quinta-feira, novembro 16, 2006

Ressaca

Era domingo, meio-dia. Ressaca de cerveja, conhaque, muito conhaque. Dia morno, mormaço. A geladeira absolutamente vazia. Um telefone que não toca há muito. Eu, nu, enrolado nos lençóis.

Se eu fumasse, acenderia um Carlton mentolado, observando lentamente a chama que queima enquanto trago. E acenderia outro em seguida, e outro, e outro.

O que é melhor: viver na ilusão doce ou na realidade agridoce?

Sinto como se finalmente tivesse acordado. A cara doendo, as pernas inchadas, alguns hematomas. Um choque de realidade. Míriam Leitão classificaria esse momento, em tom grave, como se 30% da minha vida tivesse subitamente implodido, iminencia de crises e outras sentenças em tom alarmante.

A verdade é que errei e fui punido. Poderia ter seguido no indolor caminho doce, assentindo levemente com a cabeça, míope dos erros alheios, achando uma coisa e agindo doutra forma. Ou unir a ação no discurso, na difícil tarefa de sincronizar os passos, acertar ironias e agressividades. Errando, obviamente, na sintonia fina das ações. Daí eu errei. E não quis voltar atrás, não quis retornar ao maravilhoso mundo edulcorado, sem enfrentamentos. E daí grande parte da estrutura que me sustentou nos últimos quatro anos desabou sem qualquer nostalgia. Não por mim, pois tenho toda uma simpatia por edifícios antigos, casas passadas, pousos que já me trouxeram boa diversão. Demoliram tudo, sem ver se eu já tinha saído.

E eu continuava lá. Emocionalmente ligado, um carinho residual que permanecia - tudo abaixo.

Levanto da cama, escovo os dentes para tirar o gosto amargo de ressaca da boca. Olheiras, barba espessa, tempo passando. Por isso, a urgência, a resolução: no mundo real, nesse mesmo agridoce, existe outro caminho senão insistir? Persistir? Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, etc?

E porque de toda catástrofe ainda retiramos algo produtivo, pude perceber tanta gente despretenciosamente preocupada com tudo o que estava acontecendo. Coisas pequenas, pequenas atenções, revoltas pontuais. Ou simplesmente permanecer ao meu lado, num ato consciente, tão-somente porque sou dotado de imperfeições que eventualmente vêm à tona.

Como diria o saudoso Caio F: "Depois de várias tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro".

O que fica, quem fica, quero abraçar com toda força dizendo: obrigado por existir, por ainda acreditar, por entender que existe algo além, por não me julgar superficialmente, por aceitar toda minha agressividade, por compreender minha ingratidão, saber que quero algo nada complexo mas que o movimento para isso é vagaroso na velocidade dos continentes e ainda não estou preparado para a grande virada só que o momento vai chegar e cada dia mais me sinto pronto confiante e sereno.

E por isso mesmo quero dizer: que se foda a ressaca, que se foda Míriam Leitão, que se foda quem quer minha caveira, que se foda quem quiser puxar meu tapete. O telefone tá voltando a tocar, quem importa está cada vez mais perto, a vida vai correndo tão bem. Um domingo tão ensolarado. É só fazer a barba, vestir a melhor roupa e descer a escada, emendando no meu melhor passo de dança. Afinal, o Carnaval está chegando...

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