sábado, maio 06, 2006

Noturnas 2

[escutando O - Damien Rice]

"E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, perguntando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar"

Você dói. Ainda. Muito. Você não me dói no dia-a-dia, tanto quanto dóia antigamente. Consigo fazer minhas compras, ir ao cinema, arriscar uma ou duas músicas do Nando Reis no rádio. Tá, talvez Nando Reis ainda doa um pouco, mas não é aquela enxaqueca implacável como costumava ser. O que quero dizer é que passou a fase aguda. Consegui atravessar cambiante o imenso vale das lágrimas/ dor/ piedade/ comiseração até que bem. E vou indo.

"Podia ser o porteiro entregando alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser"

Mas você ainda dói. Sabe quando? Nessas noites siberianas de Franca, quando a única coisa que tinha era sua mão. Quando o céu está tão límpido que vejo cada estrela, quando a Lua transborda iluminando parcamente os caminhos. E debaixo desse frio que racha os lábios, endurece as articulações e arrepia cada centímetro quadrado de minha epiderme, todas as músicas que canto são indiretamente para você.

"Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar"

E você me dói em cada reinício. Em todo primeiro passo que me lanço, é você quem fisga minha panturrilha. Penso em como estava equivocado por ter-me entregue tão gratuitamente à mágoa, ao ódio. Eu deveria ter sido forte, pois já era primavera, porque já havia o que colher. Um jogador de pôquer que perde algumas fichas como blefe para armar o grande bote. Mas faltou luz, me faltou frieza para suportar só um pouco mais de dor. E pago por esta minha incapacidade pontual continuamente, nestas pequenas dores metafísicas e impronunciáveis por vergonha, um pouco de decepção, muito vazio.

"Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre"
(Sem Ana Blues, Caio F.)

Felizmente, eu te suporto. Faço da sua dor um potente combustível para continuar. Para perseverar na contínua busca por alguém como você, mas não materialmente você - alguém que me impressione desde o primeiro segundo, sobreponha minhas pequenas trangressões diárias e diga-me, em voz velada, que tudo dará certo. Alguém que, enquanto durmo, me cubra com mais um edredon nessas noites geladas. Cerre as cortinas, para que a luz da manhã não me acorde. Sussure que me ama e feche a porta, silenciosamente, enquanto sai do quarto...

"Amie come sit on my wall
And read me the story of O
And tell it like you still believe
That the end of the century
Brings a change for you and me"
(Amie - Damien Rice)

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