quinta-feira, dezembro 29, 2005

Traição

Não é a traição que dói. É perceber que toda confiança, todo empenho e esforço foram, de certa forma, em vão. Pode ser um deslize passageiro, que só precisa de uma sintonia fina para regular no modus operandi normal - só que, infelizmente, neste processo sempre alguma coisa se perde e existe o grande risco de ser algo significativo. Pode ser uma resolução permanente - e daí só resta lamentar pelos caminhos que se escolheram e torcer que este caminho não seja tal qual julgo.

Neste ano, aprendi a perdoar (apesar de não ter colocado este minha nova "ação" efetivamente em prática). Mas aprendi, com maestria, a brincar de Pilates: lavar as mãos sem peso na consciência algum, pois cada um sabe cuidar da sua pele e não vou mais queimar noites de insônia tentando salvar alguém que não queria ser salvo.

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E para aproveitar, feliz Ano Novo para todos. Sempre achei Ano Novo tão mais lindo que Natal. E desculpem os silêncios, estou sem computador disponível e a situação só se regularizará em meados de janeiro...

sábado, dezembro 24, 2005

2005.3 - O que reserva

Limites testados, liberdade conquistada. Agora é o difícil. Os filmes edificantes sobre "luta pela liberdade" sempre terminam no momento em que ela é conseguida. Todo desenrolar posterior, essas difíceis decisões sobre ficar no espeto ou cair na brasa: ninguém avisa, ninguém ensina, ninguém aconselha. Ser livre é terrível - não sobra ninguém para culpar se algo dá errado a não ser você.

Sempre falo na metáfora da leveza e do peso (do Insustentável Leveza do Ser), pois acho ela uma das formas mais brilhantes de se enxergar O grande dilema da vida. A leveza é insustentável. Por isto não se pode voar muito alto, por isto que temos que ser ligeiramente pessimistas, deixar os sonhos de lado, entrar um pouco na rotina emburrecedora - tudo isto para contrapor a liberdade irresistível que estou sentindo, só para não ser balão demais e voar e voar e voar e perder irreversivelmente o chão.

Sim, estou irresistivelmente livre. Perigosamente livre. Entrarei em 2006 testando os meus limites, colocando tudo o que conquistei e construi em risco só porque conquistei, enfim, minha liberdade moral. Mas sei, como sei, todos os becos escuros que se mostram quando se escolhe a liberdade. Todas as intempéries de quem escolhe tentar o alto-mar, deixando a mornidão confortável da praia.

Quem quiser me acompanhar, que se sinta à vontade.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

2005.2 - O ano, propriamente dito

Nos últimos anos, pedi: um pouco de vida. Pedi algo além da irregularidade dos dias mornos, esta falta de aventura, este desperdício que é viver respirando, meio sem saber o por quê.

E, como numa benção, fui atendido.

Sim, 2005 foi um ano cheio de vida. E viver é muito perigoso. Ao escolhermos a Vida, estamos à mercê de todo tipo de coisa que ela pode nos oferecer. Foi um ano de altos e baixos, grandes alegrias e tristezas pungentes. Amei, fui amado. Traí e fui traído. Fui condenado e perdoado. Condenei e perdoei. Grandes sucessos e grandes fracassos.

Foi um ano de reencontros. Comigo, com a faculdade, com as pessoas que me cercam. De um afastamento inicial, para colocar ordem na grande zona que 2004 criou. E quando a bagunça estava arrumada, as reaproximações. Reforçando tudo aquilo que havia de forte e sincero. Só valorizamos na iminencia da perda - e forcei a quase-perda só para ver, tão material em minha frente, aquilo que era sólido e merecia ser cultivado.

Foi um ano de grandes vitórias. Sobreviver morando sozinho, a tranferência que só não se consumou por uma negligência estratégica, essa firmeza que minhas ações e falas tomaram. Essa coragem irresistível. Essa vontade de mudança que foi convertida em movimentos, em possibilidades, em pequenos riscos calculados.

Os amigos antigos, vão ficando igual vinhos: mais fortes e ao mesmo tempo, mais complexos. Os amigos novos vão virando antigos, vão conquistando confiança. Os amigos novíssimos, que se sintam à vontade de abrir a geladeira, sentar no sofá e trocar o canal. Esperem me encontrar da mesma forma, com as mesmas e habituais defesas - o grande desafio é driblá-las. E garanto que, para quem conseguir, a recompensa é grande.

Dos (dois) amores, tive as mais doces e dolorosas lições. Mas vieram, para iluminar um pouco estes quartos sombrios. Devagar, os sentimentos vão purificando e, com isso, fica-se o que havia de mais brilhante. Porque foram momentos brilhantes, que guardarei com todo carinho na minha gaveta de lembranças boas.

2006 promete ser difícil, em outros aspectos. Sinto que toda aquela confusão filosófica que sempre armou na minha cabeça foi resolvida. Sinto que os caminhos já foram escolhidos e delimitados e agora só falta colocar efetivamente tudo aquilo que planejei. Agora as questões são de ordem mais prática: a faculdade prenunciando o fim, as relações de amizade numa proximidade perigosa, os vários mundos concomitantes em que vivoem rota de colisão. Mas encaro todas as dificuldades com estímulo nunca visto, pois estou forte e sou forte e não existe obstáculo que não pode ser transposto.

Termino o ano mais realista, melhor, mais otimista. Repetindo as palavras do início do ano: "Talvez seja melhor permanecer, assim, nesse estado de felicidade simples, um otimismo verdadeiro, um desapego sincero, insone sem culpa, preguiçoso sem remédio, melancólico sem motivos, romântico inveterado". A todos que tiveram participação neste meu ano, meu sincero obrigado e o desejo que 2006 seja tão melhor que os outros anos.

