sexta-feira, dezembro 22, 2006

All Star

[ao som de Nos Lençóis desse Reggae, Zélia Duncan]

Caríssima,

Esses dias, insone, estava lá eu vendo o . A Zélia Duncan cantava uma música nova, daquelas músicas novas horríveis sabe? Mas na hora da entrevista, a primeira coisa que ele perguntou foi sobre o tênis dela: um clássico All Star.

Daí a primeira coisa que pensei foi naquela vinheta antiga da Cultura, Zélia Duncan gritando tão alegremente: nos lençóis desse reggae, na época de nossas confissões de adolescente. Lembrei daquele Rio de Janeiro ensolarado, das quatro irmãs e nós lá, nos primórdios da nossa inocência.

Lembrei de tanta coisa doce, tanta coisa suave daqueles dias leves. Lembrei que meu carro chamará Doug, por causa do desenho. Lembrei da jabuticabeira da minha escola de colegial. Lembrei dos meus primeiros textos, de quando comia Ioiocrem sem medo dos triglicérides (malditos triglicérides) e da época que escutava Legião. Lembrei de quando comecei a ler Harry Potter, num sopro. Lembrei das primeiras paixões sem culpa, sem malícia, sem todos esses atropelos complicados dos relacionamentos. Lembrei da minha primeira viagem para Sampa, dos primeiros dias insalubres de cursinho, do primeiro dia na faculdade.

Lembrei de você, se apresentando: de nome composto que nunca tive o hábito de usar. De All Star vermelho, quase indecente, debaixo daquele sol absurdo de junho. Daquele primeiro período longuíssimo, dos primeiros cadáveres. Do primeiro inverno longe de casa, as árvores outonando num dia gelado, quase Oxford ou Cambridge ou algo assim. Das minhas chuvas, das suas madrugadas. Até naquele fatídico setembro, debaixo da pia. Eu, você, o All Star.
Não lembro mesmo da nossa conversa, lembro de qualquer coisa vaga sobre Bandeira ou Drummond. Mas tenho certeza que, tendo em vista todos os descalabros que passamos nos últimos cinco anos, deve ter sido algo tão leve quanto Zélia Duncan aos 13 anos, seu All Star, o Happy Feet que você não viu (ou viu?).

Lembrando daquele tempo (e é nesse ponto em que eu queria chegar), penso em como éramos inocentes. Gabávamos dos nossos 18 anos, mas we were so naive. Morávamos em pensionato e não tínhamos essas terríveis preocupações sobre portões eletrônicos, vidros que quebram, a terrível matemática do cheque especial no final do mês. Éramos primeiroanistas de um curso longuíssimo de seis anos, numa época que seis anos era qualquer coisa próxima da eternidade. Todos eram legais e amigos e companheiros e divertidos, e seria inimaginável brigas fratricídas dentro da própria sala, tantas picuinhas rendessem tantos kbs em mails e scraps. Era uma época em que só escrevíamos bilhetes, tantos tantos. Tinha Amélia e aquele absurdo de aula às sete da madrugada. Tinha Francislene e aqueles gerúndios impossíveis. Tinha Sunscreen antes de virar clichê.

Tinham as cartas, tão lindas. Por ocasião dessa nostalgia, revirei o meu arquivo e encontrei tanta coisa boa, merecedora de sair da gaveta. Nossas falas eram inespecíficas, mas tão carregadas de significado. Éramos agoniados, mas expectantes que o momento da grande virada viria. Éramos melancólicos, mas consolávamos-nos na esperança do Carnaval, que em breve tudo explodiria e faria sentido. Eu trazia cadarços coloridos, quase fosforecentes, pro seu All Star. Você me trazia cds gravados, naquela época triste que gravadoras eram quase um luxo.

Tudo isso passou como um filminho, tipo apresentação brega em Power Point. E nesse dia, completamente sóbrio (juro, juro), fiquei triste igual um cachorro. Porque, como você bem disse, matamos a poesia. Porque éramos inocentes, tão lindos, e nem tínhamos noção. Citando Wilco: I miss the innocence I've known.

Hoje estamos melhores, mais seguros. Menos confusos e mais práticos. Mas escrevemos cada vez menos, lemos menos. Às vezes, sinto como se a beleza (aquela de Lester, a Americana) tivesse escorrendo por nossos dedos sem percebermos. Que neste processo, nossas mãos estejam ficando ásperas, duras, insensíveis. Quase estéreis. Pensando nisso, quase não dormi.
Digo quase, porque se matamos a poesia, ela ainda não está morta. Ainda existe conhaque, a Casa do Sanduíche depois dos ambulatórios eternos. Existe a perspectiva do Machu Picchu (depois descer até o Chile e conhecer o Pacífico, depois...) quando formos assalariados e não-residentes. Existem as horas quebrando a cabeça procurando soluções para as insolubilidades diárias do nosso dia-a-dia. Porque se perdemos a inocência, ganhamos maturidade. Continuamos bonitos, apesar das cicatrizes e dos tombos.

Porque aquele seu All Star vermelho sobrevive ainda, em qualquer lugar, e é só calçá-lo que parecerá que nunca ficou guardado. Zélia Duncan, na lista das mp3 eventuais. Quanto a mim, prometo comprar um All Star. Azul: tantas lembranças boas.

Feliz Natal, Feliz Ano Novo. Pra você, pra todos.

Até 2007.

terça-feira, dezembro 19, 2006

2006.2 - O ano, propriamente dito

Não gostei do post que havia feito - por isso, deletei-o e tento começar outro, de improviso.

Porque, no final das contas, 2006 foi um bom ano. Confuso, instável, recheado de pequenas dificuldades - mas ainda sim, bom.

Foi ano de conquistar espaço. Foi ano de aprender com o silêncio. Foi ano de perder as estribeiras. Foi ano de pular no vazio, sem medo da queda. Foi ano de reorganizar, reestruturar. Foi ano de ócio sem culpa. Foi ano de jogar quase tudo pro alto só para ver aonde vai cair. Foi um ano libertador.

Hoje me sinto mais adulto, mais pronto. Mais dinâmico, mais prático. Capaz de separar o que me serve e lidar melhor com o que me paralisa. Cercado de pessoas fantásticas, nas horas dos grandes porres e das grandes tempestades. Preparado para assumir aquilo que chamam de vida: horários, responsabilidades, conseqüências.

Foi um ano de amores confusos: bons, ilusórios, promissores, enganosos, equivocados. Mas todos demasiadamente confusos. Todos, vivenciados nas pontas dos dedos. Talvez, também descartáveis pela sua fugacidade.

2007 pouco reserva além de sangue, suor e lágrimas. A faculdade será o caos: último ano, iminência de grandes passos e responsabilidades. A perspectiva de pouquíssimo tempo além dos corredores imensos, das madrugadas em claro, as horas de estudo. Mas creio que todo mundo que construi há de suportar um ano de dificuldades - pois está em base sólida, pois sabe aquecer nos momentos de apuros. Há pouco o que desejar: muita paciência e força.

Só tenho uma esperança violenta num futuro além. E isto me basta.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

2006.1 - Carta só para você

Tão estranho como você ainda permaneceu presente apesar da distância, do silêncio forçoso, cada um imerso na labuta cotidiana que aparentemente nem deu tempo para pensar naquele passado remoto, nas coincidências, no término súbito. Mas quero que saiba que você não permaneceu como um amor platônico, daqueles tão sufocantes que até impedem da vida continuar nem como uma chaga incômoda, daquelas que de só se esbarrar sangra.

Você ficou como um referencial. Nas suas mãos pequenas e macias, aprendi o que, no alto de meus 21 anos, julgo ser todas as facetas daquilo que podemos chamar de amor. Aprendi a reconhecer o primeiro desfalecimento da paixão arrebatadora e a dor dos desencontros iniciais. Como é redentor quando as primeiras afinidades se encaixam. Como é curioso o escrutínio dos defeitos e das qualidades. Em como o amor sem pressa ou apuros, fazer qualquer coisa ou absolutamente nada também é divertido. Quanto é doloroso quando as palavras não se encaixam mais. Quando é dilacerante o término, o fim, sem romantismos ou despedidas, sem
choros ou xurumelas.

Sim, amadureci. Amadureci tanto neste ano e meio. Por sua causa, as ciladas não foram tão enganadoras. Os tombos, menos dolorosos. As ilusões, menos vistosas. Nas suas mãos pequenas e macias, aprendi aquela infame lição de Mário de Andrade: amar é verbo intransitivo. De uma forma que já me não me tortura (tanto) a espera por um telefonema que não acontece, como uma vez fizestes comigo. De uma forma que não necessariamente preciso estar com alguém para me sentir bem.

Mas o Amor, esse das maíusculas, perdeu um pouco o encanto. Fiquei mais cético aos clichês hollywoodianos, as promessas de felicidade instantâneas. Não me deixo levar pela euforia dos primeiros segundos, como acabei fazendo contigo. Não me deixo embriagar pelas doces palavras iniciais. Avalio riscos e só assumo o que verdadeiramente tem potencial para criar raízes e
frutos. Não que faço do amor uma matemática - só não despenco sem antes pensar no buraco em que estou me enfiando.

Passei por poucas e boas neste ano. E em nenhum momento fraquejei, dobrei os joelhos ou aceitei alguma situação que não me fosse favorável. Que consumisse meu ego. E esta força, devo unicamente a você.

De resto, guardo comigo uma frase que Maria Anita me disse naquela ocasião de crise provocada pelas minhas próprias palavras: o amor é uma grande malha de insistência, paciência e espera. Por isso não fecho as portas para ninguém que um dia tenha passado pela minha vida. Por isso, se algum dia quiseres voltar só para um chá, para dissolver tantos silêncios carregados que foram construídos pelas mágoas e imprevidências, sinta-se à vontade. Nem que seja somente para me contar se já aprendeu a tocar violão, o que fará após a formatura, quais são seus novos vícios e virtudes. Banalidades.

Quanto a mim, ainda permaneço a velha Kite no céu...

[primeiro dos post sobre 2006. Hábito antigo, não reparem. Se interessar o que aconteceu ano passado, clique aqui]

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Feels like honey

Bob e Charlotte se conheceram num país estranho, de língua estranha, na solidão dos quartos de hotéis. Ambos dentro de relacionamentos mornos, daqueles que não queimam nem congelam. E acidentalmente, foram aos poucos se encontrando, pequenas afinidades, pequenas tensões. Até que dali poderia sair alguma coisa, qualquer coisa para ocupar esse buraco crônico que existe em todos nós. Daí a cena final do filme: a despedida. Talvez nunca mais se vejam. Eles se abraçam. Falam qualquer coisa inaudível. Beijam-se sem amor, fraternalmente. E o filme acaba.

"Lost in translation" é dos meus filmes prediletos por causa dessa sensação de impotência frente ao outro. De como podemos dizer tantas coisas sem compreendermos ou sermos compreendidos. Desse sentimento de solidão povoada, mesmo no meio de uma multidão de pessoas atentas em você.

Tenho me sentido perdido na tradução. Descobrindo porque deu errado. De quem foi o erro: se foi meu, de ter te interpretado de uma forma que na verdade não era real; se foi sua, ao criar uma expectativa que fatalmente você não poderia corresponder; se foi simplesmente do destino ou qualquer coisa semelhante, culpa dos encontros e desencontros e da minha imensa capacidade em encontrar as pessoas nos momentos mais confusos e improváveis.

O fato é que nunca saberei, mas não importa. O fato mesmo é que dói, não pela possibilidade que se acaba, mas pela minha inabilidade em criar tanto vento para o barco navegar, soltar as velas, pelo menos ensaiar um início de aventura. O fato é que me sinto de mãos frágeis e absolutamente incapaz de virar o jogo ao meu favor. O fato é que estou cansando de abrir as janelas da minha casa para ninguém entrar.

Caminho na rua, imaginando que ao fundo toca "Feels like honey". Anoitece de leve, o dia vagarosamente morrendo sem paixões nem brilho. Atendo telefones, faço planos, tomo meus porres sem ressaca alguma no dia seguinte. A vida segue, como deveria ser.

Mas você não ficou.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Se você ficar...

