quinta-feira, outubro 27, 2005

Fogo Fátuo

(ou anotações sobre um Grande Vazio)

Não sei, não dói. Não que eu perceba. Não que eu esteja na busca incessante e desesperada por algo que se perdeu. Nem que eu queira encontrar alguma coisa perdida dentro das brasas que subiram daquela fogueira. Não quero recuperar nada ou ninguém. Não quero refazer caminhos, não quero costurar acordos, iluminar becos, descrever os roteiros dos corpos, as chaves das portas, a terrível vertigem de quem olha para baixo. Não quero retomar projetos, recolher migalhas, nem faxinar o apartamento para encontrar todas as moedas de dez centavos que ficaram perdidas por aí. Não quero ser dotado do poder de vida ou morte, ou destilar palavras tão simples que tu desfalecerias quando elas viessem à tona. Não quero me preocupar com o futuro, nem inventar situações ou desculpas ou novos prazeres para.

Sou só negativas.

Tão estranho, nesse calor, tomando groselha quente com miojo e pensar no Grande Vazio. Imensurável. É desalento sem descambar para depressão. É movimento, sem transformar em Carnaval. É deixar a rotina levar, como um grande rio, com esperança de desembocar em algo tão maior. Sem energia alguma para manobrar o timão ou sequer olhar além da amurada.


Frank Sinatra
canta toda melancolia que me privo de sentir.

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