sexta-feira, outubro 14, 2005

Escrevendo

Estou escrevendo uma história, nada de mais. Deve fazer uns bons três ou quatro anos que ela me atormenta, vem em flashes, pequenos pedaços. Às vezes, num momento impróprio (como aula de faculdade) ou árido (como dirigir o carro, ali pelas quatro horas da tarde, sem companhia nem rádio) ou insone. De tanto pensar, decidi colocá-la em palavras, sem pretensão ou pressa.

Só não tinha noção que era uma tarefa tão difícil. Quando lemos, parece tão fácil encaixar as palavrinhas, enfileirando-as. Parece que elas sempre estiveram ali, nasceram para aquilo. Mal consigo passar do terceiro parágrafo sem entrar em parafuso: como colocar um casal discutindo, dentro de um carro em movimento, sem perder o foco ou o fio da meada? Como alternar descrição e ação e pensamento e mundo interior e exterior? Como transformar tantas idéias truncadas numa prosa tão límpida, para que quem leia pense que escrever tudo aquilo foi igual respirar, sem esforço algum?

Queria a capacidade de condução do leitor do Machado de Assis, o fluxo de consciência de Clarice Lispector, a pureza narrativa de Fernando Sabino ou Érico Veríssimo, o sarcasmo de Nick Hornby, os adjetivos e sentimentos do Caio Fernando Abreu. Tudo isto sem parecer colcha de retalhos nem plágio. Sei que quero demais, mas nunca me contentei com pouco.
O remédio é voltar a ler. Compulsivamente. Do clássico ao Harry Potter. Enquanto isso, vou pingando parágrafos e frases, corrigindo-as compulsivamente até que elas tomem sentido. E se avolumem. E que os personagens pulem do papel, venham tomar café-da-manhã comigo, persigam-me no cinema.

Acho que só irei ser feliz ali pela página cinquenta.

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