sexta-feira, dezembro 22, 2006

All Star

[ao som de Nos Lençóis desse Reggae, Zélia Duncan]

Caríssima,

Esses dias, insone, estava lá eu vendo o . A Zélia Duncan cantava uma música nova, daquelas músicas novas horríveis sabe? Mas na hora da entrevista, a primeira coisa que ele perguntou foi sobre o tênis dela: um clássico All Star.

Daí a primeira coisa que pensei foi naquela vinheta antiga da Cultura, Zélia Duncan gritando tão alegremente: nos lençóis desse reggae, na época de nossas confissões de adolescente. Lembrei daquele Rio de Janeiro ensolarado, das quatro irmãs e nós lá, nos primórdios da nossa inocência.

Lembrei de tanta coisa doce, tanta coisa suave daqueles dias leves. Lembrei que meu carro chamará Doug, por causa do desenho. Lembrei da jabuticabeira da minha escola de colegial. Lembrei dos meus primeiros textos, de quando comia Ioiocrem sem medo dos triglicérides (malditos triglicérides) e da época que escutava Legião. Lembrei de quando comecei a ler Harry Potter, num sopro. Lembrei das primeiras paixões sem culpa, sem malícia, sem todos esses atropelos complicados dos relacionamentos. Lembrei da minha primeira viagem para Sampa, dos primeiros dias insalubres de cursinho, do primeiro dia na faculdade.

Lembrei de você, se apresentando: de nome composto que nunca tive o hábito de usar. De All Star vermelho, quase indecente, debaixo daquele sol absurdo de junho. Daquele primeiro período longuíssimo, dos primeiros cadáveres. Do primeiro inverno longe de casa, as árvores outonando num dia gelado, quase Oxford ou Cambridge ou algo assim. Das minhas chuvas, das suas madrugadas. Até naquele fatídico setembro, debaixo da pia. Eu, você, o All Star.
Não lembro mesmo da nossa conversa, lembro de qualquer coisa vaga sobre Bandeira ou Drummond. Mas tenho certeza que, tendo em vista todos os descalabros que passamos nos últimos cinco anos, deve ter sido algo tão leve quanto Zélia Duncan aos 13 anos, seu All Star, o Happy Feet que você não viu (ou viu?).

Lembrando daquele tempo (e é nesse ponto em que eu queria chegar), penso em como éramos inocentes. Gabávamos dos nossos 18 anos, mas we were so naive. Morávamos em pensionato e não tínhamos essas terríveis preocupações sobre portões eletrônicos, vidros que quebram, a terrível matemática do cheque especial no final do mês. Éramos primeiroanistas de um curso longuíssimo de seis anos, numa época que seis anos era qualquer coisa próxima da eternidade. Todos eram legais e amigos e companheiros e divertidos, e seria inimaginável brigas fratricídas dentro da própria sala, tantas picuinhas rendessem tantos kbs em mails e scraps. Era uma época em que só escrevíamos bilhetes, tantos tantos. Tinha Amélia e aquele absurdo de aula às sete da madrugada. Tinha Francislene e aqueles gerúndios impossíveis. Tinha Sunscreen antes de virar clichê.

Tinham as cartas, tão lindas. Por ocasião dessa nostalgia, revirei o meu arquivo e encontrei tanta coisa boa, merecedora de sair da gaveta. Nossas falas eram inespecíficas, mas tão carregadas de significado. Éramos agoniados, mas expectantes que o momento da grande virada viria. Éramos melancólicos, mas consolávamos-nos na esperança do Carnaval, que em breve tudo explodiria e faria sentido. Eu trazia cadarços coloridos, quase fosforecentes, pro seu All Star. Você me trazia cds gravados, naquela época triste que gravadoras eram quase um luxo.

Tudo isso passou como um filminho, tipo apresentação brega em Power Point. E nesse dia, completamente sóbrio (juro, juro), fiquei triste igual um cachorro. Porque, como você bem disse, matamos a poesia. Porque éramos inocentes, tão lindos, e nem tínhamos noção. Citando Wilco: I miss the innocence I've known.

Hoje estamos melhores, mais seguros. Menos confusos e mais práticos. Mas escrevemos cada vez menos, lemos menos. Às vezes, sinto como se a beleza (aquela de Lester, a Americana) tivesse escorrendo por nossos dedos sem percebermos. Que neste processo, nossas mãos estejam ficando ásperas, duras, insensíveis. Quase estéreis. Pensando nisso, quase não dormi.
Digo quase, porque se matamos a poesia, ela ainda não está morta. Ainda existe conhaque, a Casa do Sanduíche depois dos ambulatórios eternos. Existe a perspectiva do Machu Picchu (depois descer até o Chile e conhecer o Pacífico, depois...) quando formos assalariados e não-residentes. Existem as horas quebrando a cabeça procurando soluções para as insolubilidades diárias do nosso dia-a-dia. Porque se perdemos a inocência, ganhamos maturidade. Continuamos bonitos, apesar das cicatrizes e dos tombos.

Porque aquele seu All Star vermelho sobrevive ainda, em qualquer lugar, e é só calçá-lo que parecerá que nunca ficou guardado. Zélia Duncan, na lista das mp3 eventuais. Quanto a mim, prometo comprar um All Star. Azul: tantas lembranças boas.

Feliz Natal, Feliz Ano Novo. Pra você, pra todos.

Até 2007.

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