as derrotas também, lógico) e transformaram meu cotidiano na coisa mais iluminada que era possível. Descobri quatro pessoas complementares, daquelas que acabam ficando indissolúveis, a ponto de nos olharmos e nem sabermos mais qual sentimento é de quem: o que importa é que ele existe, que ele é forte e é tão lindo.

E de tanta gente amada, de longe, a certeza que o sentimento não acaba independente da distância. Penso que devo estar ruim de julgamento, mas nunca achei que fosse possível que minha vida fosse povoada de tantas pessoas que realmente valessem a pena. E a certeza de que, mesmo só ao telefone, telegraficamente nos Orkuts da vida, estaremos sempre juntos, sempre família, sempre nós.

Foi ano de situações críticas. Foi ano da semana mais negra e pesada. Foi quando se colocou em xeque tudo aquilo que eu me propunha de planos, de futuro. Foi ano de me perguntarem, finalmente: é isso mesmo que você quer fazer com o resto da sua vida? E de afirmar, mesmo o futuro sendo só brumas e aspirações bem vagas a médio prazo, que sim. E dizer de peito aberto, sim. E dizer, até as últimas consequencias, sim. E, no final das contas: sobreviver.

Neste ano fecha-se todo um ciclo. O fim é belo, incerto e depende de como você vê. Vejo um mar de esperanças, de possibilidades. Mesmo ainda não sabendo pra qual lado a bússola apontará, a certeza de que será bom. A certeza que estou pronto e habilitado para enfrentar o que vier, no tempo que for e, se a tarefa for hercúlea, que sempre terei ajuda por perto.

Agradeço a todos que participaram comigo deste ano e o fizeram ser tão brilhante, tão inesquecível, tão cinematográfico: o melhor final possível de um filme que sempre foi, apesar dos pesares, lindo.

Estendo a mão para quem quiser prosseguir na viagem. Sem rumo, sem destino - pelo menos por enquanto. E que 2008 guarde só o que for melhor (e guardará, porque tenho fé) para todos nós.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

The final round

O final round por Sampa não reservou muitas surpresas, afinal, essa rotina de pequenas obrigações e múltiplos atropelos me deixaram meio de mãos atadas - o que não impediu a caminhada habitual pela Paulista, desta vez quase chegando ao MASP e o Trianon, de tantas boas lembranças. Teve momentos de consumo compulsivo na Fnac da Paulista (de presente de-mim-pra-mim, o belíssimo cd novo da Fernanda Takai cantando Nara Leão, vejam só, vejam só), filme israelense num cinema mofado e deserto, busca vã no mar de produtos pirateados, quando o português até parece língua acessória.

Foram dois dias em ritmo de garoa: cidade atravancada pela chuva que ora molhava, ora só resfriava. Caminhei tanto na chuva, mesmo fina e chata, percebendo o tamborilar leve da água refletir no espelho tênue do asfalto. Caminhar na chuva sempre teve um quê de terapêutico: parece que, só de sentir aquele arrepio de quando a camiseta começa a encharcar, sinto-me mais vivo. Sinto que o coração bate, que o corpo reage, tudo palpita. E sigo melhor.

Dias cinzentos e um tanto melancólicos, na voz da Fernanda: em qualquer esquina eu paro, em qualquer botequim eu entro. E mesmo cinzas e melancólicos (tão Sampa, tão Sampa), com seu quinhão de beleza.

****

Se você perguntar: por onde anda meu coração? te respondo: não sei. Por aí, tão vago. Pelas ruas, pela neblina, pela garoa. Anda meio bambo, meio torto, meio gauche, como sempre foi. Não busca, não procura, não espera - só caminha de acaso a acaso, nessas indoloridades que não matam nem acrescentam. Algumas poucas aspirações, porém nada de novo: são aquelas que sempre existiram e persistem, irracionalmente, a despeito de todo tempo que se passa. Tem sono leve, quase irriquieto. Aquele jeito quase perdido de quem ferra em insônia toda madrugada em pensamentos febris.

Se ele volta? Digo que sim: mas só depois que a saudade se afastar de mim. Só depois que a saudade se afastar de mim.

****

A mensagem de final de ano, certeira: Coração Peludo, por Man In The Box.

****

"Catch me if I get too high
When I come down
I'll be coming home next year"
(Foo Fighters, anunciando o prenúncio do fim)

quarta-feira, dezembro 05, 2007

0,025

Moderar as exigências não é, necessariamente, contentar-se com pouco. É aprender a enxergar as limitações e, com isso, identificar o que nos prende e medirmos todo o trabalho que é necessário para que as coisas cheguem no devido lugar.

O dilema é se devo ficar feliz em ter conseguido superar as minhas expectativas iniciais e quase ter chegado lá ou lamentar por quase ter chegado lá e não ter dado por tão pouco.

Tendo, neste dezembro tépido de atropelos e pequenas alegrias, sempre optar pela felicidade. O que não me impede de me descontrolar um pouco vezenquando.

***

Sinto coragem. Uma coisa que há tempos não sentia, como naquele raro momento de bungee jump, quarenta metros abaixo e só um fio que me prendia. Sinto uma coragem tanta, daquelas de cair no vazio mesmo não sabendo se a corda vai suportar. Porque me lembro que os cinco segundos de queda foram os mais assustadores e longos - mas quando a corda traciona e experimentava por outros parcos segundos a sensação de flutuar: juro, foi a experiência mais intensa da minha vida.

Ter coragem também implica em deixar para trás - afinal, essa coisa de viver também não existe um importante componente de renuncia? Quero um 2008 brand new, aquela coisa bem Drummond. Nem que isso signifique sacrificar minha ilusão mais doce: seja para torná-la real ou seja para finalmente enterrá-la...

sábado, dezembro 01, 2007

20 dias e contando...

Sampa continua linda, é verdade. Passagem relâmpago: nada além de casa, metrô, prova, retorno. Mas confesso que já faz parte de mim as artérias de Sampa coalhadas de carros, prestes a infartar. Já faz parte de mim os leves solavancos do metrô, enquanto fico naquela atenção distraída pelos nomes das estações, as pessoas impassíveis com fones de ouvidos. Já faz parte de mim o som das buzinas ao longe enquanto entardece.

Caminhei a noite, quando o Paraíso desagua lentamente na Paulista - os prédios ainda de luzes acesas, a decoração incipiente de Natal pelas árvores. Incrível como sempre fico com um sorriso meio besta na Paulista - como estar ali nunca é uma coisa banal ou natural. E enquanto sentia, in loco, o coração do Brasil palpitar lembrei-me: faz mais de mês, não?

E neste momento, juro que pensei: aquilo tudo foi por conta do que mesmo?

***

Agora tudo se encaminha vertiginosamente para o fim, é fato. Tudo adquire um ar estranho de última vez: então, abraço apenas aquilo que é essencial, que é parte de mim e dolorosamente será difícil de deixar para trás. Não quero mais saber das cobranças, das dissimulações. Das palavras difíceis, das palavras tortas. Não quero preocupações banais com escalas ou puxasaquismo.

Quero piquenique no parque de domingo, como todo mundo querido por perto. Quero noite de porre histórico pra dançar até amanhecer. Quero cerveja no posto plena terça-feira, para discutir sem tempo os rumos estranhos do amor. Quero Sex and the City de madrugada, quero cinema de tarde. Quero sorvete quando o dia causticante abaixar.

Quero todo mundo segurando minha mão tão forte quando começar a chorar.

***

Sabem, eu perdi o jeito de chorar. Chego às vezes a sentir o olho arder, fungar um pouco - mas as lágrimas, destas pesadas e quentes, nunca.

Mas de pensar essas coisas bestas e mundanas - tipo mudança ou o-que-será-de-mim-ano-que-vem - juro que tá dando uma coisa tão ruim subindo a garganta.

***

Quer saber? Tô meio cansado desta vida mambembe. Há quase mês nesta vida de estrada, cidade diferente - e olha que ainda os destinos foram até interessantes: Sampa, paixão constante; Ribeirão, meio quase lar. Mas cansei de estar lá sem poder usufruir plenamente.

Queria mesmo, por incrível que pareça, era estar onde sempre estive: neste tédio iluminado, nesta previsibilidade contínua. Ficar por aqui e curtir o resto do tempo que me resta.

***

"Desconheço a certeza
Que lhe fez exagerar,
e abrir meus poros
Cavar flores sem lhe ver
Chega pra envolver,
envolver querer"
(Marisa Monte)

segunda-feira, novembro 26, 2007

Nostalgia (ou Apenas mais uma de amor)

"Eu gosto tanto de você que até prefiro esconder
Deixa assim ficar subentendido
Como uma idéia que existe na cabeça e não
Tem a menor obrigação de acontecer"

Havia perdido a hora, como é meu habitual nessas segundas-feiras eternas, sem descanso. E enquanto o rádio tocava para disfarçar meu atropelo já estabelecido, tocou uma música tão doce do Lulu que imediatamente me lembrei de você.

É estranho porque, nesses dias de escravidão branca e tantas incertezas, raramente me lembro de você. Não que seja uma memória desimportante, mas não ando com muito hardware para elocubrações. Aliás, tenho pequenas recordações quando uma música toca, quando lembro de uma viagem ou das suas pequenas sardas esparramadas pela íris que quase ninguém vê.

"Eu acho tão bonito isso
De ser abstrato baby
A beleza é mesmo tão fulgaz
É uma idéia que existe na cabeça e não
Tem a menor obrigação de acontecer"

Mas vou levando, vou levando. Até quando você dá um jeito de cruzar meu caminho novamente, tipo Paulinho Moska no Orkut - que nem era pra você, mas não importa, não importa. E por falar em nostalgia, essa palavra perigosa, passou a ficar batendo meio dor de dente, meio coisa incômoda, meio nó na garganta sufocando leve tipo gravata apertada.

"Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza
Então a alegria que me dá
Isso faz sem eu dizer"

Daí tiro meu All Star semi-novo, já surrado, do armário e um bocado de boas intenções. Vou levando a vida na mesma escravidão branca, as mesmas incertezas, com todas as pequenas alegrias que eu me permito. E adiciono outra, que ainda nem sei se é de fato uma ilusão: que talvez depois de tanto tempo, talvez. Nesta sua nostalgia, embarco na esperança de sei lá, nem sei quando, quem sabe depois.

Porque não sei - entre cervejas, diluídos em tanto álcool, pensei ter te visto sustentando o olhar, daquele jeito despreocupado, meio sem querer que eu visse. Tá, talvez foi lance de vista, outra ilusão. Mas deixa.

"Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
O que eu ganho, o que eu perco
Ninguém precisa saber"
(Apenas mais uma de amor - Lulu Santos)

O fato que a noite não me permitiu perguntar: "e essa nostalgia, como fica?". E me deixou com essas ilusões, nada além. Doces, de beleza abstrata. E que me fazem passar melhor os dias, enquanto esse ano não fecha e não me permite iniciar a construção de nada, nada...

terça-feira, novembro 20, 2007

Sampa's shortcuts

Na definição do NY Times, "the ugliest, most dangerous city you'll ever love": o que define Sampa com uma sinceridade um pouco dolorida, porém verdadeira. Fui de passagem meio relâmpago, emendando perigosamente noites sem dormir e com objetivos bem definidos. Mas apesar das poucas 48 horas e de não ter conseguido fotografar e passear por tudo que gostaria, Sampa permanece da mesma forma que eu sempre a vejo: tão paradoxalmente viva, linda e pulsante. E sua graça, dentre os meus curtos passeios, é essa coisa meio caótica e imprevisível, sem saber aonde vou parar.

*****

Fiquei hospedado no Largo do Arouche, nas imediações da clássica e clichê avenida São João. De lá, só conhecia a fama de região decadente e perigosa - que acabei ratificando. Mas existe um charme dentro dessa decadência, apesar do forte cheiro de urina e dos pedintes quase onipresentes: entre os bares baratos, prédios depredados, cinemas pornôs e hotéis de clientela duvidosa, alternavam restaurantas clássicos, classudos e caros - firmes e fortes, apesar de toda a degradação da região. Toda vez que atravessava os quarteirões do hotel até o metrô, ia prestando atenção nesses pequenos lapsos de beleza dentro de tanta feiúra. E, juro, até sorria.

