terça-feira, fevereiro 28, 2006

# 1/2 - Uma coisa vaga chamada destino

"Vale o meu pranto que esse canto em solidão
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas"

(Casa Pré-Fabricada - Los Hermanos)

E esperei, ah, esperei. Sempre pelos cantos, sempre em silêncio, sempre aquela reprimida troca de olhares, sempre as palavras secas repletas de esperança que nunca poderia vir à tona. Até que você pulou e eu fui atrás. Sem medo, sem olhar para baixo. Até que nossas cordas se enroscaram, seu canto era o meu canto e a primavera quis entrar.

"Põe mais um na mesa de jantar
Por que hoje eu vou pra aí te ver"

(Além do que se vê - Los Hermanos)

E fui. Às escondidas, com o coração na boca - sem saber direito o que esperar. Fui porque tudo havia começado havia tanto tempo, fui porque nossos versos se encontravam desde o primeiro encontro, fui pela promessa de um bloco de Carnaval que sempre se organiza, mas nunca se liberta naquele grito de começo de festa. Apesar do medo, da insegurança, da ilusão talvez estourar como bolha de sabão. Mas fui.

"Quantas horas mais vão me bater até você chegar?"
(Fingi na hora rir - Los Hermanos)

E eu cheguei, com o pesar de esgotamento nervoso com coisas pequenas, um coração partido, uma porção de palavras ásperas trocadas e um tanto de verdades engolidas, como veneno, só para não ferir quem deveria. Você chegou na hora exata, como sempre. Com a mão leve para afagar, um presente na mão. Uma precisão de quem havia me lido como um profile no Orkut.

"Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
que a gente vai passar"

(Conversa de Botas Batidas - Los Hermanos)

E era realidade. E era bom permanecer ali, ainda que no completo silêncio, na escuridão da madrugada - só com o vago som das pás do ventilador que giram giram giram. Tudo ali era vago, inconcluso, quase irreal. Faltou o balde d'água fria para arrefecer os ânimos, faltou descobrir aquele defeito que tornaria a convivência imperfeita em poucos segundos, faltou esquecer a frase mais importante que tornaria a película um fracasso - ficou nós. No copo de cerveja daquele bar medonho, nas horas de atraso que impediriam um dia de piscina, nas flores partidas daquele filme, naquele gosto estranho de cogumelos. E foi ficando uma coisa devagar, um pouco brilhante, sem pressa pois não havia motivo. Era meio confete e serpentina numa cidade deserta, nublada, com pancadas de chuva e prenúncio de inundações. Ainda que torto e tão particular. Devagar de tanta vergonha de nós mesmos, do medo de errar, da preocupação com a perfeição. Carnaval.

"Veja bem, arranjei alguém
chamado saudade"

(Veja bem meu bem - Los Hermanos)

Mas ter saudade até que é bom.

sábado, fevereiro 25, 2006

21 anos

Dentro do turbilhão de sentimentos que 2006 se transformou, a palavra de ordem agora é paciência. Paciência para amar e ser amado, paciência para respeitar todas minhas limitações e as dos outros, paciência para não amar demais nem odiar demais, paciência para esperar tudo de bom se encaixar no devido tempo, paciência para não se arrepender precocemente, paciência para atingir o grau de sabedoria necessário, paciência até que a coragem chegue, paciência.

Este novo ano para mim chega sob outro signo. Sem toda a desarmonia e a desconstrução do peso excessivo. Este ano (tanto 2006 quando estes 21) nasceram com a promessa de grandes expectativas. Por isto, enquanto tudo não acontece, paciência, Gabriel. Paciência.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Hematológicas

Doenças hematológicas me fazem flutuar.

Glóbulos. Mielócitos. Macrocíticos. Anisocóricos. Sideroblástica. Megacariocítica. Proparoxítonas poéticas.

Imagens bolhosas, caoticamente belas, como flores perigosas.

De pensar, são trilhões de células novas todo dia que percorrem o corpo, passam pelos vasos até despencarem no coração, que nesta altura mais apanha que bate. E daí divago: são células macrocíticas e rubras, que de tão frágeis se rompem antes do tempo. São mielócitos metaplásicos, que proliferam, invadem, sufocam e matam.

Meu bem, as coisas foram um pouco assim - opostas, mas longe de serem mutuamante excludentes: do que era frágil, tivemos muito; do que asfixiava, muito tivemos. Suportei o quanto pude até que.

Não deu.

sábado, fevereiro 18, 2006

#1 - Cartas à Clara

"Acho que acaba sendo como o sol: há a hora de aparecer, brilhar, iluminar, aquecer. E há a hora em que o que costumávamos iluminar tem que ficar escuro, frio, até mesmo sombrio. Só que o 'normal' [que é normal afinal?] é que a maioria do tempo seja a primeira descrição, e a segunda por sua vez seja bem curta. Mas às vezes acontece de a segunda se prolongar por um tempinho a mais"
(Clara)

Engraçado que há umas duas semanas acordei de ressaca num sábado comum, desses que não apresentam nada em especial. Levantei da cama com dificuldade extrema (coisa tão habitual no meu dia a dia) e fui lavar o rosto. Quando juntei nas mãos um bocado d'água e me olhei no espelho, com o cabelo revolto e olheiras querendo colorir os olhos, veio a mente: "don't be afraid of the dark".

