domingo, janeiro 29, 2006

Pequenas dificuldades

Nunca gostei dos rins. Tão complexos e vitais. Tão singelos e temperamentais. Tão importantes quanto silenciosos.

A aula de patologia renal é terrível - são processos sutis e velozes. Potencialmente mortais. Todos crônico-degenerativos, sequelares, súbitos. Você pensa que eles podem estar acontecendo: ali com você, com sua mãe, com seu amigo.

Os tratamentos são pífios, porque o que está perdido não se recupera. Os medicamentos são mínimos. O prognóstico, a longo prazo, é sombrio.

Torcia para que isto nunca acontecesse com ninguém que amo. Nem rins, nem câncer, nada que provoque tanto sofrimento e angústia quanto as porcentagem inconclusivas da medicina. Mas aconteceu. Está acontecendo.

Daí, tudo centraliza em mim. Eu e minha enorme ignorância médica. Eu e minha vaga idéia sobre gravidade, prognósticos, dificuldades. Difícil é tomar o baque e fazer cara que está tudo sob controle. É difícil só falar em esperança quando se sabe por onde tudo pode terminar.

2006 está cheio de pequenas dificuldades. Daquelas espinhos de rosa, farpas mínimas que podem ser muito dolorosas.

Ignorância, tem hora, que é benção.

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