terça-feira, setembro 05, 2006

Aprendi com a madrugada

"Aprendi com a madrugada. Coisas doces e simples. Ferocidades. O pequeno toque do medo. Aprendi com sua solitária escuridão o exato tamanho de minha casa, os sons da cidade quando todos dormem. As luzes dos carros deslocados, vagando pelo asfalto, ou simplesmente a do poste, brilhando eterna e vadia, lá fora.

Aprendi com a madrugada a extensão crua de todos meus pequenos atos, como soam altos meus passos no chão, o meu respirar, meu remexer no sofá e ainda assim, ninguém ouve. Ninguém acorda. Aprendi bastante mantendo os olhos bem abertos. Aprendi a fumar. Seminu, na cama, uma musica insistente e profunda preenchendo o vazio, acendia um cigarro e observava a fumaça. Parecia poético. Eu, como eu parecia poético. Um menino triste, um jovem deitado, sozinho, seminu, fumando.

Pena não haver ninguém, nunca, lá, para apreciar a musica, a beleza de meus pequenos atos, da minha solidão. Pena não haver alguém para decifrar meus sinais, toda a simbologia que criei. Aprendi com a madrugada que ela quebra toda a poesia. Mesmo depois, mesmo quando eu dividia minha nudez, minhas introspecções noturnas, ainda assim a madrugada destruía a poesia.

Como eu tinha charme e ninguém nunca viu.

Eu daria o mundo por alguém que entendesse. Eu daria meu mundo. Ele é escuro e os dias não se distinguem das noites, ele é cruel e há monstros na rua, mas eu o daria, para quem o quisesse, qualquer um que descobrisse um modo de entrar. E então protegeria esse alguém com todo meu amor. Ninguém o amaria mais do que eu.

Eu lhe ensinaria os velados caminhos da noite. Eu ensinaria tudo que aprendi com a madrugada para qualquer um. Qualquer um que perguntasse, se interessasse, quisesse saber. Para qualquer um que adivinhasse a poesia por trás dos meus pequenos gestos. Ninguém nunca quis saber, porém, e eu permaneci em meu quarto escuro e vazio, cheio de Picassos, Monets e Rembrandts e ninguém para ver."
(Maria Anita Silva Leite)

[texto de uma época que seu blog era rosa, bioquímica era um inferno, o cheiro do formol era uma lembrança recente e as madrugadas eram tão somente poéticas. Sim, ando um bocado nostálgico nesses dias]

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