Se você ficasse, seria tão bom. Se você ficasse, assim eternamente ao meu lado, para dar tempo que todas as coincidências, daquelas que fatalmente unem duas pessoas, terminassem de acontecer. Até que aquela intimidade silenciosa se construísse, a compreensão pautada nos olhares, nas vírgulas, nos acordos extra-oficiais que estabeleceríamos sem percebermos.

Se você ficasse, mostraria a beleza da violência escarlate do Tarantino, as cores fortes de Almodovar. Como Alex, do Adeus Lenin, é o meu alter ego. Como sou um jardineiro fiel. Mostraria toda beleza de Monica Belutti, as múltiplas faces de Jack Nicholson, os meneios de Ewan Mc Gregor. Como grito, sem querer, nos filmes de terror. Como que, para gostar de mim, também é preciso gostar de filmes e pipoca, não importando o que se vê.

Se você ficasse, te apresentaria toda melancolia da bossa nova: Nara Leão, Vinícius, Tom. Faria você se apaixonar por aquela ilha: Belle and Sebastian, Coldplay, Radiohead. Cantaríamos os mesmos versos mineiros de Pato Fu e, garimpando, qualquer coisa do Legião que não tenha vencido o prazo de validade.

Se você ficasse, haveria tanta coisa para ler. Passar sem Caio Fernando não seria negociável: seja para falar na alegria do amor que começa, nas agrugas da solidão compartilhada (ou mesmo as solitárias), do amor que fenesce, da vida por ela mesma. Passar pelos enigmas de Clarice e J. D. Salinger. os lamentos de Bandeira, as deliciosas sagas doutro mineiro, o Sabino. Te explicaria a insustentável leveza do ser, passaria cem anos de solidão, o eterno clichê da raposa e da rosa.

Se você ficasse, mostraria como sou melhor assim, escrevendo que falando. Te guiaria pelos meus silêncios, a beleza de minhas nostalgias. Te beijaria num dia de chuva, rolando na grama. Aprenderia a cozinhar. Aprenderia a decifrar estrelas, quadraturas, ascendentes. Mostraria todos os textos presos na gaveta, minha caixa de bilhetes e cartas, escreveria-lhe histórias, roteiros do meu corpo para que não perca o caminho. Faríamos fotografia, conheceríamos a América de mochila. Apresentaria todos os meus amigos e perderia horas explicando como quando e por onde eles são tão especiais e fascinantes.

Se você ficasse, um dia ou outro levantaria insone, alta madrugada. Só para lhe ver dormindo. Para sentir aquele nó na garganta de uma felicidade estranha, contida em cada poeira de cotidiano. Aquela cosia que não se explica, só se sente borboleteando estômagos, formigando lábios, bambeando pernas, taquicardias. Qualquer coisa próxima, símile ou diabos: de amor.

Se você não ficar, vou continuar vivendo. Procurando, me perdendo, encontrando. Pouco pior, algo melhor, quem saberia? Mas se você ficasse, ah, se você ficasse já seria tão bom...

terça-feira, novembro 28, 2006

Três semanas para o (quase) fim

O último mês do longuissímo ano está chegando. Final Countdown. Tenho milhares de provas, contas e festas.
Tenho que reformar um apto até dia 22 de dezembro.
Preciso de muito dinheiro.
Necessito de tempo.
Até lá serão três semanas que me desafiarão muito como pessoa.

Obs: Quanto será que eu ganharia me prostituindo?

quinta-feira, novembro 16, 2006

Ressaca

Era domingo, meio-dia. Ressaca de cerveja, conhaque, muito conhaque. Dia morno, mormaço. A geladeira absolutamente vazia. Um telefone que não toca há muito. Eu, nu, enrolado nos lençóis.

Se eu fumasse, acenderia um Carlton mentolado, observando lentamente a chama que queima enquanto trago. E acenderia outro em seguida, e outro, e outro.

O que é melhor: viver na ilusão doce ou na realidade agridoce?

Sinto como se finalmente tivesse acordado. A cara doendo, as pernas inchadas, alguns hematomas. Um choque de realidade. Míriam Leitão classificaria esse momento, em tom grave, como se 30% da minha vida tivesse subitamente implodido, iminencia de crises e outras sentenças em tom alarmante.

A verdade é que errei e fui punido. Poderia ter seguido no indolor caminho doce, assentindo levemente com a cabeça, míope dos erros alheios, achando uma coisa e agindo doutra forma. Ou unir a ação no discurso, na difícil tarefa de sincronizar os passos, acertar ironias e agressividades. Errando, obviamente, na sintonia fina das ações. Daí eu errei. E não quis voltar atrás, não quis retornar ao maravilhoso mundo edulcorado, sem enfrentamentos. E daí grande parte da estrutura que me sustentou nos últimos quatro anos desabou sem qualquer nostalgia. Não por mim, pois tenho toda uma simpatia por edifícios antigos, casas passadas, pousos que já me trouxeram boa diversão. Demoliram tudo, sem ver se eu já tinha saído.

E eu continuava lá. Emocionalmente ligado, um carinho residual que permanecia - tudo abaixo.

Levanto da cama, escovo os dentes para tirar o gosto amargo de ressaca da boca. Olheiras, barba espessa, tempo passando. Por isso, a urgência, a resolução: no mundo real, nesse mesmo agridoce, existe outro caminho senão insistir? Persistir? Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, etc?

E porque de toda catástrofe ainda retiramos algo produtivo, pude perceber tanta gente despretenciosamente preocupada com tudo o que estava acontecendo. Coisas pequenas, pequenas atenções, revoltas pontuais. Ou simplesmente permanecer ao meu lado, num ato consciente, tão-somente porque sou dotado de imperfeições que eventualmente vêm à tona.

Como diria o saudoso Caio F: "Depois de várias tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro".

O que fica, quem fica, quero abraçar com toda força dizendo: obrigado por existir, por ainda acreditar, por entender que existe algo além, por não me julgar superficialmente, por aceitar toda minha agressividade, por compreender minha ingratidão, saber que quero algo nada complexo mas que o movimento para isso é vagaroso na velocidade dos continentes e ainda não estou preparado para a grande virada só que o momento vai chegar e cada dia mais me sinto pronto confiante e sereno.

E por isso mesmo quero dizer: que se foda a ressaca, que se foda Míriam Leitão, que se foda quem quer minha caveira, que se foda quem quiser puxar meu tapete. O telefone tá voltando a tocar, quem importa está cada vez mais perto, a vida vai correndo tão bem. Um domingo tão ensolarado. É só fazer a barba, vestir a melhor roupa e descer a escada, emendando no meu melhor passo de dança. Afinal, o Carnaval está chegando...

sexta-feira, novembro 10, 2006

Consideraçõs sobre o ANPOCS

Fui no trigésimo Encontro Anual do ANPOCS ( Associação Nacional de Pós Graduação em Ciências Sociais ). Encontro academicamente muito bom, diga-se de passagem. Todavia, num dos Grupos de Trabalho, GT 22( Corpo, Sexualidade e Gênero) os acadêmicos ficaram estarrecidos com a leitura de um trecho de um trabalho do pesquisador Leandro de Oliveira.
O Trabalho se chamava : Gestos que Pensam: Performances e práticas Homossexuais em Camadas Populares ( se não me engano é isso mesmo)

E o Trecho é o seguinte:

"O funk, por possibilitar uma coreografia mais claramente generificada, pareceexercer um atrativo maior sobre esses homens. Em um exemplo do modo como essascoreografias são encenadas na boate, as travestis dançam mexendo os quadris emmovimentos circulares descendentes, mãos apoiadas sobre os joelhos arqueados,projetando as nádegas para trás. Já os homens permanecem no mesmo nível de altura,executando, com a bacia, estocadas ritmadas no eixo sagital, numa simulação eestilização da cópula: braços ligeiramente erguidos, palmas pra cima, o antebraçoformando um ângulo de 90, punhos cerrados, como se segurassem uma parceiraimaginária pelos flancos."

Espero do fundo do meu coração ansiosamente pelo próximo ANPOCS.

Saudades de Caxambu!

terça-feira, novembro 07, 2006

Re: Carta para um amigo que mora longe

Caro amigo,

A vida caminha em stand-by e sinceramente acho que isto não seja de todo ruim. Falta tempo para sofrer pelas coisas que poderia ter feito e não fiz. Falta tempo para reclamar das coisas etéreas, vagas, fugazes. Como bem disse a Anita, acho que matamos a poesia do cotidiano. E vai bem.

A verdade é que tenho me bastado. Sabe aquela capacidade de resolver os próprios problemas sem que, necessariamente, desabasse no decorrer do processo? De eventualmente até achar que tomei a decisão certa, sem que isso me tirasse o sono?

Tenho me dedicado ao ócio mais que poderia, mas acho que mereço um pouco de descanso depois de tanto tempo bancando o bom-moço. Estar sozinho nem dói - para te falar a verdade, até gosto de estar com o coração desocupado por causa da iminência do caos que minha vida vai virar num futuro bem próximo. Mas se o amor acontecer, daqueles irresistíveis e inconsoláveis, paciência: é descer a velha montanha russa, refazer os velhos caminhos, etc etc etc. E vamos indo.

Acho que ficar adulto é isso: uma segurança aparentemente estável, algumas certezas e conceitos consolidados, um pouco de tédio cotidiano, equilíbrio. Preocupar-se com reuniões de condomínio, emprego, se compro carro ou viajo pra Argentina. Até que bata qualquer tipo de desespero. E, como não há outra maneira, juntar o que sobrou das perdas e seguir em frente.

Também sinto saudades da convivência próxima: buteco no fim de tarde, cinema eventual, palestras bizonhas, sorvetes na praça. Sinto muita falta de tudo aquilo que deixamos para trás e toda vez que retornamos está do mesmo jeito. Mas existe Sampa, sua possibilidade de Mestrado, minha residência. Nós finalmente com dinheiro, numa cidade fervilhando de boas opções. Penso nisso toda vez: o futuro será tão brilhante e melhor.

Não se esqueça: Deus é naja e Zero Grau de Libra. Vou arrumar García Márquez para trocar as referências. E quem sabe esticar em Bsb, Sunset no final de tarde, cerveja no congresso de madrugada. Ando tão sem rumo até janeiro, se bater um pouco de vento, quem sabe?

Abraços,

Gb's

sábado, outubro 28, 2006

Giz

[para ser lido ao som de "Vamos fazer um filme", Legião]

"E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém aparecer
Ou quando quero"

Acho que esse dias chovosos tiveram seu efeito - primeiro, um interminável sentimento de carência, tão característicos desses imensos finais de semanas solitários, em que as horas se arrastam sem desaguar em lugar algum até uma segunda-feira torta, insone, insonsa chegar. Segundo, uma sinusite inédita, mas nem por isso menos incômoda, que me obrigam a ficar dentro de casa, vagueando entre a Sessão da Tarde e trechos de livros, filmes, canções.

Mas não quero que por isto me julgue incorretamente. Esse estado não passa além de uma melancolia sazonal, dessas tempestuosas que passam rápido. A grande verdade é que estou melhor, bem, forte, tranqüilo.

"Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou"
Acho que você se orgulharia de mim: tenho acordado diariamente antes das seis, antes mesmo do despertador tocar. Desconfio que seja o primeiro peso da responsabilidade. Quando acordo, ainda resisto bravamente à tentação dos cinco minutos além, tão somente porque existem pessoas que precisam de mim, porque finalmente sou útil e necessário.

Saio de casa nos primeiros minutos do dia, quando o Sol obliquamente tinge de amarelo pálido as pedras do asfalto. Antes mesmo do dia esquentar, quando ainda os dedos doem ao girar a chave na porta, o nariz arde pela brisa gelada e as plantas secam, vagarosas, do sereno depositado. Mas você sabe que não sou das manhãs, sempre estou péssimo, olheiras fundas, pingando de sono mal dormido, costurando toda sorte de maldições para o indivíduo que inventou que sete horas é um horário bom para.

"Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver"
Meu horário de glória é o entardecer. Quando estou dentro do ônibus e o mesmo Sol obliquamente ilumina toda a cidade de laranja mortiço, como na fotografia daqueles tantos filmes que vimos juntos. Fecho os olhos, quase durmo pelo cansaço do dia inteiro pesando nas costas. Penso em você, penso em tanta gente que foi especial de alguma forma mas escorregou pelos dedos por puro descuido. Um dia ou outro, chove devagar, chove manso e eu acordo como se alguém tivesse me chamado tão doce, tão carregado de ternura. Não há ninguém - mas também, não precisa, pelo menos nesse dias.

