quarta-feira, maio 31, 2006

Da gaveta 2

(...)

Mas refleti: as perdas, na verdade, não passaram de boas perspectivas que não se confirmaram. E estas possibilidades sempre me travaram, impedindo-me de ver mais longe, explorar outras alternativas, movimentar-me. O que para mim sempre se configurou como leveza, agora se revelava um grande peso. E a perda, que principiava a ser um peso significativo, converteu-se em pura leveza.

Voltei a ser a velha Kite no céu. Senti-me (aliás, sinto-me) livre como nunca estive. Agora, que aquelas vagas dores metafísicas me deram alívio. Agora, que sinto meus passos firmes. Agora, que me sinto suficiente, forte, coerente. Agora, que tenho estrututa. E agora, livre destas pequenas grandes ilusões, respiro melhor. Como se o mundo abrisse. Enfim, livre.

terça-feira, maio 30, 2006

Rapinhas

Eu sempre fiu da politíca de que o Orkut é uma ferramenta útil para as pessoas se conhecerem, e sempre achei que quem apaga scraps de maneira generalizada tem algo a esconter e que se vc quer privacidade: saia do orkut ...

Um Scrap... um... foi suficiente para espalhar um ódio generalizado de maneira tão grande que eu nunca pensei...
Levar o Orkut a sério , e ainda mais quando se trata de terceiros sendo levados a sério dá nisso.

Vou continuar com meu orkut, lindo, feliz, inútil e com os scraps lá, na deles ...

Mas juro que vou ter muito mais medo das repercussões dessa ferramenta do demônio.
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Odeio ter uma vida superhypermega atribulada... Quero Férias. Já!
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Uma liminar com efeito vinculante foi solta em Recife banindo as multas por radar eletrônico!

Ninguém é capaz de imaginar a minha felicidade. Mesmo

quarta-feira, maio 24, 2006

Da gaveta 1

(...)

Não sei, neste domingo gélido pensei: talvez seja a hora de diminuir a marcga. Quando penso nos últimos dias, percebo que tenho gastado muito mais fichas em novas apostas que eu racionalmente poderia aceitar. No entanto, não me culpo de todo: é o acúmulo de quatro anos de silêncio, de me anular buscando qualquer tipo duvidoso de aceitação, uma unanimidade burra que não constrói nem sustenta. Num balanço preliminar nestes últimos três meses, talvez tenha-me tornado um indivíduo pior - porém, esta cara no espelho é muito mais minha.

Volto para academia amanhã. Inconscientemente, penso em Radiohead: "I wanna a perfect body, I wanna a perfect soul". Estudei abdominais, considero trocar cerveja por brócolis, talvez acostumar com leite desnatado e refrigerante light. Quero terminar este ciclo melhor que eu entrei. Em todos os sentidos.

O Leo chamaria isto tudo que estou dizendo de nostalgia antecipatória. Quase tudo que vejo está à beira da ruína. O curioso é estar tão sereno e otimista, mesmo a par dos futuros desdobramentos.

(...)

sábado, maio 20, 2006

Inbetween days

"Não se preocupe por minha causa, no duro. Tudo vai acabar bem. Só que estou atravessando uma crise. Todo mundo tem suas crises e tudo, não é?"
(J. D. Salinger)

O lado de cá do rio Grande permanece meio caos. Viaturas, atentados, fórum desocupado às pressas, bomba no shopping. Noites frias, frias. Um tanto quanto desolador - deu vontade de pegar malas, o edredon e retornar para uma casa que não é minha, uma cidade a qual não pertenço, pra tanta gente que julga sem entender.

Mas tenho certeza que esse ímpeto de retorno irá passar assim que amanhecer. Tenho precisado de Sol. Um pouco de luz. Esperanças, novos objetivos, coisas assim.

Não se enganem com essas palavras melancólicas - estou bem. Upside down, lembram-se? Mas não só - tanta solidão faz mal. Tentei me iludir que passei ileso a tantas coisas que vêm acontecendo desde o início do ano. Mantive silêncios, reticências, numa pseudo-postura altiva. Pois agora toda minha agressividade reprimida nos últimos dois, três anos, resolveu aparecer. Nua e crua. Grossa, quase insuportável. Porém, sincera e verdadeira.