*****

E toda vez que piso em Sampa lembro de Caio Fernando Abreu, principalmente porque sua obra alterna entre Porto Alegre e lá. Minha quase vizinha por 48 horas, a praça da República, já foi imortalizada em uma ou outra crônica. Toda vez que piso na rua Augusta sinto o coração vir à boca de pensar que ali foi cenário de tanta coisa que li, reli, treli e meio que me guia nesses dias agridoces. Mas quem acabo lembrando mesmo é "Onde Andará Dulce Veiga", a obra mais paulistana de Caio - que sempre quero reler antes de viajar, mas nunca dá tempo. E contei tudo isso para falar do metrô: dessa vez, apesar das malas e dos cansaço, fiz duas paradas não-obrigatórias na linha azul só por causa deste trecho, lindo lindo lindo de morrer:

"Devia ser sábado, passava da meia-noite. Ele sorriu para mim. E perguntou:
- Você vai para a Liberdade?
- Não, eu vou para o Paraíso.
Ele sentou-se ao meu lado. E disse:
- Então eu vou com você"

Que deram origem a duas fotos lindas em cada estação. E a pergunta: de qual estação estou vindo, para onde quero ir? Paraíso ou Liberdade?

*****

Outra do metrô: estávamos na porta da estação República, defronte a praça, enquanto discutíamos se jantaríamos besteiras ou num restaurante. Não sei se foi nossa cara de turista, nosso sotaque interiorano, o perigo da região ou nossa cara de perdidos. Mas fomos abordados por um senhor bem simpático, perguntando: aonde vocês querem ir? Pelo menos naquela hora, até que estávamos localizados - então agradecemos de bom grado a ajuda e fomos embora. Para o padrão de uma megalópole, meio cidade-cão de solidão monstra, esse socorro sem nem mesmo pedir foi uma grata surpresa.

*****

Descer a rua Augusta de madrugada também foi uma experiência a parte. Ao descer da estação Consolação, dar de cara com uma galera (sim, umas 10 pessoas) com violinos, meio sarau, tocando música da melhor qualidade. Depois, o contraste das boates (pra paulistano, o sinônimo de prostíbulo) com os barzinhos, galerinha descolada, todos transitando na rua. E ali, encravada no meio de duas boates com todo neon e espelhos que tinha direito, uma balada da moda. Fui eu e uma grande amiga na Vegas, no coração da Augusta, a balada mais eclética que já vi. Ali coexistiam desde os sarados de regata até os descolados de All Star, das coroas quarentonas às patricinhas de salto, dos playboys aos sem estilo. Um som que nunca havia escutado: meio eletrônico, com batida de anos 80 e 90, puxando pro rock de hoje. Assim, um som ducaralho. E pena que tive que ir embora cedo, pois o taxista na volta nos disse que ali vai até 11 da manhã...

*****

Faltou bar Brahma, faltou bar Leo, faltou foto na Ipiranga com a São João, faltou almoçar na Liberdade no domingo, faltou MASP. Sempre é assim quando vou para Sampa, falta tanta coisa que gostaria de fazer que fico até tonto, até considerando em pagar o preço pra entrar nessa vida caótica também.

*****

Sobre as rosas, só mesmo Nara Leão para cantar a minha (como vou dizer?) talvez decepção, talvez melancolia:

"Enfim
Hoje na solidão ainda custo
A entender como o amor foi tão injusto
Pra quem só lhe foi dedicação
Pois é, então"
(Pois é - Nara Leão)

*****

Afinal de contas, entre a dura poesia concreta de suas esquinas:
"Alguma coisa acontece no meu coração..."

sexta-feira, novembro 16, 2007

40 dias e contando...

Já teve carro roubado, já teve porre histórico debaixo de cinco lustres & tapete vermelho & até sushi que aprendi que não é tão ruim, teve surpresa durante ressaca e prova idiota, teve chuva cataclísmica comigo atravessando-a heroicamente, tiveram todas as comprovações de que sou a pessoa mais azarada do universo, teve revista piaui na rodoviária tão sem culpa.

Teve o primeiro sinal que os últimos cinco anos e meio não foram de todo inúteis, que minhas mãos não são de todo incapazes. Dentro de toda escuridão da falta de perspectivas do ano que vem, aconteceu o primeiro facho de luz: e ele se dirige para a Califórnia brasileira, terra de tantas lembranças boas, lar de pessoas queridas e cabeça-de-ponte para tantos outros projetos ambiciosos.

São tantas alegrias, mas alegrias meio claricianas: meio patéticas, daquelas que ficamos com ela na mão sem ter com quem dividi-las. E não queiram entender que essas pessoas não existam - elas existem, são tantas e estão tão presentes no meu cotidiano nas últimas semanas que até parece ingratidão dizer coisa assim. Mas fica um espaço, uma coisa ausente que não sei explicar: de ligar, preguiçosamente, e entre o cansaço da manhã e o projeto de domingo dizer foram-72-pontos-acho-que-dá.

Mas passa, isso que é bom.

Porque, nestes quarenta dias que faltam, veio a certeza que estou finalmente pronto para partir. Bateu o vento, o recorrente vento da velha Kite, perdida no céu. Abro os braços quanto posso, para que eu vá mais alto, mais longe, pois sei que a corda que me sustenta é firme. Pois sei que o campo é vasto. Pois sei que isto tudo não é nada além de outro reinício.

E fico bem.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Perdas e danos

Engraçado que nas últimas semanas o que só tenho acumulado são perdas: em diferentes níveis, de diferentes maneiras, em diferentes graus de intensidade. E o exercício que se faz de todo o processo é cair de pé, praticamente impassível. Só não avisaram que cair de pé também implica em estourar artelhos, arrebentar o tornozelo e sentir cada ligamento estirar de uma forma, sabe lá, irreversível.

Mas sempre acreditei na elasticidade, na plasticidade e na minha imensa capacidade de cicatrização. E depois de uma semana um tanto atordoada, cada coisa vai ocupando (meio assim, no gerúndio) seu novo lugar. Não faltaram braços longos para me afagar quando precisei e novos planos que se abrem na iminência destes vários ciclos que, juntamente, se fecham, que se superpõem e os vejo, meio sem controle, acontecerem.

E na verdade, ainda meio bambo e torto. Esboçando uma confiança simulada num futuro que nem sem com qual cara terá, nem se seria melhor que isso aqui que estou chafurdado, nem se deveria apostar tão alto sem saber se sairia vivo de outra (ou a mesma, enfim) dangerização emocional. Mas dentro de tantas perdas, tantos danos, quando a sorte vira e pequenos ganhos voltam a acontecer, a sensação é de que tudo está como antes - meio perturbado e bagunçado, mas aquilo ali na essência.

Como "Open your eyes", num junho radiante. Como voltar para casa no Natal. Como relembrar velhos shows, velhos porres, contando os 50 e poucos dias para o fim que nem é tão fim, meio começo, dependente dos olhos de quem vê...

segunda-feira, novembro 05, 2007

Feels like honey


Há qualquer coisa de "Lost in Translation" nessa foto que não sei explicar. E me deu uma vontade tremenda de bater uma foto semelhante na minha breve e futura passagem por Sampa. O local é o terraço do Hotel Unique.
Outras duas fotos obrigatórias são: uma na estação Paraíso e outra na estação Liberdade do Metrô.

sábado, novembro 03, 2007

Sex and the City

"That night I started to think about belief. Maybe it's not even advisable to be an optimist anymore. Maybe pessimism is something we have to apply daily, like moisturizer, otherwise how do you bounce back when reality batters your belief system, and love does not, as promised, conquer all? Is hope a drug we need to go off of, or is it keeping us alive? What's the harm in believing?"
(Sex and the City)

[ao som de Toda Cura para Todo Mal - Pato Fu, principalmente No Aeroporto]

terça-feira, outubro 30, 2007

Fragmentos

Primeiro, o atordoamento.
Depois, a imobilidade.
Daí a negação, o fracasso.

E não sei de onde veio uma forcinha. Meio besta.
Daquelas mais sem esperança.
Da que eu não deveria ter.
Nem pensar.

Meio contra os princípios, sabe?
Mas o que hei de perder, além de tinta no papel
Um pouco de orgulho
E a possibilidade do reencontro.

Amanhã é dia de plantão
Madrugada a dentro, a fora.
Tanta gente grave nas minhas mãos inocentes.

Mas quinta vai chegar
O Sol pousará seu brilho certeiro.
Meio "Zero Grau de Libra":

"(abençoa) todos que continuam tentando por razão nenhuma – sobre esse que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões"

"Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse zero grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada"

E rezo, como se soubesse
Que quinta seja doce.
Que seja doce.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Caçando borboletas

Não que eu as procurasse ostensivamente, afinal, tudo o que menos esperava nesta confusão de sentimentos que se seguiam nestes dias de inverno era algo tipo. Nem também que, de completo, as ignorasse, afinal tenho também aquelas pequenas ilusões ternas: depois do teatro, cerveja no bar, conversa descompromissada e porque não dividir um pouco de sonhos e frustrações desses vinte-e-poucos-anos-vezenquando-doloridos?

Tão estranho porque nestes dias até me sentia pleno, porque as últimas horas da madrugada, quando o álcool cessa o adormecimento e viramos todos abóboras, não doíam tanto quanto costumavam. Porque o fato é que não as procurava mais em cada esquina, em cada sorriso, em cada tentativa. Aprendi que borboletas vêm quando bem entendem, suaves no ruflar de asas, que pousam imperceptíveis e desconcertam tudo aquilo que estávamos vivendo.

Daí eu viajei de susto, plena segunda, naquele intervalo entre o amanhecer e o dia-cão. Naquela estrada vazia, fui pensando em você, reconstruindo passo a passo sua imagem. Fiz um retrato de um você que ainda não conhecia: que segurasse minha cabeça cansada num dia que eu dormisse no tapete, bêbado de sono; que conhecesse meus pais, almoço de domingo, entre churrascos e histórias constrangedoras; uma pequena piada fora de hora, politicamente incorreta, enquanto voltávamos para casa num sábado qualquer.

Quando voltei, todo o estrago já havia sido feito. Eu conhecia aquela sensação, do celular que afunda em minha mão suada entre ligar e não-ligar, hesitando nas palavras com medo de passar do ponto ou de escolher logo aquelas perigosas tipo: sempre, nunca, especial. Daquele medo de escapar aquele defeito inconveniente e botar tudo aquilo que poderia ser por água abaixo. Mas decidi ir, com champagne debaixo do braço e um punhado de boas intenções. Te visitei numa casa imaculadamente branca, poucas caixas ainda fechadas, felicidades pós-mudança.


E conversamos qualquer coisa, emendamos aquela conversa de bar que pareceu que nem terminou. Quando vimos, já era madrugada alta

[texto precocemente interrompido]

terça-feira, outubro 23, 2007

Madrugada

Acordo de madrugada, porque tenho tido dias de sono inquieto - meio ansiedade por não saber o que virá: de mim, de nós; meio ainda-crise arrastando correntes pesadas na cabeça, mesmo fingindo que-não-ligo-e-sou-auto-suficiente; meio responsabilidade precoce de ter tanta gente grave em minhas mãos inábeis e inocentes.

Daí vejo que ainda faltam quase duas horas para o dia amanhecer e perco o sono. Seguro firme a respiração para não te fazer acordar e fico ali, contemplativo, observando o vagar de suas incursões respiratórias sob a luz tênue das lâmpadas de sódio da rua.

E sorrio, me aninho como posso e volto a dormir.

sábado, outubro 20, 2007

Você

Passo mais de mês sem pensar em você, acredita? E só de pensar que antigamente era quase diária a lembrança, daquelas que quase sangravam no tocar do lençol à noite, eu sozinho na minha insônia, meus pesadelos e decepções.

