segunda-feira, dezembro 11, 2006

2006.1 - Carta só para você

Tão estranho como você ainda permaneceu presente apesar da distância, do silêncio forçoso, cada um imerso na labuta cotidiana que aparentemente nem deu tempo para pensar naquele passado remoto, nas coincidências, no término súbito. Mas quero que saiba que você não permaneceu como um amor platônico, daqueles tão sufocantes que até impedem da vida continuar nem como uma chaga incômoda, daquelas que de só se esbarrar sangra.

Você ficou como um referencial. Nas suas mãos pequenas e macias, aprendi o que, no alto de meus 21 anos, julgo ser todas as facetas daquilo que podemos chamar de amor. Aprendi a reconhecer o primeiro desfalecimento da paixão arrebatadora e a dor dos desencontros iniciais. Como é redentor quando as primeiras afinidades se encaixam. Como é curioso o escrutínio dos defeitos e das qualidades. Em como o amor sem pressa ou apuros, fazer qualquer coisa ou absolutamente nada também é divertido. Quanto é doloroso quando as palavras não se encaixam mais. Quando é dilacerante o término, o fim, sem romantismos ou despedidas, sem
choros ou xurumelas.

Sim, amadureci. Amadureci tanto neste ano e meio. Por sua causa, as ciladas não foram tão enganadoras. Os tombos, menos dolorosos. As ilusões, menos vistosas. Nas suas mãos pequenas e macias, aprendi aquela infame lição de Mário de Andrade: amar é verbo intransitivo. De uma forma que já me não me tortura (tanto) a espera por um telefonema que não acontece, como uma vez fizestes comigo. De uma forma que não necessariamente preciso estar com alguém para me sentir bem.

Mas o Amor, esse das maíusculas, perdeu um pouco o encanto. Fiquei mais cético aos clichês hollywoodianos, as promessas de felicidade instantâneas. Não me deixo levar pela euforia dos primeiros segundos, como acabei fazendo contigo. Não me deixo embriagar pelas doces palavras iniciais. Avalio riscos e só assumo o que verdadeiramente tem potencial para criar raízes e
frutos. Não que faço do amor uma matemática - só não despenco sem antes pensar no buraco em que estou me enfiando.

Passei por poucas e boas neste ano. E em nenhum momento fraquejei, dobrei os joelhos ou aceitei alguma situação que não me fosse favorável. Que consumisse meu ego. E esta força, devo unicamente a você.

De resto, guardo comigo uma frase que Maria Anita me disse naquela ocasião de crise provocada pelas minhas próprias palavras: o amor é uma grande malha de insistência, paciência e espera. Por isso não fecho as portas para ninguém que um dia tenha passado pela minha vida. Por isso, se algum dia quiseres voltar só para um chá, para dissolver tantos silêncios carregados que foram construídos pelas mágoas e imprevidências, sinta-se à vontade. Nem que seja somente para me contar se já aprendeu a tocar violão, o que fará após a formatura, quais são seus novos vícios e virtudes. Banalidades.

Quanto a mim, ainda permaneço a velha Kite no céu...

[primeiro dos post sobre 2006. Hábito antigo, não reparem. Se interessar o que aconteceu ano passado, clique aqui]

Nenhum comentário: