quinta-feira, abril 20, 2006

O tiro de misericórdia

Não existe nada mais cruel que uma ilusão acabar. Você mantê-la, linda em sua redoma de cristal por tanto tempo e ela se esfarelar sem aviso na sua frente. Sempre fui de idealizações. Platonismos. Exercício de suposições doces, levianas, irreais - mas tão boas para se matar o tempo. Sempre preferi viver em meu mundo edulcorado que essa vida cão diária. Silenciosamente. Enquanto fito as pessoas e os problemas e as tempestades e as intempéries com olhos baços de-não-estou-nem-aí. É na base das minhas vãs ilusões que me mantenho são, bem humorado, vivo.

Num feriado, morreram duas ilusões. Belas, doces. Súbitas. A la Oasis, "how many special people change?". Pungentes. Irreversíveis de uma forma que não sei explicar. Nem chorei, nem gritei, nem quis morrer pulando da ponte ou tomando veneno - ficou um espaço vazio, este nó na garganta, esta sensação de ausência. Fica uma dor vaga, visceral, de condução lenta. Que se alastra silenciosamente como um câncer. Que só vai doer num dia desses, uma quinta-feira nublada aleatória, que será insuportável todo o peso da recusa, das perdas, dos meus erros silenciados, tudo isto que sinto e não tenho aonde colocar. Daí eu vou desabar. Só assim eu vou desabar. Vou querer arranhar paredes, renunciar ao meu amor próprio, rasgar as cartas de minha caixa de cartas, desaparecer.

Morreram as duas, numa tacada só. Não suportaram à chegada do outono. Entro no outono, minha estação predileta, vazio como nunca estive. Entro no outono, como sempre entrei: regido sob o signo do desamor. E de pensar que ainda é só abril...

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