domingo, junho 18, 2006

Carta

Meu caro amigo,

Esta overdose de Belle and Sebastian também tem os seus efeitos. Também de encontrar todo mundo, como há anos não acontecia. Até essa Copa, ecos daquele dia do Penta. Tudo juntou de forma encantadora e nostálgica.

Estava lembrando de um mail seu, antigo pacas, com epígrafe de Coldplay (naquela época do Parachutes, quando Chris Martin era um loser sincero): "We never change, do we?". Você reclamava da mornidão das coisas, da falta de liberdade, do erro crônico das pessoas, da ausência de perspectivas. Eu concordava. E tínhamos uma esperança violenta no futuro, uma vontade irresistível de iniciar tudo do zero, um otimismo bobo porém sincero no que havia por vir.

E o tempo passou - nós mudamos de cidade, de estado (só não mudamos de país por restrições que não são nossas). Grande parte dos nossos personagens também mudaram, casaram, morreram ou simplesmente se perderam no limbo. Os bancos da praça foram destruídos, tia Su não faz mais coxinhas na Cultura, nossos professores foram demitidos ou aposentados. Aprendemos a beber cerveja & destilados, não precisamos nos esconder nos fundos do Mário Roberto para fumar. Conhecemos outras bandas, fomos em outros shows, vimos outros filmes, apaixonamo-nos (ou não, enfim). Até que.

Voltamos. Sempre voltamos. E quando nos vejo, penso em tudo que passamos, todas as promessas de futuro que foram feitas e as perspectivas de mudança, daquelas redentoras, que não se concretizaram. Mudamos as bandas, mas não os estilos. Bebemos como uma espécie de fuga. Ainda somos defensivos, nostálgicos, excessivamente racionais. Nesses dois, três, quatro anos, ainda nos reconhecemos como éramos - reiniciamos as conversas interrompida há meses, rimos das mesmas piadas, nosso timing se manteve. Isso é válido para todo o nosso universo francano. O que, para mim, é quase que uma vitória.

É ter para onde voltar. Para aquela bolha meio paisagem que se a gente virar de ponta cabeça cai neve e não se sentir tão freak assim. É ter quem segure sua mão quando aparece uma tempestade ou quem ria das desgraças iminentes que se aproximam. Mesmo que invariavelmente acabemos no City Posto cada noite ou que desencontremos toda madrugada quando nossos programas não batem - essa familiaridade me salva. E é o que me ajuda a não desesperar quando as coisas, ali para lá do rio Grande, estão demasiado obscuras.

E, ao contrário da música, aprendemos sim. Acho que continuamos os mesmos, não colocamos a vida nos termos que gostaríamos. Mas tenho uma fé tremenda que estamos chegando em algo sublime e arrebatador. Pode demorar dois ou cinco ou quinze meses ou anos. Acho que nosso processo de mudança é bem mais interno, tipo um vento alísio, que desgasta a pedra dia-a-dia e retira aquilo que não for essencial. Até quando estivermos lisos, polidos, inteiros. E nesse momento eu não sei, acho que entraremos em outras crises (porque é impossível viver sem crises, num ritmo bright and shiny), talvez continuemos nos lamentamos sobre inocência perdida, aquele Free Jazz que não fomos, as indiscrições da aula do Bob e como tudo isso era bom. Mas tenho certeza que ainda teremos a nós mesmos. E Belle and Sebastian, Teenage Fanclube, Grandaddy, Coldplay, Radiohead e qualquer outra banda do tipo que nos façam lembrar que: everything's not lost. Ohh. Everything's not lost.

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