Passo meses sem ter notícias tuas e acho até bom. Vou bambeando nessa rotina morna, meio responsável, agregando pequenas felicidades e grandes significados. Até as lembranças perigosas tipo All Star, Caio Fernando, Paulinho Moska, etc foram sublimadas, isto é, acabei incorporando-as como coisas minhas, coisas boas, coisas que gosto tanto que nem me incomodo de compartilhá-las.

Até que. Até que volto pra esse universo meio em suspenso que costumava de chamar de lar. Volto para a cidade aonde tudo parece estar sempre do jeito que sempre esteve e me assusto. Daí dissimulo, finjo que nem vejo você online, hesito em te buscar nos confins do Orkut. Finjo não tentar interpretar tantas mensagens que tenho certeza que não são pra mim.

Te vejo na rua, tão por acaso que quase te atropelo. Acho bom minha displicência, necessária até, o que não impede do meu coração cair abismos até estatalar em chão rochoso dois passos depois de um cumprimento nada além de educado. E penso, e volto, e revolto, piso e repiso todas minhas frustrações, meu "wait and see" nada providencial, nosso desencontros de ponteiros.

Em quantos castelos construi, mesmo sem saber direito quem você é de verdade e, como te disse numa carta envergonhada, se a pessoa que construi nada mais é que um reflexo tosco de minhas mais doces divagações.

Lembro de Carrie*, naquele penúltimo episódio, quando ela liga para Miranda dizendo que está infeliz em Paris. E, que fique bem claro, não que eu esteja infeliz. Mas quando a coisa aperta, quando me vejo nestes vácuos de pequenas frustrações: é você quem volta.

Não que doa, não que me dê vontade de largar tudo correr ao telefone e talvez até dizer talvez te ame volta volta volta volta.

Às vezes acho que talvez eu devesse. Pelo menos, pra tentar finalmente matar essa sua lembrança que me assombra.

* está num forno um post tipo top 3 SATC. Aguardem, aguardem...

Correntinha literária

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abrir na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

"Trabalho com papai há quase nove anos, acho que já tenho noção do que estou fazendo"
(Curto alcance - Annie Prouxl)

Passo a bola para: Maria Anita, Régis, Leonardo, Phillipe, Camila

PS - não deixem essa corrente acabar, senão o Orkut vai ser pago!

segunda-feira, outubro 15, 2007

The beginning

Tudo se resume à começar de novo. Novo estágio, o último e derradeiro, o mais difícil e interessante - na angústia dos últimos passos para o vôo solo, confirmando certezas do que pretensamente pretendo fazer pelo resto da vida.

Novo status quo, variando entre a compreensão e raiva das limitações alheias. Bem sei que sou eu quem tem que moderar as expectativas, mas sou de carne e tão fraco: tenho os meus momentos de tentação para tocar o foda-se e vamos seguir sozinhos nesse caminho.

Novo horário: de verão. Implica em outro céu ao acordar, vejo os tons de laranja e vermelho, numa luz completamente diferente do que estou acostumado. Ver o dia terminar mais tarde, sobrando duas horas de luz ainda para outros planos - quem sabe academia, mesmo sem qualquer propósito além de descansar a cabeça.

Tudo neste breve início, com final programado para bem próximo. Mas me alegra essa impressão de novidade, para cair sem tardar muito numa rotina cansada e sem culpa. Acordei hoje com ganas de fazer novo, fazer diferente, estar mais atento para o que vier.

E que assim seja.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Ter / não ter

A lição das últimas semanas é o equilíbrio sobre as coisas que eu gostaria de ter, mas você não me dá e as coisas que nunca pedi, mas acabo tendo e são boas. Todas elas são pequenas, meio bobas, mas permeiam o meu cotidiano.

Tenho aprendido a medida do exigir, porque eu não posso te ter à imagem e semelhança de todas as minhas expectativas. Perceber isso foi doloroso, mas necessário. Sei que você não aperta minha mão no cinema, sei que você nunca vai me apresentar uns filmezinhos densos ou aquela banda de rock que vou me apaixonar.

Mas você me ofereceu o controle do portão, pegou no meu braço quando voltávamos pra casa e tem um jeito de mandar em mim que me faz ser um pouco melhor.

Aprendi que não-ter até é bom. Discordar também. E fico procurando diariamente essas pequenas surpresas que nem desconfiava, mas aquele procurar distraído que quando se vê pleim! se esbarra e estou estatelado no chão com o sorriso mais bonito do mundo.

E fico feliz.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Fight test

"I thought I was smart
I thought I was right
I thought it better not to fight
I thought there was a virtue in always being cool
So when it came time to fight..."

Foi ontem que percebi que tudo o que havia passado nos últimos anos foi uma espécie de preparação, pequenos testes. Pequenas situações problemas das quais meu dever eram tirar as lições e tornar-me mais independente, mais forte e confiante, mais capaz e certeiro. O suficiente para que eu não me implodisse quando o grande teste chegasse e, com isso, levasse tanta gente querida junto no buraco que se abrisse.

Eu não queria que fosse agora, mas só me restava enfrentar a situação, da melhor maneira que eu conseguisse.

E depois que a tempestade passou, talvez a palavra que melhor me definisse seria: dilacerado. Em frangalhos. E, pior de tudo, fingindo uma pretensa confiança, voz em meio-tom, esquivando olhares para que não percebessem tudo o que está acontecendo do lado de dentro.

Sempre acreditei que a verdade libertasse, meio redenção, meio epifania. Avisaram que o processo é doloroso, deixa cicatrizes e que talvez nunca mais sejamos os mesmos no final das contas. Mas tenho uma esperança violenta, aliás, sempre tive uma esperança violenta em todas as pessoas que me são caras. Tenho esperança que, em breve, o dia abrirá ensolarado e que todos nós seremos melhores num futuro que não demorará.

E me sinto finalmente liberto, dotado de uma coragem tão bonita, que gostaria de desenhá-la para vocês. Porque, apesar dos pesares, sinto que não estou mais tão sozinho e a vastidão desse mundo não incomoda tanto - afinal, tenho coração e força suficientes para atravessá-lo.

Sei que as coisas não são simples e que hoje é só o primeiro dia do resto da minha vida. Mas me reservo ao direito de brincar de Pollyanna e dizer: vai ser lindo, vai ser bom, vai melhorar. Só ter um pouco de fé.

"Cause I'm a man not a boy and there are things
You can't avoid you have to face them when you're not prepared"
(Fight Test - The Flaming Lips)

PS - e agradeço a todos que, perto ou longe, mandam tanta energia positiva para, nas palavras de Caio F., que seja doce.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Ironic

"Well life has a funny way of sneaking up on you
And life has a funny, funny way of helping you out"
(Alanis, outro clássico)

Lógico que eu sabia que isso iria acontecer. Já havíamos discutidos sobre isso por horas, montado estratégias, desenhado metas, escolhido planos de A até F. Mas não, nunca, que iria ser por agora.

Logo no dia +1 da melhor festa da minha vida. Logo num raro momento em que tudo parece correr sem muito esforço, as coisas estavam se encaixando sem drama nem crises, tão cercado que mais um passo à frente sufoca, tão amado que nem sei como aceitei viver sem isso por tanto tempo.

Logo agora que eu estava fazendo minha lição de casa, pisando em zonas neutras e calculando palavras.

Logo agora que havia refeito o equilíbrio frágil dessas coisas tênues, meio bestas, meio pequeno-burguesas.

Tenho medo de não haver quem apagar os incêndios subsequentes. Tenho medo do que vai surgir da caixa que essa Pandora descuidada está prestes a abrir. Tenho medo porque sei que o que será dito é irreversível, potencialmente explosivo e que talvez nem tenha remédio.

Tenho medo porque sou de carne e ela é fraca. Mas, no melhor estilo Legião, tudo bem, tudo bem, tudo bem, vamos lá.

Que isso aconteça agora, quando todos os ventos sopram à favor e braços longos não faltam pros abraços apertados, aninhando meus cabelos dizendo em voz doce: está tudo bem. Nessa iminência da virada, mundo adulto espreitando pelas frestas e a promessa de tanta coisa que está por vir.

Que isso aconteça agora, quando descobri toda minha capacidade de cicatrização e, nas palavras de uma grande amiga, aprendi que minhas mãos são capazes e tenho os pés bem firmes fincados no chão.

Qualquer coisa é só rabiscar o Sol que a chuva apagou, bem grande, giz amarelo e cores fortes. Porque, no final das contas, essa Kite aqui, depois que aprendeu o rumo do céu, não quer mais saber de voar baixo - independente das tempestades...

sexta-feira, outubro 05, 2007

Pequenas ausências

Sabe, é oito e meia da noite, ócio improdutivo no PS, pensei em te ligar. Meio assim, sem propósito, para não quebrar essa nossa rotina de encontros diários, mesmo que breves, ou duas ou três palavras quando isso não é possível. Tá, minto um pouco: te liguei ali pelas duas, você não atendeu - não que isso seja uma cobrança direta, mas sei lá, talvez tivesse algo de errado, talvez aconteceu alguma coisa e você está precisando de mim, não sei.

Ligo sem muito remorso, nada daqueles segundos infinitos de telefone suando na ponta dos dedos de hesitação de será-que-devo. Você me conta um pouco do seu dia difícil: problemas com gerente, cliente, pequenas atribulações, por isso nem atendi, desculpa desculpa. Eu digo um pouco do meu dia fácil: ninguém apareceu, dei faxina em casa, dormi um bocado, pensei um tanto em você. Sorrio, imaginando que você está sorrindo. Sabe, é estranho não se ver. Eu sei, é mesmo, coisas assim muito sem propósito. Amanhã nos vemos, tipo pizza filme pipoca né? Volto para minhas grávidas, você para sua TV. Tchau, tchau.

Passa uma hora, episódio final de novela e meio que Brasil inteiro com coração na mão. Você me liga no intervalo pra não atrapalhar, mas nem estava propriamente assistindo. Você me diz que a casa está vazia demais, sua colega de quarto viajou e está só você, a TV e essa solidão monstra. Queria escutar sua voz de novo, você faz falta, eu concordo emendando várias outras coisas tipo nunca senti nada assim e fico com medo dessa forma que você me trata porque nada nada nada deu certo pra mim até hoje e fico receoso quando tanta coisa boa chega num pacote só.

Até que ficamos em silêncio, meio constrangidos. Falo boa noite, pensa em mim, vai dormir pra descansar que você precisa. Você responde: tô torcendo pra chover e espantar todas as grávidas, mas nem vai dar nada, quando acordar me liga. Hesitamos nas saudades, mas acabamos falando - meio brega, clichê, mas enfim: não está tudo já perdido mesmo?

E destas pequenas ausências que vou construindo grandes significados.

quarta-feira, setembro 26, 2007

96 dias e contando...

Eu tinha noção do fim iminente, mas nunca ele havia se materializado num número. Principalmente um que não fosse de três dígitos, um que fosse tão próximo, um que desse essa impressão incômoda de "logo ali".

O fato é que, depois de tantas peripécias e sentimentos desencontrados, faltam menos de 100 dias para o encerramento deste ciclo. E a grande ironia é que esse momento aconteça bem quando, para mim, estou no melhor momento desta fase.

Quem me acompanha de perto sabe que minha relação com Uberlândia, a faculdade e as pessoas que me cercam por aqui sempre foram um tanto contraditórias. Que não foram poucas as vezes que quis desaparecer, vender cocos no Taiti, mudar de mala e cuia para Ribeirão, fugir para Europa ou coisa parecida. Mas agora, hoje, dentro de tudo que consegui construir nesses últimos meses, a única coisa que quero e penso é ficar.

Tenho certeza de que construi o universo mais belo, na medida das concessões que me permiti fazer e dentro dele me sinto seguro e satisfeito. Tenho certeza de que a vida que sempre quis não está do jeito que deveria, mas pelo menos está no caminho de. Tenho certeza de que guardarei a lembrança mais terna destes dias cáusticos e ensolarados.