E que chegue 2006!

sábado, dezembro 10, 2005

2005.1 - Carta só para você

Hoje na Rodoviária, pensei em você como de costume. Talvez, não virar à esquerda e pegar o ônibus - se fossem outros tempos, andaria mais uns dois ou três quarteirões e seria à direita que eu escolheria. Tudo ainda recende sua presença: as ruas, as rádios, as novelas, os bares, até meu solitário apartamento.

É porque te amo. Tão estranho falar assim, porque nunca te disse isso enquanto estávamos juntos. Sim, ainda te amo, pura e sinceramente. Cantarolo umas duas vezes por dia que até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei, mesmo não encontrando mais. Mas é um amor diferente daquele que eu tinha. Te amo como amo um verão específico da minha infância, o Hotel Parthenon do Nestlé em São Paulo, o dia em que passei tão de susto no vestibular. Eu te amo como algo específico, encerrado no tempo. Algo que daquele jeito que era não tem volta, pois como dizem naquele ditado pseudo-zen-budista-brega, nunca atravessamos o mesmo rio duas vezes. Nem se colocássemos tudo o que vimos ou vivemos, todos os que nos cercavam, com as mesmas falas e movimentos, teríamos o mesmo arrebatador resultado final. Eu te amo tanto porque foi inesquecível, debaixo daquele tanto de estrelas, quando duas solidões complementares se complementaram e dois mundos por algum tempo correram paralelos, pegando um pouco de música, de sentimento, de vida e opinião e somando àquilo que já se existia.

Não considero que não errei em algum momento - talvez, se eu não tivesse ficado tão incomunicável, tão preso à dor, com o orgulho tão reforçado... Mas até foi melhor assim. Acho que, ao recuperar do abismo que eu mesmo me coloquei, serviu-me de lição para o resto da minha vida - e foi isso que contribuiu para que 2005 fosse um ano, no plano das realizações, tão pleno e satisfatório.

Hoje, ainda volto aos mesmos pontos. Ainda indago que eu quero saber a verdade e você se preocupa em não se machucar. Ainda escuto "Will you love me tomorrow" da Carole King, nossa música que você não chegou a conhecer, contemplativo. E sorrio, e saio para bares, e conheço outras pessoas, e refaço outros caminhos e assim a vida vai seguindo, viçosa e forte - irreversível e deliciosa de se viver.

Vou caiofernandiamente: com estas dores sofisticadas, esse sentimentalismo na ponta dos dedos, essa sinceridade pungente que me causa tantos problemas... E espero que você continue, também, bem.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

observações pequenas sobre a ultima semana

Antes de anteontem eu sonhei que o apartamento onde moro aqui em Brasília desmoronava.

Tudo caia, despencava. Nada se salvou daquilo tudo que eu havia vivido nessa cidade. O fim do sonho: estava eu sozinho na cidade e era domingo e não ajudaria nenhuma das pessoas que estavam soterradas no predio que caiu por culpa de um soco que eu dei na parede. E ventava.

Tenho a mais absoluta certeza de que sonhei por que meu mundo por aqui está de fato caindo, aos poucos, e devido a minha covardia sei que provavelmente nao lutarei para que nada seja salvo, por mais que eu queira. Vou perder tudo que tenho por conta do meu medo e também por que eu não quero perder nada. Ou isto ou aquilo, dizia Cecília Meireles em um poeminha infantil, acho que desde que era criança eu nunca entendi o por que de não ser possivel isso e aquilo.

Talvez por repensar em tudo o que aconteceu e pode vir a acontecer eu chorei, e ri de desespero e chorei de novo e cantei bossas, cantei junto algumas musicas ao lado da voz rouca da billie, e desejei profundamente que um carro me atropelasse no eixo rodoviário.

Talvez tudo isso que estou pensando nessa ultima semana não seja nada. Quem além de mim mesmo poderei impedir minha auto-destruição? Ninguém poderá me ajudar, e fico angustiado e com vontade de gritar um som ancestral que possa fazer tudo ficar em paz por alguns segundos.

Enquanto isso, eu rezo en silêncio

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Bossa Nova

Lá fora chove. Torrencialmente. E eu queria tanto estar por lá. Pela chuva (vide 30/11/2004, nos arquivos).

Doeu, ah. E ainda dói. Nada que seja agudo ou intenso. Nada que seja um pouco além de um desconforto passageiro, ali naqueles segundos na escuridão do ônibus, ao escolher o bife do almoço, ao refletir distraidamente sobre as metas que não se cumpriram na cama, pela alta madrugada.

Mas dói, ah. E sangra, copiosamente. Por tudo aquilo que poderia ter sido. Se talvez eu não fosse tão orgulhoso. Se me contentasse com as fagulhas de luz, sem essa necessidade descaínte pela completude, pela intensidade. Talvez se não houvesse amor próprio, dificuldades, espaço para silêncio e solidões.

Que pecado esse de sentir tanto. Que vontade de chorar, de correr, repetir os caminhos repetindo as palavras e os erros e as incertezas e as esperas só para tentar no final do túnel tanta coisa tanta coisa tanta coisa iluminada a piscar igual estes pisca-piscas de Natal que encimam as janelas de classe média numa felicidade tão simples e ao mesmo tão complexa como essa dor que vem e volta e parece que não vai terminar nunca nunca nunca...