domingo, setembro 03, 2006

Kite

"You don't need anyone, anything at all"
(Kite - U2)

Na verdade, nem fui eu quem cantou a bola. "talvez fosse finalmente a hora de você agir" "talvez fosse a hora de mandar aquele post". É, realmente, talvez.

A época era favorável. Pois houve, há um ano, um 4 de setembro muito mais negro que o clássico 11. Primeiro, senti um certo alívio, uma auto-estima dissimulada, uma força tão instável que desabou quando o dia 5 virou. Depois, o vazio intermitente por meses e meses. Ora, aquela força de ressaca que atrai para o mar, sufoca e mata. Ora, uma estrela fria no céu, lembrança antiga de uma explosão agora longe, longe.

Mas, retornando à linha de pensamento: talvez fosse a hora de agir. Quando deitei a cabeça no travesseiro, pensei pensei. Minhas insônias da semana, de certa parte, tiveram seu dedo. E porque os dias estivessem deveras solitários, porque havia muito tempo que não via ninguém, porque o próximo ano-e-meio que se delineia não é nem um pouco otimista no quesito sacrifícios - não movi.

Hoje estou bem, dentro de toda esta neblina, por incrível que pareça. Sinto falta daquilo que você significou, no pretérito simples. Sinto falta da continuação do nosso Before Sunrise particular, daquele dia frio quando o dia amanheceu e estávamos de mãos tão atadas. Sinto falta de corrigir seus erros regados por Alanis, sua compulsividade pelo seu Zippo, sua necessidade quase infantil por liberdade. Sabe, os such beautiful specific details?

Mas, arriscar tudo isto novamente num contexto que não é favorável nem para mim, nem para você?

Mas, mergulhar num mar que custo a saber se é raso ou profundo?

Prefiro ver sua aparente felicidade ao longe. Que você se fira por espinhos que não são os meus, caminhe tanto até as bolhas aflorarem nos seus pés, o Sol castigue sua pele e as mãos calejem de tanto esforço inútil. Até que você valorize todas as coisas pequenas e silênciosas. Até que você chore escutando Cartola. Até num dia nublado talvez, com Netuno na casa de Peixes, nos esbarramos do acaso em qualquer lugar de Sampa, Londres, Auckland. Ou nem esbarramos e ficamos assim, nessa lembrança agridoce.

Mas, voltando porque estou dispersivo: hoje, não.

Porque, hoje, eu não preciso de nada, nem de ninguém.

Sou a velha Kite, instável e leve, frágil e displicente, perdida no céu tão azul de doer os olhos...

[mas, ainda assim, muito obrigado por ter cantado a bola]

[mas, ainda sim, escuto Cut Here com aquela ponta de]

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