Desço do ônibus, quase sempre escutando bossa nova, vou à Academia. Talvez seja o único momento do dia em que realmente me sinto mal: nos supinos, sofro ao levantar 20 kilos enquanto ali do lado levantam 30, 40, 50. Concentro-me em mim - sempre me dizias: confia em ti, confia nos teus passos, confia nas tuas mãos hábeis e seguras. Respiro, suspiro e prossigo. Nas minhas contas, já são cinco meses e meu corpo mostra resultados tão sutis que só eu devo perceber. Você diria que no final das contas isso não importa e apesar de ser um dos grandes clichês do universo, o que importa é a beleza interior. Mas você sabe que sou paciente e, por causa disso, persisto, insisto e prossigo neste esforço quase inútil.

"És parte ainda do que me faz forte
Pra ser honesto
Só um pouquinho infeliz"
Quando chego em casa, já é noite cheia de estrelas. Sou velho refém do miojo & congelados, porque quem cozinhava sempre era você. Ligo a televisão, para povoar a casa de sons e movimento. Vezenquando o rádio, que insiste em tocar Legião pelos dez anos de morte do Renato Russo. Presto atenção naquela, que num dia nublado cantamos olhando nos olhos, bem nos olhos: "Vamos fazer um filme?".

Tomo meu banho morno, longo, sem piedade para qualquer prioridade ecológica: gosto da água morna dilatando os capilares e cada célula do meu corpo. São os cinco minutos mais longos do dia, porque ali não existem contas a pagar ou protocolos inúteis ou ciúmes desmedidos ou traições sem sentido. Até o sono vir - daí durmo na sala, TV ligada, até que todas as catástrofes diárias façam minhas pálpebras pesare, ali depois da meia-noite. Relaxo, para que todas as minhas células dilatem ainda mais para ocupar um espaço imenso na cama que permaneceu depois daquele último vinho.

Daí adormeço, um sono leve e irriquieto, com muito cuidado para não me afogar num mar de edredons, mágoas e desapontamentos. Só não morro diariamente porque existe uma espécie qualquer de, saber definir chamo de sorte porque não sou muito chegado em espiritualidades, cujo magnetismo acompanha-me todo o dia e só de madrugada, entre as marolas e a brisa deste mar negro, conforta-me sem a necessidade de dizer qualquer outra coisa. E com os olhos postos em mim, vem a esperança, a liberdade e esse sentimento irresistível de prosseguir em frente.

Até que as primeiras luzes do dia ultrapassem as cortinas e o vento leve, quase sem sal, desperte-me. E eu coçando os olhos pesados da areia do sono lembre: é dia de começar tudo de novo.

"Eu rabisco o sol que a chuva apagou"
(Giz - Legião Urbana)

domingo, outubro 22, 2006

Carta para um amigo que mora longe

Meu rapaz
Uma pessoa, desde sempre, iluminada. Por assim dizer.

Meu velho, saudades suas.Saudades de sua presença física, pungente, um soco na cara que permitia algumas epifânias diárias. Não que elas não aconteçam, mas, como você sabe, o processo sempre difere.Feliz em ver que você anda. Bem. Uma flecha apontada para um lugar, qualquer que seja.

Quanto a mim, como sempre, talvez sempre, contínuo perdido, com medo , tateante com medo de alguma navalha envenenada na parede ou coisa assim.Devagar e sempre. Pequenas decepções e algumas revelações. Equilíbrio, e não sei se é isso que se busca. Uma tosca estabilidade com alguns estresses. Cinza, marrom, e essas de longe não são as cores mais radiantes do universo. Dourado? Tenho medo demais pra tentar acho. Medo, aquela coisa amarelo-negra.

Para assuntos de cama, convergência entre Eça e Drummond é ótimo , representa bem. Talvez nem tão fundo, mais existencial, Talvez, diria Vinícius, que Sofrer junto é melhor que sofrer sozinho. Acontece mais a não-ação. Mas tudo bem ... sempre tem um dia em que o ar condicionado vai parar e o calor ficara tão grande que uma resposta imediatista, de súbito, sem racionalização acontece. Queria muito.... E fico girando como pendulo sem chegar no centro.

Pretendo te visitar. Juro. Mas será que as coisas, tudo, irá mudar irremediavelmente? Não tenho certeza, antes teria quase certeza, hoje fica só um grande ponto de interrogação. Tenho aprendido muito nesses tempos, muito sobre o que sou, ou pelo menos o que acho que sou. Minha expectativa seria o seu eu antigo, aquele porto seguro que sempre estava aberto pra aportar. Você mudou, eu mudei, mudamos. Crescemos.

De resto fica a saudade. Das pequenas coisas, as coisas simples da vida, coisas que acontecem como rosquinhas mabel e leite desnatado as duas da manha.

Saudades Eternas
Le Léo, por que insistimos sempre.

domingo, outubro 01, 2006

Mentiras sinceras

E eu até poderia desaparecer, não ligar mais, não mandar mensagens nem scraps nem aquele oi sem graça no horário de trabalho ou quando você finalmente viesse, tergiversar até que tudo caísse na frigidez de alguma coisa que aconteceu mas estamos encabulados demais para perguntar. Mas não seria justo.

E eu até poderia dizer que não dava, porque eu tinha acabado de sair de um relacionamento conturbado, estava ferido demais de tantos tiroteios emocionais, diários e repetidos, naquela rotina masoquista de mágoas e desapontamentos, talvez se fosse num momento mais favorável e. Mas seria mentira.

E eu até poderia alegar que sou possessivo, deprimido, insone, maníaco, viciado em qualquer coisa lícita porém moralmente degradante, infiel, corrupto, desalmado, temperamental ou mal-humorado, resumindo tudo na clássica "a culpa é toda minha". Mas seria errado.

E eu poderia escamotear todas nossas conversas até encontrar alguma falha grave de caráter ou comportamento, reclamar das inconstâncias de sua mãe, das incoveniências de sua irmã, da cor do seu cachorro, da marca da sua pasta de dentes, do seu emprego, seu comodismo, do ângulo obtuso dos seus dentes e resumir na clássica "a culpa é toda sua". O que não é fato.

Só sei que no final das contas só sobrou a verdade. Ela, nua e crua. Cruel como um soco no estômago, daquelas que dá vontade de ajoelhar no chão e vomitar sangue, em pequenas quantidades. E no final das contas, ela não seria útil nem a você, nem a mim.

Mas dizem que a verdade liberta, por mais dolorosa que ela seja. E assim fiz.

O resto, agora, é história.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Amarelo

"eu te vejo amarelo...
tranquilo-energia
vibra
brilha sem precisar forçar"
(Clara)

Era mais uma madrugadas dessas, frias e internéticas. Era mais uma conversa daquelas que começam num ponto e se perdem, se espalham. Começou num discurso sobre "porque não sair à francesa", até que envolvesse U2, Kundera, coisas vagas.

Até que você me falou de amarelo. Eu, amarelo. Eu, amarelo?

Porque nunca havia pensado em amarelo. Nunca esteve ali nas minhas cores prediletas. Sempre gostei do azul, o blue melancólico, o azul pacífico. O azul-mar eterno, mas capaz das ressacas, das tempestades.

Você me disse que o amarelo é luz. É tranquilo, sem precisar forçar. Brilha, ilumina. E que o mar, sem a luz, é negro.

Até que aceitei de bom grado o elogio. Lembrei das fases de Picasso: rosa, azul. Que eu estava assim, azul por tanto tempo. Ora azul-céu, meio transparente, ensolarado, fim de semana sem possibilidades de pancada de chuva; ora azul-turquesa, intratável, indomável, intransponível, azul tempestade que aproxima. Sempre azul.

Mas ultimamente está diferente. Menos pesado, mais objetivo. Mais leve, mais claro. Os passos saem mais facilmente. As pessoas, mais brilhantes. A vida, embora morna, bem menos complicada do que era habitualmente.

Nada de blefes, todas as rodadas agora são com cartas na mesa.

Por isso, conclui que a vida anda amarela.

Eu, talvez, seja amarelo mesmo.

E, nas suas próprias palavras Clara, yellow kite perdida no céu de brigadeiro. E, apesar da insustentável leveza, da fragilidade do papel e do fio, do tempo que não sabemos divisar se está tranquilo ou se é uma pequena brecha entre tormentas - amarelo.

Tão amarelo quanto meus ipês, que nesses dias estão tão nus sem folhas, prontos para rebentar em beleza nessas paisagens tão cheias de concreto e asfalto...

"Look at the stars
Look how they shine for you
And all the things you do
Yeah, they were all yellow"
(um clássico)

terça-feira, setembro 05, 2006

Bula

Como explicar que o blog é muito mais fotográfico que conjuntural?

Como explicar que existe licença poética, que juntamos um pouco de cada coisa que lemos, escutamos, vivemos, pensamos - sem que isso necessariamente reflita o dia-a-dia?

Como explicar que isso não é (nem se deseja ser) diário, nem mapa de planos, nem mural de recados particular, nem retrato fiel do autor?

Como explicar que a grande intenção disso aqui é não perder o hábito de escrever e a crítica do que se escreve?

Bah, daqui a pouco estou tendo que fazer bula para isso aqui.

Aprendi com a madrugada

"Aprendi com a madrugada. Coisas doces e simples. Ferocidades. O pequeno toque do medo. Aprendi com sua solitária escuridão o exato tamanho de minha casa, os sons da cidade quando todos dormem. As luzes dos carros deslocados, vagando pelo asfalto, ou simplesmente a do poste, brilhando eterna e vadia, lá fora.

Aprendi com a madrugada a extensão crua de todos meus pequenos atos, como soam altos meus passos no chão, o meu respirar, meu remexer no sofá e ainda assim, ninguém ouve. Ninguém acorda. Aprendi bastante mantendo os olhos bem abertos. Aprendi a fumar. Seminu, na cama, uma musica insistente e profunda preenchendo o vazio, acendia um cigarro e observava a fumaça. Parecia poético. Eu, como eu parecia poético. Um menino triste, um jovem deitado, sozinho, seminu, fumando.

Pena não haver ninguém, nunca, lá, para apreciar a musica, a beleza de meus pequenos atos, da minha solidão. Pena não haver alguém para decifrar meus sinais, toda a simbologia que criei. Aprendi com a madrugada que ela quebra toda a poesia. Mesmo depois, mesmo quando eu dividia minha nudez, minhas introspecções noturnas, ainda assim a madrugada destruía a poesia.

Como eu tinha charme e ninguém nunca viu.

Eu daria o mundo por alguém que entendesse. Eu daria meu mundo. Ele é escuro e os dias não se distinguem das noites, ele é cruel e há monstros na rua, mas eu o daria, para quem o quisesse, qualquer um que descobrisse um modo de entrar. E então protegeria esse alguém com todo meu amor. Ninguém o amaria mais do que eu.

Eu lhe ensinaria os velados caminhos da noite. Eu ensinaria tudo que aprendi com a madrugada para qualquer um. Qualquer um que perguntasse, se interessasse, quisesse saber. Para qualquer um que adivinhasse a poesia por trás dos meus pequenos gestos. Ninguém nunca quis saber, porém, e eu permaneci em meu quarto escuro e vazio, cheio de Picassos, Monets e Rembrandts e ninguém para ver."
(Maria Anita Silva Leite)

[texto de uma época que seu blog era rosa, bioquímica era um inferno, o cheiro do formol era uma lembrança recente e as madrugadas eram tão somente poéticas. Sim, ando um bocado nostálgico nesses dias]

domingo, setembro 03, 2006

Kite

"You don't need anyone, anything at all"
(Kite - U2)

Na verdade, nem fui eu quem cantou a bola. "talvez fosse finalmente a hora de você agir" "talvez fosse a hora de mandar aquele post". É, realmente, talvez.

A época era favorável. Pois houve, há um ano, um 4 de setembro muito mais negro que o clássico 11. Primeiro, senti um certo alívio, uma auto-estima dissimulada, uma força tão instável que desabou quando o dia 5 virou. Depois, o vazio intermitente por meses e meses. Ora, aquela força de ressaca que atrai para o mar, sufoca e mata. Ora, uma estrela fria no céu, lembrança antiga de uma explosão agora longe, longe.