E o que me frustra, quase diariamente, é que tudo isto terminará nestes malditos 96 dias. Obviamente que cada coisa permanecerá da sua maneira, mas não de uma forma única e próxima, tão impregnada no meu cotidiano como foi ontem, é hoje, será amanhã.

O nonagésimo sétimo dia é um vácuo, uma escuridão, um abismo fundo de não saber o que encontrar ou o que vai permanecer. Não estou preparado para abrir mão de tanta coisa que me faz bem, faz-me sorrir gratuitamente e me reúne coragem para finalmente resolver algumas decisões críticas em minha vida.

E esse passar lento dos dias, pingando cada vez mais próximo do último, será doloroso por saber que cada dia é um dia a menos, dentro de tanta coisa que eu gostaria de fazer. Mas não contarei isso a ninguém - exibirei meu sorriso mais brilhante, numa felicidade aparente pelo objetivo cumprido, enquanto fico meia hora insone antes de dormir, rolando na cama, pensando no que farei quando o último dia chegar...

quarta-feira, setembro 19, 2007

Inventário

Lógico que isso aqui acaba sendo o monótono registro das minhas idiossincrasias, das minhas frustrações e um inventários dos relacionamentos mal-sucedidos. Mas também acaba sendo o registro histórico de minhas histerias, minhas dificuldades e, principalmente, da forma que eu lido com o mundo e as formas que tento driblá-lo.

Pensei muito nisso esses dias pois não tirei Belle and Sebastian da minha vitrola essa semana. Passei pelo Tigermilk, o The Boy with the Arab Strap e até terminar no If You're Feeling Sinister. E, por causa disso, lembrei do finado Get me away from here..., meu primeiro blog e dos primórdios do Martini Seco.

Aquela época era recheada de pequenas dificuldades, todas teóricas e estáticas. Era uma época em que eu via o mundo passar, esperando a oportunidade para pular para dentro do bonde. Uma época em que havia uma possibilidade de liberdade imensa, mas não sabia como usufrui-la. Época de avalizar os riscos, mas ser incapaz de assumi-los com medo de perder algo no meio do caminho.

Hoje as dúvidas são bem mais práticas - muita coisa se perdeu no meio do trajeto e percebi que, no final das contas, são poucas coisas que importam quando fechamos a contabilidade dos fatos. Hoje as questões são menos românticas, as expectativas são um pouco menores e triste até fico às vezes, mas é mais uma melancolia saudosa que tristeza que fato. Penso no emprego e imposto de renda, leio menos Bandeira e mais livros médicos, encontrei-me no mundo das epidemias e bactérias.

Aprendi a reconhecer meus platonismos doces. Enxergar as pessoas mais como elas são do que como eu gostaria que elas fossem.

Aprendi um jeito de ser doce e amado, que tudo é uma mera questão de se permitir.

E aprendi que as coisas estão longe de ser pontuais, mas na maioria do tempos elas são simples. Hoje transpareço uma tranquilidade que em certos momentos chega até a ser irreal, mas que me ajuda a redirecionar meus passos nesses dias tão confusos que estou vivendo.

Hoje, sei que apesar de não saber para onde vão, meus passos são firmes. E que, independente do que aconteça, eles nunca serão de todo solitários...

quinta-feira, setembro 13, 2007

Caçando borboletas (2)

... foi quando vi que tudo estava perdido. Havia roubado duas rosas daquele jantar, roubei-as porque pensei: são tão lindas que merecem ser dadas para alguém - e imediatamente me lembrei de você. Estava surpreendentemente social: camisa, calça do terno, cabelo or-de-na-do, tão impecável porque você que me vestiu, afinal, bem sabes que pouco sei além das T-shirts and jeans. Nem na sua casa iria dormir, mas acho que perdi o jeito de dormir sozinho: acostumei a dormir de pés colados, calor do corpo, epidermes juntas. Estávamos subindo as escadas, você não as tinha visto em minhas mãos. E ali, na escuridão silenciosa do hall do apartamento de baixo, mostrei-as: para você, são para você, as duas. E você abriu o maior sorriso do mundo, o mais sincero, o mais transparente. Percebi que você estava numa daquelas alegrias envergonhadas, de tão grandes que ficamos até embaraçados de compartilhá-las com alguém.

"Sabe, eu nunca havia ganhado flores de ninguém"

Eu sorri, você sorriu em retorno. Foi quando você pegou na minha mão e me beijou, de estalo, alguns segundos...

terça-feira, setembro 04, 2007

Caçando borboletas (1)

"Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo cresça? Pergunto - porque não estou certo - coisas talvez um tanto primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para, quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar?"
(Os dragões não conhecem o paraíso - Caio Fernando Abreu)

Tenho pensado neste meu aprendizado de dois meses: quase nunca sozinho, mas quase sempre incompleto.

E, dentre tantas confusões e incertezas, reconheci aquilo que busco: elas, as borboletas.

E este arrepio, esta vertigem de incerteza me faz dormir menos, estudar menos e até rever planos tão minunciosamente desenhados.

Tenho vontade de escrever cartas tolas, ao som de Nara Leão.

Tenho medo, tanto medo, tanto medo: e querem saber? É tão bom...

quinta-feira, agosto 30, 2007

Um retorno

Era segunda-feira e pegava estrada logo quando o Sol amanhecia. Para mim, o nascer do Sol mais lindo que eu já tinha visto: imensa bola vermelha pendurada no céu, vagos tons de amarelo, laranja e rosa a recortar o céu.

A estrada, vazia e taciturna. Cruzava-a enquanto o dia iniciava, tão cansado de um final de semana pouco cristão. Mas era presenteado com todos os ipês amarelos arrebentando em flor, contrastando com a vegetação rasteira e seca deste agosto (pra minha benção) que não termina.

Voltava para casa numa situação inédita: porque precisavam de mim. Não que tivessem pedido. Mas pela primeira vez eu, filho, subverteria a ordem de carinho e voltaria para casa para tomar conta de minha mãe.

Antes que me indaguem: nada grave, nada urgente. Só um procedimentozinho simples, mas que necessitava internação, centro cirúrgico e toda aquela rotina potencialmente amedrontadora para quem não está acostumado. Eu seria de pouca utilidade prática: só ir lá, segurar a mão firme e dizer com minha voz tranquila que tudo daria certo e não havia com que se preocupar.

E assim fiz. Encontrei minha mãe, dentro daquele verde asséptico tão característico dos ambientes hospitalares, com um vago ar fragilizado. Obviamente, ralhou comigo por ter desabalado em plena segunda-feira, dia de escravidão, para vê-la numa coisa-à -toa. Mas logo depois, abriu um sorriso tão ensolarado, meio cúmplice, meio constrangido, inteiro feliz: por eu estar ali, por eu ter-me preocupado e, quem sabe talvez, sentisse segurança em minhas mãos.

Tudo correu como deveria e, por causa de malabarismos de escala, ainda consegui permanecer mais um dia em casa. Dormi um sono pesado e sem sonhos - esgotamento mental puro - para acordar no outro dia com minha mãe deitada ao meu lado, chamando-me para almoçar, como fazia quando ainda morava com ela.

E, enquanto eu estava naquele estado entre-sono, disse-me em voz baixa: te amo, viu? E quis desmontar de tanta ternura, porque nunca senti tanta verdade numa voz. E me senti adulto e capaz, feliz pelas minhas escolhas e pelos minhas atitudes. E juro que, se eu tivesse um coração um pouco mais mole, teria desabado a chorar...

... porque lembrei daquela carta que um dia ela havia me mandado. Por ser a época dos ipês.

Por perceber que todo amor que sinto por ela, pelo meu pai e pelo meu irmão é incondicional...

terça-feira, agosto 28, 2007

Confissão

Na verdade, foi uma paixão derivada de outra paixão - porque assim que as coisas funcionam nestas paixões vertiginosas: outras paixões se acoplam e acabam derretendo o pobre coração vitimizado, e assim foi. Mas, enfim, então: a primeira paixão acabou, morreu, transfigurou, tornou-se outra coisa, adormeceu, sei lá - ainda nem defini bem o que virou dela, mas não importa neste caso. E esta segunda, apesar dos pesares, manteve-se.

Ela permaneceu, porque também era uma paixão compartilhada pelos meus melhores amigos. Estava nas referências pop pelo mundo, encontrava-se em todos os lugares que eu frequentava, na faculdade e em cada sorriso de pessoa mais ou menos interessante.

É minha paixão porque é despojado. É minha paixão porque tem esse quê de retrô e despretencioso. É minha paixão porque a beleza reside em linhas ridicularmente simples. É minha paixão porque me dá essa impressão de atemporalidade. É minha paixão porque, acima de tudo, considero que é um sinal importante de "estado de espírito".
Consumei-a no último domingo, pelo módico preço de R$45. Meu primeiro All Star: branco e alvo. Tão eu, nesta novíssima fase da minha vida.

terça-feira, agosto 21, 2007

Belo belo

O que eu quero não é difícil nem fácil. O que eu quero não tem rosto, não tem gosto, não tem sabor. O que eu quero não cabe dentro de uma idealização romântica. O que eu quero não pode ser edificado, ou guardado numa caixa, ou talvez engarrafado. O que eu quero não pode ser mandado para viagem, nem mesmo descrito num bilhete curto, nem guardado num lapso fotográfico. O que eu quero não é partidário, não é revolucionário, não salvaria ninguém das próprias insônias.

O que quero é mais ou menos aqueles dois segundos que antecedem quando pulei de bungee jump, tipo vertigem de morte. Aquelas borboletas no estômago daquele primeiro beijo tão vertiginoso. O coração na ponta dos dedos dos loucos mais passionais. Quero o silêncio cortante das praias desertas, o último desespero de quem se afoga, o alívio depois de um parto normal.

Quero mesmo é sentir. Quero mesmo aquilo que chacoalhe as estruturas, me bote em dúvida sobre tudo aquilo que um dia eu acreditei. Eu não importo o que seja, só não seja morno. Basta desta vida morna.

Eu quero mesmo é Vida. Essa mesmo, Vida.

Maiúscula.

"Quero Quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco"
(Belo belo, Manuel Bandeira)

quinta-feira, agosto 16, 2007

Só para raros


"Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto..."
(O Teatro Mágico)

terça-feira, agosto 14, 2007

# 2/2 - Razão e Emoção

Eu gostaria de lhe dizer que nem sempre o que racionalmente escolhemos é o que emocionalmente damos conta de botar em prática. E que quatro latas de cerveja mais uma caipirinha não é desculpa para ser cruel, mas acontece, aconteceu, apesar de todas as minhas melhores intenções.

Eu gostaria de lhe dizer que funcionávamos perfeitamente na teoria, mas como naquelas ironias gigantes, na prática a coisa não se encaixava. Bote a culpa em mim: essa perspectiva do fim, esses últimos dois meses de virar a cabeça e torcer o coração. Essa certeza tão incerta que o que reserva além destes cinco meses é bruma, é escuro e toda essa história tá me deixando num medo imenso.

Eu gostaria de lhe dizer que, de você, guardo comigo uma lembrança tão doce, porque é difícil de te explicar: como eu aprendi. Como você me fez enxergar meus erros crônicos nestes meus últimos relacionamentos malfadados, como eu poderia ter agido de tantas outras formas para conseguir o que eu queria.

Eu gostaria de lhe dizer que guardo todos os meus amores, mesmo passados, mesmo infelizes, mesmo nestes tristes fins, na prateleira mais linda. Porque cada um é dotado de uma pequena especificidade, aquela pequena característica que o faz único de todo resto. E assim, quando estou tão triste e sozinho e carente e solitário, recolho cada um, colocando por entre estes meus dedos longos e acaricio - lembrando como era bom, como é bom essa sensação magnética de estar dentro de algo: e se bastar.

