quarta-feira, novembro 29, 2006

Se você ficar...

Se você ficasse, seria tão bom. Se você ficasse, assim eternamente ao meu lado, para dar tempo que todas as coincidências, daquelas que fatalmente unem duas pessoas, terminassem de acontecer. Até que aquela intimidade silenciosa se construísse, a compreensão pautada nos olhares, nas vírgulas, nos acordos extra-oficiais que estabeleceríamos sem percebermos.

Se você ficasse, mostraria a beleza da violência escarlate do Tarantino, as cores fortes de Almodovar. Como Alex, do Adeus Lenin, é o meu alter ego. Como sou um jardineiro fiel. Mostraria toda beleza de Monica Belutti, as múltiplas faces de Jack Nicholson, os meneios de Ewan Mc Gregor. Como grito, sem querer, nos filmes de terror. Como que, para gostar de mim, também é preciso gostar de filmes e pipoca, não importando o que se vê.

Se você ficasse, te apresentaria toda melancolia da bossa nova: Nara Leão, Vinícius, Tom. Faria você se apaixonar por aquela ilha: Belle and Sebastian, Coldplay, Radiohead. Cantaríamos os mesmos versos mineiros de Pato Fu e, garimpando, qualquer coisa do Legião que não tenha vencido o prazo de validade.

Se você ficasse, haveria tanta coisa para ler. Passar sem Caio Fernando não seria negociável: seja para falar na alegria do amor que começa, nas agrugas da solidão compartilhada (ou mesmo as solitárias), do amor que fenesce, da vida por ela mesma. Passar pelos enigmas de Clarice e J. D. Salinger. os lamentos de Bandeira, as deliciosas sagas doutro mineiro, o Sabino. Te explicaria a insustentável leveza do ser, passaria cem anos de solidão, o eterno clichê da raposa e da rosa.

Se você ficasse, mostraria como sou melhor assim, escrevendo que falando. Te guiaria pelos meus silêncios, a beleza de minhas nostalgias. Te beijaria num dia de chuva, rolando na grama. Aprenderia a cozinhar. Aprenderia a decifrar estrelas, quadraturas, ascendentes. Mostraria todos os textos presos na gaveta, minha caixa de bilhetes e cartas, escreveria-lhe histórias, roteiros do meu corpo para que não perca o caminho. Faríamos fotografia, conheceríamos a América de mochila. Apresentaria todos os meus amigos e perderia horas explicando como quando e por onde eles são tão especiais e fascinantes.

Se você ficasse, um dia ou outro levantaria insone, alta madrugada. Só para lhe ver dormindo. Para sentir aquele nó na garganta de uma felicidade estranha, contida em cada poeira de cotidiano. Aquela cosia que não se explica, só se sente borboleteando estômagos, formigando lábios, bambeando pernas, taquicardias. Qualquer coisa próxima, símile ou diabos: de amor.

Se você não ficar, vou continuar vivendo. Procurando, me perdendo, encontrando. Pouco pior, algo melhor, quem saberia? Mas se você ficasse, ah, se você ficasse já seria tão bom...

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