Mas, retornando à linha de pensamento: talvez fosse a hora de agir. Quando deitei a cabeça no travesseiro, pensei pensei. Minhas insônias da semana, de certa parte, tiveram seu dedo. E porque os dias estivessem deveras solitários, porque havia muito tempo que não via ninguém, porque o próximo ano-e-meio que se delineia não é nem um pouco otimista no quesito sacrifícios - não movi.

Hoje estou bem, dentro de toda esta neblina, por incrível que pareça. Sinto falta daquilo que você significou, no pretérito simples. Sinto falta da continuação do nosso Before Sunrise particular, daquele dia frio quando o dia amanheceu e estávamos de mãos tão atadas. Sinto falta de corrigir seus erros regados por Alanis, sua compulsividade pelo seu Zippo, sua necessidade quase infantil por liberdade. Sabe, os such beautiful specific details?

Mas, arriscar tudo isto novamente num contexto que não é favorável nem para mim, nem para você?

Mas, mergulhar num mar que custo a saber se é raso ou profundo?

Prefiro ver sua aparente felicidade ao longe. Que você se fira por espinhos que não são os meus, caminhe tanto até as bolhas aflorarem nos seus pés, o Sol castigue sua pele e as mãos calejem de tanto esforço inútil. Até que você valorize todas as coisas pequenas e silênciosas. Até que você chore escutando Cartola. Até num dia nublado talvez, com Netuno na casa de Peixes, nos esbarramos do acaso em qualquer lugar de Sampa, Londres, Auckland. Ou nem esbarramos e ficamos assim, nessa lembrança agridoce.

Mas, voltando porque estou dispersivo: hoje, não.

Porque, hoje, eu não preciso de nada, nem de ninguém.

Sou a velha Kite, instável e leve, frágil e displicente, perdida no céu tão azul de doer os olhos...

[mas, ainda assim, muito obrigado por ter cantado a bola]

[mas, ainda sim, escuto Cut Here com aquela ponta de]

quarta-feira, agosto 30, 2006

Trecho

Hoje perdi o sono, como há muito não acontecia, pensando em todas essas coisas supérfulas mas tão essenciais. Porque, lá no fundo, por mais que me engane num suposto discurso auto-confiante e ironias duras: eu continuo o mesmo que escutava Wilco, o mesmo que devorava Clarice, alguém aprendendo com a madrugada.

Mas agora Plutão nem é mais um planeta, meus amigos já pensam em casar & ter filhos, estou no segundo cálculo renal e já no próximo ano serei um feliz profissional formado & responsável...

[trecho de um post auto-censurado]

sábado, agosto 26, 2006

Calmaria

E as coisas vão cozinhando em banho maria. Naquela velocidade de cruzeiro. Nada acontece: nem as boas, nem as ruins. Cada semana é uma sucessão de dias apertados, ocupados com uma enorme lista de atividades "a cumprir". Eventualmente uma pequena diversão, uma cerveja ou cinema ou conversa descompromissada. Mais nada. Quando vejo já é setembro, o ano praticamente já se escorreu todo pelos dedos: e agora? Vale a pena ficar nesse tédio seguro, enquanto aquela alguma coisa redentora não acontece?

Não sei. Eu, pelo menos, vou ao clube três vezes na semana, mudei o cabelo, tenho apostado um pouco mais alto do que me meu habitual. Estou suficientemente distraído para caso algo aconteça. Só resta mesmo, agora, é esperar...

domingo, agosto 13, 2006

Eternal Sunshine...

Péssimas escolhas cinematográficas no momento, porém

talvez seja melhor não esquecer.

talvez


Meet me in Montauk

quarta-feira, agosto 09, 2006

Conclusões de Fortaleza

Quando tudo terminou, ali no primeiro ou segundo dia depois, achei que não fosse suportar. Lembro-me que fiquei até altas horas acordado, afogando-me nos lençóis. Arrastei-me para uma aula de MPC eterna, um show do Bruno e Marrone, uma sucessão de outras coisas só para te esquecer.

Achei que essa ausência incômoda não fosse passar. Que eu ficaria preso naquele momento estanque, preso no asfalto dos caminhos que passamos, nos programas de TV que assistimos juntos, nas pequenas coisas que colecionamos sem querer.

Daí veio a greve, outras viagens, outras pessoas, outras tentativas, outras cervejas, outros shows, outros planos, outros erros repetidos. Sua novela acabou, sua presença ficou menos presente, mudei meu corte de cabelo e amadureci um certo tanto depois da expectativa-de-um-amor-que-não-se-concretizou.

Mas ainda assim você ainda não morreu. Cantarolava "Me diga" quase diariamente, numa pequena oração inconsciente. Com Coldplay, lembrava de suas efélides que um dia percebi que rodeavam a íris, irregularmente dispostas. Acabei encontrando sua presença nas piadas que herdei de você, na organização do meu apartamento, na minha tentativa em ser uma pessoa melhor.

Acabava sempre voltando naquele momento: se eu tivesse ligado. Se eu tivesse voltado no sete de setembro. Se eu não estivesse tão inacessível enquanto formalizava a perda. Foi quando encontrei o blues da ausência de Ana, do Caio Fernando: "Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre".

Era para sempre. Li na sua mensagem de fim de ano, no Orkut que nos aproximou, que era para sempre. Que você ainda vivia das boas nostalgias que eu ofereci mas o grifo era claro: para sempre. Para sempre. Sempre.

Daí escrevi cartas que prendendo deixar no fundo de minha gaveta. Daí fiz planos de nos encontrarmos daqui a cinco anos, ambos adultos e encaminhados, ambos capazes de perceber os impulsos adolescentes e analisar as coisas mais racionalmente. Daí escrevi posts imensos que, de tão repetitivos, tiveram o mesmo destino das cartas. Daí veio o reveillon, a MI, uma rotina infernal da faculdade, a falta de férias...

... e quando eu vi, já fazia um ano daquele momento que. E o destino aprontou sua ironia: show do Nando Reis exatamente no dia, o mesmo Nando Reis que nos aproximou naquele frio de junho... No show, vi sua lembrança materializada em minha frente. Nas músicas que um dia chegamos a cantar juntos, naquela música que havíamos roubados como nossas - e numa música nova, num verso que tenho certeza que, ao cantar, você invariavelmente lembraria de mim:

"Tudo começou em Goiania
Depois de um beijo no Largo de Freitas
Eu estava vindo de Uberlandia..."

Só não morri, não pensei desesperadamente em te ligar, nem em cortar pulsos ou implorar por qualquer espécie de amor torto: doeu sim, mas pela possibilidade tão brilhante que se perdera pela inabilidade, tanto minha quanto sua, de lidar com personalidades tão inconstantes quanto as nossas. Doeu porque você deu conta de continuar a vida e eu permaneci uma ou duas estações depois do ponto em que nos separamos. Doeu em concluir que sou substituível, que não mereço arrependimento, nem sou uma lembrança terna que mereça ser recordada eventualmente.

Foi em Fortaleza que a ficha finalmente caiu. Quase associei sua lembrança a Vento no Litoral, enquanto nadava naquele mar tão morno ou deitava naquela areia tão branca. Vai ser difícil sem você/Porque você está comigo o tempo todo... enquanto sentia falta de alguém para dividir as paisagens, o sorvete, a água de côco, os apuros. Até descobrir Retrato pra Iaiá, dos Los Hermanos que tanto escutamos juntos. Descobri que debaixo daquela melodia sedutora se escondia uma letra que representava muito do que era e eu só descobri na égide da conclusão-de-um-amor-que-não-vingou. De perto eu não quis ver que toda a anunciação era vã. Fui saber tão longe - mesmo você viu antes de mim - que eu te olhando via uma outra mulher.

Como a história termina? Não sei. Hoje vi Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset) e Céline ajudou atar mais alguns nós nesse pequeno emaranhado: Each relationship when it ends really damages me, I never fully recover. You can never replace anyone because everyone is made of such beautiful specific details. E deles falarem daquela noite deles - e de lembrar a noite nossa, que não foi em Viena mas tão cinematográfica e aleatória quanto, esse vazio voltou. Administrável, porém presente - que dói ligeiramente, como uma queimadura de primeiro grau num lugar que se esbarra facilmente.

Engraçado: hoje o post era para ser sobre sua aparente morte, mas depois do filme vi que as coisas não encerram assim tão fácil. Só ficam essas reticências, provavelmente eternas, para encerrar essa narrativa tortuosa e pouco clara, com grande possibilidade de recorrência e sem qualquer esperança de um prognóstico um pouco mais positivo...

terça-feira, agosto 01, 2006

O retorno

E voltei.

Trouxe comigo um pouco do sal dentro da mala e um pouco da tranquilidade dos mares. O sentimento de paz que se tem depois de muitas horas na areia da praia, observando aquele ir e vir infindável.

Trouxe um pouco de dourado na pele e, por causa disso, um pouco mais de auto-estima. E o ligeiro bronzeado nem me custou dias de pele vermelha, queixando de ai ui quando virar na cama.

Trouxe um pouco de luz para essa coisa bagunçada que virou minha vida. Fiz as pazes com muitos problemas antigos que estavam mordendo o calcanhar. Tá, talvez pazes seja uma palavra um tanto otimista, mas pelo menos acho que consegui colocar as coisas de uma forma um pouco mais favorável, conformista e resolutiva.

Trouxe lembranças de lugares maravilhosos. Outras, de lugares nem tão maravilhosos assim. Mas, no final das contas, foi na medida necessária do que eu estava precisando.

Férias temporonas. Um pouco de paz. E um retorno tranquilo, para me dar energia suficiente para atravessar o resto de 2006 sem maiores contratempos.

quarta-feira, julho 19, 2006

Fortaleza

Foram 55 horas de viagem, o alojamento é o caos, longe da praia, falta banheiro, o Sol é calcinante, a comida está ruim, todos os passeios são caros, a cidade é violenta...

... mas ...

... se querem saber ...

... era tudo que eu precisava para botar os parafusos de volta ao lugar.

sábado, julho 08, 2006

Nuvem Negra

"I would say i'm sorry
If I thought that it can change your mind"

Eu quis sair à francesa porque talvez assim fosse melhor. Ficar com aquele ar de superioridade de quem está certo, sabe? Eu quis pular essa parte do ódio, das palavras duas, de apontar as gritantes falhas de caráter por qualquer tipo duvidoso de paz. Eu quis sair vagarosamente, fechando a porta por trás de mim sem olhar para trás. Eu consegui. E não adiantou.

"But I know that this time
I have said too much
Been too unkind"

Eu quis liberar minha agressividade depois de tantos anos de silêncio. Eu quis me rebelar contra tudo aquilo que me desagradava, todas aquelas pequenas coisas que me incomodavam no cotidiano e eu aguentava porque era assim de tinha de ser. E assim fiz. E eu perdi o controle.

"I try to laugh about it
Cover it all up with lies"

Eu quis acreditar que era auto-suficiente. Eu quis acreditar que era só me rodear de quem me gosta para que todo o resto funcionasse espontaneamente. Assim tentei. E, obviamente, não deu certo.

"I try to
Laugh about it
Hiding the tears in my eyes"

Acho que nunca em minha vida tive tantos arrependimentos em tão pouco tempo. E o foda é pensar que: talvez seja tarde demais. Tarde demais.

"'cause boys don't cry
Boys don't cry"
(Boys don't cry - The Cure)

sábado, julho 01, 2006

Feliz Aniversário

"E percebo cada dia mais as pessoam que andam comigo e as que simplesmente andam na mesma direção que eu. Porque antes eu não entendia a grande diferença. E agora eu sei. Não foi muito fácil, mas eu sei agora"
(Você)

Caríssima,

Vinte dois já é um número difícil. Não tem o encanto libertador dos 18, nem a maioridade civil dos 21. Parece-me uma sentença assustadora que o caminho até os trinta é inexorável. Tanto faz ser dois, três, quatro. É ladeira abaixo. É irreversível.