****

Devido uma falta crônica de tempo / computador, todos os meus post estão com um pequeno delay entre o acontecimento e o "escrevimento". Portanto: paciência...

quarta-feira, agosto 08, 2007

#1/2 - Razão e emoção

"- Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou escrever uma tragédia, ou transformar-se em gaivota, e o general não executasse a ordem recebida, quem - ele ou eu - estaria errado?

- Vós, respondeu com firmeza o principezinho.

- Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei"
(O Pequeno Príncipe)

quinta-feira, agosto 02, 2007

Cotidiano

"Às vezes quero crer mas não consigo
É tudo uma total insensatez
Aí pergunto a Deus: escute, amigo
Se foi pra desfazer, por que é que fez?"
(Cotidiano n°2 - Vinícius de Moraes)

Hoje sonhei contigo, sabe como? Juntos. Talvez eu ache isso até grave: porque daquele nosso reencontro tépido, não bancarei a Pollyanna botando intenções aonde não aconteceram. Ainda mais porque: estou aqui, você ali. Eu caminhando cada vez ao Norte, você rumando ao Sul. Até sua resposta, ao relê-la, pareceu-me intencionalmente vaga para não dizer o desagradável.

Acabei de apagar um post imenso e doce sobre aquela nossa última quinta-feira gelada. Mas de súbito, ao cantarolar Vinícius, percebi que a questão é outra: se fosse para movimentar, já teria ido. E o pior de tudo é que, na maioria do tempo, não compreendo nossa relação ambígua - e não é hora para iluminá-la e correr o risco, depois de tanta paciência e espera, de botar tudo - e definitivamente - a perder.

Afinal, aquela quinta-feira teve sabor de recomeço. De reinício. Pecados pagos e conta limpa. Talvez eu esteja sendo só pessimista, talvez seja aquela velha questão de tempo e insistência.

Talvez eu esteja, como sempre, acreditando demais aonde não pode surgir mais coisa alguma.

Talvez seja melhor deixar o barco correr, o mundo dar outras voltas e nos pegar novamente noutro momento, com mais certezas e menos interrogações.

Mas só sei que este estado constante de mãos atadas incomodam e doem. Bem vezenquanto, nessas noites geladas, quando lembro daquele seu All Star branco lindo: mas doem.

domingo, julho 29, 2007

# 2/2 - Último Episódio

Se fosse o último episódio, começaria num aniversário, onde cinco velhos amigos finalmente estavam se reunindo depois de meses separados. Sempre se encontravam, mas separadamente. O clima era agradável, afinal havia a arqueologia de velhas histórias deliciosas, cerveja gelada, música rolando. Mas a festa era um pouco agridoce pois, como diriam os créditos iniciais, o nome do tal episódio seria "Éramos seis".

Sim, éramos seis. Seis grandes amigos, daqueles de compreensão apenas com um olhar. E, nesta temporada, um deles se fora já fazia alguns meses e os outros cinco não podiam reunir sem citar, e também lamentar a sorte (dele, nossa), do que se fora. As meninas logo argumentaram que tudo ocorreu por causa de um favor negado. Os meninos, por causa de uma má companhia específica que envenenou seu julgamento. Na verdade, as duas razões eram complementares. E os cinco concluiram que, o que mais doía, era saber que haviam perdido o sexto. Que não tinha remédio. Que não tinha volta. E que, bem provavelmente, era para sempre.

E todos ali sabiam que não era a primeira perda. Refazendo a lista, outras três ou quatro pessoas fascinantes e enriquecedoras tinham ficado pelo meio do caminho desta forma. Tá, talvez não pelo meio: mas escolhido outro, naquelas bifurcações que se seguem. Sempre acreditamos que fomos nós que escolhemos o ensolarado e sempre fica aquele gosto de cabo de guarda-chuva por não ter sido bons o suficiente para mostrar que o lado de cá, por incrível que pareça, era o melhor.

Mas a sensação agridoce era passageira. Porque naquele aniversário, não éramos apenas cinco. Novos integrantes puxaram a cadeira nesta temporada, mostrando seu novo valor e conquistando espaço de tal forma que comentávamos: como conseguíamos passar sem a companhia deste ou daquela? Naquele aniversário tranquilo, música baixa e cerveja de lata, percebemos que ali éramos aproximadamente dez. Sem contar os faltosos, aqueles que esbarramos pelo caminho, aquele que encontraremos num futuro breve. Éramos cinco, mais intensamente ligados pela perda, irresistivelmente presos ao mesmo destino mesmo que os encontros sejam mais eventuais devido à loucura dessa vida pré-adulta.

Somos cinco, de mãos juntas, peito aberto e toda uma vida pela frente.

***

Quanto ao narrador, taquicardia do início ao fim. Recapitulando os últimos episódios; primeiro, uma viagem onde se encontra a última coisa que esperava naquele momento: uma possibilidade de. Daquelas desenfreadas, borboletas no estômagos, insônias recorrentes e Murphy correndo solto: distância, cirurgias, reconciliações. Depois, outra possibilidade: teoricamente, tudo aquilo que eu sempre desejei que acontecesse aqui perto, cinco quilômetros e sem todas aquelas complicações recorrentes; na prática, faltou aquele degrau do qual caímos sem ver e só vemos quando estamos lá dentro, lá no fundo, completamente reféns. Por último, um reencontro com o passado: o episódio já citado das cinzas, uma pequena reconciliação com esse mundo que criei e que agora está nos seus estertores finais. Além deste, um reencontro com meu passado sempre recorrente depois de seis meses de desencontros: velhas conversas, velhos signos, velhas questões que levanto sem poder colher a resposta imediatamente. A certeza que velhas coisas nunca mudam e que o encanto, aquele de anos atrás, ainda permanece tão magnético...

Que surpresas reservam a próxima temporada? Vai saber...

***

Daí, ele se lembra:

Primeiro dia de viagem, por volta das quatro da manhã. O lugar tinha qualquer coisa de calabouço - escuro, umas correntes, parede baixa. A música ao longe, o suficiente para ser escutada. Havia um silêncio entre eles, mãos entrelaçadas enquanto outro assunto não vem, aquele sorriso besta só de colocar os olhos nos outros olhos e ter o mesmo sorriso besta em troca. Daí, começa "Open your eyes", Snow Patrol e digo:

- Sabe, eu gosto tanto desta música.
- Sério?
- Sério.

E as mãos entrelaçadas às minhas se soltam, pondo-se em meu rosto levemente. Na mesma voz doce, continuou:

- Então eu quero te beijar por essa música inteira, para que você se lembre de mim toda vez que ela tocar.

E me beijou, por intermináveis cinco minutos.

E assim foi, está sendo e, pelo que me conheço, sempre será.

terça-feira, julho 24, 2007

# 1/2 - O último episódio

Ainda sob o efeito do último episódio de Sex and the City, tenho pensado muito na minha vida. De como essa última semana, de ócio absoluto e improdutivo, funcionou como um último episódio da idiossincrática temporada da minha vida. Mas isso é tópico para outro post.

Penso em últimos episódios, sempre cheio de ganchos para a próxima temporada. Mas normalmente últimos episódios são felizes. Nos últimos episódios, todo o sofrimento passado é convertido em felicidade numa pequena epifania e os ganhos dos sacrifícios são pagos, até a última gota.

Minha grande questão é: será que é mesmo assim?

Somos condicionados por Hollywood, as religiões ocidentais, a literatura barata de auto-ajuda e os ditados clichês que todo sofrimento tem seu preço. Que todas as nossas dores de cabeça, se formos suficientemente éticos e bons, resultarão num happy ending. Que se formos bons cristãos, não importando o quanto apanhemos, é passagem garantida para o céu. Na lógica do ditado que plantamos o que colhemos, nosso vinhedo das boas intenções frutificará independente do mau tempo.

E se as coisas não forem exatamente assim? E se esse universo não for regido por essas leis, que só beneficiam os pobres coitados, inocentes feridos e os bem-intencionados? Se essa selva cruel for tão somente cruel, o mundo for mesmo o lugar dos espertos e, naquele ditado orkutiano clássico, os bonzinhos só se fodem e ponto final.

Confesso que mesmo sendo este agnóstico convicto, cético na maioria dos assuntos, eu acredito de certa forma nesse balanço cósmico. Ajo com tranquilidade no dia de hoje, esperando que essa ação reverbere em bons frutos num futuro próximo. Sou tão inocente, a ponto de acreditar na maior parte das boas intenções das pessoas. E sinceramente acredito que algumas das minhas dívidas serão pagas e só me resta aguardar, tranquilamente com uma cerveja na mão, enquanto a espada da justiça não chega.

Porque gosto da minha ilusão de que minha vida é um pouco cinematográfica e, no final, tudo fará sentido e compensará no final. Agora, só falta escolher a trilha sonora...

quarta-feira, julho 18, 2007

Nota mental

"Nos refugiamos en la nostalgia cuando sentimos que nos abandona la esperanza, porque la esperanza exige audacia y la nostalgia no exige nada"
(Eduardo Galeano)

# 2/2 - As cinzas

"É quando teus amigos te surpreendem
Deixando a vida de repente
E não se quer acreditar
Mas essa vida é passageira
Chorar eu sei que é besteira
Mas, meu amigo, não dá prá segurar"
(Vida Passageira - Ira!)

Sabe amigo, sei que há muito tempo você perdeu o hábito de ler isso aqui. Fiquei enfadonho, desinteressante. Um tanto moralista, um tanto ácido demais. Você me disse: eu perdi aquela capacidade de acreditar nos outros sem reservas, de dar a cara para bater sem medo de apanhar. E eu sinto falta daquela época, nos primórdios da faculdade, quando as músicas eram só músicas, os porres eram só porres e não tínhamos toda essa bagagem emocional para carregar.

Sei que nos distanciamos, sei que nos magoamos, sei que dissemos coisas tolas só porque éramos orgulhosos demais ou incapazes de reconhecermos nossos erros. Sei também que muitas vezes te julguei levianamente, da forma que você sempre odiou que os outros te tratassem. Mas eu estava errado.

Porque não sei como eu seria sem sua influência direta. Esse meu jeito direito de andar, aprendi contigo. Aprendi a deixar o cabelo tipo Strokes, aprendi a gostar de bossa nova e sertanejo, a fumar pito de palha e ser um pouco mais sociável. Aprendi a gostar de All Star, cantar "Stand by me" em duas vozes, não estudar para provas idiotas. Aprendi a ter coragem e não aceitar passivamente tudo que me oferecessem.

Hoje entendo que precisei passar por isso tudo para valorizar o que sua amizade significou para mim. Faço uma coisa que raramente consigo, porque sou irremediavelmente e idiotamente orgulhoso: peço desculpas. Nessas brasas, debaixo dessa lua e céu tão límpido, eu peço que você desculpe esse babaca. Há tão poucas coisa que sei nesses dias de incerteza, mas ainda bem que percebi a tempo que você é daquelas raras pessoas que eu quero levar sempre comigo, mesmo que seja só uma lembrança boa e nostálgica de alguma tarde divertida. Mesmo que não convivamos diariamente, mas que quando eu te encontrar, eu possa dar aquele abraço sincero de:

saudades tuas, cara.

segunda-feira, julho 16, 2007

#1/2 - As cinzas

"Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta?"
(Mário Quintana)

Era noite fria de julho, em volta de uma fogueira em brasa. Todos cantam Vinícius, depois de uma caixa e meia de cerveja. Boas companhias, cada um com seu significado pessoal: umas saudosas, outras cúmplices. Festa até agradável, acima da média, coisas assim.

Já era final, só restavam brasas e as cinzas. Nem parecia que ali havia uma fogueira, dois metros de altura, tanto calor que mal se podia chegar perto. Mas já era alta madrugada e sobrara um calor convidativo, tão convidativo que sentamos cada um com seu copo, cada qual com suas lembranças. Começou com Cartola, aquela que Cazuza também cantou: ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida... Depois emendou o velho Vinícius, cantando os amores tristes e errados, as paixões redentoras e pungentes. Cantou a boemia do Rio, a tristeza dos dias nublados...

