sábado, dezembro 10, 2005

2005.1 - Carta só para você

Hoje na Rodoviária, pensei em você como de costume. Talvez, não virar à esquerda e pegar o ônibus - se fossem outros tempos, andaria mais uns dois ou três quarteirões e seria à direita que eu escolheria. Tudo ainda recende sua presença: as ruas, as rádios, as novelas, os bares, até meu solitário apartamento.

É porque te amo. Tão estranho falar assim, porque nunca te disse isso enquanto estávamos juntos. Sim, ainda te amo, pura e sinceramente. Cantarolo umas duas vezes por dia que até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei, mesmo não encontrando mais. Mas é um amor diferente daquele que eu tinha. Te amo como amo um verão específico da minha infância, o Hotel Parthenon do Nestlé em São Paulo, o dia em que passei tão de susto no vestibular. Eu te amo como algo específico, encerrado no tempo. Algo que daquele jeito que era não tem volta, pois como dizem naquele ditado pseudo-zen-budista-brega, nunca atravessamos o mesmo rio duas vezes. Nem se colocássemos tudo o que vimos ou vivemos, todos os que nos cercavam, com as mesmas falas e movimentos, teríamos o mesmo arrebatador resultado final. Eu te amo tanto porque foi inesquecível, debaixo daquele tanto de estrelas, quando duas solidões complementares se complementaram e dois mundos por algum tempo correram paralelos, pegando um pouco de música, de sentimento, de vida e opinião e somando àquilo que já se existia.

Não considero que não errei em algum momento - talvez, se eu não tivesse ficado tão incomunicável, tão preso à dor, com o orgulho tão reforçado... Mas até foi melhor assim. Acho que, ao recuperar do abismo que eu mesmo me coloquei, serviu-me de lição para o resto da minha vida - e foi isso que contribuiu para que 2005 fosse um ano, no plano das realizações, tão pleno e satisfatório.

Hoje, ainda volto aos mesmos pontos. Ainda indago que eu quero saber a verdade e você se preocupa em não se machucar. Ainda escuto "Will you love me tomorrow" da Carole King, nossa música que você não chegou a conhecer, contemplativo. E sorrio, e saio para bares, e conheço outras pessoas, e refaço outros caminhos e assim a vida vai seguindo, viçosa e forte - irreversível e deliciosa de se viver.

Vou caiofernandiamente: com estas dores sofisticadas, esse sentimentalismo na ponta dos dedos, essa sinceridade pungente que me causa tantos problemas... E espero que você continue, também, bem.

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