Hoje, as coisas não tem mais a leveza dos dezoito. Eu me lembro dos nossos dezoito: éramos meio injuriados com uma vida que poderia ser tanto e não era, por alguma ironia marota do destino; um tanto gauche, um tanto melancólicos, mas daquelas melancolias bonitas como daquela primeira madrugada que você me mostrou e eu julguei erradamente que era Quintana de tão bom (penso hoje que a minha chuva e sua madrugada foi a primeira ponte que nos uniu); éramos complicados de uma forma que não afetava o curso natural das coisas; e, tão violentamente esperançosos que iria chegar, iria dar certo e o mundo rebentaria num grande Carnaval.

Tinha Holden e uma personalidade irresistível. Tinha Hornby e seus personagens perdidos. Tinha Bandeira, tinha Quintana, tinha Kundera e um tanto de outras referências. Tinha Portugal (que nem virou), tinha Peru (que nem virou), tinha U2 (que nem virou), tinha Curitiba (que virou e foi lindo). Tinha jantares, bungee jump, cartas & mails. Tinha tanta coisa, tanta lembrança recolhida, tanto material que junto seria um livro.

E quando faço as contas, como tenho feito nos últimos dias, é um pouco tanto disso que me impede de levar a cabo esse instinto de fuga que me ocupa.

Você foi uma das pessoas quem me mostrou que amizade não é sempre estar presente, não é sempre concordar, não é sempre embasada em palavras. É alguma coisa que fica suspensa no ar, num olhar, num bom-dia, em cabular qualquer coisa prum cinema, discutir o que fazer na vida, compras descompromissadas no shopping ou Carrefour. Amizade não é só dividir um copo de cerveja ou, como você bem pontuou, não é caminhar junto para o mesmo lugar. Existe um quê de cumplicidade muda, uma confiança naquele passo que não se desenhou. É aquele olhar firme só para confirmar: vai lá e, se não der certo, pode voltar que a porta está aberta.

E, apesar dos vinte e poucos que sobrevém, gostaria que toda essa leveza que ameaça fenescer pelo peso da (nossa) idade permanecesse. Que você permaneça tão vibrante quando Sol está em Câncer, tão inteligente, tão especial. Atravessamos um ponto crítico onde ser melancólico é depressivo, a madrugada é para os vagabundos, Bandeira é inútil perto do Cécil & artigos de revisão, ser complicado é complicado, ser sincero é mau-educado. Permaneça, querida. Com toda sua sensibilidade e pureza, não importa para qual lado corra. Permaneça no caminho da luz, muito embora seja preciso umas trilhas escuras para chegar lá. Permaneça do meu lado (e se não der, pelo menos por perto), porque é de pessoas assim como você que preciso para colorir a vida, dividi-la em pedaços simétricos, segurar na mão quando estiver com medo ou doar sangue.

Feliz aniversário, caríssima.

Feliz aniversário.

Gb's

quarta-feira, junho 28, 2006

Termina o primeiro tempo!

Como diria Juca Kfouri, as coisas vão piorando para melhor. Irônico, não?

É, só resta a tentativa de buscar um pouco de brilho dentro de tanta cinza que restou. Brincar de Poliana, fazendo o jogo do contente enquanto o lobo mau não vem.

Tenho esperanças que essa aparente piora no estado de coisas venha para o bem. Sempre reclamei da falta de espaço e hoje isso é coisa que tenho até demais.

E quando fiz as contas, além do aniversário do Leo (parabéns, Leo!), 2006 já vai pela metade. Tão raso de realizações que arrepio em pensar que este, talvez, passe em branco dentro de tanta coisa que aconteceu nos últimos dois anos ou três.

O jeito? Dançar um tango argentino. Qualquer outro remédio é amargo demais para ser tomado num gole só. E como tudo-tudo-tudo vai ser diferente em menos de um ano e meio...

domingo, junho 18, 2006

Carta

Meu caro amigo,

Esta overdose de Belle and Sebastian também tem os seus efeitos. Também de encontrar todo mundo, como há anos não acontecia. Até essa Copa, ecos daquele dia do Penta. Tudo juntou de forma encantadora e nostálgica.

Estava lembrando de um mail seu, antigo pacas, com epígrafe de Coldplay (naquela época do Parachutes, quando Chris Martin era um loser sincero): "We never change, do we?". Você reclamava da mornidão das coisas, da falta de liberdade, do erro crônico das pessoas, da ausência de perspectivas. Eu concordava. E tínhamos uma esperança violenta no futuro, uma vontade irresistível de iniciar tudo do zero, um otimismo bobo porém sincero no que havia por vir.

E o tempo passou - nós mudamos de cidade, de estado (só não mudamos de país por restrições que não são nossas). Grande parte dos nossos personagens também mudaram, casaram, morreram ou simplesmente se perderam no limbo. Os bancos da praça foram destruídos, tia Su não faz mais coxinhas na Cultura, nossos professores foram demitidos ou aposentados. Aprendemos a beber cerveja & destilados, não precisamos nos esconder nos fundos do Mário Roberto para fumar. Conhecemos outras bandas, fomos em outros shows, vimos outros filmes, apaixonamo-nos (ou não, enfim). Até que.

Voltamos. Sempre voltamos. E quando nos vejo, penso em tudo que passamos, todas as promessas de futuro que foram feitas e as perspectivas de mudança, daquelas redentoras, que não se concretizaram. Mudamos as bandas, mas não os estilos. Bebemos como uma espécie de fuga. Ainda somos defensivos, nostálgicos, excessivamente racionais. Nesses dois, três, quatro anos, ainda nos reconhecemos como éramos - reiniciamos as conversas interrompida há meses, rimos das mesmas piadas, nosso timing se manteve. Isso é válido para todo o nosso universo francano. O que, para mim, é quase que uma vitória.

É ter para onde voltar. Para aquela bolha meio paisagem que se a gente virar de ponta cabeça cai neve e não se sentir tão freak assim. É ter quem segure sua mão quando aparece uma tempestade ou quem ria das desgraças iminentes que se aproximam. Mesmo que invariavelmente acabemos no City Posto cada noite ou que desencontremos toda madrugada quando nossos programas não batem - essa familiaridade me salva. E é o que me ajuda a não desesperar quando as coisas, ali para lá do rio Grande, estão demasiado obscuras.

E, ao contrário da música, aprendemos sim. Acho que continuamos os mesmos, não colocamos a vida nos termos que gostaríamos. Mas tenho uma fé tremenda que estamos chegando em algo sublime e arrebatador. Pode demorar dois ou cinco ou quinze meses ou anos. Acho que nosso processo de mudança é bem mais interno, tipo um vento alísio, que desgasta a pedra dia-a-dia e retira aquilo que não for essencial. Até quando estivermos lisos, polidos, inteiros. E nesse momento eu não sei, acho que entraremos em outras crises (porque é impossível viver sem crises, num ritmo bright and shiny), talvez continuemos nos lamentamos sobre inocência perdida, aquele Free Jazz que não fomos, as indiscrições da aula do Bob e como tudo isso era bom. Mas tenho certeza que ainda teremos a nós mesmos. E Belle and Sebastian, Teenage Fanclube, Grandaddy, Coldplay, Radiohead e qualquer outra banda do tipo que nos façam lembrar que: everything's not lost. Ohh. Everything's not lost.

quinta-feira, junho 15, 2006

Letícia

Plena terça-feira, véspera do jogo do Brasil, meu professor ególatra mandando avaliar pacientes. Aquele sono pós-prandial, aquele torpor pedindo um café e cama, talvez adormecer ternamente entre o Video Show e a Sessão da Tarde. Mas não: avalie pacientes. Porque ele pergunta, porque sua anamnese nunca está boa, porque tudo vai errado já que toda vida aparenta estar em colisão iminente.

Leito 206, era Letícia. Linda, loira, doce, extremamente sabida no alto de seus seis anos de idade e ali no seu vigésimo primeiro dia de internação. E apesar da internação longa, da sonda nasogástrica, do acesso venoso na mão direita que a impedia de desenhar, estava tão leve que desarmou todo o peso que carregava há tantos dias só com um sorriso. Com sua fala espontânea enquanto mostrava que sabia escrever o nome, sua coleção de seringas vazias, o nome da professora e tantas outras coisas ao mesmo tempo que me deixou zonzo e, ao mesmo tempo, encantado. Teria alta amanhã. Como abria a minha maleta? Com a bochecha pintada de guache em duas faixas, verde-e-amarela.

E enquanto procurava, com meu estetoscópio, qualquer ronco, estertor crepitantes e outras amenidades pneumológicas, ela disse (como se eu não estivesse ali) para Carolina e o Daniel: "quando me viu andando pela enfermaria, virou para mãe e falou NOSSA" (pausa) "que moço lindo".

Sim, Letícia me achara lindo. Mesmo descabelado, apesar das olheiras, do meu mau humor habitual das terças à tarde, sem qualquer alusão ou pedido pelo elogio. Foi uma fala espontânea, natural - um elogio oferecido ali como se eu não estivesse presente.

Senti o meu coração disparar e confesso que fiquei quase tonto. Quis derreter como um comprimido efervescente ali mesmo, desaparecer no chão, pular pela janela quase nocateado por tanta beleza e ternura que me foi oferecida.

Guardei meu estetoscópio com um sorriso monstruoso, infectado por uma maré de otimismo sincero. Nem tanto pelo elogio em si - mas em perceber, dentro do movimento habitual e ritmado da minha vida, que existe tanta beleza. E é só procurá-la, não perder a paciência, não entregar os pontos, resistir ao inverno e às condições desfavoráveis. Ainda que todo esse inverno prometa ser regido sob o signo do desamor, ainda existem estas pequenas explosões para que sigamos a luz dentro dessa escuridão monstruosa, ainda existem estas centelhas de calor humano para os dedos doerem menos.

Letícia, minha linda... Obrigado por ter me salvo.

sábado, junho 10, 2006

Sorrow

O dia está ensolarado, apesar de frio. Sem boas notícias, sem más notícias and live goes on. Mas quer saber? Estou triste. Triste, triste. Como há muito não ficava.

Tudo começou com um post da Anita, brilhante como há tempo ela não fazia. Poderia ser meu, o que estou sentindo - essa aparente falta de perspectivas, essa inércia irrestrita, essa ausência de coisas positivas que façam a vida pender pra qualquer lado.

Não existe fato algum a me acalentar. Mastigo uns pensamentos fantasmagóricos, fragmentos de coisas positivas que aconteceram e. Alterno meu tempo entre novelas da Globo, Ídolos do SBT, adianto umas leituras, telefono vagamente sentindo vagas saudades. Tudo tão asséptico, insone, sem graça por assim dizer.

Tenho me sentido profundamente incompetente. Como se não conseguisse mais ser capaz de atingir meus objetivos. Que talvez a vida não seja como planejava, por erro ou inconseqüência. Que talvez tudo se resuma a isso: meu apartamento solitário, um ir-e-vir diário que nem sustenta nem mata, pequenas alegrias ínfimas para tudo não descambar para a melancolia completa.

Sinto saudades de casa. Vejo os ipês novamente carregados e percebo que quase tudo continua na mesma irritante balada.

Cada dia que acordo é uma batalha para resistir à tentação do desespero completo.

segunda-feira, junho 05, 2006

Bala de Maça Verde

Quem não gosta das eternas balinhas de três por 10, verdinhas, leves e com gostinho de infância?
Segue Abaixo uma pequena etmologia da palavra Lilith... Aquela que seria a primeira mulher e se rebelou contra a dominação masculina na hora sexual. ( Por que Adão insista tanto em ficar por cima?)


"Lilith é usualmente derivado da palavra Babilônica/Assíria Lilitu "um demônio feminino ou
um espírito do vento" - parte de uma tríade mencionada nas invocações mágicas babilônicas.
Mas aparece mais cedo como Lilake em uma inscrição Sumeriana do ano 2000 A.C. que
contem a lenda "Gilgamesh e o Salgueiro". É uma demônia vivendo em um tronco de salgueiro
vigiado pela deusa Inanna (Anath) em uma margem do Eufrates. A etmologia do hebreu popular
parece derivar Lilith de layl, noite, e ela freqüentemente aparece como um monstro noturno
peludo no folclore Árabe". Robert Graves & Raphael Patai, Hebrew Myths. The Book of
Genesis, Greenwich House, New York, 1983, p. 68."