... e não sei se foi a noite tão estrelada, aquele frio de estralar os dedos, a cerveja que já ia subindo, a metáfora das brasas, meu estado de culpa crônica, a bossa nova, essa nostalgia pelo final iminente. E naquela noite, todo esse estado não era pela minha insistência crônica pelos amores difíceis e inconclusos. Era por aquele momento fotográfico do "talvez seja a última vez que", ou talvez "apesar dos pesares, estamos aqui".

A metáfora da noite, pensei, era o fato que estávamos todos ali, como de certa forma um dia fomos. Aquecidos por aquelas brasas de brilho lúgubre e quase sem beleza - mas era só daquilo que precisávamos no momento. As brasas nos bastavam, mantiam-nos unidos. Comecei a relembrar as mesmas músicas em outros lugares, outras paragens, de como nem gostava de bossa nova num período tão remoto assim. De como todos ali participaram na minha formação como indivíduo adulto, apesar do passo principal desse processo fosse um rompimento e todas as mágoas recorrentes.

Lembrei dessa frase de Mário Quintana, fechando o último livro do padrinho Caio. Quando se passa a régua, o mais importante é cantar, é cantar junto...

E que perdoar é uma das coisas mais divinas que há no mundo.

E perdoei.

quarta-feira, julho 11, 2007

Open your eyes

Por andar distraído, diria a madrinha Clarice. De espírito leve, sem culpa e sem compromisso, expectativas basais e, porque não dizer, péssimas intenções? Até que, quando menos se esperava, encontrei aquilo que há dois anos não sentia: identificação quase instantânea, corpos praticamente complementares, um senso de humor discreto, um senso de liberdade acima do comum, daquelas coincidências estranhas das frases que se completam e das histórias que gostaria de escutar por horas e horas e horas.

Pouco aconteceu, na verdade. Dois encontros, algumas promessas vagas, talvez nos vemos nas próximas semanas. E dentro deste não-acontecer, as coisas foram acontecendo internamente. Borboletas no estômago, planos de viagens, pequenas expectativas. Foi um mês nesta rotina silenciosa de sorrisos gratuitos, auto-estima recuperada e espera sem pressa. Foi quase um mês completo gerando positividades e trocando os fantasmas do armário.

Mas são pequenas epifanias, do meu padrinho Caio F. São amores em copos de café: instantâneos, fugazes - mas tão lindos que não há como não ficar encantado com tanta beleza que se mostrou. Porque foi novamente cinematográfico, porque foi intenso sem ser piegas, porque fez reencontrar chaves que jurava ter perdido. Não tem preço ter tido o olhar mais terno posto em mim tão gratuitamente que, de lembrar, aperta o coração.

Não, não sou de jogar, por assim dizer, uma paixão tão instantânea e especial pela janela pela impossibilidade dela se concretizar no momento. A vida continua - prossigo bambo e torto, um pouco mais dolorido quando Los Hermanos ou Snow Patrol toca, imerso nesta rotina absurda e sem perspectivas. Mas prossigo menos cínico e um pouco mais crente de que, quando menos se espera, esbarramos com uma possibilidade tão brilhante que reilumina os caminhos e dá essa vontade simples de - nem sei...

E, desta mesmíssima forma, aguardando distraidamente que o destino arrume outra oportunidade dessas - num momento favorável, na mesma cidade, num futuro próximo. Num bar qualquer, à meia luz, Sinatra rolando melancólico ao fundo. Na mão, um copo de Martini, duas azeitonas. Borboletas no estômago, sem saber o que há por vir.

E ver você chegar, como se nada tivesse acontecido, com a melhor cara do mundo e ...

quinta-feira, julho 05, 2007

Fora dos planos

Se meu horóscopo, tão consultado estes dias, quisesse ter acertado em cheio era só falar: não planeje, não pense, deixe fluir. O acaso quis que meu final de semana passado passasse de um idílico Before Sunset particular para gravação de DVD sertanejo para festa entre amigos numa fazenda a 50 km de distância em estrada de terra da civilização. Todas estas reviravoltas num prazo de dois dias.

Não, não que tenha sido ruim. Mas essa semana, ainda mais na viragem para o temível segundo semestre, deixou-me um tanto atarantado em pensar no limbo que o próximo ano se revela. No melhor estilo Legião, só sei do que não gosto. Posso estar em Brasília ou Amazônia, interior de Goiás ou São Paulo, São Paulo capital ou Ribeirão Preto, de volta para casa dos meus pais ou mochilando pela Europa. E não cito todos estes destinos só pelo efeito de enumeração: é sério.

E é da minha natureza planificar. I wanna a perfect body, I wanna have control. Neste caos, não sei se mergulho de cabeça em outra daquelas paixões arrebatadoras que só acontecem a cada dois anos, se me mato de estudar enquanto é tempo ou se aproveito a vida em cada intervalo possível.

Ou se, tão somente, deixo a vida me levar pra variar. Mordendo tampas de caneta a torcer para que o melhor caminho se revele...

quarta-feira, junho 27, 2007

Pertencer

"Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o!"
(Clarice Lispector, Pertencer)

segunda-feira, junho 25, 2007

In bloom

E, tão de surpresa, acordar quinze minutos mais cedo que o habitual para colocar a casa em dia. Lavar toda a louça acumulada por duas semanas, guardar todos os livros espalhados pela casa no devido lugar, recolher as roupas sujas, lavar o banheiro e, porque não?, lavar todos os azulejos até branqueá-los, tirar o pó dos móveis e, nesta brincadeira, perder todo um domingo ensolarado. E nem reclamar.

E ainda amanhã é dia de comprar frutas na feira, passar na padaria para pegar um pouco de leite, presunto, mussarela, pão de forma, uma rosca doce e também no mercado para comprar um vinho doce, duas taças, sorvete e chocolate, talvez na floricultura e pegar um buquê de flores brancas para deixar o apartamento mais vivo e perfumado e quem sabe encher o tanque do carro, afinal, sabe lá Deus pra onde vamos e também créditos no celular, afinal se você me ligar e também naquela loja de velas coloridas, incenso, coisas de cheiro e para terminar, passar na locadora e reservar uns três filmes, daqueles meus prediletos, que quero que você veja para me entender melhor...

E, de repente, me vejo em meu apartamento tão ineditamente limpo, uma geladeira lotada, todo meu mundo reciclado e povoado de pequenas alegrias. Acordar cedo nem está tão difícil, cuido das crianças manhosas sem desassosego, até ando dormindo e sonhando coisas lindas no final. Faço balizas sem medo e com perfeição. Começo a papelada do Exército e, se a Marinha me pegar, que mal tem? Planejo viagens, estudo os linfomas e dentro de tantas ausências e dúvidas, tenho me bastado até bem.

O apaixonar é terapêutico - essa esfera magnética diária de otimismo, endorfinas quase horárias só pela perspectiva de. Lidando com os problemas de forma mais direta e objetiva. Vem um tanto de coragem que é perfeita para saltos, mudanças e decisões. É redescobrir todas as pequenas qualidades que, no dia a dia, você esquece que as possui. Relembrar que também sou apaixonante, também tenho esse dom de encantar mesmo que seja só por uma noite. Relembrar que também sou lindo, independente das olheiras insones e da academia que estou sempre tentando recomeçar. É um incentivo para superar, de certa forma, todos aqueles problemas emocionais insolúveis que há tanto estão presos no armário.

Mas, infelizmente, as paixões acabam. E o grande desafio é manter esse estado, de alguma forma, presente quando ela terminar. É impedir que tanta coisa linda que foi redescoberta, tanta mudança imprimida, simplesmente desabe quando o final chegar. Mesmo que a visita nunca chegue, o telefone não toque mais, toda aquela magia acabe.

Porque o que foi revelado nunca deveria desaparecer.

E se depender de mim, não vai.

sábado, junho 16, 2007

Sentimental

"Eu só aceito a condição de ter você só pra mim
Eu sei, não é assim..."

Mas há a realidade. As crianças enfermas, daquelas que mijam e vomitam no seu jaleco antes imaculadamente alvo. Existe um resfriado daqueles, trinta-e-oito-graus-e-meio de pura diversão e mialgia em plena quarta-feira. Pequenas obrigações irritantes, tipo contas de telefone, as confusões da CEMIG, além das contas que não fecham porque eu, digamos, gastei demais do que deveria. Existe a reunião com o Exército e a simpática possibilidade do próximo ano ali, entre a fronteira do Brasil com a Colômbia, entre araras e Plasmodium falciparum (pros íntimos, dona Maleita, malária).

Faltam quatro semanas para o mid-term e, ao reinício, o derradeiro período da faculdade e toda a promessa do ano perdido se concretizando em horas de escravidão branca naqueles corredores tão longos, tão frios. Existe todo o caos na minha cabeça da vida Adulta se aproximando enquanto existem tantas outras coisas para serem feitas antes de eu ser "seguro e responsável".

Dentro de tudo isso o coração vai batendo mais devagar, é fato. Houve o romance, houve a magia, houveram as coincidências e as promessas. Mas o que fazer quando existe quase um estado de distância, dificuldade telefônica e talvez um certo exagero nas tintas daquilo que realmente foi vivido?

Não que isso seja uma desistência, mas a vida tem que continuar. Porque, apesar do vazio que fica dentro de uma série de ausências, outras dores antigas apresentam discreta melhora. Porque o que foi brilhante não se apaga e, como disse antes, se o destino erra um pouco a mão talvez, talvez...

E como eu sou um sentimental, ainda há a esperança. Um breve reencontro. Uma curta viagem. Uma noite, com as mãos pousadas aonde meu cabelo se enche de cachos. Esperancinha sem culpa, na verdade. Porque não há como esquecer aquele abraço forte, dizendo que já estamos distantes de tudo. É dele que me lembro, às duas da manhã em pleno plantão entediante.

Cantarolando Los Hermanos.

E fico bem.

"... mas deixa eu fingir e rir"
(Sentimental - Los Hermanos)

segunda-feira, junho 11, 2007

Paraíso tropical

[atualizado com os links...]

(mais ou menos baseado em Mel & Girassóis, Caio Fernando Abreu)

Porque era quase férias. Porque era a desculpa perfeita para se fugir dos problemas, dessa vida que pesa tanto diariamente sem ter por onde escapar. Porque é preciso conhecer outras ruas, outros becos, outras avenidas, outras iluminações só pela esperança de que algo aconteça.

Mas, de início, não havia nada próprio em mente, afinal, essas coisas tropicais sempre trazem consigo um certo grau de lascividade, putaria, exercício do ego, porres homéricos. Os dias todos tão tépidos e limpos eram um convite para o descompromisso. Tudo em volta fervilhava outras possibilidades, fugas vazias mas de entorno tão convidativo.

E nesta paisagem que poderia ser de coqueiros, bebida barata, roupas floridas, motivos carnavalesco; numa noite tão banal, música alta e balada abarrotada de tantas pessoas que mal se andava; em meio a tanta gente superficial e passageira, contrariando a lógica dos romances também baratos: lá estava você.

Depois vieram as histórias de Montecarlo e Praga, a loteria suíça, os cassinos na California e tantas outras coisas pequenas que agora não vou lembrar. Aquele olhar doce pousado em mim, só em mim, só de soslaio para que eu não percebesse. Todos os desencontros e, a cada vez que perdia as esperanças, sempre encontravas um jeito de me dizer: ainda estou por aqui. Algo que o Caio mesmo genialmente colocou como "pequenas epifanias". Tão pequenas e ínfimas, tão ridicularmente pequenas que às vezes sinto-me culpado de percebê-las.

Porque através delas que faço planos impossíveis, tipo loft na Haddock Lobo, uma viagem largando-tudo-e-partindo-no-primeiro-vôo-a-Berlim, acordar afogando em edredons com sua epiderme entre meus dedos. Passo noites em claro, preparando tantos sonhos lindos que nunca frutificaram. E dentro de todo este processo, a esperança mais inocente que talvez o acaso ajude, talvez dessa vez seja diferente...

