quinta-feira, junho 15, 2006

Letícia

Plena terça-feira, véspera do jogo do Brasil, meu professor ególatra mandando avaliar pacientes. Aquele sono pós-prandial, aquele torpor pedindo um café e cama, talvez adormecer ternamente entre o Video Show e a Sessão da Tarde. Mas não: avalie pacientes. Porque ele pergunta, porque sua anamnese nunca está boa, porque tudo vai errado já que toda vida aparenta estar em colisão iminente.

Leito 206, era Letícia. Linda, loira, doce, extremamente sabida no alto de seus seis anos de idade e ali no seu vigésimo primeiro dia de internação. E apesar da internação longa, da sonda nasogástrica, do acesso venoso na mão direita que a impedia de desenhar, estava tão leve que desarmou todo o peso que carregava há tantos dias só com um sorriso. Com sua fala espontânea enquanto mostrava que sabia escrever o nome, sua coleção de seringas vazias, o nome da professora e tantas outras coisas ao mesmo tempo que me deixou zonzo e, ao mesmo tempo, encantado. Teria alta amanhã. Como abria a minha maleta? Com a bochecha pintada de guache em duas faixas, verde-e-amarela.

E enquanto procurava, com meu estetoscópio, qualquer ronco, estertor crepitantes e outras amenidades pneumológicas, ela disse (como se eu não estivesse ali) para Carolina e o Daniel: "quando me viu andando pela enfermaria, virou para mãe e falou NOSSA" (pausa) "que moço lindo".

Sim, Letícia me achara lindo. Mesmo descabelado, apesar das olheiras, do meu mau humor habitual das terças à tarde, sem qualquer alusão ou pedido pelo elogio. Foi uma fala espontânea, natural - um elogio oferecido ali como se eu não estivesse presente.

Senti o meu coração disparar e confesso que fiquei quase tonto. Quis derreter como um comprimido efervescente ali mesmo, desaparecer no chão, pular pela janela quase nocateado por tanta beleza e ternura que me foi oferecida.

Guardei meu estetoscópio com um sorriso monstruoso, infectado por uma maré de otimismo sincero. Nem tanto pelo elogio em si - mas em perceber, dentro do movimento habitual e ritmado da minha vida, que existe tanta beleza. E é só procurá-la, não perder a paciência, não entregar os pontos, resistir ao inverno e às condições desfavoráveis. Ainda que todo esse inverno prometa ser regido sob o signo do desamor, ainda existem estas pequenas explosões para que sigamos a luz dentro dessa escuridão monstruosa, ainda existem estas centelhas de calor humano para os dedos doerem menos.

Letícia, minha linda... Obrigado por ter me salvo.

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