Nada a declarar, por enquanto...

domingo, junho 04, 2006

Domingueira

Décima hora de plantão e meia de um domingo. Depois de ter dormido umas duas horas (boemia, sinuca, programas inesperados - acontece). O tédio é ilimitado e fico aqui esperando o tempo passar (provável que amanheça o dia mas não chega as 19:30 de hoje).

Enfim.

Acordei pensando em Bandeira. Poucos versos desconexos que sei de cor. A idéia geral: ternura. Saudades, de coisas etéreas e imateriais.

Uma vontade que a vida fosse muito menos complicada que é realmente.

Umas três respostas complicadas me esperam na semana que vem - paciência.

E, apesar de tudo, apesar desse friozinho gostoso e a carência de algo além de se afogar nos edredons...

... vai dar certo. Há de dar.

quarta-feira, maio 31, 2006

Da gaveta 2

(...)

Mas refleti: as perdas, na verdade, não passaram de boas perspectivas que não se confirmaram. E estas possibilidades sempre me travaram, impedindo-me de ver mais longe, explorar outras alternativas, movimentar-me. O que para mim sempre se configurou como leveza, agora se revelava um grande peso. E a perda, que principiava a ser um peso significativo, converteu-se em pura leveza.

Voltei a ser a velha Kite no céu. Senti-me (aliás, sinto-me) livre como nunca estive. Agora, que aquelas vagas dores metafísicas me deram alívio. Agora, que sinto meus passos firmes. Agora, que me sinto suficiente, forte, coerente. Agora, que tenho estrututa. E agora, livre destas pequenas grandes ilusões, respiro melhor. Como se o mundo abrisse. Enfim, livre.

terça-feira, maio 30, 2006

Rapinhas

Eu sempre fiu da politíca de que o Orkut é uma ferramenta útil para as pessoas se conhecerem, e sempre achei que quem apaga scraps de maneira generalizada tem algo a esconter e que se vc quer privacidade: saia do orkut ...

Um Scrap... um... foi suficiente para espalhar um ódio generalizado de maneira tão grande que eu nunca pensei...
Levar o Orkut a sério , e ainda mais quando se trata de terceiros sendo levados a sério dá nisso.

Vou continuar com meu orkut, lindo, feliz, inútil e com os scraps lá, na deles ...

Mas juro que vou ter muito mais medo das repercussões dessa ferramenta do demônio.
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Odeio ter uma vida superhypermega atribulada... Quero Férias. Já!
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Uma liminar com efeito vinculante foi solta em Recife banindo as multas por radar eletrônico!

Ninguém é capaz de imaginar a minha felicidade. Mesmo

quarta-feira, maio 24, 2006

Da gaveta 1

(...)

Não sei, neste domingo gélido pensei: talvez seja a hora de diminuir a marcga. Quando penso nos últimos dias, percebo que tenho gastado muito mais fichas em novas apostas que eu racionalmente poderia aceitar. No entanto, não me culpo de todo: é o acúmulo de quatro anos de silêncio, de me anular buscando qualquer tipo duvidoso de aceitação, uma unanimidade burra que não constrói nem sustenta. Num balanço preliminar nestes últimos três meses, talvez tenha-me tornado um indivíduo pior - porém, esta cara no espelho é muito mais minha.

Volto para academia amanhã. Inconscientemente, penso em Radiohead: "I wanna a perfect body, I wanna a perfect soul". Estudei abdominais, considero trocar cerveja por brócolis, talvez acostumar com leite desnatado e refrigerante light. Quero terminar este ciclo melhor que eu entrei. Em todos os sentidos.

O Leo chamaria isto tudo que estou dizendo de nostalgia antecipatória. Quase tudo que vejo está à beira da ruína. O curioso é estar tão sereno e otimista, mesmo a par dos futuros desdobramentos.

(...)

sábado, maio 20, 2006

Inbetween days

"Não se preocupe por minha causa, no duro. Tudo vai acabar bem. Só que estou atravessando uma crise. Todo mundo tem suas crises e tudo, não é?"
(J. D. Salinger)

O lado de cá do rio Grande permanece meio caos. Viaturas, atentados, fórum desocupado às pressas, bomba no shopping. Noites frias, frias. Um tanto quanto desolador - deu vontade de pegar malas, o edredon e retornar para uma casa que não é minha, uma cidade a qual não pertenço, pra tanta gente que julga sem entender.

Mas tenho certeza que esse ímpeto de retorno irá passar assim que amanhecer. Tenho precisado de Sol. Um pouco de luz. Esperanças, novos objetivos, coisas assim.

Não se enganem com essas palavras melancólicas - estou bem. Upside down, lembram-se? Mas não só - tanta solidão faz mal. Tentei me iludir que passei ileso a tantas coisas que vêm acontecendo desde o início do ano. Mantive silêncios, reticências, numa pseudo-postura altiva. Pois agora toda minha agressividade reprimida nos últimos dois, três anos, resolveu aparecer. Nua e crua. Grossa, quase insuportável. Porém, sincera e verdadeira.

Tá, é libertador. Só que dói, nos outros e em mim. Voltei num estágio primário, ali pelos meus 18 anos: meio montanha-russa, meio irritadiço sem motivos, um tanto quanto hiperresponsivo. Um personagem de uma música do Belle and Sebastian. Tão Inbetween.

Mas há de passar.

Só não vai passar a impressão de ano perdido. 2006 será um ano perdido. Depois de tanto desamor e desencontro, acho que as coisas ficaram irreversíveis. Setembro, numa contagem conservadora, já está aí. Só resta viver, viajar, curtir os segundos que restam, antes que uma pesada noite de responsabilidades, plantões e estudos caia...

E quando acabar, acho que estarei eternamente condenado à liberdade...

P. S- Maleta encontrada. Codigo da Vinci arranjado...

quinta-feira, maio 18, 2006

Murphy aplicado

Perdi minha maleta (ou roubaram, mas enfim).
Perdi "O código da Vinci" no dois-ou-um e no par-ou-impar.
Perdi 60 fichas no pôquer.
Não tinha paciente no ambulatório, me obrigando a cortar minha parca soneca pós-prandial.

Sim, é Murphy total e irrestrito.

Sim, hoje foi um dos piores dias da minha vida.

domingo, maio 07, 2006

Libertação

"Who's to say I can't do everything?
Well I can try, and as I roll along I begin to find
Things aren't always just what they seem"

Acabaram minhas férias, se é que essa coisa indecente de folga de terça a sexta possa ser chamado disso. Descansei, é verdade. Pois fiquei quase imóvel dentro de casa, vagando pelo Orkut e MSN, sozinho de não ter mais jeito. Mas foi bom. Essa imobilidade foi apenas aparente, a externa. Porque, internamente, minha alma deu saltos.

"This world keeps spinning
And there's no time to waste
Well it all keeps spinning spinning
Round and round and upside down"

Nada de prático aconteceu nesse finde. Nenhum acontecimento memorável, com direito a música de suspense. Mas a viagem foi inesquecível, daquelas bem libertadoras. Porque depois de tantas negações ou desencontros, caminhar superficialmente amado e observado e talvez até um pouco desejado numa pista de dança* é de se ficar sorrindo por semanas a fio. Dei-me o direito de ser moleque e também aprontar das minhas. Dei-me o direito de dizer: compreensivo é o caralho, sem qualquer sinal de remorso. Ratifiquei o voto de confiança e carinho de tantos amigos, tantas pessoas que dispuseram de estender a mão para qualquer - eventualidade - dentro - dos - últimos - acontecimentos, que, como diria naquela propaganda clichê, não tem preço.

"Who's to say what's impossible and can't be found?
I don't want this feeling to go away"

Tenho escutado Upside down, do Jack Johnson, no modo repeat. Porque, ali, no final das contas, os próximos oito meses prometem as melhores coisas que possam acontecer. Estou otimista, por mais paradoxal que isto pareça. E, sinceramente, eu não quero que esse sentimento acabe tão cedo...

* Leo, quando escrevi isso, me lembrei de Sophie Ellis-Bextor. Faltou você. Sempre falta você, amigo.

** Desculpem os posts longos, mas aproveitei as férias para botar a literatura em dia. Leiam com parcimônia, pois os posts tendem a rarear de agora em diante.

*** Links novos. Engraçado que a maioria são de Bsb. Eita cidade indecente para reunir gente interesse...

sábado, maio 06, 2006

Noturnas 2

[escutando O - Damien Rice]

"E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, perguntando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar"

Você dói. Ainda. Muito. Você não me dói no dia-a-dia, tanto quanto dóia antigamente. Consigo fazer minhas compras, ir ao cinema, arriscar uma ou duas músicas do Nando Reis no rádio. Tá, talvez Nando Reis ainda doa um pouco, mas não é aquela enxaqueca implacável como costumava ser. O que quero dizer é que passou a fase aguda. Consegui atravessar cambiante o imenso vale das lágrimas/ dor/ piedade/ comiseração até que bem. E vou indo.

"Podia ser o porteiro entregando alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser"

Mas você ainda dói. Sabe quando? Nessas noites siberianas de Franca, quando a única coisa que tinha era sua mão. Quando o céu está tão límpido que vejo cada estrela, quando a Lua transborda iluminando parcamente os caminhos. E debaixo desse frio que racha os lábios, endurece as articulações e arrepia cada centímetro quadrado de minha epiderme, todas as músicas que canto são indiretamente para você.

"Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar"

E você me dói em cada reinício. Em todo primeiro passo que me lanço, é você quem fisga minha panturrilha. Penso em como estava equivocado por ter-me entregue tão gratuitamente à mágoa, ao ódio. Eu deveria ter sido forte, pois já era primavera, porque já havia o que colher. Um jogador de pôquer que perde algumas fichas como blefe para armar o grande bote. Mas faltou luz, me faltou frieza para suportar só um pouco mais de dor. E pago por esta minha incapacidade pontual continuamente, nestas pequenas dores metafísicas e impronunciáveis por vergonha, um pouco de decepção, muito vazio.

"Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre"
(Sem Ana Blues, Caio F.)

Felizmente, eu te suporto. Faço da sua dor um potente combustível para continuar. Para perseverar na contínua busca por alguém como você, mas não materialmente você - alguém que me impressione desde o primeiro segundo, sobreponha minhas pequenas trangressões diárias e diga-me, em voz velada, que tudo dará certo. Alguém que, enquanto durmo, me cubra com mais um edredon nessas noites geladas. Cerre as cortinas, para que a luz da manhã não me acorde. Sussure que me ama e feche a porta, silenciosamente, enquanto sai do quarto...

"Amie come sit on my wall
And read me the story of O
And tell it like you still believe
That the end of the century
Brings a change for you and me"
(Amie - Damien Rice)

quarta-feira, maio 03, 2006

Noturnas...

[ao som da trilha sonora de Amelie Poulin]

Ela se sentia sozinha pela primeira vez em muito tempo, naquela noite anormalmente fria de outono que principiava a neblinar. Era madrugava e os dedos doíam para acender o último cigarro que tinha (ainda era Free, roubado de um passante, tão leve que nem chegava a entorpecer). Equilibrava-se sobre o salto, depois de dois ou três conhaques - para esquentar a alma, para procurar estrelas, para tropeçar pelos caminhos.

Caminhava mastigando conclusões que há muito não pensara. Estava cansada de amores malogrados, que se esvaiam sem um último suspiro sequer. Estava cansada de suas próprias dissimulações gratuitas, que não a acrescentava, nem matava, nem rompia, nem morria. Como se congelada num poema de Murilo Mendes:

"Me rebelei contra Deus
Contra o papa, os banqueiros, a escola antiga,
Contra minha família, contra meu amor,
Depois contra o trabalho
Depois contra a preguiça,
Depois contra mim mesmo,
Contra minhas três dimensões"


Deu a última tragada no cigarro, fazendo a brasa fumegar - seu rosto iluminou-se de laranja e, por um momento, não conseguiu deixar de soluçar. Mas foi um soluço sem lágrima, como se engolisse uma mágoa antiga. Porque, quando levantou os olhos, pondo-os no céu, percebeu que as estrelas ali continuavam; e ela, tão viva e forte, tão plena e segura, não tinha outra escolha além de sorrir. Pelo fortalecimento. Pela vitória. Pelo princípio de racionalidade. Pelo futuro que se desenhava.