Mas não importa, nada importa dentro destes dias de paraíso tropical. Ao fundo, toca "Open your eyes" e você me diz: me beije durante toda música, para que assim você se lembre de mim a cada vez que escutá-la. Não importa que essas possibilidades de amor doam tanto dentro dessa impossibilidade de distância e outros compromissos, voltar chorando silenciosamente no banco de trás do táxi rumo ao aeroporto e o retorno a nada-paraísos nada-tropicais, corredores verdes assépticos e escravidão branca.

Para mim, o amor se materializa dessa forma estranha e paradoxal: sempre dolorosos, sempre distantes. Porém, quando se está ali dentro, tão radiantes e redentores. E porque talvez eu esteja num momento otimista ou que não exista outra escolha melhor além dessa: ainda bem que o amor existe, ainda nessa forma. Porque, às vezes, o destino erra a mão e me entrega daquelas paixões cinematográficas, figura de livro, com direito a beijo no aeroporto a la Casablanca.

Mesmo que demore.

Mesmo que não seja pleno.

Apesar das dificuldades.

Eu espero.

domingo, junho 03, 2007

Love letter

(27 de abril de 2007)

"Whenever I'm alone with you,
you make me feel
Like I am home again"

Talvez seja difícil para eu explicar: porque eu não entendo o que sinto, porque eu não entendo o que quero, porque eu não sei quanto de você sobrou em você depois de tanto tempo. Vario entre a indiferença debochada e a devoção contida. Hesito milhões de vezes somente para dizer um oi lacônico. Finjo que esqueço coincidências, ah faz tanto tempo, tergiverso, só esperando para ver qual sua reação.

Tive calafrios quando você resgatou aquele texto antigo que escrevi só para você. Eu me lembrei de quando descobri aquelas suas manchas na íris, tocava "Yellow" ao fundo e você me dizia: "for you I'd bleed myself dry. You know I love you so".

Saio para beber e fico bêbado, só não fumo por questão de princípios - mas deixo a cadeira do meu lado vazia, esperando você chegar. Torço para que o acaso nos coloque frente a frente só para escutar novamente sua voz e perceber, nos seus olhos, os reflexos e as sombras. Faço contas malucas das minhas idas e vindas, do que me reserva o destino ano que vem. Tento te encaixar, mesmo sem te consultar, nessa minha vida tão desocupada de coisas e carregadas de sentimentos.

Acordo todos os dias tão cedo que me assusto com tanta disciplina. Ainda rolo de banda na cama, sabendo que aquele espaço não me pertence e só está assim por mero acidente do acaso. Faço planos: talvez aprender a comer peixe, afinal imagino que você goste; talvez juntar dinheiro pra ir a qualquer lugar dos trópicos; talvez aprender a ser menos inseguro, mais doce e menos crítico.

E dentro de tudo isso, eu já te disse hoje: eu te amo?

"However far away,
I will always love you,
However long I stay,
I will always love you,
Whatever words I say,
I will always love you,
I will always love you"
(Love Song - The Cure)

sexta-feira, maio 25, 2007

Maria Antonieta

Tenho certeza que esse é um filme do qual a maioria não vai gostar. Ou que vai gostar, pelos motivos que para mim são errados (leia: fotografia, cenários, tanta comida vistosa, Paris e Viena). É parado, quase enfadonho. Tem uma trilha sonora que não se "adequa" ao filme de época. É recheado de momentos anti-clímax, longos takes e temas aparentemente desinteressantes. Mas é Sofia Coppola. E fico fascinado com essa capacidade dela de, dentro da não-ação, construir uma história.

Me apaixonei por Maria Antonieta pela sua capacidade de construir seu próprio mundo, o seu refúgio, dentro de uma instituição tão rígida e dentro de tantas responsabilidades. Em como ela conseguia (ou tentava) cumprir suas obrigações sem ter que sacrificar por completo aquilo que acreditava.

Que, dentro de toda sua inocência e alienação, ela se esforçava para fazer a diferença. E independente do contexto, essa tentativa é bem mais importante que o objetivo concreto.

Que se entregar a frivolidade sem culpa momentaneamente talvez nem seja uma coisa tão recriminável assim.

O filme foi na medida do que eu precisava: estava num dia tão pesado que, quando as luzes se acenderam, já estava até me sentindo melhor. E ajudaram nessa tentativa de quebrar essa ladainha monótona do blog de insatisfações e amores não correspondidos.

Vou lá ser um pouco de Maria Antonieta e já já eu volto.

domingo, maio 20, 2007

Domingos

"Tudo está fechado/Tudo está fechado/Domingo é sempre assim/E quem nao está acostumado?/É dia de descanso/Nem precisava tanto/É dia de descansoPrograma Sílvio Santos."
(Domingo- Titãs)

Hoje é mais um domingo. Acordei novamente com aquela típica ressaca psicológica de domingo, isso porque é domingo e domingos são dias em que se acorda pensando que se pode ter ressaca. A única cisa aberta num raio de 200 metros da minha casa é uma padaria com um pão cheio de bromato(?) ou coisa assim.

A cidade é sempre escondida nos domingos, e não que Brasília não seja sempre assim, mas especialmente nos domingos eu sei que as pessoas se escondem em suas casas ou procuram outras casas em busca de algum conforto impossível no meio da semana. As pessoas que têm coragem caminham na rua e eu só consigo pensar " essa não é minha vida". Sedentário-melancólico na frente do computador esperando por alguma coisa que geralmente não acontece nos domingos.

O dia vai passar, e isso vem como uma certeza, certeza também que acompanhará a ressaca moral de segundas-feiras que sempre pensam aparecem com o mpensamento eu não fiz porra nenhuma ontem. Domingos santificados são das coisas mais profanas existentes do planeta, o dia de descanso..., e não que eu torça que as pessoas nunca descancem, mas ...

Talvez vá ao cinema, talvez saia e coma pipoca , talvez não faça nada, talvez leia um livro, talvez estude... Há muitas possibilidades. Depois de mais maduro passo já a ter um pouco de respeito maior pelo domingo ( em muito pelo meu cansaço que hoje é factual). Hoje é domingo, pede cachimbo e talvez mesmo não faça nada.

quinta-feira, maio 17, 2007

Outonando

Lá fora vai outonando, deixando os dias um pouco mais frios e nossas camas solitárias um tanto mais solitárias. Início de outono, para mim, sempre foi regido pelo signo máximo da melancolia, da nostalgia e do silêncio. De nunca mais acordar, afogando nos mares profundos de edredons e sonos sem sonhos. De água gelada congelando os dedos tão cedo na manhã. De deixar a barba crescer, as olheiras surgirem sem culpa: espirros, insônias - boêmia, na verdade, bem pouca.

Esses primeiros dias de outono me lembram minha casa: ser acordado pela minha mãe torporoso de sono e, ao sair de casa, não enxergar um palmo à frente da mão de tanta neblina espessa. Lembram-me os primeiros dias de faculdade, as primeiras aulas em frente a um jardim repleto de árvores de folhas amareladas, vento gelado, dia nublado e ausência de tanta gente quando tanta gente principiava a entrar. Lembram você: noite gelada de maio, coincidências, toda aquela história que não me canso de repetir.

E dentro de tantas lembranças de coisas que não voltam mais, fica essa melancolia das coisas que foram e até poderiam ter sido, mas não voltam por diversas razões. Seja porque amadurecer é um processo irreversível, seja porque o momento não permite certos retrocessos. Talvez seja esse o signo do outono: o princípio do inverno, de ir poupando o que importa para dias mais difíceis e áridos, de perder as folhas e colher os últimos frutos enquanto a primavera não vem. Talvez seja só essa falta de perspectivas: dias cada vez mais gelados, mais curtos, mais insones.

Quanto a mim, vou indo até bem. Me pego no exemplo das paineiras, imensas e imponentes, que nessa época estão todas nuas arrebentando em flores rosas. Vou mastigando minhas melancolias, minhas melhores lembranças e costurando novas histórias, criando coragem para movimentações e, quem sabe, finalmente botar a vida nos eixos que ela verdadeiramente merece? Por causa de todos esses processos que digo: o outono é a minha estação do ano predileta...

terça-feira, maio 01, 2007

Demais

Porque a noite transpirava aquela outra, onde tudo começou: expectativas zero, encontro ao acaso, início de inverno a gelar pontas do nariz. Éramos outros, mais maduros, mais sofridos, sob a sombra dos amores-que-não-deram-certo. Éramos dois em movimentações evasivas, hesitando naquela indiferença programada. Digo, pelo menos eu.

Porque ao abrir aquela porta, transfigurado no pânico dos lugares que eu definitivamente não deveria estar, nunca esperava dar de cara com você. Pela primeira vez em ano e meio dividíamos o mesmo ambiente, livres e tecnicamente desimpedidos. E daí toda a confusão de sentimentos novamente se fez. O que eu sinto / acho / penso, tão debatido neste espaço que todos que me acompanham devem saber de cor. E ao mesmo tempo, essa angústia desse ano sacrificante, perdido, que me deixa de mãos atadas dentro de tantas responsabilidades.

Porque eu deveria ter pego o seu braço e dito: faz tempo, mas ainda não esqueci. Sabe, nessas noites frias e insones, quando a solidão bate e me vejo nesse apartamento enorme, meus olhos fecham e eu penso em você. Penso nas sardas na íris, em como você era insuperável depois da segunda cerveja. Em como sentia ciúmes do cigarro que fumavas tão distraídamente. No Zippo, meus porres históricos de conhaque. Nessa coisa estranha que não sei explicar, talvez amor, talvez nostalgia de meses tão brilhantes, talvez saudades da sua mão suave de unhas roídas. E que se foda o futuro, os rumos diversos que nossas vidas provavelmente tomarão em breve - porque não tentar?

Mas não consegui - porque lá no fundo, tenho medo de tanto amor tonto e bambo que sinto. Esse amor perpetrado na ausência e na impossibilidade. Na minha covardia de talvez dizer que sinto sua falta e você, tão distraidamente, dizer tudo bem, foi lindo mas baby it's over over over.

Porque eu permaneci na hesitação pseudo-indeferente, na demonstração inútil que ainda estou bem, ainda estou vivo, coisas assim. Agora, ao fundo, toca Nara Leão, que destila em sua voz rouca toda espécie de sofrimento. Engasgo principalmente em Demais:

"E é por isso que eu falo demais
É por isso que eu bebo demais
E a razão porque vivo essa vida
Agitada demais
É porque meu amor por você é tão grande
O meu amor por você é imenso
É porque meu amor por você é enorme demais..."

quarta-feira, abril 25, 2007

...e o sangue.

"Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito"
(Clarice Lispector)

Passei os últimos três meses de estágio ensaiando esse post. Mas sempre era a mesma história: outra morte, outra dor, outra sentença de morte. Foram tantas que perdi a conta. Foram acumulando, em minhas mãos inocentes e sem malícia, silenciosamente. E fui digerindo, como se não fosse comigo, acompanhando tantas perdas sem remédio ou solução; até que só sobrasse, ao final, esses vestígios de sangue.

Ninguém me avisou que seria assim: ninguém avisou nas longas horas insones, na toxicidade emocional, nessa sensação tão frágil de contemplar o fim, a decadência. Ninguém me explicou o que fazer quando faltou remédio, quando pediram atestado e não pude dar, quando simplesmente já não se havia mais o que fazer.

A solução é se virar sozinho, descobrindo o caminho certo por entre tantas sombras. A medida exata entre o acolhimento e afastamento, o cientificismo e a piedade. Em como trazer conforto sem apelar a deus, religiões ou esperanças vãs.

Essa vivência de Hospital, de segunda a segunda, sempre às sete da manhã, trouxe uma maturidade que não esperava nos meus 22 anos. Como tantos problemas que vivia são banais e simples quando comparado ao mundo cão debaixo daquela luz vaporosa e das paredes verdes. Como fomos adquirindo esse ar ligeiramente mais sério e responsável enquanto ainda usamos All Star, fazemos barba um vez por semana, gostamos de animes e vivemos um tanto nostálgicos.

