quarta-feira, maio 03, 2006

Noturnas...

[ao som da trilha sonora de Amelie Poulin]

Ela se sentia sozinha pela primeira vez em muito tempo, naquela noite anormalmente fria de outono que principiava a neblinar. Era madrugava e os dedos doíam para acender o último cigarro que tinha (ainda era Free, roubado de um passante, tão leve que nem chegava a entorpecer). Equilibrava-se sobre o salto, depois de dois ou três conhaques - para esquentar a alma, para procurar estrelas, para tropeçar pelos caminhos.

Caminhava mastigando conclusões que há muito não pensara. Estava cansada de amores malogrados, que se esvaiam sem um último suspiro sequer. Estava cansada de suas próprias dissimulações gratuitas, que não a acrescentava, nem matava, nem rompia, nem morria. Como se congelada num poema de Murilo Mendes:

"Me rebelei contra Deus
Contra o papa, os banqueiros, a escola antiga,
Contra minha família, contra meu amor,
Depois contra o trabalho
Depois contra a preguiça,
Depois contra mim mesmo,
Contra minhas três dimensões"


Deu a última tragada no cigarro, fazendo a brasa fumegar - seu rosto iluminou-se de laranja e, por um momento, não conseguiu deixar de soluçar. Mas foi um soluço sem lágrima, como se engolisse uma mágoa antiga. Porque, quando levantou os olhos, pondo-os no céu, percebeu que as estrelas ali continuavam; e ela, tão viva e forte, tão plena e segura, não tinha outra escolha além de sorrir. Pelo fortalecimento. Pela vitória. Pelo princípio de racionalidade. Pelo futuro que se desenhava.

Abriu a porta de casa com um certo embaraço. É o conhaque - pensou - talvez um pouco de emoções demais. Lembrou-se das tardes de Pinheiros, as tardes poeirentas, mas desta vez não soluçou: teve que admitir a irreversibilidade das coisas. E se jogou no sofá, na tentativa de um sono intranquilo. E, só por curiosidade, ligou a tevê.

Passava um filme daqueles preto e branco que custou a reconhecer. Era Gilda. Rita Hayworth, a mulher mais linda que já existiu no cinema. Gilda, a mulher que todo homem já se apaixonou. E mesmo Gilda, tão lancinantemente bela em Buenos Aires, também tinha os seus percalços. Também caia em suas ciladas particulares. Também fumava demais, chorava eventualmente, ficava infeliz.

E foi com essa imagem de Gilda, paralisada frente a impossibilidade de concretizar o que desejava, que pegou no sono...

PS - em itálico, uma pequena alteração que faz toda diferença...

Nenhum comentário: