sexta-feira, setembro 08, 2006

Amarelo

"eu te vejo amarelo...
tranquilo-energia
vibra
brilha sem precisar forçar"
(Clara)

Era mais uma madrugadas dessas, frias e internéticas. Era mais uma conversa daquelas que começam num ponto e se perdem, se espalham. Começou num discurso sobre "porque não sair à francesa", até que envolvesse U2, Kundera, coisas vagas.

Até que você me falou de amarelo. Eu, amarelo. Eu, amarelo?

Porque nunca havia pensado em amarelo. Nunca esteve ali nas minhas cores prediletas. Sempre gostei do azul, o blue melancólico, o azul pacífico. O azul-mar eterno, mas capaz das ressacas, das tempestades.

Você me disse que o amarelo é luz. É tranquilo, sem precisar forçar. Brilha, ilumina. E que o mar, sem a luz, é negro.

Até que aceitei de bom grado o elogio. Lembrei das fases de Picasso: rosa, azul. Que eu estava assim, azul por tanto tempo. Ora azul-céu, meio transparente, ensolarado, fim de semana sem possibilidades de pancada de chuva; ora azul-turquesa, intratável, indomável, intransponível, azul tempestade que aproxima. Sempre azul.

Mas ultimamente está diferente. Menos pesado, mais objetivo. Mais leve, mais claro. Os passos saem mais facilmente. As pessoas, mais brilhantes. A vida, embora morna, bem menos complicada do que era habitualmente.

Nada de blefes, todas as rodadas agora são com cartas na mesa.

Por isso, conclui que a vida anda amarela.

Eu, talvez, seja amarelo mesmo.

E, nas suas próprias palavras Clara, yellow kite perdida no céu de brigadeiro. E, apesar da insustentável leveza, da fragilidade do papel e do fio, do tempo que não sabemos divisar se está tranquilo ou se é uma pequena brecha entre tormentas - amarelo.

Tão amarelo quanto meus ipês, que nesses dias estão tão nus sem folhas, prontos para rebentar em beleza nessas paisagens tão cheias de concreto e asfalto...

"Look at the stars
Look how they shine for you
And all the things you do
Yeah, they were all yellow"
(um clássico)

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