quarta-feira, novembro 02, 2005

Memento mori

Quase madrugada, noite encoberta, sono & fome. Primeira sala, disseram no PS. Essa é a senha que um politraumatizado chegou. Nunca havia visto um politraumatizado na minha frente. Nunca havia visto alguém dependurado pelo curto fio da vida. E aí eu vi. Era mulher, negra, obesa. Atropelamento, disseram.

Chegou parada. Batimentos zero. Ainda quente. Massagem cardíaca, disseca uma veia. Quatro médicos se movimentando freneticamente em torno dela.

Um calafrio me percorreu, pois era a primeira vez que estava encarando a Morte. Senti o chão fugir dos meus pés por alguns segundos. Depois, contorci as pupilas para observar os detalhes que ali se abriam. Tinha um olhar vidrado, semi-cerrado pelas pálpebras. A carne quente movia-se para cima e baixo, em movimentos ritmados por causa da massagem. O braço pende para esquerda, acompanhando o movimento do corpo. Uns gritos, uns sopros, correria generalizada.

Até que: nada. Uma simplicidade tão absurda quanto aterrorizante. Nem um batimento último, nem um suspiro além, nem uma última palavra. O silêncio percorreu a sala, foi ecoar em cada batimento que meu torto coração insistia, em cada respiração, em cada centímetro quadrado de pele quente.

Lembrei me Ingmar Bergman, em "O Sétimo Selo". O eterno jogo de xadrez. Pensei noutras milhares de tangentes só para abafar o fato.

Ela havia vencido.

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