Abriu a porta de casa com um certo embaraço. É o conhaque - pensou - talvez um pouco de emoções demais. Lembrou-se das tardes de Pinheiros, as tardes poeirentas, mas desta vez não soluçou: teve que admitir a irreversibilidade das coisas. E se jogou no sofá, na tentativa de um sono intranquilo. E, só por curiosidade, ligou a tevê.

Passava um filme daqueles preto e branco que custou a reconhecer. Era Gilda. Rita Hayworth, a mulher mais linda que já existiu no cinema. Gilda, a mulher que todo homem já se apaixonou. E mesmo Gilda, tão lancinantemente bela em Buenos Aires, também tinha os seus percalços. Também caia em suas ciladas particulares. Também fumava demais, chorava eventualmente, ficava infeliz.

E foi com essa imagem de Gilda, paralisada frente a impossibilidade de concretizar o que desejava, que pegou no sono...

PS - em itálico, uma pequena alteração que faz toda diferença...

sábado, abril 29, 2006

Acabou

E a MI deu certo. E estou em Ouro Preto. E parece que o final foi feliz.

Pelo menos, nas aparencias...

quinta-feira, abril 20, 2006

O tiro de misericórdia

Não existe nada mais cruel que uma ilusão acabar. Você mantê-la, linda em sua redoma de cristal por tanto tempo e ela se esfarelar sem aviso na sua frente. Sempre fui de idealizações. Platonismos. Exercício de suposições doces, levianas, irreais - mas tão boas para se matar o tempo. Sempre preferi viver em meu mundo edulcorado que essa vida cão diária. Silenciosamente. Enquanto fito as pessoas e os problemas e as tempestades e as intempéries com olhos baços de-não-estou-nem-aí. É na base das minhas vãs ilusões que me mantenho são, bem humorado, vivo.

Num feriado, morreram duas ilusões. Belas, doces. Súbitas. A la Oasis, "how many special people change?". Pungentes. Irreversíveis de uma forma que não sei explicar. Nem chorei, nem gritei, nem quis morrer pulando da ponte ou tomando veneno - ficou um espaço vazio, este nó na garganta, esta sensação de ausência. Fica uma dor vaga, visceral, de condução lenta. Que se alastra silenciosamente como um câncer. Que só vai doer num dia desses, uma quinta-feira nublada aleatória, que será insuportável todo o peso da recusa, das perdas, dos meus erros silenciados, tudo isto que sinto e não tenho aonde colocar. Daí eu vou desabar. Só assim eu vou desabar. Vou querer arranhar paredes, renunciar ao meu amor próprio, rasgar as cartas de minha caixa de cartas, desaparecer.

Morreram as duas, numa tacada só. Não suportaram à chegada do outono. Entro no outono, minha estação predileta, vazio como nunca estive. Entro no outono, como sempre entrei: regido sob o signo do desamor. E de pensar que ainda é só abril...

terça-feira, abril 18, 2006

Socorro!

Fiz a matrícula nesse semestre da faculdade e reparei agora, com menos de dois dias passados do começo do semestre que eu não tenho o mínimo de amor própio.
Eu vendo minha alma pelo superpoder de me teletrasnportar ou de conseguir fazer projecoes astrais!

domingo, abril 16, 2006

Pela Noite

"Você sabe que de alguma maneira a coisa esteve ali, bem próxima. Que você podia tê-la tocado. Você poderia tê-la apanhado. No ar, que nem uma fruta. Aí volta o soco. E sem entender, você então pára e pergunta alguma coisa assim: mas de quem foi o erro?
(...)
Você vai perguntar: mas houve o erro? Bem, não sei se a palavra exata é essa, erro. Mas estava ali, tão completamente ali, você me entende? No segundo seguinte, você ia tocá-la, você ia tê-la. Era tão. Tão imediata. Tão agora. Tão já. E não era. Meu Deus, não era. Foi você que errou? Foi você que não soube fazer o movimento correto? O movimento perfeito, tinha que ser um movimento perfeito. Talvez tenha mostrado demasiada ansiedade, eu penso. E a coisa se assustou então. Como se fosse uma coisa madura, à espera de ser colhida. É assim que eu vejo ela, às vezes. Como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você.
(...)
O erro? Eu dizia, pois é, o erro. Eu penso, se o erro não foi de dentro, mas de fora? Se o erro não foi seu, mas da coisa? Se foi ela quem não soube estar pronta? Que não captou, que não conseguiu captar essa hora exata, perfeita, de estar pronta. Porque assim como o movimento de apanhar deve ser perfeito, deve ser perfeita também a falta de movimento, a aparente falta de movimento do que se deixa apanhar. Você me entende?"

(Caio F., nestas noites principiando a ficarem geladas...)

O outro lado

Não consigo deixar de admirar as pessoas que têm o mundo dividido em dois. Aquele arquético católico de bem e mal. Aquela coisa bem Bush de comigo ou contra mim. Aquela coisa Global das novelas de vilões e mocinhos.

Eu relativizo demais. Eu procuro compreender. Eu ainda acho lógica na postura insensata alheia. Eu me culpo por não ser tão maleável. Eu hesito em resolver os silêncios. Eu ainda acho que o insolúvel tem solução.

Hoje eu só ratifiquei em qual lado estou na moeda...

sábado, abril 08, 2006

O sufoco

Vibrações murphyanas sempre acompanham momentos de crise. Meu computador faleceu bem no momento em que mais precisava dele. Lá se foi minha net-a-cabo-que-eu-gostava tanto, meus-mp3-que-eu-gostava-tanto e etc. Sobrevive-se. O caos acadêmico se instalou, pois estou no último mês do pior semestre do meu curso - cá estou eu empacado nos 40% de uma monografia enorme, contando os pontos para não desperdiçar esforço onde não se precisa. Cansado, cansado, cansado como há muito tempo não ficava.

Mas até que está sendo bom. Esta falta de tempo, esse aperto - tenho ocupado minha mente com preocupações idiotas do tipo 'notas de prova, próxima prova, próximo relatório'. Nada mais. Nada que seja filosófico ou complexo. Nada que me exija um pingo de racionalidade. Num estado que definiria quase anestésico. Parestesia. Nada além que o necessário para permanecer vivendo.

Caiu como uma luva esta possibilidade de colocar tudo aquilo que me infernava em stand by enquanto esse semestre não acaba. Fuga? Talvez. Tudo que me cerca caminha numa rota inexorável de colisão - um pequeno desvio não seria lá tão condenável assim...

(peço paciência. Com posts, telefonemas, cartas. De agora em diante, minha vida virtual se complica - não encarem silêncios com desinteresse por isso aqui. Esqueci de comentar, mas no final de março fez 3 anos que estou blogando por aqui, aí, em qualquer lugar... \o/)

quinta-feira, abril 06, 2006

Certo/Fácil

A voz da frase de Dumbledore está na minha cabeça repitindo " chegaraõ momentos em que teremos que escolher entre o que é certo e o que é fácil" ... Cheguei nesse dilema. Não há aqui claramente delineado o que é errado, mas somente aquilo que é certo e aquilo que é fácil. Dilema Moral. A Opção Fácil implicaria em talvez afastamento de amigos estimados, porém, salvaria(em certa medida que não sei colocar) minha pele. A Opção certa me pouparia os amigos( quem sabe?) e possívelmente me ferraria. O Que fazer? Dois pesos e duas medidas em que não tenho mínimo parametro comparativo.

Sempre pensei chegar nesse tipo de situação, um dia, mas não agora e por mais que eu simulei milhaes de situações de escolha está se apresenta como uma situação nova e sem nenhum plano de ação.

Definitivamente a situação levará a uma ruptura. Não sei se estou pronto. O Silêncio não é de longe uma opção.

" A Covardia é um direito" foi escrito por alguém mas, será que é um direito uma vez que a opção pela segurança podeiua causar tantas grandes sanções?

Ando pensando em tomar um porre daqueles e rezar, rezar muito na esperança de alguma solução, qualquer que ela seja, desde que convicta.

sexta-feira, março 31, 2006

Cotidianas

O mundo anda tão complicado, meu bem. Estou sem computador há mais de semana, provavelmente será um prejuízo astronômico. A vida, vai indo. Não como eu queria, nem como deveria. Nem como eu desejaria. Sinto meu coração como uma peneira. Sinto que sangro, diminutamente, mas um pouco a cada dia.

Estou cansado. Preciso de respostas. Quero dinheiro. Um pouco de bom humor. Uma parca sintonia com aquilo que me prende ao mundo - um acordo de paz, nem que seja temporário. A mornidão permanece, com toda minha incapacidade de correr para o lado que considero justo.

(post telegráfico, só para não ficar neste silêncio incômodo)

terça-feira, março 21, 2006

Pensamentos inconclusos

Tenho estudado esparsamente e dormido em horários não-convencionais. Desesperei-me com a superficialidade da faculdade e minha incapacidade de resolver situações problema que teoricamente já teria como. Tenho ido menos ao cinema e desconfiado um pouco mais das pessoas. Tossido, tenho muito, como um camelo. Ainda não me desesperei com o caos que abril trará e o fato de possivelmente não ter férias soa com um leve incômodo. Não tenho pensado muito nas coisas, tô preferindo deixar a vida me levar. Saudades, muitas: estava ali preguiçosamente assistindo JK quando surge Audrey, com Sinatra ao fundo. A vida segue bossa-nova e se eu fumasse talvez eu parecesse poético ou boêmio ou decadente. Todos meus músculos doem, talvez consiga manter a freqüência na academia sem muitos malabarismos. Engraçado reconhecer velhas qualidades em novas pessoas e vice-versa. Engraçado perceber que certas situações são irreversíveis. Tenho convivido muito com a iminência da morte e isto não está me fazendo muito bem. Estou sozinho, semi-insone. E não sei se essa calmaria toda me alivia ou desespera.

sexta-feira, março 17, 2006

Sem Ana, Blues

...porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias...

A impressão que tenho é que nunca vai passar.
Que a cicatriz não fecha.
Que só de esbarrar, sangra.
Ainda me perco e só reencontro os velhos caminhos.
Mas (ou E), não vou. Nunca vou. Nem irei.

Porque o maior erro foi não sucumbir àquilo que considerava meu maior defeito...

...pela janela da sala do apartamento ainda é possível ver uns restos de dourado e vermelho por trás dos edifícios de Pinheiros...

segunda-feira, março 13, 2006

Slow motion

Sinto-me queimando em fogo brando. Sinto um leve formigamento de extremidades, após uma longa anestesia. Vejo pequenos fachos de luz, um fundo branco, alguns vultos que não distinguo.

Isto é, estou voltando. Ficando pronto. O que não implica, necessariamente, que eu esteja 100%.

Estou numa espécie de vácuo. Aquela letargia nos primeiros minutos em que acordamos. Um descompasso entre cérebro - coração - braços - todo resto. Porque preciso de toda atenção que possuo para não agir errado. Porque cada coisa exigirá uma ação diferente: mais racionalismo ou mais emotividade ou maior compreensão ou ligar o foda-se de uma vez. E isto é difícil.

Vou em slow motion, porque me ensinaram que quem vai devagar também vai longe.

E tudo se encaixa, ao mesmo tempo, por incrível que pareça. Por isso, não notem a minha aparente lentidão. Estou me movimentando. Acredite.

terça-feira, março 07, 2006

"If you can't fix it you've got to stand it"
(Annie Proulx)

Fato.

sábado, março 04, 2006

O prenuncio do fim

Estou de ressaca, um pouco cansado. Mas com a consciência aberta como nunca, raciocinando sobre a vida de uma forma que nunca fiz antes.

Sim, 2006 será um ano de revoluções. Nestes primeiros dois meses, as situações foram colocadas de forma que eu escolhesse: a fuga ou o enfrentamento.

Mas fugir, renunciar, tangenciar deixou de ser uma opção válida. Falta vontade, falta ânimo, falta saco. Portanto, preparo-me para as longas batalhas, vou armazenando víveres e escolhendo refúgios porque tudo indica que meu mundo será sacudido até as estruturas.

Quanto a mim, vou sem medo. Sempre acreditei que a verdade liberta, apesar de muitas vezes não ser do jeito que queremos. Ela dói e arde, ela desconstroi e varre tudo aquilo que não for bem enraizado - mas liberta. E meu objetivo primo nesta vida sempre foi a libertação, seja lá com que cara.