Fez-me sentir mais pronto, mais humano, mais forte. Mais seguro nas ações e gestos. A aceitar melhor as coisas que estão fora do alcance e a correr atrás daquelas podem estar, a médio prazo, ao alcance dos dedos. Ao mesmo tempo, fez-me ficar mais duro e menos tolerante com os erros crônicos alheios - na consolidação do amor adulto: que passa a tolerar cada vez menos e exigir cada vez mais.

Troco o estágio: outras roupagens mas o desafio permanece o mesmo. Resta é o sangue debaixo das unhas, na sola dos meus sapatos, vestígios apagados com éter no jaleco. Porque esse aprendizado terminal tem muito a ver com a perda da inocência. E não me venham contrariar: a Medicina sempre será a mais cruel das profissões...

quarta-feira, abril 18, 2007

...as lágrimas...

"Já viu gente morta, boy? É feio, boy. A morte é muito feia, muito suja, muito triste. Queria eu tanto ser assim delicada e poderosa, para te conceder a vida eterna. Queria ser uma dama nobre e rica para te encerrar na torre do meu castelo e poupar você desse encontro inevitável com a morte. Cara a cara com ela, você já esteve? Eu, sim, tantas vezes..."
(Dama da Noite - Caio Fernando Abreu)

Talvez um bom título para iniciar esse post seria: todas as horas do fim. Porque, dele, vi quando a respiração subitamente ficou difícil, o peito doeu e estava difícil até se verbalizar - dor, falta de oxigênio, aquela coisa estranha que chamam de vertigem da finitude. Daí monitorizamos, para visualizar as tenras montanhas, aquela linha verde espectral cruzando a madrugada, no sobe e desce e bip-bip-bip característico de quem ainda se está vivo.

Talvez a culpa também seja da madrugada, tão silenciosa que nos deixam irremediavelmente solitários. Também, o brilho fosco daquela lâmpada branca, macilenta, que não ilumina nem revela. Também, o cansaço insone de um sábado a noite, quatro da manhã sem nem alguns minutos de sono. Também, tanto sangue, tanto suor, tantas lágrimas já derramadas naquela sala.

A respiração ficou difícil, até parar. Daí, aquela loucura: tubos, máscara, laringoscópios, oxigênio a 15 litros, coloca oximetro de pulso só para observarmos: está baixo, está baixo, está baixo. A linha verde mostra inversões, curvas apiculadas, sofrimento tecidual. O pulso enfraquece, a pressão arterial declina devagar, quase imperceptível dentro do caos em torno do leito que se forma. A epiglote escapole caprichosamente, enquantos todos ali sentem aquela mesma vertigem da finitude, o gosto amargo na boca, as mãos suarem levemente a fazer as luvas dançarem por entre os dedos.

Até que, quando vi no monitor, o coração querendo desistir. Vi aquelas pequenas montanhas diminuirem, diminuirem, rarearem: até que a linha, tão plana, apareceu. Assisti, talvez o único naquela sala, o momento em que aquele coração desistiu de bater. Aquele, em que a vida escapa pelos dedos.

Obviamente lutamos. Massagem cardíaca, atropina, adrenalina. Senti as costelas quebrarem em minhas mãos inocentes e pouco hábeis durante o vai e vem incessante sobre o esterno. Assisti aquele coração, cansado, ensaiar um breve retorno - o suficiente para nos iludir e prosseguirmos batalhando até o dia amanhecer.

A luz chegou inesperada, evidenciando nossos rostos cansados, as olheiras fundas. Evidenciando nossa incapacidade, nossas limitações, que essa onipotência que tantam propagam é uma ilusão. Desistimos quando as pupilas não reagiam mais, os braços já exaustos da noite em claro, do esforço feito. Cada nó nos dedos doendo do último fracasso. Desistimos quando a primeira brisa da manhã, aquela mais fria, como se fosse o sopro da própria morte a brincar conosco.

Ainda fiquei no Hospital toda a manhã. Almocei sem gosto, dormi um sono pesado sem sonhos, só tomei banho quando já havia anoitecido. E foi ali, debaixo da água morna que todo esse peso bateu. Chorei talvez duas ou três lágrimas doídas e pesadas - não pela vida que se foi, acho que por nós, todos nós. Por cada dia que batalhamos inutilmente sem reconhecimento, por cada tapa na cara que tomamos quando só quisemos ser doces. Por todo amor que concedemos sem retorno, por cada segundo que perdemos com quem não mereceu. Por como essa vida é besta e frágil, tão frágil, tão curta. Por como achamos que temos o controle sendo que somos apenas meros joguetes dessa coisa vazia chamado destino.

E pela completa falta de esperança que esse sentimento, esse ranço, um dia vá melhorar...

sábado, abril 07, 2007

O suor...

Depois de dois meses de estágio, fico impressionado em como consegui me adaptar tão rapidamente a uma rotina potencialmente estressante: basicamente de segunda à segunda naquele inglório horário das sete da madrugada. Responsabilidades consideráveis, cobranças idem, reconhecimento quase nulo. Falta tempo para voltar para casa, conhecer gente nova, reatar contatos - até o meu cinema semanal tem faltado.

E o revoltante é que nem fico revoltado com esse súbito salto à vida adulta. Desses 60 dias, só perdi a hora uma vez. De tantas possibilidades de erro, nem tenho deslizado tanto. Durmo muito, quase duas horas por dia quando chego do Hospital - mas tenho me esforçado ainda em dar uma banda, estar em contato com as pessoas essenciais e telegrafar para aquelas lá longe, mas que quero mais perto num futuro próximo.

Talvez, por ter energia para dedicar somente ao essencial, a vida está tão simples. E ser simples é tão bom, tenho aprendido...

sábado, março 31, 2007

Codinome Beija Flor

Nessa noite escura sem estrelas, sem esperanças ou quaisquer aspirações românticas, deixo Cazuza gritar sua dor sem preocupar com os vizinhos. Mastigo Codinome Beija-Flor sem muita paixão, prestando atenção principalmente em "destilar terceiras intenções".

Porque não consigo pensar no amor, para mim, como se fosse algo além de uma maldição. Como uma força que arrebata, tritura, me abandona quando menos espero. E me impede de recuperar por completo pois, ironicamente, vocês sempre pairam, indiretamente retornam, sorriem entre cortinas entreabertas sem definir intenções.

Gostaria de histórias lineares e convencionais. Dos rompimentos bruscos, do ódio eterno. Do nunca mais ver, neutralizando as lembranças, para superar tudo num prazo de tempo nem curto nem longo para depois, num momento inesperado, outra história brilhante acontecer. Comigo, sempre sobram as brasas. Sempre sobram as reticências, essa fresta de retorno que não forneço mas vocês encontram. E sopram, mesmo brisas, bagunçando papéis e idéias. E permanecem meio bolas-de-ferro nos pés, impedindo-me de ser aquela kite brilhante no céu.

Porque, quando vocês voltam, eu desabo. Resgato minhas esperanças mais puras, mesmo que racionalmente eu sabia que não são nada além de parcos devaneios. Relembro pequenos prazeres, as músicas que há tanto havia esquecido. Esqueço todo o sangue vertido, nossas incapacidades crônicas e o peso do silêncio em noites como essa, frias e solitárias, entregando-me novamente à mesma ilusão: do amor.

E na vigência dessas ilusões, termino as noites da mesma forma: abandonado, silencioso, entorpecido por conhaque e cigarro barato, tão solitário quanto uma puta ao amanhecer. Dedos amarelos, olheiras fundas, epiderme sem tato algum. E vocês, apesar de insinuarem através de vagos e-mails ou outras bobagens internéticas, não ultrapassam a porta e entram para me salvar. Nem para, sarcasticamente dizer: baby, tudo o que pensavas era só ilusão barata, mexicana, papel-de-jornal.

Sem outra escolha, eu recupero. Levanto a cabeça e mesmo a passos tortos atravesso portas, arrumo distrações e devagar, entrego vocês ao limbo das possibilidades de Bandeira: que poderiam ter sido, mas não foram. Até quando, noutra noite morna, vocês se lembrem de mim, me façam refém e eu vejo, tão incapaz, toda história se repetir pela enésima vez...

segunda-feira, março 26, 2007

Uma coisa vaga chamada destino...

[esse post é de, aproximadamente, um ano atrás. Acabou auto-censurado porque achei-o, na época, muito açucarado e meio over no momento. Encontrei-o numa faxina neste fim de semana e, apesar do motivo pelo qual ele foi escrito ter-se acabado completamente, achei que ele valia a pena ser postado agora]

Não sou de crer em muita coisa - cheguei a ser agnóstico por descrer em qualquer tipo de esfera superior, controle divino ou coisas do tipo. Leio o horóscopo por pura curiosidade, pois sempre acreditei que é inconcebível que nossas vidas tivessem forma de serem controladas, sejam por estrelas, por cartas, por números, etc. Mas acredito no poder do acaso.

Tanto, que presto atenção nas menores coincidências. Tanto, que sempre caminho procurando o mundo, lendo os cartazes pela faculdade, percebendo alguma música de fundo, cenas de filme na vida real. As palavras da minha boca que pulam da boca de alguém. Um papel de bala. Um profile no Orkut. Um sorriso fora de hora. Uma confissão incoveniente. Acredito que é o acaso - nestas pequenas situações - que nos aproxima, mas quem definitivamente nos une somos nós mesmos.

Acredito também que estamos todos presos por um fio muito sutil, que é quase invisível no início. Dentro do milhar de pessoas que nos relacionamos, só uma ínfima parte faz a diferença. Só para esses poucos abrimos a guarda e deixamos conhecer nossos medos e qualidades reais. Até alcançar este ponto, são outras milhares de situações que podem romper o que nos une: uma palavra atravessada, uma colocação infeliz, uma crítica mal colocada. Ou ainda que nada aconteça, não surja nada que faça a diferença e o fio não rompe - mas a força não se sustenta e o afastamento é imenso demais para que se percebam os pequenos detalhes da personalidade de alguém. Por isso o mesmo acaso que une é aquele que nos separa.

Fica como epígrafe do post (que precisava ficar no meio da fala para não ser descontextualizada) essa de Milan Kundera: "Para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se juntem desde o primeiro instante". Não entendam como amor apenas isso que vocês pensaram. As amizades, daquelas grandes e companheiras, também só se sustentam dessa forma. Não é preciso muito além que poucos acasos, até virtuais se for o caso, para que algo de grandioso aconteça. E se sustente. E se fortaleça.

E é isto que está acontecendo. Todos estes pequenos encontros dentro desse mar de desencontro em que vivemos. Havia tudo para dar errado: quando você foi, eu não. Daí eu fui e você não. Daí outras coincidências diversas e fortes foram acontecendo e parecíamos andar paralelamente. Enquanto isso, íamos jogando fios para diminuir o espaço, quase invisíveis para ninguém ver. Sem intenção, sem esperança, sem o maquiavelismo que vivemos nos dias de hoje. Até que entramos em rota de colisão e deixamos colidir.

E se me perguntarem como aconteceu, não sei. São coisas vagas, palavras colocadas, citações via MSN, projetos de vida, trilhas sonoras, vidas que poderiam ter sido e não foram por um mínimo de coragem. Só sei que a falta de uma delas seria irreversível, talvez o fio que contrabalançasse nossa união frente ao abismo do resto das coisas. Se eu contasse fato por fato como se desenrolaram as coisas, era história de cinema - ninguém acreditaria.

Mas é essa a graça do acaso. Cinematografar nossa vida como numa comédia romântica, um drama bem conduzido - como amarrar caminhos tão diferentes de uma forma implanejável, improvável diria. Que fica lindo e brilhante quando todos estes fios encontram o sol, uma bandeira. E aparentemente tão insustentável, pela aparente fragilidade em que se criou, da mesma solidez duvidosa das teias de aranha: tênues, só que tão fortes quanto aço.

Uma coisa vaga chamada destino...