sábado, novembro 26, 2005

E não é que..?

"I asked somebody: 'Could you send my letter away?'

'You are too young to put all of your hopes in just one envelope' "
(If she wants me - Belle and Sebastian)

O signo da morte

Hoje chovia, neblinava. O céu avermelhado mal conseguia indicar os caminhos. O campus estava anormalmente solitário e cada passo parecia ecoar nas paredes, nas árvores. Quase desesperei - e olha que conheço tão bem a inocuidade destes caminhos que nunca, ou quase nunca, tive medo.

Foi um dia regido sobre o símbolo da morte. Um acidente de carro de um conhecido estimado, colocando-o em coma com todas as incertezas que isso traz. Uma morte antiga, de uma ex-estudante da faculdade, que descobri num livro. Todos os capítulos de quem parte aos poucos, todas as horas do fim.

Não que tenha problema com estas coisas. Memento mori, como postei. Carpe diem, diziam os poetas. Mas o que pesa é essa solidão. O desperdício dos segundos com tantas coisas irrelevantes. Todos esses meandros para se chegar aonde se quer. A Urgência de viver.

Dói é essa preguiça de fazer alguma coisa relevante.

Dói é essa irresponsibilidade de viver a vida tão responsavelmente.

Dói é não abrir os caminhos na carne.

E acreditem: estou abrindo.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Sobre ser mau

Queria me permitir a ser mau eventualmente.

Queria me permitir a não ter piedade com quem, definitivamente, não merece.

Queria me condicionar a colocar Maquiavel na prática, só por alguns momentos.

Queria não ter consideração por quem não tem por mim.

Odeio ser tão cristão assim. Odeio não ter direito à articular vinganças & revanches.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Uma semana muito louca 2

"Desde que avançou a última fronteira, o que mais incomoda é a sensação difusa de flutuar no abismo"
(roubado discaradamente do Fonoflux)

... depois de ter o superego dissolvido igual um Cebion dentro de um copo d'água foram as mais diversas possíveis. Foi sim, a semana mais louca da minha vida. Mas talvez louca não seja a palavra correta - improvável, quem sabe. Daquela sinceridade infantil tão peculiar quanto constrangedora. Daquela tranparência tão irreal que custamos a acreditar que é verdade.

Não aconteceu nada de mais. Nada de grandioso ou epifânico. Só coloquei as engrenagens para rodar e apertei um belo foda-se. E não é que funcionar no modo foda-se, eventualmente, é libertador?

Sempre digo que, às vezes, é preciso caminhar pelas sombras para alcançar a Luz (naquele momento com música de clímax e final feliz). Pode ser o caminho mais curto, o mais longo, aquela que nunca chegará aonde queremos: tá escuro, não dá pra saber. Só que minha Clarice sempre dizia que "a salvação é pelo risco, sem a qual a vida não vale a pena". E quando o jogo se arrasta infinitamente neste zero a zero, grita o inconsciente inconseqüente, ligeiramente encharcado pelo etanol: por que não?

Como no bungee jump. Lá em cima, a quarenta metros de altura, quando é só você contra aquela solidão imensa do abismo. Seu instinto de auto-preservação fica gritando na sua cabeça que aquilo é uma insanidade. Que é uma queda fatal. Quem sabe onde ficou aquela corda? E você hesita. O vento bate. Você caminha. A coragem fica ali, naquele elevador, escorrendo pela corda até pingar no chão. Os pés se colocam à metade do abismo - diz o instrutor: é só se jogar. E se jogar não é difícil, a gravidade existe pra essas coisas. Mas e o abismo? E o que lhe espera? E se algo der errado, não tem volta.

O medo paralisa. Só que talvez seja bom. Talvez eu morra. Só que talvez nem doa. Sozinhos estamos todos, com vazio debaixo dos pés ou enquanto sentamos no bar, alegremente, fingindo que felicidade se compra como uma deliciosa Antarctica num dia de verão. Daí você cede. E daí, você cai. E depois, nem dá para explicar...

Por todos estes dias, fiquei com a impressão do primeiro passo dentro do abismo.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Uma semana muito louca

Quarta: cerveja de madrugada, no mercado 24 horas.
Quinta: cerveja com frango, na república.
Sexta: vodka, até amanhecer.
Sábado: cerveja, com samba da melhor qualidade.
Domingo: cerveja no café-da-manhã, antecedendo a feijoada.
Segunda: pinga, para ver amanhecer de novo.
Terça: nada, só pra retomar as energias.
Hoje: Deus sabe, só ele. Mas vai ter alguma coisa.

E as conseqüências disto...

terça-feira, novembro 08, 2005

High

"When I see you sky as a kite
As high as I might
I can't get that high
The how you move
The way you burst the clouds
It makes me want to try"

Eu estava apaixonado e acabou. Simples assim? Sim, acho que o amor é uma coisa simples, nas linhas gerais.

E enquanto vou sendo regido pelo signo do desamor, coisas acontecem. Ligeiras, fugazes. Possibilidades que sorriem na janela. E eu sorrio de volta, porque por mais nublado que as coisas estejam, sempre achei que sorrisos devessem ser retribuídos com sorrisos. Algumas taquicardias, pequenas decepções. Outras taquicardias. Desses retalhos, vou costurando uma recuperação. Franca, forte e duradoura.

Disto tudo, ficou a certeza de continuar movimentando: batendo a cara nas portas, boemias pela madrugada, caminhadas ensolaradas apesar do dia sujeito a pancadas de chuva pelo final da tarde. Voltou o otimismo. Potencializou a coragem e a confiança. E apesar da mornidão e falta de perspectivas - de todas as encruzilhadas que se armadilham enquanto caminho - dá a vontade de repetir de novo.

Encontrei esta música por acaso e me deu uma vontade louca que fosse para alguém. Dedicar ao telefone, sussurar no ouvido, cantar junto enquanto passeio inocentemente pelos cachos dos cabelos.

Ligar de madrugada para falar: lembrei de você.

Ou qualquer outra insanidade de quem ama e para todos os outros não faz o menor sentido...

"And when I see you
Take the same sweet steps
You used to take
I say I'll keep on holding you
My arms so tight
I'll never let you slip away"
(High - The Cure)

sexta-feira, novembro 04, 2005

Quando a ficha caiu no meio do banho

Não temo o que o futuro me reserva. Dei uns decisivos passos para aquilo que poderei chamar de carreira profissional. Enquanto a vida corre em stand by, percebo a cada dia em como somos desimportantes para a grande maioria das pessoas e, no final das contas, quem está contigo está contigo pro que der e vier. Desencontros e incompreensões são inerentes da natureza humana e tentar se privar disso é o mesmo que se castrar das melhores coisas que poderiam acontecer quando se escancaram as portas e janelas. Um dia é da caça, outro é do caçador. E por aí se vai, bambo e torto, mas se vai.

Só que, apesar de transitório, é o presente que está me preocupando. Águas que passarão não movem moinhos. Algo me diz que devo fazer algo que conserte minha vida para agora. Difícil é saber por onde começar...

quarta-feira, novembro 02, 2005

Memento mori

Quase madrugada, noite encoberta, sono & fome. Primeira sala, disseram no PS. Essa é a senha que um politraumatizado chegou. Nunca havia visto um politraumatizado na minha frente. Nunca havia visto alguém dependurado pelo curto fio da vida. E aí eu vi. Era mulher, negra, obesa. Atropelamento, disseram.

Chegou parada. Batimentos zero. Ainda quente. Massagem cardíaca, disseca uma veia. Quatro médicos se movimentando freneticamente em torno dela.

Um calafrio me percorreu, pois era a primeira vez que estava encarando a Morte. Senti o chão fugir dos meus pés por alguns segundos. Depois, contorci as pupilas para observar os detalhes que ali se abriam. Tinha um olhar vidrado, semi-cerrado pelas pálpebras. A carne quente movia-se para cima e baixo, em movimentos ritmados por causa da massagem. O braço pende para esquerda, acompanhando o movimento do corpo. Uns gritos, uns sopros, correria generalizada.

Até que: nada. Uma simplicidade tão absurda quanto aterrorizante. Nem um batimento último, nem um suspiro além, nem uma última palavra. O silêncio percorreu a sala, foi ecoar em cada batimento que meu torto coração insistia, em cada respiração, em cada centímetro quadrado de pele quente.

Lembrei me Ingmar Bergman, em "O Sétimo Selo". O eterno jogo de xadrez. Pensei noutras milhares de tangentes só para abafar o fato.

Ela havia vencido.