Pela primeira vez na vida, acho que estou pronto. Não completamente, mas de uma forma a suportar toda a tempestade que começa a aparecer na linha do horizonte...

terça-feira, fevereiro 28, 2006

# 1/2 - Uma coisa vaga chamada destino

"Vale o meu pranto que esse canto em solidão
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas"

(Casa Pré-Fabricada - Los Hermanos)

E esperei, ah, esperei. Sempre pelos cantos, sempre em silêncio, sempre aquela reprimida troca de olhares, sempre as palavras secas repletas de esperança que nunca poderia vir à tona. Até que você pulou e eu fui atrás. Sem medo, sem olhar para baixo. Até que nossas cordas se enroscaram, seu canto era o meu canto e a primavera quis entrar.

"Põe mais um na mesa de jantar
Por que hoje eu vou pra aí te ver"

(Além do que se vê - Los Hermanos)

E fui. Às escondidas, com o coração na boca - sem saber direito o que esperar. Fui porque tudo havia começado havia tanto tempo, fui porque nossos versos se encontravam desde o primeiro encontro, fui pela promessa de um bloco de Carnaval que sempre se organiza, mas nunca se liberta naquele grito de começo de festa. Apesar do medo, da insegurança, da ilusão talvez estourar como bolha de sabão. Mas fui.

"Quantas horas mais vão me bater até você chegar?"
(Fingi na hora rir - Los Hermanos)

E eu cheguei, com o pesar de esgotamento nervoso com coisas pequenas, um coração partido, uma porção de palavras ásperas trocadas e um tanto de verdades engolidas, como veneno, só para não ferir quem deveria. Você chegou na hora exata, como sempre. Com a mão leve para afagar, um presente na mão. Uma precisão de quem havia me lido como um profile no Orkut.

"Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
que a gente vai passar"

(Conversa de Botas Batidas - Los Hermanos)

E era realidade. E era bom permanecer ali, ainda que no completo silêncio, na escuridão da madrugada - só com o vago som das pás do ventilador que giram giram giram. Tudo ali era vago, inconcluso, quase irreal. Faltou o balde d'água fria para arrefecer os ânimos, faltou descobrir aquele defeito que tornaria a convivência imperfeita em poucos segundos, faltou esquecer a frase mais importante que tornaria a película um fracasso - ficou nós. No copo de cerveja daquele bar medonho, nas horas de atraso que impediriam um dia de piscina, nas flores partidas daquele filme, naquele gosto estranho de cogumelos. E foi ficando uma coisa devagar, um pouco brilhante, sem pressa pois não havia motivo. Era meio confete e serpentina numa cidade deserta, nublada, com pancadas de chuva e prenúncio de inundações. Ainda que torto e tão particular. Devagar de tanta vergonha de nós mesmos, do medo de errar, da preocupação com a perfeição. Carnaval.

"Veja bem, arranjei alguém
chamado saudade"

(Veja bem meu bem - Los Hermanos)

Mas ter saudade até que é bom.

sábado, fevereiro 25, 2006

21 anos

Dentro do turbilhão de sentimentos que 2006 se transformou, a palavra de ordem agora é paciência. Paciência para amar e ser amado, paciência para respeitar todas minhas limitações e as dos outros, paciência para não amar demais nem odiar demais, paciência para esperar tudo de bom se encaixar no devido tempo, paciência para não se arrepender precocemente, paciência para atingir o grau de sabedoria necessário, paciência até que a coragem chegue, paciência.

Este novo ano para mim chega sob outro signo. Sem toda a desarmonia e a desconstrução do peso excessivo. Este ano (tanto 2006 quando estes 21) nasceram com a promessa de grandes expectativas. Por isto, enquanto tudo não acontece, paciência, Gabriel. Paciência.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Hematológicas

Doenças hematológicas me fazem flutuar.

Glóbulos. Mielócitos. Macrocíticos. Anisocóricos. Sideroblástica. Megacariocítica. Proparoxítonas poéticas.

Imagens bolhosas, caoticamente belas, como flores perigosas.

De pensar, são trilhões de células novas todo dia que percorrem o corpo, passam pelos vasos até despencarem no coração, que nesta altura mais apanha que bate. E daí divago: são células macrocíticas e rubras, que de tão frágeis se rompem antes do tempo. São mielócitos metaplásicos, que proliferam, invadem, sufocam e matam.

Meu bem, as coisas foram um pouco assim - opostas, mas longe de serem mutuamante excludentes: do que era frágil, tivemos muito; do que asfixiava, muito tivemos. Suportei o quanto pude até que.

Não deu.

sábado, fevereiro 18, 2006

#1 - Cartas à Clara

"Acho que acaba sendo como o sol: há a hora de aparecer, brilhar, iluminar, aquecer. E há a hora em que o que costumávamos iluminar tem que ficar escuro, frio, até mesmo sombrio. Só que o 'normal' [que é normal afinal?] é que a maioria do tempo seja a primeira descrição, e a segunda por sua vez seja bem curta. Mas às vezes acontece de a segunda se prolongar por um tempinho a mais"
(Clara)

Engraçado que há umas duas semanas acordei de ressaca num sábado comum, desses que não apresentam nada em especial. Levantei da cama com dificuldade extrema (coisa tão habitual no meu dia a dia) e fui lavar o rosto. Quando juntei nas mãos um bocado d'água e me olhei no espelho, com o cabelo revolto e olheiras querendo colorir os olhos, veio a mente: "don't be afraid of the dark".

Isto sem motivos, sem aviso, sem qualquer fator desencadeante. A frase pulou de algum lugar do inconsciente praquele lugar da nossa mente que compreendemos. E fiquei pensando bastante nela na semana decorrente (antes da MI, que sugou grande parte dos meus esforços da semana passada).

Sabe, sempre acreditei que, para alcançar a luz, precisamos caminhar pela escuridão. Mesmo aquele comercial do Omo já diz, não há aprendizado sem manchas. Não acho que podemos chegar à felicidade incólomes - grande parte das nossas ações tem custo e administrar este custo que é o grande desafio. São escolhas difíceis que temos que fazer, temos que cortar na pele porque é necessário, temos que ceder muitas vezes naquilo em que somos mais fortes ou mais fracos

Por causa disso, aceito sem muito medo quando tenho que passar pelas minhas fases de eclipse. Pois sei que é passageiro, pois sei que é só um estágio rumo a algum lugar maior, pois não há coisa do mundo que seja eterno e imutável. Por mais longa que seja a noite, sempre tem o amanhecer. Por pior que seja a tempestade, tem sempre um solzinho no fim.

Portanto, não importa quão baixo eu entre no poço, sempre trago comigo duas frases: primeiro, de Caio Fernando no conto 'Os dragões não conhecem o paraíso' - Que seja doce. E esta minha.

Don't be afraid of the dark.

Adeus você

(hoje, as melhores palavras não são as minhas)

"Adeus você.
Eu hoje vou pro lado de lá.
Eu tou levando tudo de mim que é pra não ter razão pra chorar.
Vê se te alimenta e não pensa que eu fui por não te amar.

Cuida do teu pra que ninguém te jogue no chão.
Procure dividir-se em alguém, procure-me em qualquer confusão.
Levanta e te sustenta e não pensa que eu fui por não te amar"
(Adeus você - Los Hermanos)

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

"I've been feeling down
I've been looking round the town
For someone just like me"
(Family Tree - Belle and Sebastian)

... como se eu não merecesse este prenuncio de felicidade. Ela dói, ela sangra, dá vertigem e parece insustentável. Porque penso que talvez não a mereça, porque talvez eu ache que num bater de palmas toda a atmosfera irá desaparecer e me verei jogado novamente à velha rotina de livros de pontos ...

domingo, fevereiro 12, 2006

Blues

"Hold me close
'cause I'm the most and
Make a toast to you and me
See that's the way love's supposed to be
Not stressful..."
(Boo - Macy Gray)

Macy Gray deu o tom dessa semana tão atormentada e atribulada que passou. Macy Gray e sua voz arrastada, com todo encanto e calor que só a black music sabe ter. Que fala de amores intensos e difíceis, das solidões pungentes, da benção do encontro silencioso das epidermes.

"I still
Melt down like a candle burning everytime we touch"
(Still - Macy Gray)

Quanto a mim, não sei. Permaneço numa calma inesperada dentro do turbilhão de coisas que se formam em torno/dentro de mim. Conto até dez para evitar precipitações. E enquanto nada acontece, vou relendo os livros do armário, observando o pôr-do-sol, voltar para academia talvez. Sinto novamente o vento da subida e sei que em breve terei todo o vazio de vários metros de altura debaixo dos meus pés - e só espero que não me arrependa depois.

"All of your demons will wither away
Ecstasy comes and they cannot stay
You'll understand when you come my way
Coz all of my demons have withered away
I better give my heart a listen"
(Demons - Macy Gray & Fatboy Slim)

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Das negativas

Ultimamente não tenho visto muita gente. Tenho ido menos ao cinema, tenho conversado menos com as pessoas que amo, tenho tomado menos sorvete e menos Coca-cola trincando de gelada ali pelas três da tarde. E também tenho bebido menos cerveja & destilados, tenho saído menos, tenho comido menos churrasco e nem na churrascaria apareço mais. E também tenho dormido menos, apesar de nem o BBB estar assistindo, nem no MSN tenho queimado minhas preciosas pupilas, nem lendo clássicos (ou não tão clássicos assim), nem reescrevendo as velhas histórias que vagueiam por esta mente preguiçosa. Tenho acreditado menos nas pessoas próximas, nos outros, em mim mesmo. Nem o trabalho de MI comecei. Nem tenho pensado muito em alguma solução pirotécnica para todos os problemas do mundo, nem tenho tomado sol, nem tenho comido muito sal ou cometido algum delicioso pecado pelo qual me arrependeria mas só pelo puro prazer de Viver. Não tenho andado na chuva, nem de bicicleta, nem de pedalinho, nem de carro conversível. Nem tenho me movimentado muito.

E a supressão de tanta coisa nem desocupou espaço algum, nem consegui substituir por algo dinâmico, palpável, edificante. Nem ficou um vazio sangrante, daqueles bem hemorrágicos que pingam pingam pingam. Fica um velho gosto na boca, das coisas que poderiam estar sendo e não são, por tantas questões individuais. Mas até isto é vago, por falta de espaço. Ou por excesso de negativas.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Desespero 1

1)Tenho que recuperar nota em uma matéria obrigatória importantíssima. Tirei 3.8 na primeira prova
2)Não é a unica matéria que eu estou fodido
3)Tenho que fazer uma apostila didática. E isso é chato, chato.
4) Odeio o meu curso
5) Estou no vermelho. Cheque especial é uma entidade malígna.
6) falta 10 dias para cortarem o telefone.
7) Descobri num seminário de psicologia que eu sou extremamente neurótico e que minhas pulsões não são respeitadas.
8) Quero férias desesperadamente
9) Não sei o que fazer quando chegar o carnaval.
10) Eu sei que amanha será um dia insuportável!

Um dia passa.

domingo, janeiro 29, 2006

Pequenas dificuldades

Nunca gostei dos rins. Tão complexos e vitais. Tão singelos e temperamentais. Tão importantes quanto silenciosos.

A aula de patologia renal é terrível - são processos sutis e velozes. Potencialmente mortais. Todos crônico-degenerativos, sequelares, súbitos. Você pensa que eles podem estar acontecendo: ali com você, com sua mãe, com seu amigo.

Os tratamentos são pífios, porque o que está perdido não se recupera. Os medicamentos são mínimos. O prognóstico, a longo prazo, é sombrio.

Torcia para que isto nunca acontecesse com ninguém que amo. Nem rins, nem câncer, nada que provoque tanto sofrimento e angústia quanto as porcentagem inconclusivas da medicina. Mas aconteceu. Está acontecendo.

Daí, tudo centraliza em mim. Eu e minha enorme ignorância médica. Eu e minha vaga idéia sobre gravidade, prognósticos, dificuldades. Difícil é tomar o baque e fazer cara que está tudo sob controle. É difícil só falar em esperança quando se sabe por onde tudo pode terminar.

2006 está cheio de pequenas dificuldades. Daquelas espinhos de rosa, farpas mínimas que podem ser muito dolorosas.

Ignorância, tem hora, que é benção.