Tá, é libertador. Só que dói, nos outros e em mim. Voltei num estágio primário, ali pelos meus 18 anos: meio montanha-russa, meio irritadiço sem motivos, um tanto quanto hiperresponsivo. Um personagem de uma música do Belle and Sebastian. Tão Inbetween.

Mas há de passar.

Só não vai passar a impressão de ano perdido. 2006 será um ano perdido. Depois de tanto desamor e desencontro, acho que as coisas ficaram irreversíveis. Setembro, numa contagem conservadora, já está aí. Só resta viver, viajar, curtir os segundos que restam, antes que uma pesada noite de responsabilidades, plantões e estudos caia...

E quando acabar, acho que estarei eternamente condenado à liberdade...

P. S- Maleta encontrada. Codigo da Vinci arranjado...

quinta-feira, maio 18, 2006

Murphy aplicado

Perdi minha maleta (ou roubaram, mas enfim).
Perdi "O código da Vinci" no dois-ou-um e no par-ou-impar.
Perdi 60 fichas no pôquer.
Não tinha paciente no ambulatório, me obrigando a cortar minha parca soneca pós-prandial.

Sim, é Murphy total e irrestrito.

Sim, hoje foi um dos piores dias da minha vida.

domingo, maio 07, 2006

Libertação

"Who's to say I can't do everything?
Well I can try, and as I roll along I begin to find
Things aren't always just what they seem"

Acabaram minhas férias, se é que essa coisa indecente de folga de terça a sexta possa ser chamado disso. Descansei, é verdade. Pois fiquei quase imóvel dentro de casa, vagando pelo Orkut e MSN, sozinho de não ter mais jeito. Mas foi bom. Essa imobilidade foi apenas aparente, a externa. Porque, internamente, minha alma deu saltos.

"This world keeps spinning
And there's no time to waste
Well it all keeps spinning spinning
Round and round and upside down"

Nada de prático aconteceu nesse finde. Nenhum acontecimento memorável, com direito a música de suspense. Mas a viagem foi inesquecível, daquelas bem libertadoras. Porque depois de tantas negações ou desencontros, caminhar superficialmente amado e observado e talvez até um pouco desejado numa pista de dança* é de se ficar sorrindo por semanas a fio. Dei-me o direito de ser moleque e também aprontar das minhas. Dei-me o direito de dizer: compreensivo é o caralho, sem qualquer sinal de remorso. Ratifiquei o voto de confiança e carinho de tantos amigos, tantas pessoas que dispuseram de estender a mão para qualquer - eventualidade - dentro - dos - últimos - acontecimentos, que, como diria naquela propaganda clichê, não tem preço.

"Who's to say what's impossible and can't be found?
I don't want this feeling to go away"

Tenho escutado Upside down, do Jack Johnson, no modo repeat. Porque, ali, no final das contas, os próximos oito meses prometem as melhores coisas que possam acontecer. Estou otimista, por mais paradoxal que isto pareça. E, sinceramente, eu não quero que esse sentimento acabe tão cedo...

* Leo, quando escrevi isso, me lembrei de Sophie Ellis-Bextor. Faltou você. Sempre falta você, amigo.

** Desculpem os posts longos, mas aproveitei as férias para botar a literatura em dia. Leiam com parcimônia, pois os posts tendem a rarear de agora em diante.

*** Links novos. Engraçado que a maioria são de Bsb. Eita cidade indecente para reunir gente interesse...

sábado, maio 06, 2006

Noturnas 2

[escutando O - Damien Rice]

"E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, perguntando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar"

Você dói. Ainda. Muito. Você não me dói no dia-a-dia, tanto quanto dóia antigamente. Consigo fazer minhas compras, ir ao cinema, arriscar uma ou duas músicas do Nando Reis no rádio. Tá, talvez Nando Reis ainda doa um pouco, mas não é aquela enxaqueca implacável como costumava ser. O que quero dizer é que passou a fase aguda. Consegui atravessar cambiante o imenso vale das lágrimas/ dor/ piedade/ comiseração até que bem. E vou indo.