Isto sem motivos, sem aviso, sem qualquer fator desencadeante. A frase pulou de algum lugar do inconsciente praquele lugar da nossa mente que compreendemos. E fiquei pensando bastante nela na semana decorrente (antes da MI, que sugou grande parte dos meus esforços da semana passada).

Sabe, sempre acreditei que, para alcançar a luz, precisamos caminhar pela escuridão. Mesmo aquele comercial do Omo já diz, não há aprendizado sem manchas. Não acho que podemos chegar à felicidade incólomes - grande parte das nossas ações tem custo e administrar este custo que é o grande desafio. São escolhas difíceis que temos que fazer, temos que cortar na pele porque é necessário, temos que ceder muitas vezes naquilo em que somos mais fortes ou mais fracos

Por causa disso, aceito sem muito medo quando tenho que passar pelas minhas fases de eclipse. Pois sei que é passageiro, pois sei que é só um estágio rumo a algum lugar maior, pois não há coisa do mundo que seja eterno e imutável. Por mais longa que seja a noite, sempre tem o amanhecer. Por pior que seja a tempestade, tem sempre um solzinho no fim.

Portanto, não importa quão baixo eu entre no poço, sempre trago comigo duas frases: primeiro, de Caio Fernando no conto 'Os dragões não conhecem o paraíso' - Que seja doce. E esta minha.

Don't be afraid of the dark.

Adeus você

(hoje, as melhores palavras não são as minhas)

"Adeus você.
Eu hoje vou pro lado de lá.
Eu tou levando tudo de mim que é pra não ter razão pra chorar.
Vê se te alimenta e não pensa que eu fui por não te amar.

Cuida do teu pra que ninguém te jogue no chão.
Procure dividir-se em alguém, procure-me em qualquer confusão.
Levanta e te sustenta e não pensa que eu fui por não te amar"
(Adeus você - Los Hermanos)

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

"I've been feeling down
I've been looking round the town
For someone just like me"
(Family Tree - Belle and Sebastian)

... como se eu não merecesse este prenuncio de felicidade. Ela dói, ela sangra, dá vertigem e parece insustentável. Porque penso que talvez não a mereça, porque talvez eu ache que num bater de palmas toda a atmosfera irá desaparecer e me verei jogado novamente à velha rotina de livros de pontos ...

domingo, fevereiro 12, 2006

Blues

"Hold me close
'cause I'm the most and
Make a toast to you and me
See that's the way love's supposed to be
Not stressful..."
(Boo - Macy Gray)

Macy Gray deu o tom dessa semana tão atormentada e atribulada que passou. Macy Gray e sua voz arrastada, com todo encanto e calor que só a black music sabe ter. Que fala de amores intensos e difíceis, das solidões pungentes, da benção do encontro silencioso das epidermes.

"I still
Melt down like a candle burning everytime we touch"
(Still - Macy Gray)

Quanto a mim, não sei. Permaneço numa calma inesperada dentro do turbilhão de coisas que se formam em torno/dentro de mim. Conto até dez para evitar precipitações. E enquanto nada acontece, vou relendo os livros do armário, observando o pôr-do-sol, voltar para academia talvez. Sinto novamente o vento da subida e sei que em breve terei todo o vazio de vários metros de altura debaixo dos meus pés - e só espero que não me arrependa depois.

"All of your demons will wither away
Ecstasy comes and they cannot stay
You'll understand when you come my way
Coz all of my demons have withered away
I better give my heart a listen"
(Demons - Macy Gray & Fatboy Slim)

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Das negativas

Ultimamente não tenho visto muita gente. Tenho ido menos ao cinema, tenho conversado menos com as pessoas que amo, tenho tomado menos sorvete e menos Coca-cola trincando de gelada ali pelas três da tarde. E também tenho bebido menos cerveja & destilados, tenho saído menos, tenho comido menos churrasco e nem na churrascaria apareço mais. E também tenho dormido menos, apesar de nem o BBB estar assistindo, nem no MSN tenho queimado minhas preciosas pupilas, nem lendo clássicos (ou não tão clássicos assim), nem reescrevendo as velhas histórias que vagueiam por esta mente preguiçosa. Tenho acreditado menos nas pessoas próximas, nos outros, em mim mesmo. Nem o trabalho de MI comecei. Nem tenho pensado muito em alguma solução pirotécnica para todos os problemas do mundo, nem tenho tomado sol, nem tenho comido muito sal ou cometido algum delicioso pecado pelo qual me arrependeria mas só pelo puro prazer de Viver. Não tenho andado na chuva, nem de bicicleta, nem de pedalinho, nem de carro conversível. Nem tenho me movimentado muito.

E a supressão de tanta coisa nem desocupou espaço algum, nem consegui substituir por algo dinâmico, palpável, edificante. Nem ficou um vazio sangrante, daqueles bem hemorrágicos que pingam pingam pingam. Fica um velho gosto na boca, das coisas que poderiam estar sendo e não são, por tantas questões individuais. Mas até isto é vago, por falta de espaço. Ou por excesso de negativas.