sábado, outubro 28, 2006

Giz

[para ser lido ao som de "Vamos fazer um filme", Legião]

"E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém aparecer
Ou quando quero"

Acho que esse dias chovosos tiveram seu efeito - primeiro, um interminável sentimento de carência, tão característicos desses imensos finais de semanas solitários, em que as horas se arrastam sem desaguar em lugar algum até uma segunda-feira torta, insone, insonsa chegar. Segundo, uma sinusite inédita, mas nem por isso menos incômoda, que me obrigam a ficar dentro de casa, vagueando entre a Sessão da Tarde e trechos de livros, filmes, canções.

Mas não quero que por isto me julgue incorretamente. Esse estado não passa além de uma melancolia sazonal, dessas tempestuosas que passam rápido. A grande verdade é que estou melhor, bem, forte, tranqüilo.

"Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou"
Acho que você se orgulharia de mim: tenho acordado diariamente antes das seis, antes mesmo do despertador tocar. Desconfio que seja o primeiro peso da responsabilidade. Quando acordo, ainda resisto bravamente à tentação dos cinco minutos além, tão somente porque existem pessoas que precisam de mim, porque finalmente sou útil e necessário.

Saio de casa nos primeiros minutos do dia, quando o Sol obliquamente tinge de amarelo pálido as pedras do asfalto. Antes mesmo do dia esquentar, quando ainda os dedos doem ao girar a chave na porta, o nariz arde pela brisa gelada e as plantas secam, vagarosas, do sereno depositado. Mas você sabe que não sou das manhãs, sempre estou péssimo, olheiras fundas, pingando de sono mal dormido, costurando toda sorte de maldições para o indivíduo que inventou que sete horas é um horário bom para.

"Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver"
Meu horário de glória é o entardecer. Quando estou dentro do ônibus e o mesmo Sol obliquamente ilumina toda a cidade de laranja mortiço, como na fotografia daqueles tantos filmes que vimos juntos. Fecho os olhos, quase durmo pelo cansaço do dia inteiro pesando nas costas. Penso em você, penso em tanta gente que foi especial de alguma forma mas escorregou pelos dedos por puro descuido. Um dia ou outro, chove devagar, chove manso e eu acordo como se alguém tivesse me chamado tão doce, tão carregado de ternura. Não há ninguém - mas também, não precisa, pelo menos nesse dias.

Desço do ônibus, quase sempre escutando bossa nova, vou à Academia. Talvez seja o único momento do dia em que realmente me sinto mal: nos supinos, sofro ao levantar 20 kilos enquanto ali do lado levantam 30, 40, 50. Concentro-me em mim - sempre me dizias: confia em ti, confia nos teus passos, confia nas tuas mãos hábeis e seguras. Respiro, suspiro e prossigo. Nas minhas contas, já são cinco meses e meu corpo mostra resultados tão sutis que só eu devo perceber. Você diria que no final das contas isso não importa e apesar de ser um dos grandes clichês do universo, o que importa é a beleza interior. Mas você sabe que sou paciente e, por causa disso, persisto, insisto e prossigo neste esforço quase inútil.

"És parte ainda do que me faz forte
Pra ser honesto
Só um pouquinho infeliz"
Quando chego em casa, já é noite cheia de estrelas. Sou velho refém do miojo & congelados, porque quem cozinhava sempre era você. Ligo a televisão, para povoar a casa de sons e movimento. Vezenquando o rádio, que insiste em tocar Legião pelos dez anos de morte do Renato Russo. Presto atenção naquela, que num dia nublado cantamos olhando nos olhos, bem nos olhos: "Vamos fazer um filme?".

Tomo meu banho morno, longo, sem piedade para qualquer prioridade ecológica: gosto da água morna dilatando os capilares e cada célula do meu corpo. São os cinco minutos mais longos do dia, porque ali não existem contas a pagar ou protocolos inúteis ou ciúmes desmedidos ou traições sem sentido. Até o sono vir - daí durmo na sala, TV ligada, até que todas as catástrofes diárias façam minhas pálpebras pesare, ali depois da meia-noite. Relaxo, para que todas as minhas células dilatem ainda mais para ocupar um espaço imenso na cama que permaneceu depois daquele último vinho.

Daí adormeço, um sono leve e irriquieto, com muito cuidado para não me afogar num mar de edredons, mágoas e desapontamentos. Só não morro diariamente porque existe uma espécie qualquer de, saber definir chamo de sorte porque não sou muito chegado em espiritualidades, cujo magnetismo acompanha-me todo o dia e só de madrugada, entre as marolas e a brisa deste mar negro, conforta-me sem a necessidade de dizer qualquer outra coisa. E com os olhos postos em mim, vem a esperança, a liberdade e esse sentimento irresistível de prosseguir em frente.

Até que as primeiras luzes do dia ultrapassem as cortinas e o vento leve, quase sem sal, desperte-me. E eu coçando os olhos pesados da areia do sono lembre: é dia de começar tudo de novo.

"Eu rabisco o sol que a chuva apagou"
(Giz - Legião Urbana)

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