quinta-feira, novembro 17, 2005

Uma semana muito louca 2

"Desde que avançou a última fronteira, o que mais incomoda é a sensação difusa de flutuar no abismo"
(roubado discaradamente do Fonoflux)

... depois de ter o superego dissolvido igual um Cebion dentro de um copo d'água foram as mais diversas possíveis. Foi sim, a semana mais louca da minha vida. Mas talvez louca não seja a palavra correta - improvável, quem sabe. Daquela sinceridade infantil tão peculiar quanto constrangedora. Daquela tranparência tão irreal que custamos a acreditar que é verdade.

Não aconteceu nada de mais. Nada de grandioso ou epifânico. Só coloquei as engrenagens para rodar e apertei um belo foda-se. E não é que funcionar no modo foda-se, eventualmente, é libertador?

Sempre digo que, às vezes, é preciso caminhar pelas sombras para alcançar a Luz (naquele momento com música de clímax e final feliz). Pode ser o caminho mais curto, o mais longo, aquela que nunca chegará aonde queremos: tá escuro, não dá pra saber. Só que minha Clarice sempre dizia que "a salvação é pelo risco, sem a qual a vida não vale a pena". E quando o jogo se arrasta infinitamente neste zero a zero, grita o inconsciente inconseqüente, ligeiramente encharcado pelo etanol: por que não?

Como no bungee jump. Lá em cima, a quarenta metros de altura, quando é só você contra aquela solidão imensa do abismo. Seu instinto de auto-preservação fica gritando na sua cabeça que aquilo é uma insanidade. Que é uma queda fatal. Quem sabe onde ficou aquela corda? E você hesita. O vento bate. Você caminha. A coragem fica ali, naquele elevador, escorrendo pela corda até pingar no chão. Os pés se colocam à metade do abismo - diz o instrutor: é só se jogar. E se jogar não é difícil, a gravidade existe pra essas coisas. Mas e o abismo? E o que lhe espera? E se algo der errado, não tem volta.

O medo paralisa. Só que talvez seja bom. Talvez eu morra. Só que talvez nem doa. Sozinhos estamos todos, com vazio debaixo dos pés ou enquanto sentamos no bar, alegremente, fingindo que felicidade se compra como uma deliciosa Antarctica num dia de verão. Daí você cede. E daí, você cai. E depois, nem dá para explicar...

Por todos estes dias, fiquei com a impressão do primeiro passo dentro do abismo.

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