"Podia ser o porteiro entregando alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser"

Mas você ainda dói. Sabe quando? Nessas noites siberianas de Franca, quando a única coisa que tinha era sua mão. Quando o céu está tão límpido que vejo cada estrela, quando a Lua transborda iluminando parcamente os caminhos. E debaixo desse frio que racha os lábios, endurece as articulações e arrepia cada centímetro quadrado de minha epiderme, todas as músicas que canto são indiretamente para você.

"Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar"

E você me dói em cada reinício. Em todo primeiro passo que me lanço, é você quem fisga minha panturrilha. Penso em como estava equivocado por ter-me entregue tão gratuitamente à mágoa, ao ódio. Eu deveria ter sido forte, pois já era primavera, porque já havia o que colher. Um jogador de pôquer que perde algumas fichas como blefe para armar o grande bote. Mas faltou luz, me faltou frieza para suportar só um pouco mais de dor. E pago por esta minha incapacidade pontual continuamente, nestas pequenas dores metafísicas e impronunciáveis por vergonha, um pouco de decepção, muito vazio.

"Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre"
(Sem Ana Blues, Caio F.)

Felizmente, eu te suporto. Faço da sua dor um potente combustível para continuar. Para perseverar na contínua busca por alguém como você, mas não materialmente você - alguém que me impressione desde o primeiro segundo, sobreponha minhas pequenas trangressões diárias e diga-me, em voz velada, que tudo dará certo. Alguém que, enquanto durmo, me cubra com mais um edredon nessas noites geladas. Cerre as cortinas, para que a luz da manhã não me acorde. Sussure que me ama e feche a porta, silenciosamente, enquanto sai do quarto...

"Amie come sit on my wall
And read me the story of O
And tell it like you still believe
That the end of the century
Brings a change for you and me"
(Amie - Damien Rice)

quarta-feira, maio 03, 2006

Noturnas...

[ao som da trilha sonora de Amelie Poulin]

Ela se sentia sozinha pela primeira vez em muito tempo, naquela noite anormalmente fria de outono que principiava a neblinar. Era madrugava e os dedos doíam para acender o último cigarro que tinha (ainda era Free, roubado de um passante, tão leve que nem chegava a entorpecer). Equilibrava-se sobre o salto, depois de dois ou três conhaques - para esquentar a alma, para procurar estrelas, para tropeçar pelos caminhos.

Caminhava mastigando conclusões que há muito não pensara. Estava cansada de amores malogrados, que se esvaiam sem um último suspiro sequer. Estava cansada de suas próprias dissimulações gratuitas, que não a acrescentava, nem matava, nem rompia, nem morria. Como se congelada num poema de Murilo Mendes:

"Me rebelei contra Deus
Contra o papa, os banqueiros, a escola antiga,
Contra minha família, contra meu amor,
Depois contra o trabalho
Depois contra a preguiça,
Depois contra mim mesmo,
Contra minhas três dimensões"


Deu a última tragada no cigarro, fazendo a brasa fumegar - seu rosto iluminou-se de laranja e, por um momento, não conseguiu deixar de soluçar. Mas foi um soluço sem lágrima, como se engolisse uma mágoa antiga. Porque, quando levantou os olhos, pondo-os no céu, percebeu que as estrelas ali continuavam; e ela, tão viva e forte, tão plena e segura, não tinha outra escolha além de sorrir. Pelo fortalecimento. Pela vitória. Pelo princípio de racionalidade. Pelo futuro que se desenhava.

Abriu a porta de casa com um certo embaraço. É o conhaque - pensou - talvez um pouco de emoções demais. Lembrou-se das tardes de Pinheiros, as tardes poeirentas, mas desta vez não soluçou: teve que admitir a irreversibilidade das coisas. E se jogou no sofá, na tentativa de um sono intranquilo. E, só por curiosidade, ligou a tevê.

Passava um filme daqueles preto e branco que custou a reconhecer. Era Gilda. Rita Hayworth, a mulher mais linda que já existiu no cinema. Gilda, a mulher que todo homem já se apaixonou. E mesmo Gilda, tão lancinantemente bela em Buenos Aires, também tinha os seus percalços. Também caia em suas ciladas particulares. Também fumava demais, chorava eventualmente, ficava infeliz.

E foi com essa imagem de Gilda, paralisada frente a impossibilidade de concretizar o que desejava, que pegou no sono...

PS - em itálico, uma pequena alteração que faz toda diferença...