quinta-feira, dezembro 07, 2006

Feels like honey

Bob e Charlotte se conheceram num país estranho, de língua estranha, na solidão dos quartos de hotéis. Ambos dentro de relacionamentos mornos, daqueles que não queimam nem congelam. E acidentalmente, foram aos poucos se encontrando, pequenas afinidades, pequenas tensões. Até que dali poderia sair alguma coisa, qualquer coisa para ocupar esse buraco crônico que existe em todos nós. Daí a cena final do filme: a despedida. Talvez nunca mais se vejam. Eles se abraçam. Falam qualquer coisa inaudível. Beijam-se sem amor, fraternalmente. E o filme acaba.

"Lost in translation" é dos meus filmes prediletos por causa dessa sensação de impotência frente ao outro. De como podemos dizer tantas coisas sem compreendermos ou sermos compreendidos. Desse sentimento de solidão povoada, mesmo no meio de uma multidão de pessoas atentas em você.

Tenho me sentido perdido na tradução. Descobrindo porque deu errado. De quem foi o erro: se foi meu, de ter te interpretado de uma forma que na verdade não era real; se foi sua, ao criar uma expectativa que fatalmente você não poderia corresponder; se foi simplesmente do destino ou qualquer coisa semelhante, culpa dos encontros e desencontros e da minha imensa capacidade em encontrar as pessoas nos momentos mais confusos e improváveis.

O fato é que nunca saberei, mas não importa. O fato mesmo é que dói, não pela possibilidade que se acaba, mas pela minha inabilidade em criar tanto vento para o barco navegar, soltar as velas, pelo menos ensaiar um início de aventura. O fato é que me sinto de mãos frágeis e absolutamente incapaz de virar o jogo ao meu favor. O fato é que estou cansando de abrir as janelas da minha casa para ninguém entrar.

Caminho na rua, imaginando que ao fundo toca "Feels like honey". Anoitece de leve, o dia vagarosamente morrendo sem paixões nem brilho. Atendo telefones, faço planos, tomo meus porres sem ressaca alguma no dia seguinte. A vida segue, como deveria ser.

Mas você não ficou.

Nenhum comentário: