terça-feira, outubro 18, 2005

Nem foi tempo perdido...

"Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora."
(Caio Fernando Abreu)

Um mês e meio. Pouco mais, pouco menos. Se sentasse defronte à calculadora, saberia quanto tempo com exatidão: os dias, as horas, minutos e segundos. Um mês e meio, num piscar de olhos. Tanto tempo nas costas que uma eternidade se plantou por entre. Apagou os desenhos e os caminhos. Aqueles que restaram, acabei de dinamitar por mim mesmo - nada de imoralidades ou margem para retorno.

Doeu sim. Mas nada que fosse dividido eqüitativamente por cada segundo que se arrastou. Foi pungente nos primeiros segundos até o virar das semanas, depois um pouquinho de gosto amargo na boca por engolir um pouco de saliva que deveria ter sido cuspida para fora. O estranho é esse vácuo todo na hora de dormir - percebam que por causa disso o tema ainda está tão recorrente. Não que doa mais: só que na madrugada, alguma coisa ainda recende. Como brasa ao longe no último suspiro, nas últimas crepitações. Não arde, não dói. Acho que posso até brincar com as cinzas por entre os dedos, soprá-la e ver lentamente vê-la esvaecer com o vento.

Dobro outras esquinas, encontro outras ruas. Desafios novos em folha para serem enfrentados. Escolhas para serem feitas. E ainda sobra tempo para um café, à meia luz, enquanto a cidade passa ou dorme, enquanto fico inerte feito um jardineiro fiel, calculando quando retornarei cinematograficamente para aquele trem que corta a vida.

Um mês e meio. Talvez um pouco mais. Quem se importa agora?

Nenhum comentário: