quarta-feira, agosto 09, 2006

Conclusões de Fortaleza

Quando tudo terminou, ali no primeiro ou segundo dia depois, achei que não fosse suportar. Lembro-me que fiquei até altas horas acordado, afogando-me nos lençóis. Arrastei-me para uma aula de MPC eterna, um show do Bruno e Marrone, uma sucessão de outras coisas só para te esquecer.

Achei que essa ausência incômoda não fosse passar. Que eu ficaria preso naquele momento estanque, preso no asfalto dos caminhos que passamos, nos programas de TV que assistimos juntos, nas pequenas coisas que colecionamos sem querer.

Daí veio a greve, outras viagens, outras pessoas, outras tentativas, outras cervejas, outros shows, outros planos, outros erros repetidos. Sua novela acabou, sua presença ficou menos presente, mudei meu corte de cabelo e amadureci um certo tanto depois da expectativa-de-um-amor-que-não-se-concretizou.

Mas ainda assim você ainda não morreu. Cantarolava "Me diga" quase diariamente, numa pequena oração inconsciente. Com Coldplay, lembrava de suas efélides que um dia percebi que rodeavam a íris, irregularmente dispostas. Acabei encontrando sua presença nas piadas que herdei de você, na organização do meu apartamento, na minha tentativa em ser uma pessoa melhor.

Acabava sempre voltando naquele momento: se eu tivesse ligado. Se eu tivesse voltado no sete de setembro. Se eu não estivesse tão inacessível enquanto formalizava a perda. Foi quando encontrei o blues da ausência de Ana, do Caio Fernando: "Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre".

Era para sempre. Li na sua mensagem de fim de ano, no Orkut que nos aproximou, que era para sempre. Que você ainda vivia das boas nostalgias que eu ofereci mas o grifo era claro: para sempre. Para sempre. Sempre.

Daí escrevi cartas que prendendo deixar no fundo de minha gaveta. Daí fiz planos de nos encontrarmos daqui a cinco anos, ambos adultos e encaminhados, ambos capazes de perceber os impulsos adolescentes e analisar as coisas mais racionalmente. Daí escrevi posts imensos que, de tão repetitivos, tiveram o mesmo destino das cartas. Daí veio o reveillon, a MI, uma rotina infernal da faculdade, a falta de férias...

... e quando eu vi, já fazia um ano daquele momento que. E o destino aprontou sua ironia: show do Nando Reis exatamente no dia, o mesmo Nando Reis que nos aproximou naquele frio de junho... No show, vi sua lembrança materializada em minha frente. Nas músicas que um dia chegamos a cantar juntos, naquela música que havíamos roubados como nossas - e numa música nova, num verso que tenho certeza que, ao cantar, você invariavelmente lembraria de mim:

"Tudo começou em Goiania
Depois de um beijo no Largo de Freitas
Eu estava vindo de Uberlandia..."

Só não morri, não pensei desesperadamente em te ligar, nem em cortar pulsos ou implorar por qualquer espécie de amor torto: doeu sim, mas pela possibilidade tão brilhante que se perdera pela inabilidade, tanto minha quanto sua, de lidar com personalidades tão inconstantes quanto as nossas. Doeu porque você deu conta de continuar a vida e eu permaneci uma ou duas estações depois do ponto em que nos separamos. Doeu em concluir que sou substituível, que não mereço arrependimento, nem sou uma lembrança terna que mereça ser recordada eventualmente.

Foi em Fortaleza que a ficha finalmente caiu. Quase associei sua lembrança a Vento no Litoral, enquanto nadava naquele mar tão morno ou deitava naquela areia tão branca. Vai ser difícil sem você/Porque você está comigo o tempo todo... enquanto sentia falta de alguém para dividir as paisagens, o sorvete, a água de côco, os apuros. Até descobrir Retrato pra Iaiá, dos Los Hermanos que tanto escutamos juntos. Descobri que debaixo daquela melodia sedutora se escondia uma letra que representava muito do que era e eu só descobri na égide da conclusão-de-um-amor-que-não-vingou. De perto eu não quis ver que toda a anunciação era vã. Fui saber tão longe - mesmo você viu antes de mim - que eu te olhando via uma outra mulher.

Como a história termina? Não sei. Hoje vi Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset) e Céline ajudou atar mais alguns nós nesse pequeno emaranhado: Each relationship when it ends really damages me, I never fully recover. You can never replace anyone because everyone is made of such beautiful specific details. E deles falarem daquela noite deles - e de lembrar a noite nossa, que não foi em Viena mas tão cinematográfica e aleatória quanto, esse vazio voltou. Administrável, porém presente - que dói ligeiramente, como uma queimadura de primeiro grau num lugar que se esbarra facilmente.

Engraçado: hoje o post era para ser sobre sua aparente morte, mas depois do filme vi que as coisas não encerram assim tão fácil. Só ficam essas reticências, provavelmente eternas, para encerrar essa narrativa tortuosa e pouco clara, com grande possibilidade de recorrência e sem qualquer esperança de um prognóstico um pouco mais positivo...

Nenhum comentário: